01 outubro 2018

Crítica: "Mr Gay Syria" (2017)

 O título de "Mr Gay Syria" remete para um concurso organizado por Mahmoud Hassino, um jornalista e activista que fundou o movimento LGBTI da Síria. O vencedor tem de se deslocar a Malta e participar no Gay World, um evento que é encarado por Mahmoud como uma possibilidade única para despertar a atenção sobre a situação complicada em que se encontram os refugiados LGBTI sírios e defender a sua causa, algo exposto ao longo do documentário. Também ele um refugiado, o jornalista desloca-se da Alemanha, onde está instalado, para a Turquia, tendo em vista a reunir-se com alguns membros da comunidade síria que se encontram no local. Entre esses elementos encontra-se Husein, outra das figuras centrais do filme, um cabeleireiro de vinte e quatro anos de idade que fugiu da Guerra na Síria, embora tenha de enfrentar um conflito deveras intrincado. Como assumir a homossexualidade no interior de uma sociedade conservadora? É uma questão que apoquenta este indivíduo que é praticamente obrigado a protagonizar uma vida dupla.

Durante seis dias da semana, nomeadamente, aqueles em que se encontra a trabalhar, Husein lida com as limitações inerentes ao conservadorismo da sociedade turca, embora encontre algum conforto junto da comunidade LGBTQI síria, onde exprime as suas ansiedades, dúvidas, anseios e motivações. Na folga, tem de se deslocar para junto da esposa, da filha e dos progenitores, algo que o atormenta e inquieta. Coragem e desespero surgem como algumas das motivações de Husein para participar no Mr Gay Syria, tendo a companhia de diversos elementos que lhe são próximos. Note-se o caso de Omar, um cozinheiro que anseia reunir-se com o marido na Noruega, ou de Wissam, um indivíduo com uma barba farta e um talento peculiar para a dança. Uma parte considerável do primeiro terço do documentário centra-se na apresentação destas figuras, com especial incidência em Mahmoud e Husein, bem como nos preparativos para o concurso. O desenrolar do evento conta com música, dança e um momento emotivo protagonizado pelo barbeiro. Este vence o concurso, mas começa desde logo a temer as repercussões da vitória, em particular, a possibilidade dos pais descobrirem que é homossexual.

A realizadora Ayse Toprak consegue captar e transmitir os dilemas deste indivíduo, enquanto parte do exemplo particular do barbeiro para abordar assuntos relacionados com a dificuldade em assumir a homossexualidade, as restrições inerentes ao livre-arbítrio no interior de sociedades fechadas, a solidão, a crise de refugiados e a sensação de deslocamento que estes elementos vivenciam no interior de outras realidades. Husein saiu da Síria em busca de paz, mas encontra-se no interior de uma guerra interior. Quer assumir a sua identidade, embora tema as repercussões desse acto, uma tarefa que se revela intrincada não só pelos valores fechados dos seus familiares, mas também da sociedade turca. Diga-se que a intolerância para com os homossexuais no interior da Turquia é uma temática abordada com simplicidade e eficácia ao longo do documentário, seja em pequenas demonstrações do quotidiano no país, ou na exibição da violência das autoridades durante uma parada LGBTQI. Mahmoud tenta lutar pelos direitos dos refugiados sírios LGBTI, embora a sua vontade e persistência embatam imensas vezes na realidade e resultem em frustrações.

Tanto Husein como Mahmoud lidam com o desprezo de uma sociedade que encara os refugiados e os migrantes com desconfiança. Note-se quando as autoridades recusam os vistos a dois elementos devido a serem sírios, uma situação que deixa o jornalista desconsolado. Ayse Toprak exibe os efeitos que esse desprezo e preconceito provocam, bem como as repercussões da homofobia. A cineasta sabe escolher os momentos e as falas das figuras que povoam o documentário, enquanto balanceia entre os episódios mais leves e as situações mais dramáticas, quase sempre com Husein e Mahmoud como figuras centrais. Diga-se que a cineasta exibe ainda uma sensibilidade latente a seleccionar os pequenos pedaços do quotidiano destes elementos, algo que contribui não só para dar a conhecer diferentes camadas de cada um, mas também despertar a empatia do espectador em relação aos mesmos. Veja-se os momentos de convívio entre Hosein e Omar, ou um diálogo online que este último mantém com o esposo.

Omar permite ainda que "Mr. Gay Syria" aborde as dificuldades sentidas pelos refugiados sírios ao serem separados daqueles que amam, com o cozinheiro a aparecer em alguns momentos de relevo do filme. É mais um exemplo da capacidade que Ayse Toprak apresenta de partir de casos particulares para abordar temas mais latos, com a cineasta a exibir uma enorme humanidade e sensibilidade a expor as inquietações destas figuras, enquanto se envolve por assuntos relacionados com os refugiados sírios, a identidade, a homofobia e a amizade.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da edição de 2018 do Olhares do Mediterrâneo para a Take Cinema Magazine.

Título original: "Mr Gay Syria".
Realizadora: Ayse Toprak.
Argumento: Ayse Toprak.

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