01 março 2019

Crítica: "Black Moon" (1975)

 Dotado de um ambiente semelhante a um delírio onde a fantasia e a realidade se confundem e a razão convive com a alucinação, "Black Moon" surge como uma distopia surreal na qual a fuga a uma guerra entre homens e mulheres conduz uma jovem a embrenhar-se por uma propriedade onde protagoniza uma série de episódios peculiares. Pouco fala e ainda menos dialogam consigo. "Black Moon" é filme de poucas palavras, mas de imensos gestos, de imagens marcantes e de situações que despertam impacto. Nem sempre privilegia a coerência, nem pediríamos tal coisa a Louis Malle. O cineasta e a sua equipa criam algo peculiar, estranho, que facilmente prende e repele a atenção, enquanto nos envolvem para o interior de uma espaço onde uma família conta com um modo de vida deveras bizarro e a presença de um vasto leque de animais é sentida. Não faltam ovelhas, cobras, lagartas, porcos-espinho, águias, baratas, ratos, gatos e formigas, bem como um unicórnio que desperta a atenção de Lily (Cathryn Harrison), a protagonista, que logo tenta entrar em contacto com este ser que apresenta um aspecto menos imponente e deslumbrante do que aquele ao qual estamos habituados a encontrar nos contos e lendas.

Cathryn Harrison consegue transmitir quer a estupefacção da sua personagem perante a realidade que encontra no interior desta quinta, quer a curiosidade desta e alguma da sua impaciência. Os close-ups precisos permitem realçar o rosto da jovem e deixá-lo exteriorizar o que as palavras nem sempre deixam dizer, enquanto somos compelidos a partilhar as suas emoções e um certo sentimento de surpresa. Alguns animais comunicam com ela, bem como as flores. Por sua vez, os seres humanos deste espaço parecem conseguir explanar aquilo que têm a dizer através do tacto, de um simples gesto, ainda que tudo isto possa fazer parte da imaginação da nossa protagonista. Os acontecimentos sucedem-se a um ritmo considerável, prontos a deixar-nos fora de pé, instáveis, nervosos, um pouco à imagem do que acontece com Lily. Esta deveria ter percebido os maus augúrios desde o início. Atropela um texugo, esbarra com fuzilamentos, encontra um pastor enforcado. A juntar a tudo isto, o sol raramente empresta o seu calor ao espaço por onde Lily circula. São as nuvens quem aparecem com regularidade, cinzentas, disponíveis a reforçar um ambiente a espaços ominoso. A cinematografia realça essa falta de luminosidade exterior, tal como a hostilidade de alguns espaços por onde esta mulher de longos cabelos loiros e tez pálida caminha até chegar à quinta onde entra quer para procurar abrigo, quer por curiosidade.

É na propriedade que a protagonista se depara com uma idosa (Thérèse Giehse) que dialoga com um rato e se alimenta de leite oriundo de seios femininos, bem como com os irmãos Lily (Alexandra Stewart e Joe Dallesandro), uma dupla pouco palavrosa que mantém uma aura de mistério em seu redor. Neste lugar, a personagem principal é ainda colocada perante um grupo de crianças que brinca livremente, tal como diante dos vários animais já mencionados. Tudo é novidade para ela e para nós. Louis Malle sabe disso e procura potenciar esse efeito de surpresa. Consegue inquietar e assombrar, enquanto nos deixa diante de uma fita com laivos de "Alice in Wonderland". Pelo meio temos ecos da Guerra de Tróia, dos intermináveis conflitos entre homens e mulheres, ao mesmo tempo em que assistimos a um constante esbater da ténue linha que separa a razão da loucura. Será que a protagonista encontra-se a percepcionar tudo o que observa ou estará a ser enganada pela sua mente? "Black Moon" deixa essa hipótese entreaberta. Será que o som dos disparos que ecoam à distância são reais ou fruto da imaginação? O que é certo é que o design de som é usado com enorme eficácia ao longo do filme para exacerbar a inquietação e transmitir as especificidades dos locais que a protagonista percorre e os episódios que esta vive.

Os cenários interiores e exteriores são aproveitados com acerto ao serviço da criação de toda esta atmosfera onírica. Note-se a sala pontuada por cores vermelhas onde a protagonista toca piano, um grupo de crianças escuta a música, um rapaz e uma rapariga cantam e os irmãos Lily pintam os rostos e o corpo como se fossem guerreiros. A música remete para uma ópera, para uma tragédia, um pouco à imagem do destaque atribuído à cor vermelha, ligada à violência e ao fervilhar dos sentimentos, algo que permite antever um acontecimento mais intenso. Outro dos espaços primordiais é o quarto da idosa, onde a presença de um quadro é sentida e a sua proprietária apresenta comportamentos bizarros. Esta tanto exibe uma postura ríspida como alguma fragilidade, ainda que apareça como uma das poucas figuras que dialoga com a protagonista, uma jovem que se depara com um número avultado de situações peculiares. Estes episódios poderiam integrar um sonho, uma fantasia que surpreende, fascina e espanta, tal como "Black Moon", uma obra que se lança em direcção à toca do coelho e demonstra a versatilidade e a mestria do seu realizador.

Título original: "Black Moon".
Título em Portugal: "O Unicórnio".
Realizador: Louis Malle.
Argumento: Louis Malle e Joyce Buñuel.
Elenco: Cathryn Harrison, Thérèse Giehse, Alexandra Stewart, Joe Dallesandro.

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