06 outubro 2018

Crítica: "Joaquim" (2017)

 O que leva alguém a desafiar o sistema? Como surge a tomada de consciência de alguém em relação ao mundo que o rodeia? Estas são perguntas a que "Joaquim" procura responder através da figura do título, com Marcelo Gomes a deixar-nos perante um filme sobre o passado e o presente do Brasil. O enredo tem lugar em pleno Século XVIII. No entanto, a sociedade que é apresentada permite que encontremos traços de problemas e especificidades que marcam esta Nação nos dias de hoje, algo particularmente notório quando somos confrontados com a corrupção e as desigualdades promovidas pela Coroa de Portugal no interior do território canarinho. O realizador e argumentista Marcelo Gomes foge aos caminhos fáceis e previsíveis. Não temos uma obra de pendor biográfico que abarca um período alargado da vida de Tiradentes, ou uma representação do mesmo como uma figura messiânica, ou o culminar do enredo com o auge da conhecida Inconfidência Mineira. Marcelo Gomes prefere concentrar as suas atenções num período específico da existência de Joaquim José da Silva Xavier, em particular, os momentos que antecederam a sua tomada de consciência, enquanto efectua um retrato complexo desta personalidade histórica.

Júlio Machado consegue expressar as dúvidas, defeitos, virtudes e contradições do seu Joaquim, um dentista e alferes que tem como principal função capturar contrabandistas de ouro em Minas Gerais. Com longos e descuidados cabelos compridos, muitos deles recheados de piolhos, Joaquim diz que é filho de portugueses, mas sabe que não tem os mesmos benefícios dos mesmos. Essas discrepâncias são desde logo visíveis a partir da figura de Manoel (Miguel Pinheiro), um alferes corrupto que acompanha o protagonista na caça aos contrabandistas e demonstra uma certa sobranceria e desprezo para com este e os locais, tendo mais hipóteses de ser promovido do que o segundo devido a ser português. É um exemplo paradigmático de uma sociedade estratificada e recheada de assimetrias, que promove as desigualdades e parece esquecer-se que contém no seu interior uma enorme diversidade. No topo dos cargos de poder e chefia encontramos os portugueses, sendo seguidos dos brasileiros, enquanto os mestiços ocupam uma posição mais baixa que estes últimos. Por sua vez, os escravos negros e os indígenas são tratados quase como mercadoria, com o argumento a explorar o quanto esta estrutura delineada pelos colonizadores contribui para fomentar as desigualdades e o racismo, algo que, em certa medida, permite efectuar um diálogo com as assimetrias do Brasil de hoje.

Esse tratamento desigual é particularmente visível quando somos colocados perante a escrava interpretada por uma intensa e magnética Isabél Zuaa. O facto de ser tratada como Preta, ao invés de ser chamada pelo seu nome, sublinha de forma contundente o quanto é encarada e vista como um ser humano sem identidade, ou uma espécie de mercadoria. A actriz consegue expressar as forças e as fragilidades da sua personagem, uma figura que se encontra envolvida com Joaquim. Este procura ser promovido a tenente e comprar a liberdade dela. Esta anseia por deixar de ser posse de alguém e poder mandar no seu corpo. A certa altura do filme, encontramos a personagem a quem Isabél Zuaa dá vida a salientar que "preta é nome de cor. O meu nome é Zua". No seu olhar encontramos dor, fúria, um desejo de afirmação e o enorme talento da sua intérprete. Joaquim ama esta mulher, mas inicialmente não compreende tudo aquilo que percorre o seu âmago e o quanto esta sofre. Diga-se que a tomada de consciência deste indivíduo é algo que decorre de modo gradual, ainda que a perigosa expedição ao Sertão Proibido mexa com a sua mente e a sua alma e potencie essa mudança. Numa fase em que a colónia enfrenta um declínio da produção de ouro, Joaquim é designado para encontrar novas minas no interior deste perigoso território, tendo a companhia de Matias (Nuno Lopes), João (Welket Bungué), Januário (Rômulo Braga) e um indígena que conhece o local.

A câmara acompanha os personagens, segue-os com atenção e aos seus movimentos, enquanto o elenco sobressai. Nuno Lopes imprime uma personalidade mesquinha ao seu Matias, um indivíduo pouco preparado para lidar com as especificidades da missão, que despreza o Brasil e representa uma certa arrogância portuguesa. Por sua vez, Rômulo Braga tem em Januário uma figura que permite espelhar o quanto as dificuldades e os preconceitos podem mexer com aqueles que lidam com os mesmos. Januário é um mestiço que sabe que não pode ascender na carreira a não ser que consiga subornar alguém, ou apresente uma atitude submissa junto de quem tem poder. Diga-se que o suborno é encarado por diversos personagens, inclusive pelo protagonista, como um meio para contornar a imobilidade no acesso a cargos ou patentes de alguma importância, um assunto que remete mais uma vez para uma problemática transversal ao passado e ao presente. Do grupo, João e o índio encontram-se mais à parte, algo revelador do estatuto social inferior que lhes era imposto por aqueles que tinham poder, embora o primeiro tenha um momento poderosíssimo numa fase decisiva do enredo (que permite a Welket Bungué sobressair em grande nível).

As dificuldades e a morosidade marcam a missão destes personagens, bem como as frustrações. O ouro tarda em ser encontrado, a presença de onças e piranhas exacerba os perigos deste espaço, a temperatura é regularmente alta, com estas especificidades a serem expressas com eficiência pelo trabalho de Pierre de Kerchove na cinematografia. Este capta a hostilidade do território e as suas características rochosas, as suas tonalidades castanhas e o calor que consome a cor e a razão, bem como as nuvens cinzentas que se aproximam e trazem consigo um mau presságio. As particularidades dos cenários são expostas com perícia, tal como os traços da personalidade dos personagens, sobretudo de Joaquim. Marcelo Gomes não retrata o protagonista como um herói livre de defeitos, muito pelo contrário, com o argumento a atribuir espessura a esta figura histórica. É um retrato intrincado do personagem do título e do seu despertar para o meio que o rodeia, com os episódios que protagoniza e as gentes com quem contacta a serem essenciais para essa mudança. Note-se os já mencionados casos de João e Zua, ou do poeta (Eduardo Moreira), um indivíduo que coloca o protagonista diante de uma série de livros e de informação sobre a Independência dos EUA.

A ingenuidade com que Joaquim encara os efeitos da Guerra da Revolução Americana espelha a sua vontade em acreditar na mudança, embora o facto de estarmos temporalmente à frente do personagem leve a que a nossa alma seja rapidamente assolada por um sentimento de tristeza. Essa inocência adensa a humanidade desta figura, ao passo que a presença dos livros e da informação que chega a Joaquim permitem que o realizador explore mais uma vez o contexto ao serviço do enredo. A conjuntura é abordada com precisão, seja através do guarda-roupa, dos comportamentos dos personagens, dos cenários ou do retrato da sociedade, algo que contribui para transmitir um ambiente associado a outros tempos e fazer com que estes toquem no agora. Entre factos e ficção, Marcelo Gomes embrenha-se pelo interior da mente e dos actos do personagem do título, envolve-se pelo passado do território e coloca-o em diálogo com o presente, expõe as características nocivas do colonialismo português e deixa-nos perante uma longa-metragem pronta a despertar debate e a deixar marca.

Título original: "Joaquim".
Realizador: Marcelo Gomes.
Argumento: Marcelo Gomes.
Elenco: Julio Machado, Isabél Zuaa, Rômulo Braga, Welket Bungué, Nuno Lopes, Eduardo Moreira.

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