26 fevereiro 2019

Crítica: "A Clockwork Orange" (Laranja Mecânica)

 A câmara afasta-se num movimento de dolly out. Primeiro foca-se na face de Alex (Malcolm McDowell). Na sua malícia. No seu olhar pérfido. Na sua irreverência. Depois afasta-se. Exibe o corpo do protagonista e os membros do seu grupo, nomeadamente, Pete (Michael Tarn), Georgie (James Marcus) e Dim (Warren Clarke), a quem o primeiro chama de droogs. Explana a alma negra da leitaria Korova, o local onde o quarteto se encontra, um lugar recheado de manequins imóveis e desprovidos de vida. Tão desprovidos de vida como este quarteto é despojado de valores morais. Em compensação, ou descompensação, estão recheados de ódio e violência, de sentimentos maliciosos que libertam a cada noite onde provocam o caos e dilaceram a esperança. A apresentá-los encontra-se a câmara e o próprio Alex, o protagonista e narrador de serviço, mas também a paleta de cores e a música. As tonalidades brancas das vestes que o grupo utiliza remetem para uma pureza que estes não possuem, um contraste que é adensado pelo leite que consomem, um hábito quase inocente, ainda que o líquido esteja recheado de aditivos impulsionadores da violência. Os seus chapéus são negros, tal como o âmago de cada um, com o cuidado colocado na selecção do guarda-roupa e a atenção dedicada a determinadas tonalidades a serem exibidos em diversos momentos desta obra realizada por Stanley Kubrick.

O cineasta controla quase tudo. Domina a profundidade de campo com uma perícia notável. Os planos são construídos com uma meticulosidade evidente e dotados de uma simetria impossível de escapar mesmo ao olhar mais desatento. Os cenários seleccionados, decorados e expostos de modo a potenciar o ambiente que rodeia os acontecimentos que decorrem no seu interior. Observe-se o episódio que envolve o assalto de Alex ao spa de uma senhora rica (Miriam Karlin), conhecida por possuir imensos gatos. Inicialmente ficamos diante da apresentação de uma das salas, onde sobressaem diversos felinos que parecem obedecer pacientemente a Stanley Kubrick de modo a movimentarem-se apenas às suas ordens, algumas pinturas de pendor erótico, material para exercício físico, entre outros elementos que sublinham a personalidade deste espaço e da sua proprietária. Ao centro encontra-se a personagem interpretada por Miriam Karlin a fazer ginástica sobre um tapete vermelho e cinzento, até ser interrompida pela campainha. A tonalidade encarnada surge quase sempre associada ao perigo em "A Clockwork Orange". Neste caso não é diferente. É Alex quem toca. Espera atrair a atenção com um pedido de ajuda de forma a irromper com o bando pelo interior deste local e assim assaltar o mesmo e espalhar a capacidade de destruição de cada membro. Ela ainda exibe cautela, mas o criminoso consegue penetrar por este espaço.

Aquilo que se segue é uma espécie de bailado que precede um assassinato no qual a violência, a arte, a extravagância e a puerilidade se juntam, tal como a música de Gioachino Rossini e o modo meticuloso como Stanley Kubrick orquestra este episódio. De um momento para o outro a canção de Rossini deixa de atribuir humor negro ao episódio e potencia a violência, enquanto a câmara afasta temporariamente a sua brandura para deslizar aos ritmos dos sentimentos e deixar um desenho potenciar a imaginação do espectador. Diga-se que este não é o primeiro crime do grupo. Entre rixas com outros gangs, um assalto a uma casa ao qual se sucede uma violação ao som de "Singin' in the Rain", transgressões pela estrada e o espancamento de um idoso sem-abrigo, o bando de Alex comete uma série de actos hediondos pelo interior de uma Inglaterra futurista, distópica, onde a criminalidade é elevada e as frustrações juvenis são libertas com uma violência perigosa. Estas características são particularmente notórias quando observamos o personagem principal. Com um linguarejar muito próprio, fruto de utilizar a língua Nadsat (já presente no livro homónimo, no qual o argumento é inspirado), Alex tem em Malcolm McDowell um intérprete capaz de exibir o seu estranho carisma, os seus ímpetos violentos e a sua malícia quase infantil.

A admiração do protagonista por Ludwig van Beethoven é demonstrada em diversos trechos da fita, seja através do seu quarto ou das suas palavras, ou da própria banda sonora, ainda que esta conte pelo meio com uma série de canções de Gioachino Rossini que incutem estranhos tons de musical a diversos momentos ou pura e simplesmente contrastam com os mesmos ou imprimem pitadas de humor negro. No quarto de Alex encontramos ainda a presença de uma cobra, o seu animal de estimação, um réptil que sublinha a capacidade destruidora do protagonista, enquanto o aparelho de vinil, as enormes colunas e a miríade discos reforçam o seu gosto por música. Também gosta de transgredir a lei, com o argumento a aproveitar esta realidade alternativa para abordar temas relacionados com a delinquência juvenil, os bandos criminosos, a violência e a incapacidade dos políticos e da justiça em encontrarem meios que evitem este tipo de grupos e actos. Em determinado ponto do filme, Alex é detido. Pouco depois é integrado no tratamento Ludovico, que visa sujeitar o paciente a terapia de aversão. A claustrofobia e o pânico são exacerbados durante os trechos que envolvem os tratamentos, enquanto a ética que envolve estas práticas é colocada em causa quer por alguns personagens, quer pelo argumento. Será que é ético retirar a alguém o livre-arbítrio? A resposta óbvia parece ser não, embora também seja notório que as prisões apresentadas ao longo do filme são incapazes de reabilitarem uma boa fatia de criminosos.

 Stanley Kubrick levanta esse debate ao mesmo tempo em que aborda assuntos relacionados com a violência policial, o oportunismo político (tanto na direita como na esquerda), a psiquiatria, a religião e deixa-nos diante de um protagonista dotado de complexidade, que aos poucos se torna um joguete de quase todos os que o rodeiam. As suas palavras são escutadas de forma amiúde ao longo do filme, com a narração em off a ser utilizada eficazmente não só para explanar o ponto de vista do personagem principal, mas também para criar um vínculo entre este e o espectador, uma cumplicidade bizarra onde o fascínio e a repulsa formam uma perigosa aliança. Malcolm McDowell parece ter nascido para interpretar este papel ao transmitir de modo sublime a malícia quase infantil do seu Alex, enquanto somos colocados perante a capacidade deste para criar o caos, algo exposto com enorme intensidade, algumas doses de humor negro e uma certa estilização por Stanley Kubrick. Note-se uma cena de sexo que decorre em flash-forward, pronta a exibir o hedonismo do protagonista e a rapidez com que este vive e sente tudo, ou um combate em câmara lenta em que a música e os gestos contribuem para a criação de uma atmosfera dotada de perversidade e brutalidade. A partir do momento em que coloca o nariz e as pestanas postiças, Alex disfarça o rosto e desnuda a alma, enquanto ficamos perante a negritude do seu ser, aquela que querem dominar, embora não consigam apagar. 

Os procedimentos a que o delinquente é sujeito no tratamento Ludovico assemelham-se praticamente a tortura, com estas práticas desumanas e o efeito das mesmas a conduzirem a que os médicos e os políticos estejam longe de serem expostos com simpatia. Veja-se o exemplo de Frederik (Anthony Sharp), o Ministro do Interior, o indivíduo responsável pelo incentivo ao programa, um político oportunista. Temos ainda o caso de Alexander (Patrick Magee), um escritor de esquerda que assume quer a faceta de vítima, quer a de algoz, sobretudo quando escuta uma canção reveladora. Como já foi mencionado, a música é uma componente fundamental do filme. Associa-se e dissocia-se dos acontecimentos, potencia a intensidade dos episódios e exibe a precisão de Stanley Kubrick a inserir a mesma em vários trechos. O cineasta cria uma obra dotada de violência, prende os nossos sentimentos, abre um debate sobre o livre-arbítrio, enquanto deixa Malcolm McDowell compor um daqueles papéis que não saem da memória. Também "A Clockwork Orange" tarda em abandonar a nossa mente. Acreditamos que dificilmente sairá dela, ou não estivéssemos perante uma fita intensa e provocadora, que quer e consegue provocar repulsa, fascínio, receio e inquietação, ou seja, mexer com os nossos sentidos e sentimentos.

Título original: "A Clockwork Orange".
Título em Portugal: "Laranja Mecânica".
Realizador: Stanley Kubrick.
Argumento: Stanley Kubrick.
Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Anthony Sharp, Michael Tarn, James Marcus, Warren Clarke.

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