30 setembro 2019

Crítica: "Summer Survivors" (Isgyventi vasara)

 Com uma banda sonora que se ajusta na perfeição ao ambiente terno, doce, melancólico e dotado de uma mescla de humor e drama do enredo, "Summer Survivors" surge como um road movie dotado de imensa humanidade, pronto a aquecer o coração e a criar um elo entre o espectador e os protagonistas. Uma ligação formada num período muito curto da vida de Indre (Indre Patkauskaite), Paulius (Paulius Markevicius) e Juste (Gelmine Glemzaite), em particular, durante uma viagem de Vilnius em direcção a uma unidade psiquiátrica situada em Palanga. Tal como numa parte considerável das fitas do género, a jornada conta com uma série de episódios que permitem dar a conhecer estas figuras e as suas especificidades, fortalecer as suas dinâmicas e colocar em perspectiva os seus receios, inquietações e desejos. Temas relacionados com a depressão, o transtorno bipolar, o suicídio, a solidão e a incompreensão no que diz respeito às doenças psicológicas são abordados com delicadeza, quase sempre com este trio e os seus intérpretes em foco. Diga-se que a tríade conta em alguns momentos com a companhia de Danguole (Vilija Grigaityte), uma enfermeira cuja saída de cena proporciona alguns dos trechos de maior humor da fita.

Indre é uma psicóloga e investigadora que pretende estudar os comportamentos das pessoas que padecem de tendências suicidas. Os seus planos iniciais são colocados em stand-by quando Algis (Darius Meskauskas), um psiquiatra experiente e deveras peculiar, decide colocá-la a cuidar dos pacientes da clínica para onde a protagonista se dirigiu no início da película. A necessidade de transportar Paulius, um doente que padece de síndroma bipolar, para uma unidade médica em Palanga, bem como de conduzir Juste, uma jovem adulta que tentou cometer suicídio, a esse local, leva a que a investigadora seja incumbida de conduzir o carro que leva a dupla. A partilhar o nome próprio com a personagem principal, Indre Patkauskaite é convincente a espelhar o lado introspectivo e recheado de inseguranças da investigadora, bem como a afeição que esta desenvolve em relação a Paulius e Juste. Markevicius imprime um tom inicialmente pouco falador à sua personagem, até demonstrar as dúvidas que a inquietam e deixar o sentido de humor deste indivíduo aparecer. É um elemento dotado de complexidade, que tem consciência do monstro que o consome e tarda em largar, com o actor a exprimir com desenvoltura a mescla de pessimismo e optimismo que rodeia este homem. Note-se os seus diálogos galanteadores junto de Juste, pontuados por alguma espirituosidade, ou o momento mais intenso em que expõe o modo como os outros se começam a desinteressar gradualmente da sua doença e, consequentemente, da sua pessoa.

26 setembro 2019

Crítica: "L'heure de la sortie" (A Hora da Saída)

 Os raios de sol que perpassam pelos cenários e pelos corpos dos personagens de "L'heure de la sortie" (A Hora da Saída) são captados com enorme precisão pela fotografia de Romain Carcanade, bem como a presença das nuvens acinzentadas que cobrem o território e adensam o mistério e a sensação de intranquilidade em relação aos acontecimentos que rodeiam o enredo. Esse nervosismo é colocado em evidência desde os trechos iniciais da fita, em particular, quando observamos um professor de francês a atirar-se da janela de uma sala de aula, tendo em vista a cometer suicídio. O substituto é Pierre (Laurent Lafitte), um docente aparentemente descontraído, que se encontra a terminar uma tese sobre Kafka e se depara com uma turma do nono ano composta por alunos intelectualmente precoces. Destes estudantes destaca-se um sexteto que conta com planos muito particulares e parece carregar na alma o peso dos males do Mundo, com o grupo a captar rapidamente a atenção do protagonista e do espectador.

Existe quase sempre uma certa dose de mistério em redor dos adolescentes que permeiam o enredo de "L'heure de la sortie", com o realizador Sébastien Marnier a adensar essa incerteza ao criar toda uma atmosfera opressora e de alguma tensão em redor das dinâmicas entre o professor e os alunos. Essa opressão é sublinhada quer pelos acontecimentos, quer pela banda sonora de Zombie Zombie (marcada por sintetizadores e uma enorme disponibilidade para exponenciar o nervosismo) e o aproveitamento dos cenários. Note-se a sala de aula, pontuada por dimensões diminutas que propiciam um sentimento de clausura, uma sensação que é constantemente reforçada através de uma série de planos compostos com aprumo. O grupo que sobressai é liderado por Apolline (Luàna Bajrami) e Dimitri (Victor Bonnel), os delegados de turma, uma dupla de expressões sérias, preocupada com o ambiente, desiludida com os adultos e dotada de um enorme pessimismo em relação ao futuro. Os jovens intérpretes não poderiam estar melhor e a maturidade e o fatalismo que atribuem às suas personagens facilmente provocam impacto e inquietude.

25 setembro 2019

Crítica: "Rambo: Last Blood" (Rambo - A Última Batalha)

 Como controlar o riso? Este pode aparecer nas mais variadas situações, sejam estas de descontração ou opressão, de alegria ou tristeza. No caso de "Rambo: Last Blood" o riso pode surgir esporadicamente em ocasiões nas quais desfrutamos de mais informação do que os antagonistas, ou em episódios de alguma inquietação e nervosismo. O problema é que este também aparece devido a situações que resvalam para o exagero ao ponto de traírem a essência da saga e contribuírem para a fita cair no ridículo. A espaços parece que estamos diante das caricaturas de Rambo ao invés de ficarmos diante da complexidade desta personagem e daquilo que representa. Sim, continua atormentado pelo passado, em particular pela participação na Guerra do Vietname, é um representante das políticas governamentais que o criaram e abandonaram, permanece relativamente solitário e introspectivo. No entanto, essa densidade é esvaziada no interior de um banal filme de vingança que perde o seu pouco fulgor com o avançar do relógio. Quase tudo é sofrível e demasiado literal, sobretudo a partir do desenvolvimento, quando o argumento revela de vez todas as suas fragilidades e o realizador Adrian Grunberg deixa clarividente que não tem a habilidade de fazer muito com pouco. Ou seja, fica quase tudo "nas mãos" de Sylvester Stallone e no seu carisma.

Stallone volta a demonstrar a sua capacidade para atribuir profundidade à mais banal das falas e de captar a nossa atenção. A sua persona confunde-se com Rambo e Rocky, as duas personagens mais marcantes da sua carreira. O actor sabe disso e tem procurado manter vivas duas franquias que permanecem com alguma chama. No caso de "Rambo: Last Blood" esse fogo é demasiado fátuo, com a alma do filme a desencontrar-se constantemente do corpo. Essa alma é visível nas palavras finais da personagem, bem como no início da fita, quando aparece como um "cowboy" solitário, à chuva, com uma capa a fazer recordar um poncho, a tentar salvar vidas. Esta procura de salvar vidas e adormecer os traumas são maioritariamente esquecidos a partir da ocasião em que uma vingança é colocada em prática e os ecos de "Taken" e dos filmes de cerco são sentidos. Como aparece esse desejo de vingança? Recuemos um pouco. Nos momentos iniciais da fita, encontramos John Rambo a viver no interior da propriedade da sua família, tendo a companhia de Maria (Adriana Barraza), a sua empregada e amiga, bem como de Gabrielle (Yvette Monreal), a neta desta última. Em defesa de algumas das parcas virtudes do filme, importa salientar que ligação forte entre estas três personagens é estabelecida com alguma eficácia e concisão, com o protagonista a surgir praticamente como uma figura paterna para Gabrielle.

24 setembro 2019

Crítica: "Gisaengchung" ("Parasitas")

 Dotado de um humor negro assinalável e de uma capacidade notável para escancarar as hipocrisias da nossa sociedade, "Gisaengchung" (em Portugal, Parasitas, título que passamos a adoptar) enfia o espeto na indiferença enquanto efectua uma série de comentários de foro social, sempre com um enfoque no contacto entre os mais depauperados e aqueles que beneficiam das discrepâncias financeiras. A crise económica, a dicotomia entre ricos e pobres, o desemprego, a incapacidade do poder político em defender os direitos dos cidadãos e a indiferença em relação ao outro surgem nas linhas e entrelinhas de uma fita que teima em agarrar-nos pelos colarinhos e despertar o mais nervoso ou sincero dos sorrisos, ou uma inquietação que se apodera do nosso eu. Joon-ho Bong transporta-nos para o interior de um enredo onde a tensão está muitas das vezes latente e os enganos bastante presentes, sobretudo a partir da ocasião em que Ki-woo é convidado por um amigo para dar explicações de inglês a Da-hye (Jung Ji-so), algo que leva o jovem adulto para o interior da mansão dos Park (Sun-kyun Lee e Yeo-jeong Jo), um casal financeiramente abonado.

A pedido do realizador não podemos ou não devemos revelar mais elementos do enredo que envolvam os acontecimentos posteriores à chegada do jovem a esta casa. Percebemos as razões para todo esse secretismo. Os possíveis spoilers certamente diminuiriam a experiência do espectador que visiona o filme pela primeira vez. Nesse sentido, aquilo que podemos dizer é que as circunstâncias, algumas delas forçadas por Ki-woo e a sua família, levam à colocação de um plano em prática onde a perspicácia destes e a credulidade dos Park conduzem a algo que estimula o nosso desejo de perceber como Joon-ho Bong vai desatar o nó que atou com extrema precisão. O cineasta demonstra mais uma vez a sua perícia a reunir géneros distintos no interior das suas obras, mas também uma eficácia a dominar os ritmos da narrativa. Tudo ou quase tudo parece decorrer no ritmo certo, sejam as revelações, as reviravoltas ou o modo como os planos desta família depauperada são colocados em prática. Diga-se que o argumento da autoria do cineasta e de Jin Won Han dá uma enorme ajuda, para além de conceder material de sobra para o elenco sobressair.