03 outubro 2018

Crítica: "Thelma" (2017)

 Drama poderoso e inquietante, que se embrenha pelo terror e a fantasia, "Thelma" deixa-nos perante uma jovem adulta que se encontra a descobrir a sua sexualidade e o seu corpo, a lidar com uma série de sentimentos e sensações contraditórias, bem como a enfrentar o despertar de poderes que se encontravam adormecidos e aparecem ao sabor do desejo, da liberdade e da culpa. O prólogo é fulcral para Joachim Trier marcar o tom enigmático e tenso do filme, com o cineasta a colocar-nos diante de um episódio da infância da personagem do título. No trecho mencionado, encontramos Thelma (Grethe Eltervåg) e o pai no interior de uma floresta recheada de neve, enquanto este se prepara para caçar um cervo. A presença da neve e a profusão de tonalidades frias tanto reforçam a hostilidade do cenário como transmitem uma certa sensação de pureza, algo que contrasta com o casaco vermelho da protagonista, uma cor forte e exacerbadora do perigo, com esta discrepância tonal entre a frieza e o calor a sublinhar o mistério e a sensação de ameaça que rodeiam os momentos iniciais do filme.

Essa ameaça é reforçada quando Trond muda de alvo. Inicialmente focado no cervo, o pai da protagonista desloca o olhar e a espingarda na direcção da filha, um acto que explana de forma paradigmática o desejo de eliminar a petiz. O que leva um pai a ponderar assassinar o seu rebento? É uma pergunta que colocamos e é respondida com o avançar do enredo, sobretudo a partir de uma fase em que ficamos na posse de mais elementos sobre os personagens e o seu passado. O trabalho de Jakob Ihre na cinematografia é essencial para exacerbar a inquietação e mistério que percorrem o prólogo e o restante enredo. Note-se o plano geral que nos deixa diante de Trond, Thelma, o cervo, a neve e a tentação, ou a eficácia com que o director de fotografia realça as cores frias que adensam a hostilidade do território onde se desenrola o trecho inicial do filme. A tonalidade vermelha da roupa de Thelma aparece como um elo de ligação entre o prólogo e o episódio seguinte da fita, nomeadamente, quando ficamos diante da protagonista a deslocar-se até à universidade, onde se prepara para assistir a uma aula.

Educada de forma conservadora pelos pais, um casal extremamente devoto, Thelma tem na universidade um meio que propicia as descobertas e uma sensação de libertação que até então desconhecera e não procurara. No rosto de Eili Harboe podemos encontrar a personalidade reservada de Thelma e as suas inquietações, com a intérprete a explanar de modo sublime as dicotomias que perpassam pelo âmago da sua personagem, sejam estas o desejo de descobrir e o receio de trair os valores com que foi criada, ou o medo e a coragem. Como enfrentar os grilhões que colocamos no interior da nossa mente? Aos poucos, Thelma é confrontada pelos seus sentimentos e emoções, enquanto balanceia entre afirmar a sua identidade e conter os seus anseios, sobretudo a partir do momento em que começa a ter estranhos ataques. Primeiro pensa que é epilepsia, ou alguma doença do género, algo que a conduz a procurar ajuda médica. No entanto, é paulatinamente confrontada com algo mais peculiar e específico, nomeadamente, poderes que não domina e aparecem de forma bem viva e incontrolada, com Joachim Trier a exibir que bebeu alguma da sua inspiração em "Carrie".

O cineasta mescla com acerto os elementos associados ao sobrenatural e à fantasia com os anseios bem reais da protagonista e a sua luta interior para aceitar a sua identidade. Essa miríade de emoções que percorre a mente, o corpo e a alma de Thelma é potenciada quando a estudante conhece Anja (Kaya Wilkins), uma colega de escola. A atracção entre ambas é mútua. Se Anja explana esse desejo de forma clara, já Thelma procura reprimi-lo, quase como se sentisse que estivesse a fazer algo errado, um comportamento que remete para o modo conservador como foi educada. A química entre as intérpretes é notória, com ambas a espelharem os sentimentos fortes que as suas personagens nutrem uma pela outra. Diga-se que o elenco beneficia e muito do argumento preciso de Joachim Trier e de Eskil Vogt. Note-se o caso de elementos secundários como Henrik Rafaelsen e Ellen Dorrit Petersen, com a dupla a conseguir transmitir as especificidades das figuras a quem dão vida e os seus receios em relação à protagonista. Henrik Rafaelsen incute uma postura fechada, conservadora e protectora ao seu Trond, um médico que parece muitas das vezes saber mais do que demonstra nas suas palavras. Por sua vez, Ellen Dorrit Petersen expressa algumas das fragilidades físicas e emocionais da sua Unni, muitas delas vinculadas a episódios dolorosos do passado, bem como a preocupação desta com a filha.

Quando encontramos o casal a ligar a Thelma, ainda numa fase relativamente prematura do filme, percebemos que existe algo mais a rodear a jovem. Não sabemos ao certo o que é, pois o argumento trabalha com precisão o mistério e o tempo em que cada revelação é efectuada, mas nem por isso deixamos de ficar com a "pulga atrás da orelha". Diga-se que Joachim Trier e a sua equipa não poupam nos sinais de que algo está mal ou a desgraça está para acontecer, seja através da cinematografia, da banda sonora, ou do trabalho dos actores, ou do argumento, ou da montagem. Observe-se uma visita a um bailado onde o desejo e a tentativa de reprimir o mesmo resulta num momento de pânico e agitação, com a montagem a alternar de forma dinâmica entre o rosto da protagonista, os gestos, o espectáculo e a arquitectura do local, enquanto a música diegética, proveniente da sessão, intensifica o fervor que permeia o episódio. Não faltam outros episódios em que estes elementos aparecem conjugados praticamente na perfeição. Veja-se quando um delírio traz consigo o anseio de um acto sexual, a presença de serpentes e a certeza de que existe um embate poderoso a ocorrer no interior da mente da personagem do título.

Associada à tentação e ao mistério, a serpente remete ainda para uma ideia de dualidade, ou seja, para o confronto interior vivido por Thelma. Na Bíblia, este réptil aparece ligado à história de Adão e Eva, tendo convencido esta última a provar a maçã proibida. Também Thelma é colocada perante a tentação, com os elementos religiosos a estarem muito presentes no interior do filme. Note-se o crucifixo que a estudante universitária traz ao pescoço, um exemplo paradigmático da influência que a religião teve na sua educação e formação, ou o sentimento de culpa cristão. Diga-se que a presença do crucifixo é reveladora de todo o cuidado colocado no figurino, um pouco à imagem das vestimentas utilizadas pelos personagens. Observe-se as já mencionadas roupas vermelhas, ou o pijama cor de rosa que Thelma utiliza num episódio da infância, um tom que exacerba a inocência da personagem e contrasta com o perigo provocado pelos actos da estudante.

A partir de um determinado momento, as revelações começam a ter lugar e os poderes de Thelma assumem uma preponderância crescente na vida da jovem. Não vamos mencionar os detalhes dessas revelações ou demonstrações de poder, embora seja praticamente impossível deixar de salientar a precisão com que Joachim Trier insere os flashbacks e o quanto estes contribuem para inserir camadas acrescidas ao filme e aos personagens. Precisão é, também, o adjectivo que podemos utilizar para descrever o modo como o cineasta reúne os ingredientes de diversos géneros no interior do filme, enquanto nos deixa diante de temáticas relacionadas com a identidade, o desejo, a sexualidade, a relação entre pais e filhos, o amor, a solidão e uma sensação de deslocamento (típica de trabalhos do cineasta como Oslo, 31. august), sempre com um pé na realidade e o outro na fantasia. Entre sonhos delirantes, uma luta dolorosa para aceitar a identidade, poderes incontroláveis, uma profusão de movimentos de câmara e planos que exacerbam a inquietação, "Thelma" transporta-nos para o interior dos intensos conflitos internos e externos da personagem do título, uma protagonista complexa, sensível e extremamente humana, que é elevada pela composição notável de Eili Harboe.

Observação: "Thelma" é lançado em Portugal com a curta "A Estranha Casa na Bruma"

Título original: "Thelma".
Realizador: Joachim Trier.
Argumento: Joachim Trier e Eskil Vogt.
Elenco: Eili Harboe, Kaya Wilkins, Henrik Rafaelsen, Ellen Dorrit Petersen, Grethe Eltervåg.

Sem comentários: