01 outubro 2018

Entrevista a Guilherme Daniel sobre "A Estranha Casa na Bruma"

 "A Estranha Casa na Bruma" venceu o Prémio de Melhor Curta de Terror Portuguesa/Méliès d'Argent na edição de 2018 do MOTELx. A curta-metragem vai estrear em circuito comercial ao lado de "Thelma", a nova longa-metragem de Joachim Trier. O Rick's Cinema aproveitou a ocasião proporcionada por este lançamento Cinema Bold para entrevistar o realizador da curta, Guilherme Daniel. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a escolha dos cenários, o que foi mantido e alterado do conto "The Strange High House in the Mist", entre outros temas.  

Rick's Cinema: O quanto é que existe de "The Strange High House in the Mist" e de H.P. Lovecraft no interior de "A Estranha Casa na Bruma"? O que o atraiu no conto?

Guilherme Daniel: O que me atraiu neste conto foi uma ambiência pesada de mistério e um sentido de suspense carregado, principalmente na aproximação da personagem principal à casa e aquando da visita inesperada. Nestes momentos tentamos ser bastante fieis ao conto. Onde ele se afasta é essencialmente na definição da personagem principal, que Lovecraft define como um homem de pensamento racional, e que a mim me interessava mais retratar como um homem de profunda crença religiosa. Esta mudança redefiniu o início e o fim da história, mas ao mesmo tempo penso que se mantêm fieis ao espírito original.
 
RC: Pontuado por cores frias, nevoeiro, árvores despidas e uma certa hostilidade, o território que rodeia a casa contribui para o ambiente enigmático e a espaços algo inquietante que permeia o filme, um pouco à imagem do interior da habitação. Como é que decorreu o processo de selecção e decoração dos cenários? O quanto é que a sua experiência como director de fotografia contribuiu para a eficiência com que expressa as particularidades destes espaços e cria o ambiente que marca "A Estranha Casa na Bruma"?

GD: A maior dificuldade na escolha dos cenários foi de uma questão prática - o local onde construiríamos a casa, que necessitávamos que oferecesse determinadas condições de segurança, para além de proporcionar o efeito de abismo desejado. A envolvência da casa também era importante, daí termos procurado uma floresta para a cena inicial que oferecesse essa hostilidade e ao mesmo tempo nos remetesse para um espaço irreal. Admito que tive algum conflito interno em filmar numa zona ardida do Pinhal de Leiria, como se de alguma forma me tivesse a "aproveitar" da tragédia, mas era de facto o ideal para o filme e em coordenação com as autoridades locais tudo correu pelo melhor.
Houve um trabalho conjunto entre a fotografia e a direcção de arte (Raquel Santos) de forma a criar uma palete para o filme com um jogo de cor que diferenciasse o mundo real e o que está para lá do que os olhos da personagem alcançam, e penso que é a partir deste trabalho que o filme cresce.

RC: Praticamente sem recorrer a diálogos, o Carlos Fartura transforma o seu personagem num enigma. Por sua vez, o Daniel Viana conta com algumas falas que permitem espelhar a curiosidade e a estupefacção do peregrino. Pode falar um pouco do trabalho que efectuou com os intérpretes na composição dos personagens?

GD: Já não é a primeira vez que trabalho com o Daniel. Na nossa curta anterior ele fazia de morto/zombie, e fiquei a sentir que precisava de voltar a filmar com ele com uma personagem em que ele pudesse dar mais. É fantástico trabalhar com ele pois tudo o que ele dá - cada respiração, cada olhar - insufla vida ao filme e facilita-me imenso o trabalho.
Em relação ao Carlos, foi a primeira vez que trabalhei com ele, e com uma personagem peculiar. Era o objectivo trabalhar este enigma sem diálogos, apenas com um olhar complacente direcionado a nós e ao peregrino, e o Carlos foi altamente receptivo a estas ideias. 
É um privilégio poder trabalhar com actores tão generosos naquilo que entregam a meras palavras num papel, e que assim se transformam num filme.

RC: Embora seja um filme parco em diálogos, "A Estranha Casa na Bruma" tem no som um dos seus ingredientes fulcrais. Como decorreu a colaboração com o Miguel Coelho para traduzir esse ambiente enigmático que rodeia a curta-metragem?

GD: O Miguel é altamente criativo, e logo desde o início percebeu o ambiente mesmerizante que o filme pedia. Como acompanhou o filme do início ao fim, tendo feito a captação de som assim como a pós produção, pôde construir de forma coesa as diversas camadas que constituem o ambiente enigmático do filme.

RC: "A Estranha Casa na Bruma" vai estrear em circuito comercial ao lado de "Thelma" de Joachim Trier. Sente que fazem falta mais medidas como esta para fazer com que as curtas cheguem a um público mais alargado? Qual é a sua opinião sobre a longa-metragem que acompanha "A Estranha Casa na Bruma" e a filmografia do seu realizador?

GD: Sinceramente, ainda não vi o "Thelma" - quis esperar para ver em sala. Quinta-feira terei oportunidade.
  Em relação à curta circular em circuito comercial, é uma iniciativa que gostaria de ver mais vezes. Há muito Cinema de curta duração de qualidade a ser feito em Portugal, que tem normalmente uma vida limitada ao circuito de festivais. Passar com uma longa-metragem no circuito comercial seria importante para mais pessoas verem os filmes e conhecerem o trabalho que está a ser feito. Gostaria que se tornasse normal ir ao cinema ver uma longa acompanhada de uma curta portuguesa, e penso que também ajudaria a que o público criasse mais interesse em ver mais Cinema Português em formato longo.

RC: Muito obrigado pela disponibilidade demonstrada. 

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