21 março 2019

Crítica: "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" (2004)

 Quantas vezes desejámos apagar algum episódio negativo da nossa memória? Uma situação embaraçosa, uma relação menos positiva, a dor provocada pela morte de alguém próximo. Todas essas experiências contribuem para aquilo que somos e para aprendermos ou não com as mesmas. É uma aprendizagem dolorosa, mas imprescindível. No entanto, a espaços é praticamente impossível travar aquele desejo de nunca termos vivido determinado episódio ou de fazermos com que o mesmo deslize da nossa mente em direcção ao ocaso do esquecimento. "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" coloca-nos diante de uma realidade onde é possível apagar as recordações que temos de outras pessoas. Os utilizadores desta tecnologia são sobretudo casais desavindos que de forma mais ou menos ponderada recorrem aos serviços da Lacuna, Inc., uma clínica especializada neste tipo de operações, liderada pelo Dr. Mierzwiak (Tom Wilkison). É certo que apagar as recordações dos episódios vividos ao lado de outra pessoa não parece a decisão mais razoável, sobretudo quando tomada de ânimo leve, mas manter a razão em questões relacionadas com o amor é uma tarefa hercúlea que nem sempre é possível de concretizar.

Michel Gondry deixa-nos perante o nascer e o findar de uma relação e do renascer inesperado de sentimentos desvanecidos, enquanto passeia pelo interior da mente de Joel Barish (Jim Carrey), um indivíduo que procura reverter o processo de extinguir Clementine Kruczynski (Kate Winslet) da sua memória. Esta decidiu recorrer aos serviços da Lacuna, Inc. para apagar as recordações dos episódios que viveu com o protagonista. Ele desespera devido ao facto da namorada não o reconhecer, até descobrir que foi extinto da mente daquela que outrora foi a sua amada. Decide copiar o acto dela. No entanto, ao ser adormecido e colocado perante as memórias que pretende apagar, Joel não só é confrontado com os episódios finais da relação como com aqueles que marcaram o apogeu da mesma e o nascer do amor por Clementine. Apagar o que é mau é fácil, mas o que fazer quando chega a vez de eliminar os acontecimentos nos quais a felicidade prospera? Num registo mais contido do que em filmes como "The Mask" ou "The Grinch", Jim Carrey consegue transmitir de forma exímia a faceta introvertida e melancólica do seu personagem, bem como o amor que este sente pela antiga namorada e o ressentimento que explana em determinadas ocasiões da fita. Diga-se que o intérprete consegue ainda que constatemos o desespero que Joel começa a denotar a partir da ocasião em que se arrepende de ter dado a ordem para apagar Clementine e o esforço que este faz para a manter junto das suas recordações.

Kate Winslet é a impulsividade em pessoa como esta funcionária da Barnes & Noble que muda de cabelo consoante o estado de espírito e conta com uma personalidade fervilhante. O figurino e a caracterização contribuem e muito para realçar os traços destes personagens. Note-se as cores garridas e quentes das roupas de Clementine e a miríade de alterações que esta efectua no seu cabelo, ou as tonalidades discretas das vestimentas de Joel. A química notável entre Jim Carrey e Kate Winslet é outro dos factores que permitem que acreditemos em tudo o que é vivido pelos personagens. O quanto se magoam. O quanto se amam. O quanto despertam a nossa empatia. O quanto se revelam profundamente humanos. Durante essa viagem pela mente do protagonista, entramos pelas suas recordações mais recônditas ao mesmo tempo em que ele e a amada (ou a ideia que este tem dela) procuram salvar o que resta das memórias dos episódios que protagonizaram ao lado um do outro. Essa situação permite que Michel Gondry explane a força do argumento e do cuidado design de produção. Note-se o episódio em que encontramos os dois protagonistas no interior de uma casa, enquanto esta se desfaz ao ritmo do desvanecer das lembranças, com o cenário a acompanhar aquilo que é apagado do interior da mente de Joel, ou o trecho em que a dupla dialoga na livraria.

Na mencionada cena que decorre na Barnes & Noble, o cabelo vermelho de Clementine realça a postura franca e intensa da personagem, que faz questão de esclarecer o seu interlocutor e de expor a sua personalidade: "Too many guys think I'm a concept, or I complete them, or I'm gonna make them alive. But I'm just a fucked-up girl who's lookin' for my own peace of mind; don't assign me yours". Este logo comenta "I still thought you were gonna save my life... even after that", algo que sublinha a importância que ela começa a ter na sua vida. Kate Winslet e Jim Carrey imprimem sinceridade a esta troca de diálogos enquanto o cenário da livraria traz consigo toda uma carga acrescida. Na Barnes & Noble, Clementine e Joel estão rodeado de livros. Estes preservam a História e a memória. A cultura e a arte. Também eles podem ser apagados, mas não totalmente esquecidos. Tal como Joel e Clementine podem apagar as memórias um do outro, ainda que não consigam extinguir os sentimentos que nutrem e nutriram. Essa ligação das obras literárias aos protagonistas está longe de aparecer ao acaso. Observe-se o modo gradual como as primeiras começam a perder a cor das suas capas num processo que acompanha o apagar desta recordação da mente do personagem principal.

Nem sempre tomamos as decisões mais acertadas quando somos guiados pelos ímpetos do momento ou pela impulsividade. Joel percebe isso. Ele que no início do filme se descreve como uma pessoa pouco impulsiva. Na alvorada de "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" somos colocados diante deste a tomar precisamente o acto irreflectido de faltar ao trabalho e viajar até Montauk. O recurso ao voiceover é efectuado com conta, peso e medida para criar uma identificação entre o espectador e o protagonista, com Jim Carrey a deixar impresso todo um tom melancólico em redor das falas do seu personagem, ao mesmo tempo em que este parece buscar algo. No regresso a casa, no comboio, fala com Clementine. Travam conhecimento e apresentam uma química indesmentível. Estes pensam que estão a dialogar pela primeira vez. Também nós acreditamos que a dupla está a iniciar uma ligação. Pouco tempo depois, o enredo recua e percebemos que estes contam com um passado em comum. Um passado que apagaram, embora não tenham conseguido desfazer os sentimentos que nutriam um pelo outro.

Os cenários onde decorrem diversos episódios são marcados pela presença da neve e do frio. Curiosamente, ou talvez não, essa frieza contrasta e de que maneira com a forte chama que é emanada por Joel e Clementine. Em paralelo com a história deste casal, "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" apresenta-nos ainda a alguns elementos da Lacuna Inc, nomeadamente, ao seu proprietário, bem como a Patrick (Elijah Wood), Mary (Kirsten Dunst) e Stan (Mark Ruffalo). Este último trata do processo de apagar as memórias de Clementine da mente de Joel, embora pareça mais preocupado em divertir-se com Mary do que em conferir o decorrer do procedimento. Esta tem um fraquinho por Mierzwiak e por efectuar citações. Cabe a Elijah Wood ter o personagem que levanta mais questões do foro ético sobre a informação que é apagada e o descuido que existe no que diz respeito ao arquivamento da mesma. Veja-se como este utiliza a documentação que tem ao seu dispor para tentar seduzir Clementine. Diga-se que Joel consegue ouvir algumas das falas do funcionário da clínica sobre a personagem interpretada por Kate Winslet, algo que adensa a inquietação do protagonista e o sentido de urgência em volta do seu objectivo de evitar que determinadas recordações sejam apagadas.

Como já foi mencionado, esse mergulhar nas memórias permite que Barish avalie todos os acontecimentos a partir de uma nova perspectiva. Percebe que foi magoado, mas também que magoou. Chega ao momento da relação em que tudo o que parecia uma qualidade vira defeito, tal como também alcança a fase em que Clementine apareceu na sua vida como raios solares que iluminam a alma, o corpo e o coração. O argumento de Charlie Kaufman dota estes personagens de dimensão, explora com acerto os assuntos relacionados com a memória, o amor e as relações sentimentais, enquanto mescla com distinção elementos de romance, ficção-científica, drama e comédia. A banda sonora pauta o tom dotado de romantismo desta obra profundamente terna e humana, uma fita que aquece o coração e tem na sua dupla de protagonistas uma flecha que facilmente arrebata a nossa mente.

Observação: Esta crítica é uma nova versão do texto publicado no blog a 23 de Novembro de 2012.

Título original: "Eternal Sunshine of the Spotless Mind".
Título em Portugal: "O Despertar da Mente".
Realizador: Michel Gondry.
Argumento: Charlie Kaufman.
Elenco:
Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Tom Wilkinson, Mark Ruffalo, Elijah Wood.

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