01 novembro 2019

Crítica: "Road House" (1948)

 Com a perna alçada em cima da secretária, pé descalço, cartas a viajarem de uma mão para outra, uma atitude confiante e um cigarro aceso à espera de ser tragado, Lily Stevens provoca impacto desde os trechos iniciais de "Road House", nomeadamente, quando chega ao clube nocturno gerido por Pete Morgan (Cornel Wilde). A câmara bem enfatiza essa preponderância ao deslocar-se sorrateiramente até revelar o semblante desta artista provocadora, decidida e sedutora. Dotada de um olhar que é capaz de expressar uma quantidade assinalável de palavras e sentimentos, Ida Lupino transmite estas especificidades desta espécie de femme fatale e o seu charme. A face da intérprete está em realce em diversos momentos. O realizador Jean Negulesco e o director de fotografia Joseph LaShelle exacerbam o magnetismo emanado pelo rosto da actriz, enquanto esta demonstra por diversas vezes que a sua Lily não é uma donzela indefesa ou alguém que se submete aos homens. Essa situação é particularmente visível quando a encontramos a esbofetear Pete, um acto que reforça as suas intenções de não abandonar o local e contraria os anseios deste indivíduo. Este encara-a como uma despesa demasiado cara, como mais um dos devaneios de Jefty (Richard Widmark), o dono do local, um indivíduo que não consegue conter os impulsos.

É o personagem interpretado por Richard Widmark quem contrata Lily, por quem se apaixona, ainda que não seja correspondido. Inicialmente parece apenas ingénuo e impulsivo, embora o intérprete faça questão de deixar  latente que a postura mimada e obsessiva deste antigo militar pode contribuir para gerar imensos problemas. Widmark tem os seus melhores momentos a partir do desenvolvimento da fita, quando Jefty começa a expor o seu lado mais perigoso e manipulador, pronto a deixar que uma ferida aberta no coração tome conta da razão. Está longe de saber ouvir um não, ou de assumir uma postura pragmática, ao contrário de Pete, com quem tem uma relação de amizade desde os tempos em que serviram o exército durante a II Guerra Mundial. Se o dono do clube nocturno fica imediatamente interessado em Lily, já o gerente apresenta uma atitude diametralmente oposta. Existe uma tensão notória a rodear estas duas figuras, mas também uma atracção que se desenvolve através dessa irrisão. O olhar surpreendido que Pete apresenta quando observa pela primeira vez a artista a tocar piano e a cantar não engana. Está encantado. A luz que a ilumina também não deixa mentir ou esconder o quanto a protagonista é capaz de brilhar mais alto e irradiar um encanto que impossibilita qualquer tentativa de desviar o olhar.

24 outubro 2019

Crítica: "Il traditore" (O Traidor)

 O fumo serpenteia pelos cenários e pelos rostos durante os diálogos que Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino) e Giovanni Falcone (Fausto Russo Alesi) trocam durante uma série de interrogatórios, quase a trazer à memória os filmes noir e a sublinhar o ambiente de incerteza e mistério em volta do futuro destes dois personagens e do contexto que os rodeia. Uma indefinição que é acompanhada por uma ideia de fugacidade, com a morte a parecer pairar a cada momento da vida destes elementos, um pouco à imagem desta fumaça. É um recurso utilizado por diversas vezes pelo realizador Marco Bellocchio e o director de fotografia Vladan Radovic ao longo de "Il traditore", um filme inspirado na história de vida de Tommaso Buscetta, um "soldado raso" da Costa Nostra, em particular, do ramo da "velha máfia de Palermo". Pierfrancesco Favino consegue exprimir a complexidade desta figura, as suas contradições, os seus dilemas, o seu apego à família e o seu lado mulherengo, a sua inteligência e pragmatismo, bem como os seus receios, a sua coragem e o seu carisma, com o intérprete a ter aqui um daqueles papéis que deixam marca quer no currículo, quer no espectador.

Favino tem mérito, mas bem pode agradecer a Marco Bellocchio. Não só pelo argumento, mas também por dar tempo para os personagens "respirarem". Observe-se os já mencionados encontros entre o mafioso e o juiz Giovanni Falcone, muito marcados por longas trocas de diálogos e um punhado de planos fechados que realçam as expressões dos rostos e os estados de alma. Diga-se que estes trechos permitem ainda dar a conhecer mais sobre os dois personagens, bem como conceder tempo para que se percebam melhor um ao outro e estabeleçam uma relação que tem espaço de sobra para crescer junto do espectador. Alguns dos traços do "chefe dos dois mundos" são expostos logo no início de "Il traditore", quando somos colocados perante a reunião de membros da "velha máfia de Palermo" e a "nova máfia corleonesa" no interior da mansão de Stefano Bontade (Goffredo Maria Bruno). A festa de Santa Rosália é o evento que decorre em pano de fundo, com os festejos e uma fotografia a não esconderem o mal-estar que contamina um período de aparente acalmia entre as facções rivais.

23 outubro 2019

Crítica: "Zombieland: Double Tap" (Zombieland: Tiro Duplo)

 Podem as partes valer mais do que o todo? "Zombieland: Double Tap" utiliza alguns dos ingredientes dos "road movies" e a busca que Tallahassee (Woody Harrelson), Columbus (Jesse Eisenberg) e Wichita (Emma Stone) efectuam para encontrarem Little Rock (Abigail Breslin), tendo em vista a colar uma série de episódios onde o humor domina e os zombies surgem em quantidade assinalável. Alguns desses fragmentos resultam em momentos dignos de atenção. Outros perdem-nos pelo cansaço e pela insipidez. No entanto, o argumento raramente apresenta consistência como um todo. A busca pela personagem interpretada por Abigail Breslin não conta com um verdadeiro sentimento de urgência, os mortos-vivos parecem capazes de infectar ou petiscar quase tudo e todos com excepção do quarteto mencionado, embora muitos dos problemas da película sejam esbatidos graças à química entre os intérpretes e a uma hábil construção de diversos gags ou a um ou outro trecho dotado de inspiração. Tal como no primeiro filme, uma música dos Metallica abre as hostes, enquanto assistimos aos quatro elementos a eliminarem os inimigos. Pouco depois, dirigem-se para a Casa Branca, um palco que permite adensar a peculiaridade que permeia as dinâmicas desta espécie de família disfuncional. A relação de Columbus e Wichita atravessa uma fase delicada. Little Rock quer mais liberdade e conhecer pessoas da sua idade. Tallahassee continua igual a si próprio, ou seja, tresloucado e espalhafatoso.

Uma parte considerável dos intérpretes consegue manter vivo o nosso interesse nos personagens. Jesse Eisenberg a inserir um estilo nervoso, focado e sardónico ao seu Columbus, um elemento feito à sua medida. Emma Stone a incutir uma postura dura e pragmática à sua Wichita. Woody Harrelson a ser... Woody Harrelson. A Abigail Breslin cabe contar com os fragmentos mais sensaborões. A juntar-se a estes elementos temos um número considerável de novos personagens, bem como um regresso para uma cena pós-créditos dotada de um tom picaresco (que, por si só, vale o preço do bilhete). Uma das estreantes que acompanha o trio formado por Tallahassee, Columbus e Wichita é Madison (Zoey Deutch), uma loira pouco inteligente e fútil que se envolve com o segundo e apresenta uma enorme habilidade para irritar o primeiro e a terceira. Zoey Deutch exibe alguma capacidade para aproveitar o potencial humorístico da personagem, ainda que aos poucos os comportamentos desta Paris Hilton de trazer por casa comecem a despertar mais cansaço e irritação do que risos. Quem tem pouco tempo de cena e, talvez por isso, não cansa são Luke Wilson e Thomas Middleditch como dois "duplos" dos elementos interpretados por Harrelson e Eisenberg. Já Avan Jogia é o elo mais fraco como Berkeley, um hippie que desperta a atenção de Little Rock. A falta de textura deste pacifista é notória, tal como a incapacidade dos envolvidos a estabelecer qualquer química entre Jogia e Breslin.

22 outubro 2019

10 anos de Rick's Cinema

Com mais paragens pelo meio do que a página do Facebook de Nuno Markl, o Rick's Cinema completa dez anos de existência. Uma duração que se justifica não só pelo amor ao cinema, mas também por uma incapacidade de deixar de escrever sobre filmes. Bem tento parar. Bem sei que a escrita consome demasiado tempo. Tempo esse que poderia utilizar a ver outras obras, a ler mais livros, ou a ter uma vida sociável mais activa. No entanto, existe sempre a sensação de que me falta algo quando não escrevo. Um vazio que não é preenchido com facilidade. Se estes dez anos permitiram adquirir o cinismo de saber que nunca irei ganhar um cêntimo com isto e de que as críticas nunca vão ficar como quero, também é certo que contribuíram para ter experiência suficiente para não dizer terminantemente que vou fechar o estaminé. É certo que o dia disto fechar já esteve mais longe. Mas, por enquanto, a sensação de paz interior que sinto durante o caos da construção de uma espécie de crítica faz com que o Rick's Cinema se mantenha. Isso e o gosto pelo cinema e por continuar a (re)descobrir filmes. Obrigado a quem tem acompanhado esta viagem.

Crítica: "A Rainy Day in New York" (Um Dia de Chuva em Nova Iorque)

 Em alguns casos não precisamos de saber antecipadamente a identidade do autor de uma obra para descobrirmos a mesma. Podemos errar, é certo. Mas em diversas situações o mais difícil é falhar. "A Rainy Day in New York" (Um Dia de Chuva em Nova Iorque) é um desses casos. Está escrito Woody Allen em cada fala, cenário, música ou tema, bem como na relação muito próxima do protagonista com a cidade de Nova Iorque. O trabalho de Vittorio Storaro na cinematografia realça precisamente as características deste espaço urbano, seja a luz que não esconde o cinzento de um dia chuvoso, ou a pluviosidade que traz consigo as contradições inerentes às relações humanas. Diga-se que Woody Allen e Vittorio Storaro, bem como a equipa responsável pelo guarda-roupa, parecem fazer de tudo para atribuir um toque de outro tempo e de classe a esta fita onde um casal que estuda na universidade de Yardley se prepara para protagonizar uma série de encontros e desencontros no interior da Big Apple. A partilhar os apelidos de Jay Gatsby e Orson Welles, Gatsby Welles (Timothée Chalamet) é um jovem adulto que não parece particularmente agradado com a faculdade, gosta de apostar, tem um talento notório para tocar piano e para contrariar as expectativas dos pais, um casal financeiramente abonado. O seu gosto está quase sempre centrado no mundo das artes e o seu coração bastante ligado a Ashleigh Enright (Elle Fanning), a namorada.

Elle Fanning imprime uma faceta algo ingénua e atrapalhada à sua Ashleigh, uma estudante universitária com uma inabilidade notória para utilizar referências cinematográficas e literárias. A oportunidade desta entrevistar Roland Pollard (Liev Schreiber), um realizador em crise, conduz o casal a passar um curto período de tempo em Manhattan. No entanto, os planos de ambos logo saem frustrados a partir da ocasião em que o cineasta convida a jovem a ver uma versão não finalizada do filme que se encontra a desenvolver. Aos poucos, Ashleigh é atirada para o interior de um turbilhão onde tudo e todos parecem querer envolver-se consigo, com Woody Allen a aproveitar a inocência e a curiosidade da universitária para deixá-la diante de situações intrincadas. Pelo meio, o cineasta aproveita reunir no interior de "A Rainy Day in New York" quer uma homenagem ao cinema e aos clássicos, quer uma sátira aos bastidores da Sétima Arte, um meio onde ninguém parece controlar os ímpetos diante de uma mulher. Diga-se que a mordacidade do cineasta é visível em diversos pontos da película, seja nos comentários relacionados com os preços do imobiliário no Soho, passando pela crise criativa de Pollard e a interacção entre várias figuras, até às falas sardónicas de Shannon (Selena Gomez), com quem Gatsby forma uma dinâmica na qual a irrisão parece ser o ingrediente secreto para a aproximação.

15 outubro 2019

Crítica: "Abominable" (Abominável)

 A candura e a leveza surgem como dois traços dominantes de "Abominable". Temas como o luto, as relações familiares, a amizade, a defesa dos animais e da natureza são abordados com um misto de sensibilidade e inocência ao longo desta obra de animação realizada por Jill Culton em colaboração com Todd Wilderman. A dupla não brilha, mas também não compromete. Sabe utilizar os lugares-comuns e abraçar a simplicidade, tal como consegue dominar os ritmos da comédia e atribuir dimensão humana a uma série de figuras que povoam esta fita recheada de elementos de road movie. Não falta um périplo em direcção aos Himalaias, humor, aventura, algum drama e diversos episódios que contribuem para unir alguns dos personagens e fazer com que estes amadureçam. Essa viagem resulta do encontro entre Yi e Everest. A primeira é uma adolescente solitária e independente, que perdeu recentemente o pai e colecciona uma miríade de trabalhos pontuais para reunir dinheiro tendo em vista a realizar um périplo perpectivado pelo progenitor. Yi pouco fala com a mãe e a avó, com quem vive, uma situação que preocupa as duas mulheres, sobretudo esta última, uma senhora com uma enorme predisposição para expor a sua opinião. O segundo é um Yeti, também conhecido como Abominável Homem das Neves, uma criatura que no início do filme consegue fugir do laboratório de Burnish, um milionário cínico e avarento que pretende provar que o personagem do título existe.

O que fazer quando se encontra uma criatura simultaneamente estranha e adorável? Yi forma uma ligação forte com a mesma, enquanto tenta escondê-la dos seus perseguidores. Entre os elementos que procuram capturar o Yeti estão o já mencionado Burnish, bem como uma equipa de resgate pouco perspicaz e a Dr. Zara, uma zoóloga. Esta procura proteger a integridade do Abominável Homem das Neves, embora esconda alguns planos que são facilmente perceptíveis. Diga-se que uma parte considerável das reviravoltas que ocorrem em "Abominable" são mais fáceis de adivinhar do que o vencedor de um possível duelo entre a Juventus e o Cova da Piedade, com o argumento a primar pela previsibilidade e pelo recurso a certos facilitismos que permitem resolver facilmente alguns problemas. Mas, regressemos à protagonista. É fulcral para o filme funcionar, com a sua independência e coragem a serem realçadas em diversos pontos, tal como a dor que ainda perpassa pela sua mente e a dificuldade que tem em comunicar com a família. Esta decide ajudar o "abominável" a regressar para junto dos familiares, no Evereste, tendo a companhia de Peng e Jin. O primeiro é um jovem baixinho, enérgico, anafado e bem-intencionado, que adora jogar basquetebol e aprecia a companhia de Yi, a sua vizinha. O segundo é o primo de Peng, um adolescente vaidoso, que vive para as redes sociais e é puxado para o interior de uma aventura que promete sujar os seus bebés, nomeadamente, os seus ténis novos.

08 outubro 2019

Crítica: "Dolor y gloria" (Dor e Glória)

 A tonalidade vermelha é utilizada de forma recorrente em "Dolor y gloria". Uma cor que realça o desejo, a tentação, a confusão e a inquietação, ou seja, elementos que constam em porções generosas no interior do ziguezaguear entre o presente e o passado que marca o enredo do terceiro capítulo desta trilogia informal iniciada em "La ley del deseo". A montagem atribui fluidez e pertinência a este constante vaivém entre o agora e o outrora, enquanto realça a recorrência de determinados motivos ou signos. A água é um desses elementos de ligação. Note-se quando encontramos Salvador (Antonio Banderas), na piscina, mergulhado por completo no interior da água. Uma cicatriz encontra-se em destaque no seu corpo, quase como uma ferida que se pode reabrir a qualquer momento, um pouco à imagem das recordações que povoam a mente deste cineasta em crise. Pouco depois, passamos para o passado, para o personagem principal durante a juventude (Asier Flores) a acompanhar a mãe (Penélope Cruz) e outras mulheres da aldeia, nomeadamente, quando estas lavam a roupa e expressam o desejo de nadarem nuas no rio. Diga-se que a água surge como um elemento de libertação ao longo da fita, seja da sujidade ou do desejo, ou das memórias cinéfilas do protagonista.

Antonio Banderas tem um trabalho de composição de personagem notável, ora através de expressões que dizem muito durante os silêncios e permitem transmitir a variedade de sentimentos que perpassa por esta figura, ora a incutir toda uma genuinidade e sinceridade às falas do realizador, ou a inserir pequenos gestos que revelam bastante sobre o mesmo. Note-se os trechos nos quais observamos Salvador a colocar uma almofada no chão antes de pousar os joelhos no solo, um simples acto que é inserido de modo subtil e permite reforçar o peso que o tempo tem no corpo deste homem. Esses efeitos provocados pelo avançar da idade são expostos com um misto de humor e drama. Veja-se a montagem com várias imagens anatómicas ou de exames acompanhada pelas falas do protagonista em voiceover a explicar o quanto o seu corpo aprendeu a conhecer a dor e as maleitas que o afectam. As dores nas costas são recorrentes, tal como as memórias que o fazem regressar à infância ou a outros tempos mais recentes mas igualmente marcantes na sua vida. Um regresso ao período em que vivia com Jacinta, a mãe, no interior de uma casa com parcas condições em Paterna, ou à educação religiosa com que contou, ou a um episódio onde o desejo tem um efeito arrebatador.

03 outubro 2019

Crítica: "Animus Animalis (a story about People, Animals and Things)"

 "Animus Animalis (a story about People, Animals and Things)" coloca-nos diante da vida e da morte, da realidade e da artificialidade, quase sempre a ter o seu subtítulo como mote. É um documentário que se embrenha pelo modo como as pessoas se relacionam com os animais e entre si, seja em actividades como a caça ou a cuidar de uma criatura ferida, ou a organizar uma exposição. Esses pontos de encontro e desencontro relacionados com a vida e a morte remetem em grande parte para a prática de taxidermia e para as figuras criadas pelos profissionais da área que povoam o documentário. Extremamente realistas, dotados de um olhar que tanto parece vazio como carregado de uma estranha atitude perscrutadora, estes bichos aparecem regularmente como um exemplo do perfeccionismo colocado pelos elementos envolvidos nestas práticas que tanto servem fins científicos como de exaltação de troféus de caça ou de recordação da memória de certas espécies. É uma prática que remete não só para um desafiar da morte e da decomposição dos corpos, mas também para o modo como o ser humano encara a finitude.

Sem recorrer à narração em off ou a "cabeças falantes", a realizadora Aiste Zegulyte apresenta-nos a caçadores, criadores de veados, taxidermistas e trabalhadores de um museu. Não ficamos a conhecer a personalidade de cada um destes elementos, nem esse parece ser o desejo da cineasta. O que ficamos a perceber é a dedicação de cada um ao seu ofício, seja a tratar de um animal ferido, ou a utilizar a pele de um réptil ou a criar os modelos para as figuras que elaboram com rigor. No museu, encontramos alguns destes animais em exposição, no interior de um ambiente que visa dar a conhecer quer o aspecto das criaturas, quer o seu habitat. A artificialidade destes cenários é contrastada com o início do documentário, quando o design de som potencia um pouco o mistério e um certo ambiente onde o real e o ficcional se confundem, os diálogos escasseiam e a neve assume um papel preponderante. Quem também assume um papel preponderante são os animais. Os close-ups nos rostos destes modelos inanimados potenciam essa relevância e um estranho efeito, com Aiste Zegulyte a captar com algum acerto a misteriosa aura emanada pelas criaturas, quase como se estas conservassem um segredo que não podem revelar.

30 setembro 2019

Crítica: "Summer Survivors" (Isgyventi vasara)

 Com uma banda sonora que se ajusta na perfeição ao ambiente terno, doce, melancólico e dotado de uma mescla de humor e drama do enredo, "Summer Survivors" surge como um road movie dotado de imensa humanidade, pronto a aquecer o coração e a criar um elo entre o espectador e os protagonistas. Uma ligação formada num período muito curto da vida de Indre (Indre Patkauskaite), Paulius (Paulius Markevicius) e Juste (Gelmine Glemzaite), em particular, durante uma viagem de Vilnius em direcção a uma unidade psiquiátrica situada em Palanga. Tal como numa parte considerável das fitas do género, a jornada conta com uma série de episódios que permitem dar a conhecer estas figuras e as suas especificidades, fortalecer as suas dinâmicas e colocar em perspectiva os seus receios, inquietações e desejos. Temas relacionados com a depressão, o transtorno bipolar, o suicídio, a solidão e a incompreensão no que diz respeito às doenças psicológicas são abordados com delicadeza, quase sempre com este trio e os seus intérpretes em foco. Diga-se que a tríade conta em alguns momentos com a companhia de Danguole (Vilija Grigaityte), uma enfermeira cuja saída de cena proporciona alguns dos trechos de maior humor da fita.

Indre é uma psicóloga e investigadora que pretende estudar os comportamentos das pessoas que padecem de tendências suicidas. Os seus planos iniciais são colocados em stand-by quando Algis (Darius Meskauskas), um psiquiatra experiente e deveras peculiar, decide colocá-la a cuidar dos pacientes da clínica para onde a protagonista se dirigiu no início da película. A necessidade de transportar Paulius, um doente que padece de síndroma bipolar, para uma unidade médica em Palanga, bem como de conduzir Juste, uma jovem adulta que tentou cometer suicídio, a esse local, leva a que a investigadora seja incumbida de conduzir o carro que leva a dupla. A partilhar o nome próprio com a personagem principal, Indre Patkauskaite é convincente a espelhar o lado introspectivo e recheado de inseguranças da investigadora, bem como a afeição que esta desenvolve em relação a Paulius e Juste. Markevicius imprime um tom inicialmente pouco falador à sua personagem, até demonstrar as dúvidas que a inquietam e deixar o sentido de humor deste indivíduo aparecer. É um elemento dotado de complexidade, que tem consciência do monstro que o consome e tarda em largar, com o actor a exprimir com desenvoltura a mescla de pessimismo e optimismo que rodeia este homem. Note-se os seus diálogos galanteadores junto de Juste, pontuados por alguma espirituosidade, ou o momento mais intenso em que expõe o modo como os outros se começam a desinteressar gradualmente da sua doença e, consequentemente, da sua pessoa.

26 setembro 2019

Crítica: "L'heure de la sortie" (A Hora da Saída)

 Os raios de sol que perpassam pelos cenários e pelos corpos dos personagens de "L'heure de la sortie" (A Hora da Saída) são captados com enorme precisão pela fotografia de Romain Carcanade, bem como a presença das nuvens acinzentadas que cobrem o território e adensam o mistério e a sensação de intranquilidade em relação aos acontecimentos que rodeiam o enredo. Esse nervosismo é colocado em evidência desde os trechos iniciais da fita, em particular, quando observamos um professor de francês a atirar-se da janela de uma sala de aula, tendo em vista a cometer suicídio. O substituto é Pierre (Laurent Lafitte), um docente aparentemente descontraído, que se encontra a terminar uma tese sobre Kafka e se depara com uma turma do nono ano composta por alunos intelectualmente precoces. Destes estudantes destaca-se um sexteto que conta com planos muito particulares e parece carregar na alma o peso dos males do Mundo, com o grupo a captar rapidamente a atenção do protagonista e do espectador.

Existe quase sempre uma certa dose de mistério em redor dos adolescentes que permeiam o enredo de "L'heure de la sortie", com o realizador Sébastien Marnier a adensar essa incerteza ao criar toda uma atmosfera opressora e de alguma tensão em redor das dinâmicas entre o professor e os alunos. Essa opressão é sublinhada quer pelos acontecimentos, quer pela banda sonora de Zombie Zombie (marcada por sintetizadores e uma enorme disponibilidade para exponenciar o nervosismo) e o aproveitamento dos cenários. Note-se a sala de aula, pontuada por dimensões diminutas que propiciam um sentimento de clausura, uma sensação que é constantemente reforçada através de uma série de planos compostos com aprumo. O grupo que sobressai é liderado por Apolline (Luàna Bajrami) e Dimitri (Victor Bonnel), os delegados de turma, uma dupla de expressões sérias, preocupada com o ambiente, desiludida com os adultos e dotada de um enorme pessimismo em relação ao futuro. Os jovens intérpretes não poderiam estar melhor e a maturidade e o fatalismo que atribuem às suas personagens facilmente provocam impacto e inquietude.

25 setembro 2019

Crítica: "Rambo: Last Blood" (Rambo - A Última Batalha)

 Como controlar o riso? Este pode aparecer nas mais variadas situações, sejam estas de descontração ou opressão, de alegria ou tristeza. No caso de "Rambo: Last Blood" o riso pode surgir esporadicamente em ocasiões nas quais desfrutamos de mais informação do que os antagonistas, ou em episódios de alguma inquietação e nervosismo. O problema é que este também aparece devido a situações que resvalam para o exagero ao ponto de traírem a essência da saga e contribuírem para a fita cair no ridículo. A espaços parece que estamos diante das caricaturas de Rambo ao invés de ficarmos diante da complexidade desta personagem e daquilo que representa. Sim, continua atormentado pelo passado, em particular pela participação na Guerra do Vietname, é um representante das políticas governamentais que o criaram e abandonaram, permanece relativamente solitário e introspectivo. No entanto, essa densidade é esvaziada no interior de um banal filme de vingança que perde o seu pouco fulgor com o avançar do relógio. Quase tudo é sofrível e demasiado literal, sobretudo a partir do desenvolvimento, quando o argumento revela de vez todas as suas fragilidades e o realizador Adrian Grunberg deixa clarividente que não tem a habilidade de fazer muito com pouco. Ou seja, fica quase tudo "nas mãos" de Sylvester Stallone e no seu carisma.

Stallone volta a demonstrar a sua capacidade para atribuir profundidade à mais banal das falas e de captar a nossa atenção. A sua persona confunde-se com Rambo e Rocky, as duas personagens mais marcantes da sua carreira. O actor sabe disso e tem procurado manter vivas duas franquias que permanecem com alguma chama. No caso de "Rambo: Last Blood" esse fogo é demasiado fátuo, com a alma do filme a desencontrar-se constantemente do corpo. Essa alma é visível nas palavras finais da personagem, bem como no início da fita, quando aparece como um "cowboy" solitário, à chuva, com uma capa a fazer recordar um poncho, a tentar salvar vidas. Esta procura de salvar vidas e adormecer os traumas são maioritariamente esquecidos a partir da ocasião em que uma vingança é colocada em prática e os ecos de "Taken" e dos filmes de cerco são sentidos. Como aparece esse desejo de vingança? Recuemos um pouco. Nos momentos iniciais da fita, encontramos John Rambo a viver no interior da propriedade da sua família, tendo a companhia de Maria (Adriana Barraza), a sua empregada e amiga, bem como de Gabrielle (Yvette Monreal), a neta desta última. Em defesa de algumas das parcas virtudes do filme, importa salientar que ligação forte entre estas três personagens é estabelecida com alguma eficácia e concisão, com o protagonista a surgir praticamente como uma figura paterna para Gabrielle.

24 setembro 2019

Crítica: "Gisaengchung" ("Parasitas")

 Dotado de um humor negro assinalável e de uma capacidade notável para escancarar as hipocrisias da nossa sociedade, "Gisaengchung" (em Portugal, Parasitas, título que passamos a adoptar) enfia o espeto na indiferença enquanto efectua uma série de comentários de foro social, sempre com um enfoque no contacto entre os mais depauperados e aqueles que beneficiam das discrepâncias financeiras. A crise económica, a dicotomia entre ricos e pobres, o desemprego, a incapacidade do poder político em defender os direitos dos cidadãos e a indiferença em relação ao outro surgem nas linhas e entrelinhas de uma fita que teima em agarrar-nos pelos colarinhos e despertar o mais nervoso ou sincero dos sorrisos, ou uma inquietação que se apodera do nosso eu. Joon-ho Bong transporta-nos para o interior de um enredo onde a tensão está muitas das vezes latente e os enganos bastante presentes, sobretudo a partir da ocasião em que Ki-woo é convidado por um amigo para dar explicações de inglês a Da-hye (Jung Ji-so), algo que leva o jovem adulto para o interior da mansão dos Park (Sun-kyun Lee e Yeo-jeong Jo), um casal financeiramente abonado.

A pedido do realizador não podemos ou não devemos revelar mais elementos do enredo que envolvam os acontecimentos posteriores à chegada do jovem a esta casa. Percebemos as razões para todo esse secretismo. Os possíveis spoilers certamente diminuiriam a experiência do espectador que visiona o filme pela primeira vez. Nesse sentido, aquilo que podemos dizer é que as circunstâncias, algumas delas forçadas por Ki-woo e a sua família, levam à colocação de um plano em prática onde a perspicácia destes e a credulidade dos Park conduzem a algo que estimula o nosso desejo de perceber como Joon-ho Bong vai desatar o nó que atou com extrema precisão. O cineasta demonstra mais uma vez a sua perícia a reunir géneros distintos no interior das suas obras, mas também uma eficácia a dominar os ritmos da narrativa. Tudo ou quase tudo parece decorrer no ritmo certo, sejam as revelações, as reviravoltas ou o modo como os planos desta família depauperada são colocados em prática. Diga-se que o argumento da autoria do cineasta e de Jin Won Han dá uma enorme ajuda, para além de conceder material de sobra para o elenco sobressair.

30 abril 2019

Crítica: "Ruben Brandt, Collector" (Ruben Brandt, Coleccionador)

 Estreia de Milorad Krstic na realização de longas-metragens de animação, "Ruben Brandt, Collector" envolve-se pelo interior dos traumas do personagem do título e pelas franjas dos filmes de assalto e policiais, sempre com um piscar de olho às mais variadas formas de arte e aos locais que as albergam. A pintura, a escultura, o cinema e a música fazem parte da essência desta fita. Note-se o visual dos personagens, inspirados na arte dadaísta e surrealista, ou a criatividade com que obras como "O Nascimento do Vénus", "Retrato de Renoir, 1867" e "Infanta Margarita" são transfiguradas e utilizadas no seio dos pesadelos que atormentam o protagonista. "A arte é a chave para os problemas da mente" menciona Ruben Brandt, um psicoterapeuta, junto de Mimi, uma das suas novas pacientes. É a arte que o desassossega, em particular, treze pinturas que marcaram a História e a sua infância. O que fazer para contornar um trauma que faz com que duvidemos da nossa sanidade? O personagem do título decide seguir um caminho deveras sinuoso, capaz de desafiar a razão, a lei e surpreender, nomeadamente, furtar essas obras e assim possuir os seus problemas para os conquistar. É o lema que utiliza e coloca em prática com a ajuda de Mimi, Bye-Bye Joe, Membrano Bruno e Fernando, quatro clientes com características muito particulares e uma habilidade para o furto que a espaços é travada pelas suas patologias e obsessões.

Membrano Bruno é um assaltante com duas dimensões e um apetite incontrolável. Fernando tem o vício de deixar a sua marca em todos os assaltos. Bye-Bye Joe tarda em travar a incapacidade de se remeter ao silêncio. Mimi é uma acrobata de corpo esguio e olhos expressivos, que padece de cleptomania e de uma enorme propensão para se envolver em confusões. Note-se logo nos primeiros momentos do filme, quando a encontramos a tentar escapar-se de Mike Kowalski, um detective privado, após ter roubado o "leque de Cleópatra". Diga-se que este trecho permite exibir desde logo o esforço de Milorad Krstic quer para incutir um ritmo dinâmico ao enredo, quer para incluir o maior número possível de referências no seio do mesmo. Não falta uma dança a remeter para "Pulp Fiction", um televisor onde "The Godfather" está a ser exibido, uma corrida pelas estradas inspirada nas mais variadas películas, entre outras citações que realçam esse dialogar de "Ruben Brandt, Collector" com a arte. Observe-se ainda a colecção de facas e navalhas de Mike Kowalski, que permite chegar a fitas tão distintas como "Knife in the Water", "Rambo" e "The Great Dictator", ou os cubos de gelo com o formato de Alfred Hitchcock, ou uma luta num espaço em que o jogo de luz e sombra traz à memória os filmes noir e do expressionismo alemão. 

19 abril 2019

Crítica: "Night of the Demon" (1957)

 Jacques Tourneur domina a arte de criar uma atmosfera de suspense em volta do enredo, de jogar com os receios dos personagens e da audiência, de utilizar o bailado entre luz e sombra para transmitir algo, de aproveitar o fumo dos cigarros para ritmar os momentos ou adensar uma sensação de fugacidade. Basta recordarmos exemplares como "Cat People" e "I Walk With a Zombie", duas produções de Val Lewton em que muito é sugerido e quase tudo é sentido. Em "Night of the Demon" o versátil cineasta regressou ao género de terror e mistério, onde já tinha atingido um sucesso considerável. Desta vez não esconde o demónio, como em "Cat People". A decisão controversa partiu do produtor Hal E. Chester, que foi contra a opinião quer do realizador, quer do argumentista Charles Bennett, uma medida que contribuiu para este último proferir a mítica frase: "If [Chester] walked up my driveway right now, I'd shoot him dead". Por vezes ficamos a imaginar o que teria sido a fita se não contasse com a exibição do monstro, em particular, se utilizasse a incerteza em volta da sua presença para potenciar o medo. No entanto, aquilo que temos de abordar é o que a película oferece. Se por um lado não temos o suspense em redor de sabermos se a criatura demoníaca existe, por outro é evidente que esta permite exacerbar o sentimento de perigo em redor do destino de John Holden (Dana Andrews), um psicólogo que durante uma parte considerável do enredo dispõe de menos informação do que o espectador.

Dana Andrews imprime uma postura confiante, dura, quase a roçar o cinismo dos detectives dos filmes noir ao seu John Holden. Colaborador de Jacques Tourneur em fitas como "Canyon Passage" e "The Fearmakers", o intérprete sobressai como este indivíduo que partiu dos EUA em direcção a Londres, tendo em vista a participar numa convenção para desmascarar o culto satânico liderado pelo Dr. Julian Karswell (Niall MacGinnis). No início do filme, encontramos o Professor Harrington (Maurice Denham) a contactar esta figura misteriosa para travar uma possível maldição. Promete recuar nas denúncias. Exibe um enorme nervosismo. Ou seja, apresenta uma postura típica de quem está a ver a sua vida a fugir e procura jogar a última cartada pela sobrevivência. Diga-se que a chegada de Harrington a casa de Julian é um exemplo paradigmático da capacidade de Jacques Tourneur e da sua equipa em criarem um ambiente tenso e misterioso. Os ritmos da banda sonora potenciam o nervosismo. A escuridão nocturna e a negritude das sombras sobressaem no meio do nevoeiro. As pinceladas de luz que irrompem dos faróis do carro do cientista iluminam temporariamente o caminho e o rosto eivado de expressões tensas deste indivíduo, enquanto reforçam o nervosismo. A entrada em cena do monstro traz consigo a morte e a exposição do aspecto da criatura. Não existe volta a dar. A partir daqui sabemos que a ameaça é real e a ambiguidade é deixada de lado. Em compensação, a inquietação em volta do que se sucede é potenciada.

10 abril 2019

Crítica: "The Comedy of Terrors" (1963)

 Por vezes um elenco principal recheado de nomes conhecidos, um realizador com talento e um argumentista com créditos firmados não chegam para elevar um filme. Potenciam as expectativas, mas podem provocar uma desilusão assinalável. Note-se os exemplos recentes de obras como "King Arthur: Legend of the Sword", "Serenity" ou "A Wrinkle in Time". "The Comedy of Terrors" não padece dessa maleita. Com um humor maioritariamente negro, pronto a jogar com os limites morais do espectador e a aproveitar os recursos de intérpretes como Peter Lorre, Vincent Price, Boris Karloff e Basil Rathbone, esta longa-metragem realizada por Jacques Tourneur transporta-nos para o interior de New Gilead, no final do Século XIX, em particular, para o interior das peripécias daqueles que gravitam em redor da falida agência funerária de Waldo Trumbull. Vincent Price é exímio a imprimir uma postura imoral, mordaz e misantropa a este indivíduo que tanto é capaz de despertar o nosso sorriso como a nossa apreensão. Note-se o gag recorrente de tentar envenenar Amos Hinchley (Boris Karloff), o seu sogro, ou a maneira fria e intolerável como trata Amaryllis (Joyce Jameson), a sua esposa. O argumento encontra o humor na desgraça, enquanto caminha por terrenos simples mas eficazes no estabelecimento destes personagens e das suas ligações, algo que permite dar espaço para o elenco libertar o seu carisma.

Peter Lorre insere uma faceta receosa e atrapalhada a Felix Gillie, um antigo ladrão de bancos que demonstra uma inépcia notória quer para construir caixões, quer para protagonizar assaltos. Este conta com um fraquinho por Amaryllis, uma mulher solitária cujo gosto pela cantoria é diametralmente oposto ao seu talento. Joyce Jameson faz com que acreditemos que a sua personagem desconhece o efeito devastador que a sua voz esganiçada provoca na maioria dos ouvintes, uma atitude que exacerba o humor em volta dos seus momentos musicais e a peculiaridade desta figura. Plantas murcham, tampas saltam de garrafas e a expressiva gata Cleopatra não sabe onde se esconder. Quem praticamente não a consegue ouvir é Amos, o antigo proprietário do espaço depauperado onde estes elementos vivem e habitam, um indivíduo praticamente surdo e fisicamente debilitado. Boris Karloff sobressai nos poucos trechos em que o seu personagem assume alguma preponderância, sobretudo no último terço, quando um pequeno frasco é finalmente utilizado e a tragédia é mais uma vez o ponto de partida para Jacques Tourneur encontrar a comédia. O cineasta recorre imenso ao humor slapstick para despertar o riso ou o sorriso do espectador. Observe-se as subidas de Felix a um telhado e as aparatosas descidas, ou a procura de dois personagens em manterem outro no interior de um caixão.

03 abril 2019

Crítica: "Beast" (Besta)

 Os contrastes estão na essência de "Beast". Na primeira longa-metragem realizada por Michael Pearce, o esperado e o inesperado encontram-se, as palavras abafadas podem mais tarde dar lugar a um grito furioso e desesperado, um dos personagens principais é simultaneamente o lobo mau, príncipe encantado e o caçador. O sol, o calor e a claridade facilmente concedem a vez ao cinzentismo, à chuva e ao frio. A quietude e a inquietude andam de mãos dadas. Os ingredientes de diferentes géneros são balanceados e misturados com arte. Temos romance, drama, suspense e terror. Os contos de fadas também chegam ao enredo, tal como algumas das suas convenções, eivadas de um negrume que perpassa pelos poros da fita e tem o seu ponto alto no desfecho. A perícia com que todos os elementos destes géneros e subgéneros são reunidos quase que nos compele a questionar se estamos mesmo perante um cineasta a fazer a sua estreia nas longas-metragens. Diga-se que o seu currículo confirma uma série de curtas, mas nada no formato longo, algo que dissipa as nossas elogiosas dúvidas. 

É certo que Michael Pearce é bem acompanhado pela sua equipa. O design de som e a banda sonora fazem com que facilmente deambulemos entre tons melodiosos ou apolíneos e sonoridades mais intensas e agressivas. A fotografia de Benjamin Kracun é outro dos pontos fortes, em particular, a capacidade desta aproveitar as características do território e da sua temperatura ao serviço do enredo. Observe-se as nuvens que cobrem o céu no momento em que Moll (Jessie Buckley) e Pascal (Johnny Flynn) deslocam-se para o carro, pouco tempo depois de terem travado conhecimento, algo que deixa antever possíveis tempestades, ou o modo eficaz com que a paisagem solarenga, a presença do mar e de diversas pessoas permanecem fora de foco, em segundo plano, para que o realce fique todo nos rostos dos membros do casal durante uma revelação que mexe com a relação e o enredo. A iluminação também é utilizada com acerto, seja a natural, aquela que provém do sol e aquece os sentimentos, ou a artificial. Note-se uma saída nocturna da protagonista à discoteca, com as luzes vermelhas a cobrirem o seu rosto e os seus sentimentos, uma tonalidade que realça o perigo, a inquietação e o estado emocional delicado da jovem.

31 março 2019

Crítica: "Le procès" (1962)

 Com um ambiente desconcertante, extremamente preciso a realçar a inquietação que percorre o corpo e a alma de Josef K. (Anthony Perkins), "Le procès" respeita a essência de "O Processo" de Franz Kafka, ou não estivéssemos perante uma fita onde a estranheza e o absurdo tomam a dianteira e um indivíduo é colocado perante uma teia burocrática e legal da qual parece praticamente impossível escapar. A contribuir para a construção dessa atmosfera próxima de um pesadelo encontram-se a cinematografia, o design de produção, o trabalho de som e a realização precisa de Orson Welles. O som dos ponteiros do relógio, do ribombar dos trovões ou de uma máquina de escrever ajudam a adensar a inquietação ou a ansiedade, enquanto a escolha de certos ângulos de câmara e o uso das grande angulares contribuem para todo um clima opressivo ou perturbador, ou para sublinhar os obstáculos que protagonista encontra em diversos trechos do filme. Note-se quando encontramos K. a observar o seu advogado (Orson Welles), quase como se fosse uma criança junto de um adulto, com a câmara, posicionada a partir de uma posição superior, a realçar a ascendência que o segundo tem inicialmente sobre o primeiro.

O cineasta começa a dar o mote para esta atmosfera logo no início do filme, nomeadamente, ao surgir como o narrador de serviço e a utilizar a sua voz imponente para salientar: "It has been said that the logic of this story is the logic of a dream. Of a nightmare". E um pesadelo é aquilo com que K. se depara a partir do momento em que é acordado por um inspector (Arnoldo Foà) que entra no interior do seu quarto. O que fazer quando se é incriminado de algo que se desconhece? Anthony Perkins transmite com perícia o desespero e a revolta que o seu K. sente ao ser acusado de um crime abstracto e enredado para o interior de um imbróglio onde a realidade pode ser mais estranha ou peculiar do que um sonho e os acontecimentos sucedem-se a uma velocidade surpreendente. O quarto do protagonista torna-se momentaneamente num espaço quase claustrofóbico, no qual tudo e todos podem entrar e as paredes e o tecto são realçados de modo a colocarem em evidência o estado de espírito do personagem e a faceta opressiva que o local adquire. Vale a pena reforçar que Orson Welles e a sua equipa não poupam na utilização de recursos e técnicas que reforçam a faceta kafkiana de "Le procès". Observe-se o uso expressionista da iluminação e do jogo de luz e sombras, com estas últimas a ganharem regularmente alguma preponderância e a agigantarem-se em diversas ocasiões. Esse destaque aos mantos negros que sublinham o mistério, o desassossego e a faceta quase surreal que rodeia uma miríade de acontecimentos é visível em diversos trechos da fita, tais como a fuga que K. efectua por um túnel, ou o momento delicado em que é agarrado em plena noite por dois algozes.

21 março 2019

Crítica: "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" (2004)

 Quantas vezes desejámos apagar algum episódio negativo da nossa memória? Uma situação embaraçosa, uma relação menos positiva, a dor provocada pela morte de alguém próximo. Todas essas experiências contribuem para aquilo que somos e para aprendermos ou não com as mesmas. É uma aprendizagem dolorosa, mas imprescindível. No entanto, a espaços é praticamente impossível travar aquele desejo de nunca termos vivido determinado episódio ou de fazermos com que o mesmo deslize da nossa mente em direcção ao ocaso do esquecimento. "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" coloca-nos diante de uma realidade onde é possível apagar as recordações que temos de outras pessoas. Os utilizadores desta tecnologia são sobretudo casais desavindos que de forma mais ou menos ponderada recorrem aos serviços da Lacuna, Inc., uma clínica especializada neste tipo de operações, liderada pelo Dr. Mierzwiak (Tom Wilkison). É certo que apagar as recordações dos episódios vividos ao lado de outra pessoa não parece a decisão mais razoável, sobretudo quando tomada de ânimo leve, mas manter a razão em questões relacionadas com o amor é uma tarefa hercúlea que nem sempre é possível de concretizar.

Michel Gondry deixa-nos perante o nascer e o findar de uma relação e do renascer inesperado de sentimentos desvanecidos, enquanto passeia pelo interior da mente de Joel Barish (Jim Carrey), um indivíduo que procura reverter o processo de extinguir Clementine Kruczynski (Kate Winslet) da sua memória. Esta decidiu recorrer aos serviços da Lacuna, Inc. para apagar as recordações dos episódios que viveu com o protagonista. Ele desespera devido ao facto da namorada não o reconhecer, até descobrir que foi extinto da mente daquela que outrora foi a sua amada. Decide copiar o acto dela. No entanto, ao ser adormecido e colocado perante as memórias que pretende apagar, Joel não só é confrontado com os episódios finais da relação como com aqueles que marcaram o apogeu da mesma e o nascer do amor por Clementine. Apagar o que é mau é fácil, mas o que fazer quando chega a vez de eliminar os acontecimentos nos quais a felicidade prospera? Num registo mais contido do que em filmes como "The Mask" ou "The Grinch", Jim Carrey consegue transmitir de forma exímia a faceta introvertida e melancólica do seu personagem, bem como o amor que este sente pela antiga namorada e o ressentimento que explana em determinadas ocasiões da fita. Diga-se que o intérprete consegue ainda que constatemos o desespero que Joel começa a denotar a partir da ocasião em que se arrepende de ter dado a ordem para apagar Clementine e o esforço que este faz para a manter junto das suas recordações.

13 março 2019

Crítica: "Sabrina" (1954)

 É doce. É mordaz. É elegante. É dramático. É romântico. É protagonizado por Audrey Hepburn, Humphrey Bogart e William Holden. É realizado por Billy Wilder. É simplesmente encantador. Falamos de "Sabrina", um romance pontuado por uma atmosfera semelhante a um conto de fadas, ainda que dotado dos habituais comentários acutilantes e mordazes de Billy Wilder sobre a sociedade dos EUA. Esse lado de conto de encantar é visível logo nos momentos iniciais, quando Sabrina Fairchild (Audrey Hepburn) apresenta em voiceover a mansão dos Larrabee e os membros desta família. O discurso da jovem começa com um "once upon a time", enquanto ficamos diante dos diversos espaços da casa, seja a piscina coberta e a descoberta, os campos de ténis e os luxos que povoam as várias divisórias, com o trabalho a nível da escolha e decoração dos cenários a permitir realçar a opulência financeira deste núcleo familiar. Quando os conhecemos, encontram-se imóveis, quase como se fossem figuras de um museu de cera, enquanto tiram um retrato que provavelmente irá transmitir uma falsa sensação de harmonia, embora esconda as personalidades e a alma de Oliver (Walter Hampden), Maude (Nella Walker), Linus (Humphrey Bogard) e David (William Holden). 

Oliver é um empresário vetusto, conservador, peculiar e extremamente endinheirado, que procura esconder de Maude, a sua esposa, que não deixou de fumar. O casal tem dois filhos, Linus e David. Linus é o mais velho, com Humphrey Bogart a inserir uma personalidade inicialmente pragmática, cínica, solitária e sarcástica ao personagem, um empresário que praticamente lidera os negócios da família. Já William Holden é exímio a expor o feitio extrovertido, irresponsável e mulherengo de David, um indivíduo que colecciona divórcios e conquistas. Sabrina é a filha do motorista desta família, Thomas Fairchild (John Williams), um indivíduo leal e conservador, que habita com o seu rebento no interior da mansão dos seus superiores. Esta sente uma paixoneta por David desde muito nova, indo ao ponto de observar os comportamentos deste com as mulheres, apesar do boémio estar longe de evidenciar qualquer tipo de interesse pela sua pessoa. "Don't reach for the moon, child" comenta Thomas junto da filha. A jovem parece disposta a desafiar o destino, embora também se desanime ao ponto de tentar cometer suicídio. Após uma tentativa falhada de terminar com a sua vida, Sabrina parte para Paris, tendo em vista a participar num curso de culinária. 

10 março 2019

Crítica: "On the Beach" (1959)

 "On the Beach" é um filme de actores, temas e mensagens, de personagens prontos a despertar empatia, dotado de enorme humanismo e de um romantismo contagiante. A sua cinematografia é quase sempre sóbria, elegante e capaz de deixar o destaque nos intérpretes, enquanto a banda sonora ajusta-se na perfeição a um tom que oscila entre o optimismo e o desalento. Estamos perante uma distopia de aromas melodramáticos, ou de um melodrama com traços de distopia, onde os efeitos nocivos das armas nucleares se fazem sentir e o aproximar da morte é combatido com os sentimentos mais quentes e a fuga à solidão. Esse calor advém também do carisma dos seus intérpretes. E que intérpretes tem "On the Beach". Ava Gardner, Gregory Peck, Fred Astaire, Anthony Perkins e Donna Anderson compõem o elenco e elevam o argumento, mesmo quando este segue caminhos mais óbvios ou procura não deixar espaço à imaginação. As figuras a quem estes dão vida sabem que a morte está a chegar. Uns entram em negação. Outros assumem uma postura mais fatalista ou pragmática. Todos procuram estar próximos daqueles que amam ou pura e simplesmente desafiar a solidão para um último combate que querem levar de vencida.

"The war started when people accepted the idiotic principle that peace could be maintained by arranging to defend themselves with weapons they couldn't possibly use without committing suicide" comenta Julian (Fred Astaire), um cientista, em determinado ponto do filme. É uma fala que resume um pouco o contexto que envolve os protagonistas, com estes a terem de lidar com as consequências nocivas do desfecho de um conflito bélico. A ameaça nuclear é um tema que permeia diversas distopias ou obras lançadas durante a Guerra Fria. "On the Beach" não é diferente. A chegada da radiação ameaça tudo e todos. Nos EUA a morte chegou a grande parte da população. Um dos sobreviventes encontrava-se no interior de um submarino, nomeadamente, o Capitão Dwight Towers (Gregory Peck), um indivíduo que perdeu a esposa e os dois filhos. No início do filme encontramos este militar e a sua tripulação a chegarem à Austrália no interior de um submarino. É um dos poucos países que ainda conta com vida humana, embora o aumento gradual da radiação faça com que tudo e todos percebam que a vinda da morte é uma questão de tempo. Todos sabemos que um dia vamos morrer. No caso dos personagens de "On the Beach" estes sabem que o ocaso da vida está a uma proximidade assustadora, algo que mexe com o quotidiano de cada um e com os planos que fazem para o futuro.

06 março 2019

Crítica: "Gräns" (Na Fronteira)

  Na sua segunda longa-metragem como realizador e argumentista, Ali Abbasi reúne com precisão elementos de fantasia, drama e investigação policial, enquanto se esgueira pelas fronteiras do realismo mágico, questiona o que é ser humano e aborda uma série de temáticas relacionadas com a identidade, o corpo, a sexualidade, a solidão e a dificuldade da nossa sociedade em aceitar a diferença. No centro de quase tudo está Tina, uma guarda fronteiriça. "Gräns" (em Portugal: "Na Fronteira") é quase todo seu e da sua intérprete. Eva Melander consegue realçar as dúvidas que apoquentam a sua personagem, a solidão que atravessa o seu olhar e a curiosidade que perpassa pelo seu ser, enquanto incute personalidade a esta mulher com características muito próprias. O seu olfacto é apurado ao ponto de conseguir sentir o medo, a vergonha e a culpa ou seja, algo que escapa ao nariz dos comuns mortais. A sua face apresenta características que fogem aos padrões de beleza da nossa sociedade. O seu quotidiano é marcado pela solidão e por uma sensação de deslocamento.

"Quando era criança, achava que era especial. Tinha todas essas ideias sobre mim mesma. Mas cresci e entendi que era apenas humana. Um humano feio e estranho, com um cromossoma defeituoso" expõe a guarda em determinado ponto de "Gräns". É uma afirmação que deixa em evidência algumas das suas inseguranças. Diga-se que estas não nasceram ao acaso, mas sim de múltiplas rejeições e do constante desprezo alheio. Note-se quando Tina é ignorada pelos vizinhos na entrada do hospital, após ter transportado os mesmos numa urgência, ou o comentário que um indivíduo efectua sobre a sua aparência, ou o modo frio como o namorado, Roland (Jörgen Thorsson), interage consigo. O combustível que alimenta esta relação não é o amor ou o desejo, mas sim a insegurança de Tina e o seu medo de estar sozinha. Observe-se a pouca intimidade de ambos durante o jantar ou a ver televisão, ou o desinteresse deste em treinar os seus rottweilers de forma a respeitarem a presença da guarda fronteiriça. A intercepção de um indivíduo que transporta um telemóvel que contém um cartão de memória com pornografia infantil é um dos momentos-chave para esta mulher, tal como a ocasião em que se depara com Vore (Eero Milonoff). Se o primeiro coloca a protagonista no interior de um caso de investigação a uma rede de pedofilia, já o segundo mexe com as emoções da guarda e intriga-a.

01 março 2019

Crítica: "Black Moon" (1975)

 Dotado de um ambiente semelhante a um delírio onde a fantasia e a realidade se confundem e a razão convive com a alucinação, "Black Moon" surge como uma distopia surreal na qual a fuga a uma guerra entre homens e mulheres conduz uma jovem a embrenhar-se por uma propriedade onde protagoniza uma série de episódios peculiares. Pouco fala e ainda menos dialogam consigo. "Black Moon" é filme de poucas palavras, mas de imensos gestos, de imagens marcantes e de situações que despertam impacto. Nem sempre privilegia a coerência, nem pediríamos tal coisa a Louis Malle. O cineasta e a sua equipa criam algo peculiar, estranho, que facilmente prende e repele a atenção, enquanto nos envolvem para o interior de uma espaço onde uma família conta com um modo de vida deveras bizarro e a presença de um vasto leque de animais é sentida. Não faltam ovelhas, cobras, lagartas, porcos-espinho, águias, baratas, ratos, gatos e formigas, bem como um unicórnio que desperta a atenção de Lily (Cathryn Harrison), a protagonista, que logo tenta entrar em contacto com este ser que apresenta um aspecto menos imponente e deslumbrante do que aquele ao qual estamos habituados a encontrar nos contos e lendas.

Cathryn Harrison consegue transmitir quer a estupefacção da sua personagem perante a realidade que encontra no interior desta quinta, quer a curiosidade desta e alguma da sua impaciência. Os close-ups precisos permitem realçar o rosto da jovem e deixá-lo exteriorizar o que as palavras nem sempre deixam dizer, enquanto somos compelidos a partilhar as suas emoções e um certo sentimento de surpresa. Alguns animais comunicam com ela, bem como as flores. Por sua vez, os seres humanos deste espaço parecem conseguir explanar aquilo que têm a dizer através do tacto, de um simples gesto, ainda que tudo isto possa fazer parte da imaginação da nossa protagonista. Os acontecimentos sucedem-se a um ritmo considerável, prontos a deixar-nos fora de pé, instáveis, nervosos, um pouco à imagem do que acontece com Lily. Esta deveria ter percebido os maus augúrios desde o início. Atropela um texugo, esbarra com fuzilamentos, encontra um pastor enforcado. A juntar a tudo isto, o sol raramente empresta o seu calor ao espaço por onde Lily circula. São as nuvens quem aparecem com regularidade, cinzentas, disponíveis a reforçar um ambiente a espaços ominoso. A cinematografia realça essa falta de luminosidade exterior, tal como a hostilidade de alguns espaços por onde esta mulher de longos cabelos loiros e tez pálida caminha até chegar à quinta onde entra quer para procurar abrigo, quer por curiosidade.

26 fevereiro 2019

Crítica: "A Clockwork Orange" (Laranja Mecânica)

 A câmara afasta-se num movimento de dolly out. Primeiro foca-se na face de Alex (Malcolm McDowell). Na sua malícia. No seu olhar pérfido. Na sua irreverência. Depois afasta-se. Exibe o corpo do protagonista e os membros do seu grupo, nomeadamente, Pete (Michael Tarn), Georgie (James Marcus) e Dim (Warren Clarke), a quem o primeiro chama de droogs. Explana a alma negra da leitaria Korova, o local onde o quarteto se encontra, um lugar recheado de manequins imóveis e desprovidos de vida. Tão desprovidos de vida como este quarteto é despojado de valores morais. Em compensação, ou descompensação, estão recheados de ódio e violência, de sentimentos maliciosos que libertam a cada noite onde provocam o caos e dilaceram a esperança. A apresentá-los encontra-se a câmara e o próprio Alex, o protagonista e narrador de serviço, mas também a paleta de cores e a música. As tonalidades brancas das vestes que o grupo utiliza remetem para uma pureza que estes não possuem, um contraste que é adensado pelo leite que consomem, um hábito quase inocente, ainda que o líquido esteja recheado de aditivos impulsionadores da violência. Os seus chapéus são negros, tal como o âmago de cada um, com o cuidado colocado na selecção do guarda-roupa e a atenção dedicada a determinadas tonalidades a serem exibidos em diversos momentos desta obra realizada por Stanley Kubrick.

O cineasta controla quase tudo. Domina a profundidade de campo com uma perícia notável. Os planos são construídos com uma meticulosidade evidente e dotados de uma simetria impossível de escapar mesmo ao olhar mais desatento. Os cenários seleccionados, decorados e expostos de modo a potenciar o ambiente que rodeia os acontecimentos que decorrem no seu interior. Observe-se o episódio que envolve o assalto de Alex ao spa de uma senhora rica (Miriam Karlin), conhecida por possuir imensos gatos. Inicialmente ficamos diante da apresentação de uma das salas, onde sobressaem diversos felinos que parecem obedecer pacientemente a Stanley Kubrick de modo a movimentarem-se apenas às suas ordens, algumas pinturas de pendor erótico, material para exercício físico, entre outros elementos que sublinham a personalidade deste espaço e da sua proprietária. Ao centro encontra-se a personagem interpretada por Miriam Karlin a fazer ginástica sobre um tapete vermelho e cinzento, até ser interrompida pela campainha. A tonalidade encarnada surge quase sempre associada ao perigo em "A Clockwork Orange". Neste caso não é diferente. É Alex quem toca. Espera atrair a atenção com um pedido de ajuda de forma a irromper com o bando pelo interior deste local e assim assaltar o mesmo e espalhar a capacidade de destruição de cada membro. Ela ainda exibe cautela, mas o criminoso consegue penetrar por este espaço.

22 fevereiro 2019

"Double Indemnity" - O livro e o filme

Walter Neff: "Yes, I killed him. I killed him for money - and a woman - and I didn't get the money and I didn't get the woman. Pretty, isn't it?"

 Se Walter Neff ficou sem o dinheiro e a mulher fatal, já os leitores e os espectadores de Double Indemnity continuarão a ter a oportunidade de revisitar o livro e o filme que partilham entre si o nome e a essência. Ambos contam com uma atmosfera de malaise, personagens de moral ambígua, a femme fatale, um protagonista aparentemente duro, traições, ou seja, imensos ingredientes associados aos noir. No cerne das duas obras encontra-se o plano que Walter e Phyllis efectuam para eliminar o esposo desta. O primeiro é um vendedor de seguros aparentemente perspicaz, que tem no momento em que se desloca a casa de Mr. Nirdlinger/Dietrichson, para renovar o seguro automóvel do mesmo, um episódio-charneira da sua existência. É nessa ocasião que conhece Phyllis e desde aí fica plantada a semente para um jogo de sedução que desemboca na morte do esposo da antiga enfermeira. Tudo é planeado para parecer um acidente, tendo em vista a que a viúva receba a indemnização dupla do título e os amantes possam mais tarde viver felizes para sempre. Claro que, ao estarmos numa obra noir, o destino da dupla não é a felicidade, mas sim a perdição ou a infelicidade, com os dois a percorrerem alguns caminhos tortuosos até chegarmos ao desfecho.

O livro é da autoria de James M. Cain. A fita é realizada por Billy Wilder e conta com um argumento inspirado na obra literária, escrito pelo cineasta e por Raymond Chandler. Ao colocarmos lado a lado o livro e o filme é possível observarmos algumas diferenças entre ambos, algo completamente natural numa adaptação de material literário para o grande ecrã. A começar pelos nomes dos personagens. O Walter Huff de Cain passa a ser Walter Neff, enquanto Phyllis Nirdlinger torna-se Phyllis Dietrichson na marcante fita do realizador oriundo da Galicia, embora a alma destes exemplares noir seja a mesma. Walter é duro e deixa-se apaixonar pela femme fatale em ambas as obras. Phyllis é manipuladora e sedutora quer no livro, quer no filme. Se a fita for visionada antes da leitura do livro, é praticamente certo que a tarefa de dissociar os personagens dos seus intérpretes será assaz complicada, sobretudo quando estamos perante os protagonistas, seja pelas interpretações marcantes de Fred MacMurray e Barbara Stanwyck, ou pela capacidade do argumento em transportar as especificidades de Walter e Phyllis para a tela.

17 fevereiro 2019

Os espelhos de Billy Wilder

 Em certo momento de Snow White and the Seven Dwarfs, encontramos a Rainha a questionar o espelho mágico: "Magic mirror on the wall, who is the fairest one of all?". A resposta é amplamente conhecida e também ficou marcada na cultura popular: "Famed is thy beauty, Majesty. But hold, a lovely maid I see. Rags cannot hide her gentle grace. Alas, she is more fair than thee". Quem também tem uma relação muito especial com os espelhos é Billy Wilder. Não sabemos se tinha o hábito de lhes fazer questões, mas o que é certo é que o cineasta conta com uma enorme habilidade para conseguir que no interior dos seus filmes os espelhos sublinhem certas sensações, ou simplesmente transmitam alguma informação, ou contribuam para uma revelação.

 Recordemos um dos exemplos mais paradigmáticos do modo sublime como o cineasta oriundo da Galícia utiliza os espelhos, nomeadamente, um trecho de The Apartment. É a partir de um espelho partido que C.C. Baxter (Jack Lemmon), o protagonista, descobre que Fran Kubelik (Shirley MacLaine) mantém um caso com Jeff D. Sheldrake (Fred MacMurray), o seu superior. O seu rosto aparece reflectido com a falha que divide o espelho em dois pedaços desiguais, embora aquilo que mais transpareça seja o quão quebrado ficou o seu coração devido a esta descoberta inesperada. Diga-se que o espelho permite ainda colocar em evidência o coração desfeito de Miss Kubelik devido a não ser verdadeiramente amada por Sheldrake, com o objecto a ter sido partido numa discussão entre ambos. É uma jogada de mestre para Billy Wilder expor a desilusão que percorre o rosto do personagem principal de The Apartment, mas também é demonstrativo do cuidado colocado nos pequenos pormenores que muito acrescentam ao filme.

 Os espelhos associados a uma revelação surgem ainda presentes em fitas como Some Like it Hot, The Fortune Cookie, ou A Foreign Affair. O primeiro exemplo remete para o trecho em que Jerry segura o seu espelho de bolso para retocar o batom. No entanto, ao espreitar o espelho, o personagem interpretado por Jack Lemmon depara-se com o reflexo dos membros da máfia que podem colocar a sua vida em perigo. Diga-se que em The Fortune Cookie encontramos uma utilização muito semelhante deste objecto, em particular, quando o aproveitador e desonesto advogado William H. Gingrich (Walter Matthau) descobre a partir de um espelho de bolso que a casa de Harry Hinkle (Jack Lemmon), o seu cliente e cunhado, está a ser vigiada por dois detectives contratados pela seguradora. São dois exemplos em que o humor também está presente, algo que contrasta com A Foreign Affair. Neste caso, o espelho é utilizado para fins mais dramáticos, com o reflexo de Phoebe Frost (Jean Arthur) a explanar a desilusão que esta sente ao ouvir o diálogo de John Pringle (John Lund) com Erika von Schlütow (Marlene Dietrich).

01 fevereiro 2019

Crítica: "Clímax" (2018)

 Gaspar Noé não está preocupado em contar uma história certinha ou em deixar-nos diante de um enredo demasiado elaborado. Está ainda menos interessado em desenvolver os personagens. Acima de tudo quer proporcionar-nos uma experiência. E "Clímax" é uma experiência cinematográfica que estimula as sensações, prende os sentimentos e arrasta-nos para o interior de um lugar onde a euforia pode dar lugar ao desespero, a libertação ser tomada pela opressão e uma sangria ser conspurcada por LSD. Desse néctar adulterado, não pelos Deuses, mas pela acção humana, resulta a inebriação, a fuga às barreiras que seguram a razão. Com esses alicerces quebrados, a saudável loucura da primeira fase do filme, sublinhada por uma miríade de danças onde os corpos e a câmara se soltam com vigor, é contrastada pelo avançar da violência física e verbal.

Actos loucos ocorrem enquanto Gaspar Noé deixa os seus actores e actrizes à solta e constrói toda uma atmosfera opressora que os envolve e ao espectador. Este é um dos maiores méritos do cineasta. A sua capacidade de nos fazer sentir. Primeiro, a euforia da dança, uma libertação a que assistimos entre a passividade de quem está sentado na cadeira e o fulgor de quem está a receber uma onda de energia musical, dançante, vibrante. Posteriormente, o receio, o medo do que pode a acontecer. A tonalidade vermelha, associada num primeiro momento de "Clímax" a uma certa vivacidade e erotismo, a um fulgor libertador e a uma afirmação da personalidade, continua a ser sentida na segunda fase da fita. No entanto, aparece ligada ao perigo, à cólera e ao descontrolar dos sentidos. Suspeitas são lançadas sobre quem conspurcou a sangria, diálogos acalorados são mantidos e a confusão instala-se. Daqui em diante o sexo, a violência, a confiança e a desconfiança dominam os gestos e as palavras.

25 janeiro 2019

Crítica: "Sleeper" (O Herói do Ano 2000)

 Escrever em 2019 sobre um filme de 1973 permite que tenhamos uma perspectiva de como este se insere no interior da carreira do seu realizador e a percepção de como resistiu ao chamado "teste do tempo", que é como quem diz, à sensibilidade de quem o observa. A desvantagem é que corremos o risco de escrever uma crítica que não acrescenta nada ao que já foi dito. No entanto, a quinta longa-metragem realizada por Woody Allen compele-nos a querer cometer a audácia de tentarmos dizer algo relacionado com esta obra que conjuga na perfeição uma série de ingredientes de comédia e ficção científica. Entre humor slapstick de primeira, falas dotadas de mordacidade, um argumento que exibe o fervilhar da saudável loucura e da genialidade do seu autor, um enredo que teima em contar com alguma actualidade e um conjunto de momentos que tardam em sair da memória, "Sleeper" coloca-nos diante de Miles Monroe, um "ateu existencialista teleológico" propenso a apaixonar-se e a desiludir-se com a mesma facilidade, que foi crioconservado em 1973 e acordado em pleno ano de 2173. Inicialmente tinha ido efectuar um exame de rotina. No entanto, a prima enviou-o sem autorização para o procedimento criogénico, um acto que resultou em duzentos anos de sono e uma miríade de consultas falhadas ao psiquiatra.

"I haven't seen my analyst in 200 years. He was a strict Freudian. If I'd been going all this time, I'd probably almost be cured by now" lamenta-se Miles em determinado ponto do filme. É um protagonista com diversos traços associados ao seu intérprete e aos personagens-tipo das suas fitas, tais como as neuroses, o nervosismo, as frustrações de cariz sexual, a ironia, a atrapalhação e a influência da educação judaica. O actor-autor é exímio a imprimir estas características a Miles, enquanto utiliza o seu corpo magro e a sua face expressiva ao serviço do humor. Essa "fisicalidade" é visível desde uma fase prematura da película, nomeadamente, quando o antigo proprietário de uma loja comida saudável e membro de um grupo de jazz é acordado por dois cientistas (Bartlett Robinson e Mary Gregory). Os seus movimentos corporais encontram-se temporariamente presos, um pouco à imagem da sua capacidade de raciocinar, uma condição que o compele a efectuar actos como tentar comer uma luva, lançar colheres e tartes ao rosto dos seus interlocutores, ou seja, a instalar a confusão. A perícia de Woody Allen para compor gags que se inserem com acerto no enredo fica demonstrada, tal como as dificuldades dos cientistas em manterem em segredo que descongelaram o protagonista, um gesto que desafia as autoridades. Estes fazem parte da rebelião e procuram que Miles descubra informações relacionadas com o "Aries Project", um projecto que se encontra a ser levado a cabo pelo "The Leader", o ditador que governa os EUA, agora Federação Americana.

09 janeiro 2019

Crítica: "Jusqu'à la garde" (Custódia Partilhada)

 Primeira longa-metragem realizada por Xavier Legrand, "Jusqu'à la garde" envolve-se com argúcia por temáticas relacionadas com a violência doméstica, o modo como os filhos lidam com o divórcio dos pais e as dinâmicas entre os progenitores e os seus rebentos. Será possível que um mau marido seja um bom pai? "Não quero que batas na mãe" diz Julien (Thomas Gioria), um pré-adolescente de treze anos de idade, a Antoine (Denis Ménochet), o seu progenitor. Esperamos uma palavra de conforto, ou um desmentido da parte deste último, mas aquilo que recebemos é um olhar fulminante, carregado de raiva e um sentimento de despeito difícil de conter. Segue-se um seco "eu encontro" da parte do responsável contra incêndios do Centro Hospitalar Lecorney, que logo desfaz as dúvidas do jovem. O objectivo de Antoine é saber onde Miriam (Léa Drucker), de quem se está a divorciar, encontra-se a viver com Julien e Joséphine (Mathilde Auneveux). Se esta última está quase a completar dezoito anos de idade e pode evitar os encontros com o pai, já o pré-adolescente é praticamente feito refém de uma batalha pela sua custódia enquanto tenta defender a progenitora das acções violentas e intempestivas do familiar.

Os momentos iniciais da fita remetem precisamente para a audiência onde as advogadas dos cônjuges procuram defender os interesses dos clientes junto da juíza, ao passo que esta última tenta absorver a informação de que dispõe, tendo em vista a a efectuar uma decisão justa. Filmados num estilo quase documental, os trechos relacionados com a reunião permitem expor duas visões distintas dos factos e explanar a perícia de Xavier Legrand a potenciar a tensão. Os planos fechados fazem com que o espaço da sala da juíza aparente tornar-se ainda mais diminuto, enquanto a câmara centra as atenções nos semblantes dos diversos interlocutores e ficamos diante da argumentação dos dois lados. Um texto de Julien, lido pela juíza, permite expor que o jovem receia o pai e não tem a mínima vontade de viver com o mesmo. Miriam quer a custódia total da criança e afastar-se do futuro ex-marido. Por sua vez, a advogada de Antoine pretende que este partilhe a guarda do jovem e tenta descredibilizar alguma da argumentação da esposa do seu cliente. Quem está a mentir ou a dizer a verdade? O medo que Antoine desperta nos filhos já deveria ser um indicador do lado em que está o problema, algo corroborado quando o encontramos com o pré-adolescente e percebemos a violência alimentada a inseguranças e desequilíbrios emocionais que carrega no seu interior.

05 janeiro 2019

Crítica: "Transit" (Em Trânsito)

 Começar uma crítica a citar o priberam não é algo propriamente original, mas "Transit" compele-nos a repetir esse acto e a descurar temporariamente a singularidade. Ao visitarmos este dicionário online, a palavra do título, traduzida para português, aparece com os seguintes significados: efeito de caminhar, marchar, passagem, movimento de veículos, morte ou passamento. Passagem é um termo que se aplica praticamente na perfeição ao momento em que se encontra a vida de diversos personagens desta longa-metragem. Estes encontram-se numa espécie de limbo, à espera de algo que não chega ou que está prestes a partir. A espaços também parecem aguardar pela morte ou pela notícia dela, com chegada da gadanha acutilante a fazer-se sentir em diversos trechos da fita. Em alguns casos, como o de Georg (Franz Rogowski), o protagonista, deixam-se levar pelo destino ou por um instinto de sobrevivência que se evidencia em situações intrincadas. O contexto assim o obriga, com boa parte do enredo a ter como pano de fundo a cidade de Marselha, após a ocupação da França pela Alemanha Nazi. Estamos em tempos onde o medo impera, naquele que é o terceiro capítulo da trilogia do "Amor em tempos de sistemas opressores" de Christian Petzold. Essa incerteza é notória desde os momentos iniciais do filme, quando encontramos Georg a ser incumbido de entregar duas cartas a Weidel, um escritor. Não consegue. Acaba a transportar Heinz, um amigo, em direcção a Marselha, ainda que este faleça a meio do percurso.

"Quer dizer, que apenas posso ficar se puder comprovar que não quero ficar?" pergunta Georg à dona do hotel onde fica temporariamente instalado, uma questão que sublinha de forma paradigmática o modo como Marselha é encarada pelos refugiados como uma cidade de passagem. Podem circular pelo local, mas apenas se não estiverem ali para criar raízes no território, uma situação que em certa medida quase traz ecos da intolerância de alguns sectores da sociedade contemporânea para com os migrantes. O contexto de "Transit" é outro, ainda que toque em elementos dos dias de hoje. É a França ocupada, uma nação em transe na qual a presença Nazi é sentida, seja através dos militares ou das notícias relacionadas com os campos de concentração. Uma transitoriedade que coloca o tempo num limbo onde diferentes tempos do passado e elementos do presente se reúnem. Os carros, o guarda-roupa e referências a obras como "Dawn of the Dead" incutem uma intemporalidade à narrativa desta longa-metragem, tal como os sentimentos e as emoções vividas pelos personagens. Amor, receio, medo, ressentimento, angústia, arrependimento, desilusão ou uma incapacidade para lidar com a realidade fazem parte do quotidiano dos diversos elementos que pontuam este drama, que o diga Georg, um indivíduo que procura sobreviver em Marselha, tendo consigo a documentação, as cartas e o rascunho da obra que Weidel estava a finalizar.

02 janeiro 2019

Crítica: "Undir trénu" (A Árvore da Discórdia)

 Uma quezília aparentemente banal entre vizinhos começa a ganhar proporções gradativamente inauditas e a transformar-se em algo violento, intenso e mortífero em "Undir trénu" (A Árvore da Discórdia), uma comédia negra com contornos de drama onde o melhor e o pior do ser humano surge ao de cima. Cada quintal aparece como uma espécie de trincheira, enquanto as palavras são utilizadas como pequenos golpes que antecedem os actos descomedidos. Um gato desaparece, um cão é embalsamado, os pneus de um carro são furados, uma motosserra é utilizada, câmaras de vigilância são instaladas e o nervosismo teima em não largar o quarteto que se envolve neste conflito. De um lado temos Baldvin (Sigurður Sigurjónsson) e Inga (Edda Björgvinsdóttir), um casal na casa dos seus sessenta anos, que perdeu recentemente o filho, fruto deste ter cometido suicídio, e viu Atli (Steinþór Hróar Steinþórsson), o outro rebento, regressar temporariamente a casa devido a estar numa fase complicada do seu matrimónio. Do outro espaço da barricada encontramos Konrad (Þorsteinn Bachmann) e Eybjorg (Selma Björnsdóttir), dois cônjuges que contam com uma relação marcada pela cordialidade e alguma frieza.

Uma parte considerável desta contenda tem a sua génese na enorme árvore situada no quintal de Baldvin e Inga. Esta tapa uma porção considerável do jardim do outro casal, que bem pede para que a árvore seja cortada. No entanto, a vizinha revela-se irredutível em relação a essa possibilidade. Edda Björgvinsdóttir imprime uma faceta simultaneamente perturbada, frágil e desagradável à sua Inga, uma mulher que tem no gato a sua melhor companhia e continua a acreditar que o filho não faleceu. Já Sigurður Sigurjónsson expõe a faceta sensata do seu Baldvin, seja junto do rebento ou da nora, ou a dialogar com os vizinhos. A espaços manifesta algum descontentamento do seu personagem em relação ao estado em que se encontra a esposa, para além de exibir com competência a vertente mais descontrolada do veterano a partir do momento em que a disputa adquire contornos mortíferos. Por sua vez, a Eybjorg de Selma Björnsdóttir conta com uma personalidade relativamente fria e controladora, tendo no seu cão uma companhia de relevo e no ciclismo um hobbie. A Þorsteinn Bachmann cabe dar vida a um elemento inicialmente ponderado, ainda que o realizador Hafsteinn Gunnar Sigurðsson consiga que quase todos os protagonistas fiquem à beira de um ataque de nervos.