13 março 2019

Crítica: "Sabrina" (1954)

 É doce. É mordaz. É elegante. É dramático. É romântico. É protagonizado por Audrey Hepburn, Humphrey Bogart e William Holden. É realizado por Billy Wilder. É simplesmente encantador. Falamos de "Sabrina", um romance pontuado por uma atmosfera semelhante a um conto de fadas, ainda que dotado dos habituais comentários acutilantes e mordazes de Billy Wilder sobre a sociedade dos EUA. Esse lado de conto de encantar é visível logo nos momentos iniciais, quando Sabrina Fairchild (Audrey Hepburn) apresenta em voiceover a mansão dos Larrabee e os membros desta família. O discurso da jovem começa com um "once upon a time", enquanto ficamos diante dos diversos espaços da casa, seja a piscina coberta e a descoberta, os campos de ténis e os luxos que povoam as várias divisórias, com o trabalho a nível da escolha e decoração dos cenários a permitir realçar a opulência financeira deste núcleo familiar. Quando os conhecemos, encontram-se imóveis, quase como se fossem figuras de um museu de cera, enquanto tiram um retrato que provavelmente irá transmitir uma falsa sensação de harmonia, embora esconda as personalidades e a alma de Oliver (Walter Hampden), Maude (Nella Walker), Linus (Humphrey Bogard) e David (William Holden). 

Oliver é um empresário vetusto, conservador, peculiar e extremamente endinheirado, que procura esconder de Maude, a sua esposa, que não deixou de fumar. O casal tem dois filhos, Linus e David. Linus é o mais velho, com Humphrey Bogart a inserir uma personalidade inicialmente pragmática, cínica, solitária e sarcástica ao personagem, um empresário que praticamente lidera os negócios da família. Já William Holden é exímio a expor o feitio extrovertido, irresponsável e mulherengo de David, um indivíduo que colecciona divórcios e conquistas. Sabrina é a filha do motorista desta família, Thomas Fairchild (John Williams), um indivíduo leal e conservador, que habita com o seu rebento no interior da mansão dos seus superiores. Esta sente uma paixoneta por David desde muito nova, indo ao ponto de observar os comportamentos deste com as mulheres, apesar do boémio estar longe de evidenciar qualquer tipo de interesse pela sua pessoa. "Don't reach for the moon, child" comenta Thomas junto da filha. A jovem parece disposta a desafiar o destino, embora também se desanime ao ponto de tentar cometer suicídio. Após uma tentativa falhada de terminar com a sua vida, Sabrina parte para Paris, tendo em vista a participar num curso de culinária. 

Tanto as cartas que esta envia ao pai como os trechos desta nas aulas mesclam humor e melancolia, enquanto o seu regresso desperta acima de tudo um certo fascínio. Quando retorna de Paris, Sabrina é o alvo de todas as atenções, inclusive de David, com a protagonista a aparecer com um visual e um guarda-roupa bem distinto. As roupas simples e práticas foram substituídas por vestimentas elegantes e modernas, enquanto o longo rabo de cavalo é trocado por um cabelo mais curto e arejado. O guarda-roupa de Edith Head (e não oficialmente de Hubert de Givenchy) permite realçar o quanto a personagem passou a valorizar as vestimentas e os conhecimentos que adquiriu em Paris, tal como os comportamentos que Audrey Hepburn atribui a esta jovem que surge mais decidida, ainda que sem perder as características sonhadoras e românticas. David fica encantado com Sabrina ao ponto de querer cancelar o noivado com Elizabeth Tyson (Martha Hyer), a filha de um magnata da cana do açúcar com quem Linus pretende efectuar uma parceria estratégica. O convite que este efectua para a protagonista participar numa festa da família desperta a alegria da jovem, embora provoque alguma apreensão junto daqueles que os rodeiam. Thomas teme pelo seu rebento, enquanto Linus receia ver um negócio de milhões ir por água abaixo, ao passo que Oliver não esconde algum preconceito em relação ao facto desta ser a filha do motorista.

"The papers and everybody else would've said how fine and democratic for a Larrabee to marry a chauffeur's daughter, but would they praise the chauffeur's daughter? No. Democracy can be a wickedly unfair thing, Sabrina. Nobody poor was ever called democratic for marrying somebody rich" comenta Thomas junto de Sabrina, naquele que é um dos vários diálogos em que ficamos diante da visão deste indivíduo sobre a hipocrisia da nossa sociedade e os contrastes sociais. Diga-se que não faltam comentários sobre as assimetrias sociais, o capitalismo, a fuga aos impostos, os jogos de aparências e o casamento ao longo da fita, com o argumento a não poupar na mordacidade e nas observações sobre a sociedade, embora contenha no seu interior uma faceta extremamente romântica. Em parte essa vertente encontra-se ligada à personagem do título, uma jovem que partilha adjectivação com a longa-metragem: doce, sensível, delicada, sonhadora, terna, apaixonada e apaixonante. Audrey Hepburn contribui e muito para estas características da personagem, com a actriz a incutir uma certa candura e imensa sensibilidade a Sabrina. Nada soa a falso, com o rosto, o olhar, o tom de voz e os gestos da intérprete a transmitirem sempre a sensação de que estamos perante uma protagonista extremamente doce e romântica, que nem sempre parece estar preparada para o cinismo do mundo que a rodeia. 

Esse cinismo é particularmente notório no plano de Linus para afastar Sabrina de David. Rapidamente entramos num dos triângulos amorosos das obras de Billy Wilder (basta recordarmos "A Foreign Affair", "The Apartment", entre outros), com o cineasta a aproveitar a química entre Humphrey Bogart e Audrey Hepburn para criar alguns episódios sublimes. Note-se quando encontramos Sabrina a cantar "La vie en rose" enquanto se encontra ao lado de Linus, com este a demonstrar o interesse pela primeira ao passo que ela evidência sentimentos conflitantes. Ou o trecho em que se reúnem no escritório de Linus, um momento que resume paradigmaticamente o filme: romântico, dramático, melancólico e dotado de alguns salpicos de cinismo. Se num determinado ponto da obra a câmara afasta-se temporariamente para exibir as várias placas das empresas dos Larrabee e sobe às alturas para expor a imponência do edifício onde estes laboram, já a partir de uma certa fase observamos a câmara a descer prédio abaixo, pronta a centrar as suas atenções a quem aparentemente não pertence a este espaço, mas capta as atenções de tudo e todos, nomeadamente, Sabrina. É um modo preciso e eficaz de expor a relevância que esta tem no enredo e o quão importante começou a ser na vida do personagem interpretado por Humphrey Bogart. 

Bogie foge um pouco aos duros detectives noir ou gangsters que muito o celebrizaram, com o intérprete a inserir uma certa vulnerabilidade a Linus, um personagem aparentemente frio, ao mesmo tempo em que demonstra mais uma vez o seu enorme carisma e beneficia das qualidades do argumento (inspirado na peça "Sabrina Fair"). Também William Holden beneficia do argumento de Billy Wilder, Ernest Lehman e Samuel A. Taylor (o autor da peça), com o actor a expressar a faceta inconsequente do seu personagem e a contar com dinâmicas muito convincentes com Audrey Hepburn. Billy Wilder consegue que o trio de protagonistas tenha dimensão, aproveita a química que existe entre os personagens principais, presenteia-nos com alguns diálogos marcantes e consegue mais uma vez mesclar com acerto o humor e o drama. A comédia está muito presente, seja através do humor de situação, ou físico, ou simplesmente non-sense. Observe-se o trecho em que um empregado dos Larrabee fica tão entusiasmado por David estar a dançar com Sabrina que logo entrega a bandeja a um dos convidados, ou o episódio em que o personagem interpretado por William Holden se esquece que tem dois copos nos bolsos. Temos ainda as já mencionadas cartas enviadas pela jovem sonhadora, muitas delas comentadas por outros colegas de Thomas, ou os murros que trazem consigo a certeza de sentimentos fortes. 

Os momentos de boa disposição aparecem incluídos harmoniosamente no interior do enredo, com Billy Wilder a saber reunir as diferentes peças no seio desta obra pontuada por uma atmosfera dotada de enorme romantismo. Esse pendor romântico é sublinhado imensas vezes pela banda sonora de Frederick Hollander, bem como pela elegante fotografia de Charles Lang. Note-se o já mencionado episódio em que a personagem do título canta "La vie en rose", com a iluminação, o destaque concedido ao rosto dos actores e a música a atribuírem todo um clima de aproximação entre Sabrina e Linus. "Sabrina" pode não conseguir alcançar a Lua, mas atinge o nosso coração com uma precisão invejável.  

Observação: Esta crítica é uma versão reformulada do texto publicado no blog a 15 de Outubro de 2012.

Título original: "Sabrina".
Realizador: Billy Wilder.
Argumento: Billy Wilder, Samuel A. Taylor e Ernest Lehman.
Elenco: Audrey Hepburn, Humphrey Bogart, William Holden, Walter Hampden, John Williams, Nella Walker.

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