28 outubro 2018

Crítica: "Over the Limit" (2017)

 Como enfrentar a pressão? Será possível que um desportista de alta competição consiga despir a mente e o corpo dos problemas ou das emoções que o rodeiam antes de alguns momentos relevantes da sua carreira? Com acesso privilegiado aos bastidores da caminhada da atleta russa Margarita Mamun rumo aos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, "Over the Limit" coloca-nos diante destas questões, enquanto exibe as inquietações, dilemas, desafios e o enorme talento da ginasta, bem como a larga pressão a que esta estava sujeita. "Não és um ser humano, mas sim uma atleta" diz Amina Zaripova, a treinadora adjunta de Margarita, em um momento onde a jovem ameaça deixar-se controlar pelas emoções. É uma frase que resume paradigmaticamente o rigor inerente ao treino desta atleta especializada em ginástica rítmica, um desporto que exige talento, treino e uma enorme capacidade de sofrimento, uma combinação que nem é sempre fácil de colocar em prática quando se tem apenas vinte anos de idade. Curiosamente, Amina é quase o "polícia bom" da dupla de treinadoras, com a técnica a exibir regularmente uma faceta mais carinhosa e humana junto da ginasta, ainda que a espaços também tenha os seus ataques de fúria.

Se Amina é o Raul José de Jorge Jesus, já Irina Viner assume uma postura que a espaços traz à memória o antigo timoneiro de Benfica e Sporting. Pronta a praguejar como um pirata, dura com os atletas e a roçar uma insensibilidade que faz com que a associemos facilmente ao estereótipo do treinador da União Soviética, Irina Viner quer transformar Margarita Mamun numa máquina de vencer, livre de falhas e de receios. "Vai-te foder, tu e a porra da tua gentileza! Vaca estúpida" vocifera a técnica durante um treino no Rio de Janeiro, na véspera da atleta entrar na competição. A realizadora Marta Prus não julga a treinadora, mas também não matiza os seus comportamentos, enquanto exibe em diversas ocasiões o olhar estupefacto ou simplesmente revoltado de Amina perante as atitudes e as palavras da colega, quase como se esta surgisse como um duplo do espectador. No entanto, embora seja possível questionar estes métodos de treino desumanos, também não deixa de ser notório que estes resultam no contexto de espicaçar a ginasta. Será que os fins justificam os meios? Valerá tudo para desafiar os limites de um atleta e extrair todo o seu potencial? São perguntas que ficam em aberto, com a cineasta a deixar quase sempre que o espectador julgue estas figuras por si próprio, enquanto evita utilizar as imagens que captou para criar um enredo com heróis e vilões.

A fluidez com que a câmara é movimentada e a forma como acompanha o quotidiano destes elementos é essencial para fazer com que praticamente pareça que estamos a presenciar estes acontecimentos ao vivo, quase como se estivéssemos no ringue ou ao lado da atleta. Diga-se que Margarita é um dos grandes trunfos do filme. O seu olhar transmite uma mescla de fragilidade e força. Não contém uma ambição ou ferocidade desmedida. Por vezes até parece deixar-se consumir por alguma apatia e pelas emoções ao ponto de tremer e errar. Mas também existe uma enorme força que regularmente vem ao de cima e se revela essencial quer para a protagonista triunfar, quer para superar os vários revezes. Esses contratempos tanto ocorrem em competição ou nos treinos como na vida privada. Observe-se as dúvidas que apoquentam a jovem de vinte anos quando descobre que o pai padece de cancro, com o estado delicado do progenitor a mexer e muito com a mente e o corpo da ginasta. Os close-ups precisos que se centram no rosto de Margarita e os planos mais abertos que a colocam no centro de tudo permitem exacerbar o seu estado de espírito e essas emoções que percorrem o seu ser durante esta caminhada rumo ao Rio de Janeiro. Note-se como um esgar de dor, ou um olhar temeroso, ou um trejeito nervoso, ou um choro que é contido até não poder ser mais travado, ou um sorriso após o reencontro com o namorado (o atleta Alexander Sukhorukov) surgem como gestos captados com enorme subtileza e precisão, com estes pequenos ingredientes a permitirem despertar uma certa simpatia do espectador para com a jovem e a criarem a sensação de que a começa conhecer.

Ao longo do documentário ficamos ainda diante de alguns pedaços dos espectáculos e apresentações da protagonista, bem como de alguns trechos das suas dinâmicas com Yana Kudryavtseva, uma atleta com quem compete pelo topo. Por sua vez, a sua exibição nos Jogos Olímpicos do Rio não é exposta, ainda que o resultado seja revelado, uma decisão que demonstra paradigmaticamente que o principal ponto de interesse da realizadora é a jornada da ginasta. E é precisamente esta jovem que ficamos a conhecer ao longo deste documentário dotado de ritmo e de uma precisão assinalável na abordagem das temáticas. Marta Prus consegue envolver-se pelo interior dos bastidores de uma equipa de ginástica rítmica e expor as suas rotinas, muitas das vezes com uma facilidade surpreendente, enquanto dá a conhecer o treino intenso de uma atleta que procura explanar o seu talento e desafiar os seus limites ao mesmo tempo em que lida com as emoções próprias da idade e a possibilidade de perder o progenitor.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da edição de 2018 do Doclisboa para a Take Cinema Magazine.

Título original: "Over the Limit".
Realizadora: Marta Prus.
Argumento: Marta Prus.
Cinematografia: Adam Suzin.
Elenco: Margarita Mamun, Yana Kudryavtseva, Irina Viner, Amina Zaripova.

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