31 março 2019

Crítica: "Le procès" (1962)

 Com um ambiente desconcertante, extremamente preciso a realçar a inquietação que percorre o corpo e a alma de Josef K. (Anthony Perkins), "Le procès" respeita a essência de "O Processo" de Franz Kafka, ou não estivéssemos perante uma fita onde a estranheza e o absurdo tomam a dianteira e um indivíduo é colocado perante uma teia burocrática e legal da qual parece praticamente impossível escapar. A contribuir para a construção dessa atmosfera próxima de um pesadelo encontram-se a cinematografia, o design de produção, o trabalho de som e a realização precisa de Orson Welles. O som dos ponteiros do relógio, do ribombar dos trovões ou de uma máquina de escrever ajudam a adensar a inquietação ou a ansiedade, enquanto a escolha de certos ângulos de câmara e o uso das grande angulares contribuem para todo um clima opressivo ou perturbador, ou para sublinhar os obstáculos que protagonista encontra em diversos trechos do filme. Note-se quando encontramos K. a observar o seu advogado (Orson Welles), quase como se fosse uma criança junto de um adulto, com a câmara, posicionada a partir de uma posição superior, a realçar a ascendência que o segundo tem inicialmente sobre o primeiro.

O cineasta começa a dar o mote para esta atmosfera logo no início do filme, nomeadamente, ao surgir como o narrador de serviço e a utilizar a sua voz imponente para salientar: "It has been said that the logic of this story is the logic of a dream. Of a nightmare". E um pesadelo é aquilo com que K. se depara a partir do momento em que é acordado por um inspector (Arnoldo Foà) que entra no interior do seu quarto. O que fazer quando se é incriminado de algo que se desconhece? Anthony Perkins transmite com perícia o desespero e a revolta que o seu K. sente ao ser acusado de um crime abstracto e enredado para o interior de um imbróglio onde a realidade pode ser mais estranha ou peculiar do que um sonho e os acontecimentos sucedem-se a uma velocidade surpreendente. O quarto do protagonista torna-se momentaneamente num espaço quase claustrofóbico, no qual tudo e todos podem entrar e as paredes e o tecto são realçados de modo a colocarem em evidência o estado de espírito do personagem e a faceta opressiva que o local adquire. Vale a pena reforçar que Orson Welles e a sua equipa não poupam na utilização de recursos e técnicas que reforçam a faceta kafkiana de "Le procès". Observe-se o uso expressionista da iluminação e do jogo de luz e sombras, com estas últimas a ganharem regularmente alguma preponderância e a agigantarem-se em diversas ocasiões. Esse destaque aos mantos negros que sublinham o mistério, o desassossego e a faceta quase surreal que rodeia uma miríade de acontecimentos é visível em diversos trechos da fita, tais como a fuga que K. efectua por um túnel, ou o momento delicado em que é agarrado em plena noite por dois algozes.

21 março 2019

Crítica: "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" (2004)

 Quantas vezes desejámos apagar algum episódio negativo da nossa memória? Uma situação embaraçosa, uma relação menos positiva, a dor provocada pela morte de alguém próximo. Todas essas experiências contribuem para aquilo que somos e para aprendermos ou não com as mesmas. É uma aprendizagem dolorosa, mas imprescindível. No entanto, a espaços é praticamente impossível travar aquele desejo de nunca termos vivido determinado episódio ou de fazermos com que o mesmo deslize da nossa mente em direcção ao ocaso do esquecimento. "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" coloca-nos diante de uma realidade onde é possível apagar as recordações que temos de outras pessoas. Os utilizadores desta tecnologia são sobretudo casais desavindos que de forma mais ou menos ponderada recorrem aos serviços da Lacuna, Inc., uma clínica especializada neste tipo de operações, liderada pelo Dr. Mierzwiak (Tom Wilkison). É certo que apagar as recordações dos episódios vividos ao lado de outra pessoa não parece a decisão mais razoável, sobretudo quando tomada de ânimo leve, mas manter a razão em questões relacionadas com o amor é uma tarefa hercúlea que nem sempre é possível de concretizar.

Michel Gondry deixa-nos perante o nascer e o findar de uma relação e do renascer inesperado de sentimentos desvanecidos, enquanto passeia pelo interior da mente de Joel Barish (Jim Carrey), um indivíduo que procura reverter o processo de extinguir Clementine Kruczynski (Kate Winslet) da sua memória. Esta decidiu recorrer aos serviços da Lacuna, Inc. para apagar as recordações dos episódios que viveu com o protagonista. Ele desespera devido ao facto da namorada não o reconhecer, até descobrir que foi extinto da mente daquela que outrora foi a sua amada. Decide copiar o acto dela. No entanto, ao ser adormecido e colocado perante as memórias que pretende apagar, Joel não só é confrontado com os episódios finais da relação como com aqueles que marcaram o apogeu da mesma e o nascer do amor por Clementine. Apagar o que é mau é fácil, mas o que fazer quando chega a vez de eliminar os acontecimentos nos quais a felicidade prospera? Num registo mais contido do que em filmes como "The Mask" ou "The Grinch", Jim Carrey consegue transmitir de forma exímia a faceta introvertida e melancólica do seu personagem, bem como o amor que este sente pela antiga namorada e o ressentimento que explana em determinadas ocasiões da fita. Diga-se que o intérprete consegue ainda que constatemos o desespero que Joel começa a denotar a partir da ocasião em que se arrepende de ter dado a ordem para apagar Clementine e o esforço que este faz para a manter junto das suas recordações.

13 março 2019

Crítica: "Sabrina" (1954)

 É doce. É mordaz. É elegante. É dramático. É romântico. É protagonizado por Audrey Hepburn, Humphrey Bogart e William Holden. É realizado por Billy Wilder. É simplesmente encantador. Falamos de "Sabrina", um romance pontuado por uma atmosfera semelhante a um conto de fadas, ainda que dotado dos habituais comentários acutilantes e mordazes de Billy Wilder sobre a sociedade dos EUA. Esse lado de conto de encantar é visível logo nos momentos iniciais, quando Sabrina Fairchild (Audrey Hepburn) apresenta em voiceover a mansão dos Larrabee e os membros desta família. O discurso da jovem começa com um "once upon a time", enquanto ficamos diante dos diversos espaços da casa, seja a piscina coberta e a descoberta, os campos de ténis e os luxos que povoam as várias divisórias, com o trabalho a nível da escolha e decoração dos cenários a permitir realçar a opulência financeira deste núcleo familiar. Quando os conhecemos, encontram-se imóveis, quase como se fossem figuras de um museu de cera, enquanto tiram um retrato que provavelmente irá transmitir uma falsa sensação de harmonia, embora esconda as personalidades e a alma de Oliver (Walter Hampden), Maude (Nella Walker), Linus (Humphrey Bogard) e David (William Holden). 

Oliver é um empresário vetusto, conservador, peculiar e extremamente endinheirado, que procura esconder de Maude, a sua esposa, que não deixou de fumar. O casal tem dois filhos, Linus e David. Linus é o mais velho, com Humphrey Bogart a inserir uma personalidade inicialmente pragmática, cínica, solitária e sarcástica ao personagem, um empresário que praticamente lidera os negócios da família. Já William Holden é exímio a expor o feitio extrovertido, irresponsável e mulherengo de David, um indivíduo que colecciona divórcios e conquistas. Sabrina é a filha do motorista desta família, Thomas Fairchild (John Williams), um indivíduo leal e conservador, que habita com o seu rebento no interior da mansão dos seus superiores. Esta sente uma paixoneta por David desde muito nova, indo ao ponto de observar os comportamentos deste com as mulheres, apesar do boémio estar longe de evidenciar qualquer tipo de interesse pela sua pessoa. "Don't reach for the moon, child" comenta Thomas junto da filha. A jovem parece disposta a desafiar o destino, embora também se desanime ao ponto de tentar cometer suicídio. Após uma tentativa falhada de terminar com a sua vida, Sabrina parte para Paris, tendo em vista a participar num curso de culinária. 

10 março 2019

Crítica: "On the Beach" (1959)

 "On the Beach" é um filme de actores, temas e mensagens, de personagens prontos a despertar empatia, dotado de enorme humanismo e de um romantismo contagiante. A sua cinematografia é quase sempre sóbria, elegante e capaz de deixar o destaque nos intérpretes, enquanto a banda sonora ajusta-se na perfeição a um tom que oscila entre o optimismo e o desalento. Estamos perante uma distopia de aromas melodramáticos, ou de um melodrama com traços de distopia, onde os efeitos nocivos das armas nucleares se fazem sentir e o aproximar da morte é combatido com os sentimentos mais quentes e a fuga à solidão. Esse calor advém também do carisma dos seus intérpretes. E que intérpretes tem "On the Beach". Ava Gardner, Gregory Peck, Fred Astaire, Anthony Perkins e Donna Anderson compõem o elenco e elevam o argumento, mesmo quando este segue caminhos mais óbvios ou procura não deixar espaço à imaginação. As figuras a quem estes dão vida sabem que a morte está a chegar. Uns entram em negação. Outros assumem uma postura mais fatalista ou pragmática. Todos procuram estar próximos daqueles que amam ou pura e simplesmente desafiar a solidão para um último combate que querem levar de vencida.

"The war started when people accepted the idiotic principle that peace could be maintained by arranging to defend themselves with weapons they couldn't possibly use without committing suicide" comenta Julian (Fred Astaire), um cientista, em determinado ponto do filme. É uma fala que resume um pouco o contexto que envolve os protagonistas, com estes a terem de lidar com as consequências nocivas do desfecho de um conflito bélico. A ameaça nuclear é um tema que permeia diversas distopias ou obras lançadas durante a Guerra Fria. "On the Beach" não é diferente. A chegada da radiação ameaça tudo e todos. Nos EUA a morte chegou a grande parte da população. Um dos sobreviventes encontrava-se no interior de um submarino, nomeadamente, o Capitão Dwight Towers (Gregory Peck), um indivíduo que perdeu a esposa e os dois filhos. No início do filme encontramos este militar e a sua tripulação a chegarem à Austrália no interior de um submarino. É um dos poucos países que ainda conta com vida humana, embora o aumento gradual da radiação faça com que tudo e todos percebam que a vinda da morte é uma questão de tempo. Todos sabemos que um dia vamos morrer. No caso dos personagens de "On the Beach" estes sabem que o ocaso da vida está a uma proximidade assustadora, algo que mexe com o quotidiano de cada um e com os planos que fazem para o futuro.

06 março 2019

Crítica: "Gräns" (Na Fronteira)

  Na sua segunda longa-metragem como realizador e argumentista, Ali Abbasi reúne com precisão elementos de fantasia, drama e investigação policial, enquanto se esgueira pelas fronteiras do realismo mágico, questiona o que é ser humano e aborda uma série de temáticas relacionadas com a identidade, o corpo, a sexualidade, a solidão e a dificuldade da nossa sociedade em aceitar a diferença. No centro de quase tudo está Tina, uma guarda fronteiriça. "Gräns" (em Portugal: "Na Fronteira") é quase todo seu e da sua intérprete. Eva Melander consegue realçar as dúvidas que apoquentam a sua personagem, a solidão que atravessa o seu olhar e a curiosidade que perpassa pelo seu ser, enquanto incute personalidade a esta mulher com características muito próprias. O seu olfacto é apurado ao ponto de conseguir sentir o medo, a vergonha e a culpa ou seja, algo que escapa ao nariz dos comuns mortais. A sua face apresenta características que fogem aos padrões de beleza da nossa sociedade. O seu quotidiano é marcado pela solidão e por uma sensação de deslocamento.

"Quando era criança, achava que era especial. Tinha todas essas ideias sobre mim mesma. Mas cresci e entendi que era apenas humana. Um humano feio e estranho, com um cromossoma defeituoso" expõe a guarda em determinado ponto de "Gräns". É uma afirmação que deixa em evidência algumas das suas inseguranças. Diga-se que estas não nasceram ao acaso, mas sim de múltiplas rejeições e do constante desprezo alheio. Note-se quando Tina é ignorada pelos vizinhos na entrada do hospital, após ter transportado os mesmos numa urgência, ou o comentário que um indivíduo efectua sobre a sua aparência, ou o modo frio como o namorado, Roland (Jörgen Thorsson), interage consigo. O combustível que alimenta esta relação não é o amor ou o desejo, mas sim a insegurança de Tina e o seu medo de estar sozinha. Observe-se a pouca intimidade de ambos durante o jantar ou a ver televisão, ou o desinteresse deste em treinar os seus rottweilers de forma a respeitarem a presença da guarda fronteiriça. A intercepção de um indivíduo que transporta um telemóvel que contém um cartão de memória com pornografia infantil é um dos momentos-chave para esta mulher, tal como a ocasião em que se depara com Vore (Eero Milonoff). Se o primeiro coloca a protagonista no interior de um caso de investigação a uma rede de pedofilia, já o segundo mexe com as emoções da guarda e intriga-a.

01 março 2019

Crítica: "Black Moon" (1975)

 Dotado de um ambiente semelhante a um delírio onde a fantasia e a realidade se confundem e a razão convive com a alucinação, "Black Moon" surge como uma distopia surreal na qual a fuga a uma guerra entre homens e mulheres conduz uma jovem a embrenhar-se por uma propriedade onde protagoniza uma série de episódios peculiares. Pouco fala e ainda menos dialogam consigo. "Black Moon" é filme de poucas palavras, mas de imensos gestos, de imagens marcantes e de situações que despertam impacto. Nem sempre privilegia a coerência, nem pediríamos tal coisa a Louis Malle. O cineasta e a sua equipa criam algo peculiar, estranho, que facilmente prende e repele a atenção, enquanto nos envolvem para o interior de uma espaço onde uma família conta com um modo de vida deveras bizarro e a presença de um vasto leque de animais é sentida. Não faltam ovelhas, cobras, lagartas, porcos-espinho, águias, baratas, ratos, gatos e formigas, bem como um unicórnio que desperta a atenção de Lily (Cathryn Harrison), a protagonista, que logo tenta entrar em contacto com este ser que apresenta um aspecto menos imponente e deslumbrante do que aquele ao qual estamos habituados a encontrar nos contos e lendas.

Cathryn Harrison consegue transmitir quer a estupefacção da sua personagem perante a realidade que encontra no interior desta quinta, quer a curiosidade desta e alguma da sua impaciência. Os close-ups precisos permitem realçar o rosto da jovem e deixá-lo exteriorizar o que as palavras nem sempre deixam dizer, enquanto somos compelidos a partilhar as suas emoções e um certo sentimento de surpresa. Alguns animais comunicam com ela, bem como as flores. Por sua vez, os seres humanos deste espaço parecem conseguir explanar aquilo que têm a dizer através do tacto, de um simples gesto, ainda que tudo isto possa fazer parte da imaginação da nossa protagonista. Os acontecimentos sucedem-se a um ritmo considerável, prontos a deixar-nos fora de pé, instáveis, nervosos, um pouco à imagem do que acontece com Lily. Esta deveria ter percebido os maus augúrios desde o início. Atropela um texugo, esbarra com fuzilamentos, encontra um pastor enforcado. A juntar a tudo isto, o sol raramente empresta o seu calor ao espaço por onde Lily circula. São as nuvens quem aparecem com regularidade, cinzentas, disponíveis a reforçar um ambiente a espaços ominoso. A cinematografia realça essa falta de luminosidade exterior, tal como a hostilidade de alguns espaços por onde esta mulher de longos cabelos loiros e tez pálida caminha até chegar à quinta onde entra quer para procurar abrigo, quer por curiosidade.