31 outubro 2018

2016 em revista

 Não faltaram acontecimentos históricos marcantes em 2016. Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito o 20º Presidente da República Portuguesa e começou a distribuir abraços e a tirar selfies como poucos. Barack Obama visitou Cuba e Donald Trump foi eleito Presidente dos EUA. Por sua vez, Dilma Rouseff foi afastada da Presidência da República do Brasil e David Cameron renunciou ao cargo de Primeiro-Ministro do Reino Unido. Pelo meio ocorreram uma série de atentados que chocaram o Mundo, Portugal ganhou o Europeu de futebol com um golo do improvável Éder e estrearam uma série de obras cinematográficas que prometem deixar marca ao longo do tempo, bem como outras que vão ser esquecidas com uma facilidade assinalável. É precisamente sobre esses filmes que se centra este artigo que procura traçar um breve retrato de um ano profícuo em termos da Sétima Arte.

Desde Ah-ga-ssi, Lumière! e Paterson, passando por I Am Not Your Negro e Forushande, até Ma vie de Courgette, Elle e Silence, a colheita cinematográfica de 2016 conta com uma série de exemplares extremamente recomendáveis, pontuados por alguma diversidade e oriundos de uma miríade de proveniências. Como é que cada uma destas obras vai enfrentar o teste do tempo? Filmes como La La Land, Hail Caesar! e Lumière! respondem a essa questão com um recuperar das memórias do cinema, enquanto fitas como I Am Not Your Negro, Hidden Figures, Aquarius, Martírio, Moonlight envolvem-se por temas relacionados com os direitos LGBT, as questões raciais, os direitos indígenas, ou a desregulação do mercado imobiliário. E como sobreviverão alguns dos campeões das bilheteiras como Captain America: Civil War e Finding Dory? Ou os grandes vencedores da temporada de prémios? Ou fracassos de crítica e público como Gods of Egypt e Ben-Hur?

30 outubro 2018

Crítica: "The Endless" (O Interminável)

 Pontuado por uma atmosfera que regularmente desperta o receio ou a sensação de que algo nefasto está para acontecer, "The Endless" esgueira-se habilmente pelas margens do drama familiar, do terror, da ficção-científica e das obras que envolvem cultos, enquanto reforça a ideia de que Justin Benson e Aaron Moorhead merecem o nosso interesse e admiração. Esse ambiente misterioso que pontua o filme não é obra do acaso. Uma parte advém do argumento e da ligação que criamos com os personagens. A outra parte remete e muito para o trabalho de Aaron Moorhead na cinematografia e de Jimmy Lavalle na banda sonora, bem como para o labor dos elementos responsáveis pelo design sonoro. Observe-se um plongée absoluto que realça o carro dos protagonistas a percorrer o território, quase que a transmitir a sensação de que estão a ser observados por uma entidade, ou o modo como a iluminação é utilizada para adensar a incerteza em volta de um convívio nocturno, ou a faceta desvanecida das cores que percorrem o âmago do filme, um recurso que sublinha a dubiedade e o cepticismo que envolvem alguns episódios do enredo.

Inseridos de maneira extremamente harmoniosa, a banda sonora e os efeitos sonoros permitem potenciar essa sensação de receio. Note-se como os elementos mencionados sublinham a faceta bizarra de um desenho e o seu significado, ou como uma caminhada solitária de um dos protagonistas ganha uma tensão acrescida devido à utilização precisa desses ingredientes. Diga-se que não estamos perante um filme de sustos avulsos, ou que permite que os mesmos dominem a narrativa. Já "Resolution", com quem "The Endless" partilha o mesmo universo narrativo, era assim, com Justin Benson e Aaron Moorhead a criarem uma espécie de franquia de baixo orçamento que tem na mescla de géneros e no ambiente misterioso alguns dos seus principais atributos. Em "The Endless", a dupla assume o protagonismo quer atrás das câmaras, quer à frente das mesmas, nomeadamente, a dar vida aos dois personagens principais, com quem partilha os nomes próprios. Ou seja, Aaron Moorhead interpreta Aaron, enquanto Justin Benson é Justin, com a dupla de intérpretes a contar com um trabalho eficiente quer a expor as especificidades de cada um dos irmãos, quer a explanar aquilo que os une e separa.

28 outubro 2018

Crítica: "Over the Limit" (2017)

 Como enfrentar a pressão? Será possível que um desportista de alta competição consiga despir a mente e o corpo dos problemas ou das emoções que o rodeiam antes de alguns momentos relevantes da sua carreira? Com acesso privilegiado aos bastidores da caminhada da atleta russa Margarita Mamun rumo aos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, "Over the Limit" coloca-nos diante destas questões, enquanto exibe as inquietações, dilemas, desafios e o enorme talento da ginasta, bem como a larga pressão a que esta estava sujeita. "Não és um ser humano, mas sim uma atleta" diz Amina Zaripova, a treinadora adjunta de Margarita, em um momento onde a jovem ameaça deixar-se controlar pelas emoções. É uma frase que resume paradigmaticamente o rigor inerente ao treino desta atleta especializada em ginástica rítmica, um desporto que exige talento, treino e uma enorme capacidade de sofrimento, uma combinação que nem é sempre fácil de colocar em prática quando se tem apenas vinte anos de idade. Curiosamente, Amina é quase o "polícia bom" da dupla de treinadoras, com a técnica a exibir regularmente uma faceta mais carinhosa e humana junto da ginasta, ainda que a espaços também tenha os seus ataques de fúria.

Se Amina é o Raul José de Jorge Jesus, já Irina Viner assume uma postura que a espaços traz à memória o antigo timoneiro de Benfica e Sporting. Pronta a praguejar como um pirata, dura com os atletas e a roçar uma insensibilidade que faz com que a associemos facilmente ao estereótipo do treinador da União Soviética, Irina Viner quer transformar Margarita Mamun numa máquina de vencer, livre de falhas e de receios. "Vai-te foder, tu e a porra da tua gentileza! Vaca estúpida" vocifera a técnica durante um treino no Rio de Janeiro, na véspera da atleta entrar na competição. A realizadora Marta Prus não julga a treinadora, mas também não matiza os seus comportamentos, enquanto exibe em diversas ocasiões o olhar estupefacto ou simplesmente revoltado de Amina perante as atitudes e as palavras da colega, quase como se esta surgisse como um duplo do espectador. No entanto, embora seja possível questionar estes métodos de treino desumanos, também não deixa de ser notório que estes resultam no contexto de espicaçar a ginasta. Será que os fins justificam os meios? Valerá tudo para desafiar os limites de um atleta e extrair todo o seu potencial? São perguntas que ficam em aberto, com a cineasta a deixar quase sempre que o espectador julgue estas figuras por si próprio, enquanto evita utilizar as imagens que captou para criar um enredo com heróis e vilões.

27 outubro 2018

Crítica: "Fotbal Infinit" (2018)

 A premissa de "Fotbal Infinit" é relativamente simples. Ao ser confrontado com a informação de que Laurentiu Ginghina, o irmão de um amigo, inventou um desporto a partir da alteração das regras do futebol, o realizador Corneliu Porumboiu partiu para Vaslui, a sua terra Natal, acompanhado por uma pequena equipa e imensa curiosidade, tendo em vista a saber um pouco mais sobre o tema. Essa simplicidade é contrastada com a capacidade do cineasta para aproveitar este ponto de partida e as falas do entrevistado para abordar assuntos como as expectativas frustradas, os sonhos por realizar, a burocracia da Roménia, a sensação de imobilidade laboral e a procura de fugir às regras, enquanto se exibe como um excelente entrevistador e co-protagonista. Capaz de fazer as perguntas certas e de captar a realidade de Laurentiu Ginghina, Corneliu Porumboiu conta com algo fundamental para elevar uma entrevista ou um documentário: um entrevistado disponível e interessante. Ginghina expõe diversos pormenores que atribuem vivacidade ao seu discurso, lança-se em quase monólogos que estimulam a nossa curiosidade e a nossa capacidade de imaginar ao mesmo tempo em que demonstra a sua criatividade e obstinação para alterar as regras do futebol ou contribuir para uma espécie de segunda versão deste desporto.

Como surge esta ligação do protagonista ao desporto-rei? Os momentos iniciais do documentário permitem que fiquemos a conhecer um pouco dessa relação, com a figura central de "Fotbal Infinit" a exibir o espaço onde jogava futebol com os amigos durante o Verão e a relatar os episódios que viveu no local, sobretudo um que deixou marcas no seu corpo, em particular, um jogo no qual levou um forte pontapé numa disputa de bola que resultou num perónio partido e na impossibilidade de efectuar os testes para entrar no curso que pretendia. Diga-se que essa lesão contribuiria ainda para outro problema, nomeadamente, uma tíbia partida durante o cumprimento de uma tarefa, um episódio que ocorreu a 31 de Dezembro de 1987, quando esta figura se encontrava a trabalhar numa fábrica. Ginghina relata este acontecimento com detalhe quer através das palavras, quer dos gestos, uma situação particularmente notória quando o encontramos a simular o esforço que teve de fazer para ir a pé do trabalho até casa. É então que "Fotbal Infinit" começa a apresentar-nos as ideias do protagonista para o futebol: o campo perde a sua faceta rectangular e adquire características octogonais, a regra do fora de jogo é repensada, tal como o posicionamento dos jogadores em campo. Todos estes processos têm sido maturados ao longo do tempo e conhecido uma série de avanços e recuos, com estas transformações a estarem umbilicalmente ligadas ao contexto pessoal e profissional de Ginghina. 

25 outubro 2018

Crítica: "Of Fathers and Sons" (2017)

 "O Kathab queria matá-lo. Colocou uma faca no peito do pássaro e ele começou a chiar. Colocámos a cabeça dele para baixo e cortámos, tal como fizeste com aquele homem" diz Osama, um adolescente de treze anos de idade, junto de Abu Osama, o seu pai. O facto de Osama saber que o progenitor cortou a cabeça a alguém e tratar o acto de eliminar a pequena ave como uma brincadeira sublinha e muito o quanto estes elementos estão habituados a lidar com a violência – uma atitude que também remete para o contexto caótico que os rodeia. É Abu Osama e o seu núcleo familiar que ficamos a conhecer em "Of Fathers and Sons", um documentário que se envolve pelo interior de uma família islâmica radical da Síria tendo em vista a captar o quotidiano da mesma e a tentar perceber o que leva alguém a radicalizar-se e a participar num conflito que não parece ter fim à vista. Para ser bem-sucedido nessa tarefa o realizador Talal Derki finge não só que é um repórter fotográfico, mas também que comunga destes ideais radicais – isto enquanto ganha a confiança de Abu Osama, um dos fundadores da Al-Nusra, o "braço" sírio da Al-Qaeda.

Com uma barba farta, crente, conservador nos seus valores, Abu Osama acredita piamente na Xaria e no Califado, é um dedicado pai de família e extremista até ao tutano. Note-se como escolheu os nomes dos seus filhos: Mohammad-Omar em homenagem ao príncipe dos Talibans no Afeganistão; Osama devido ao amor por Osama bin Laden; Ayman em honra do Dr. Ayman Al-Zawari. A felicidade por Mohammad-Omar ter nascido a 11 de Setembro 2007, seis anos após um episódio que o enche de orgulho, também é reveladora do fanatismo deste indivíduo, um pouco à imagem dos seus actos quotidianos. Observe-se quando o encontramos a disparar contra inimigos ou a capturar sunitas em conjunto com outros membros da Al-Nusra, entre outras práticas pontuadas pela violência que marcam as rotinas deste especialista a desarmar armas e a detectar minas. No rádio escuta acima de tudo canções que evocam a sua luta e os seus ideais extremistas, enquanto em casa procura transmitir os seus ideais e valores aos seus filhos. Diga-se que as dinâmicas deste indivíduo com os rebentos e o dia-a-dia dos petizes são alguns dos ingredientes fulcrais do documentário, algo que permite atribuir alguma complexidade a estas figuras.

24 outubro 2018

Crítica: "Les tombeaux sans noms" (2018)

 Rithy Panh sabe utilizar o poder da imagem e da palavra de forma sublime. Se dúvidas existissem, "Les tombeaux sans noms" está aqui para as dissipar por completo, bem como para demonstrar a perícia do cineasta a revisitar as memórias de um passado que ainda se encontra bem vivo no âmago do seu povo. Em determinado momento do documentário encontramos um machado a embater contra uma árvore. Não sai apenas madeira, mas também sangue. É uma maneira simultaneamente poética e dura de Rithy Panh explanar o quanto o território de Trum contém no interior do seu corpo e da sua alma uma série de feridas por sarar. Estas foram abertas pelas várias atrocidades cometidas neste espaço durante o Regime do Khmer Vermelho. Nas suas areias podemos encontrar pedaços de ossos, memórias perdidas, uma certa desilusão e a ilusão de um possível reencontro com os espíritos daqueles cujos corpos foram enterrados em lugar incerto. Foi precisamente para Trum que o cineasta foi deportado em 1976 com a sua família. Onze membros deste núcleo familiar partiram de Phnom Pehn, mas apenas dois elementos sobreviveram, algo que deixou marcas no realizador. Nesse sentido, "Les tombeaux sans noms" resulta em parte da decisão deste regressar ao local para onde foi deportado tendo em vista a efetuar uma busca espiritual e pessoal, enquanto revisita a História do seu país e deste espaço.

No início do filme ficamos perante um ritual que visa um certo contacto com os espíritos. Um contacto que pode ou não acontecer e mexe com o nosso lado mais pragmático, com "Les tombeaux sans noms" a convidar-nos a conhecer uma série de rituais e crenças que remetem não só para a religião, mas também para um profundo desejo de um povo em comunicar com os seus ancestrais, com a sua identidade e sarar feridas profundas. Ao convocar os espíritos, Rithy Panh traz também o passado para o presente. Para isso recorre a entrevistas a alguns dos sobreviventes destes massacres, enquanto exibe ser exímio quer a extrair profundidade do discurso dos entrevistados, quer a utilizar essas palavras bem vivas e descritivas para compelir o espectador a sentir estas memórias quase como se fossem suas. Claro que é impossível de acontecer, até por nunca termos sentido a fome, a dor, a violência e o desespero que estes homens e mulheres sentiram. No entanto, podemos nutrir empatia e perceber o impacto daquilo que visualizamos através destes elementos. As privações, a violência, a morte e o desespero surgem bem patentes nestas falas, bem como a sensação de um certo vazio e uma tristeza própria de quem sentiu na pele as atrocidades cometidas pelos Khmer Vermelhos.

22 outubro 2018

Nove anos de Rick's Cinema

Como explicar a manutenção do Rick's Cinema ao longo de nove anos? A minha estranha paixão pelo cinema está entre os principais motivos, bem como uma enorme vontade de continuar a aprender (seja sobre a Sétima Arte ou a tentar evoluir a nível da escrita), alguma teimosia e a necessidade de me expressar através das palavras escritas. Dessa mistura pouco explosiva resultaram algumas críticas (ou algo que se pareça com isso), diversas entrevistas (uma das quais é o ponto alto destes nove anos de Rick's Cinema), imensas gralhas (as minhas companheiras inseparáveis), erros (os meus compinchas indesejados), alegrias, frustrações (isto nunca vai passar de um hobbie), dúvidas e uma aprendizagem contínua. O grande objectivo passa agora por continuar a manter este espaço até ao décimo aniversário, seja com mais ou menos críticas ou entrevistas. Obrigado a quem tem acompanhado este espaço ao longo deste percurso.

21 outubro 2018

Crítica: "Westwood: Punk, Icon, Activist" (2018)

 Tanto no início como no final de "Westwood: Punk, Icon, Activist" encontramos Vivienne Westwood a exibir algum desconforto ou a apresentar um certo cepticismo em relação aos planos e ideias da realizadora Lorna Tucker para o documentário. Ao entrarmos na página do IMDB do filme somos colocados perante a informação de que a estilista esteve longe de apreciar a obra, algo expresso na sua conta do Twitter: "Lorna Tucker asked to film Vivienne's activism and followed her around for a couple of years, but there's not even five minutes activism in the film, instead there's lots of old fashion footage which is free and available online. It's a shame because the film is mediocre, and Vivienne and Andreas are not". O que não surpreende. Embora contenha informação digna de algum interesse sobre o percurso de Vivienne Westwood, o documentário apresenta uma estrutura algo convencional e pouco estimulante, com estas características a contrastarem de maneira gritante com a primeira. É o "documentário Wikipedia", que procura dizer um pouco de tudo e muitas das vezes acaba por não aprofundar nada, embora a espaços até consiga prender a atenção e expor a relevância da protagonista. No entanto, sabe a pouco, sobretudo quando estamos diante de uma fita sobre uma figura tão icónica e provocadora como Vivienne Westwood. 

Com uma mescla de entrevistas à estilista e a alguns elementos que contactam regularmente com a mesma, vídeos de arquivo (tais como trechos de desfiles), fotografias e momentos filmados durante a elaboração do documentário, "Westwood: Punk, Icon, Activist" aborda diversos episódios de relevo da vida da grande dama do Punk Rock, sejam estes relacionados com a sua curta presença na Faculdade de Arte de Harrow, o casamento e divórcio com Derek Westwood, a união com Malcom McLaren (que viria a ser o seu sócio) e o início da caminhada no mundo na moda (através de uma loja que mudou imensas vezes de nome), as roupas para os Sex Pistols e o seu papel de relevo para a cultura punk. Lorna Tucker inclui ainda elementos sobre a ida da artista para Viena, a colaboração com Andreas Kronthaler (aluno desta e futuro esposo), os revezes, a troça da crítica, o reconhecimento e o sucesso ao ponto desta procurar controlar o crescimento da sua marca, entre outros acontecimentos. Diga-se que as tentativas que a estilista efectua para impedir que a marca fuja ao seu controlo permitem sublinhar a personalidade vincada e os fortes valores desta figura e surgem como alguns dos elementos mais interessantes de "Westwood: Punk, Icon, Activist". 

17 outubro 2018

Crítica: "Paraíso Perdido" (2018)

 A boa notícia sobre as excessivas reviravoltas de "Paraíso Perdido" é que em algumas situações somos surpreendidos pelas mesmas. A má notícia é que essa estupefacção acontece precisamente por não estarmos à espera de algo que ofenda tanto a nossa inteligência. Alguns twists até funcionam, mas a certa altura parece que estamos a entrar no interior de uma paródia cujo objectivo passa pelos personagens terem mais ligações familiares entre si do que as figuras que pontuam a saga "Star Wars". É certo que o romantismo piroso que permeia o ambiente da fita a espaços ajuda a baixar o nosso pragmatismo no que diz respeito às reviravoltas, ou em relação à redundância de alguns diálogos. No entanto, não ajuda a escamotear a superficialidade com que boa parte das temáticas são abordadas ou o modo pouco harmonioso como uma miríade subtramas e figuras são introduzidas e começam a retirar peso umas às outras. O que não deixa de ser uma oportunidade perdida, ou não estivéssemos perante uma obra que conta no elenco com nomes tão talentosos como Júlio Andrade, Marjorie Estiano, Erasmo Carlos, Seu Jorge, entre outros, embora poucos tenham matéria-prima para trabalhar, com a realizadora e argumentista Monique Gardenberg a apostar no estilo e a deixar regularmente de lado a substância.

"Esqueçam a vida lá fora. Esqueçam quem são ou o que voltarão a ser amanhã e sejam felizes aqui, o Paraíso Perdido, o lugar para aqueles que sabem amar", diz José (Erasmo Carlos), o dono do clube nocturno do título. Marcado por uma profusão de luzes de cores que sublinham a multitude de sentimentos que percorrem o seu interior, o estabelecimento surge como um espaço onde o tom vermelho tanto simboliza paixão como perigo, enquanto o azul incute uma certa melancolia e o verde traz a esperança de que alguns personagens podem vir a ser felizes. Após a apresentação, logo ficamos perante Eva (Hermila Guedes), grávida e visivelmente ferida, a cometer um assassinato. Pouco depois, o enredo avança no tempo e somos colocados quer diante de um número musical protagonizado por Imã (Jaloo) no clube nocturno do título, quer do polícia Odair (Lee Taylor) a abordar Teylor (Seu Jorge) numa operação stop. Este último menciona que é cantor e convida o agente da autoridade a assistir a um espectáculo no Paraíso Perdido. Pouco depois, encontramos o polícia a deparar-se com uma agressão a Imã nas imediações do espaço do título e a ser contratado por José para ser segurança do seu neto. E assim ficamos desde cedo perante um dos problemas de "Paraíso Perdido", nomeadamente, a sua incapacidade para deixar os episódios que apresenta respirarem ou ganharem peso no interior do enredo, enquanto somos expostos aos diversos personagens e às diversas ligações que têm entre si.

14 outubro 2018

Crítica: "Nelyubov" (Loveless - Sem Amor)

 Angustiante, emocionalmente devastador e extremamente preciso na abordagem das suas temáticas, "Nelyubov" envolve-nos pelo interior de um matrimónio a conhecer o seu ocaso e de um desaparecimento que traz ao de cima uma série de especificidades da sociedade russa. Diga-se que essas particularidades são reunidas no interior de uma miríade de temas amplamente universais. Um desses assuntos é a alienação no espaço urbano, o isolamento a que estamos sujeitos e ao qual nos sujeitamos, enquanto aceitamos a frivolidade como algo banal e deixamos os sentimentos calorosos à deriva num mar de incertezas. Outro desses temas é a dicotomia entre o ser e o parecer, com a apetência que vários personagens demonstram para captarem uma felicidade artificial ou lampejos de alegria para colocarem nas redes sociais e assim criarem uma imagem radiante das suas pessoas a contrastar com um quotidiano mais cinzento e desprovido de emoção. Uma dessas personagens é Zhenya (Maryana Spivak), uma mulher que se encontra prestes a divorciar de Boris (Aleksey Rozin), de quem tem um filho, Alyosha (Matvey Novikov), um jovem de doze anos de idade.

O ressentimento, a frustração e a aspereza marcam uma fatia considerável das falas trocadas por Zhenya e Boris, com ambos a tentarem livrar-se da responsabilidade de cuidar de Alyosha. Tanto ele como ela encaram o rapaz como um fardo, como um símbolo de uma relação falhada e uma recordação viva de anos que consideram irremediavelmente perdidos, algo que expressam através dos gestos e das palavras. O casal encontra-se ainda a tentar vender a casa, com estes dois personagens a demonstrarem por diversas vezes que não convivem bem com as marcas que produziram durante o tempo em que estiveram juntos. A certa altura do filme, encontramos os dois cônjuges a discutirem, a colocarem em palavras o quanto estão afastados e a exibirem uma notória falta de vontade em permanecerem com a guarda do filho. Se estes fazem questão de se esquecer do rapaz, já a câmara de filmar segue o caminho diametralmente oposto e efectua um desvio que resulta num dos momentos mais poderosos do filme, em que um choro compulsivo é silenciado e abafado, quase que a remeter para a invisibilidade de Alyosha junto dos pais. Matvey Novikov transmite a dor do seu personagem e a falta de calor humano que recebe dos progenitores, com os poucos trechos em que está presente a permitirem expor o efeito que os comportamentos dos pais provocam nos filhos.

13 outubro 2018

Crítica: "Como Fernando Pessoa Salvou Portugal" (2018)

 Com um sentido de humor muito peculiar, uma elegância notória na composição dos planos e um cuidado no figurino que permite transportar-nos para o Portugal do final da década de 20, "Como Fernando Pessoa Salvou Portugal" coloca-nos perante o episódio em que o poeta do título é designado para elaborar um slogan para a Coca-Louca. Nesta fase, o escritor trabalhava numa agência de publicidade e criou o célebre slogan para a Coca-Cola que perdurou no tempo e ainda é recordado, em particular, "Primeiro estranha-se, depois entranha-se". Provavelmente impedido de utilizar o nome da Coca-Cola devido a uma questão de direitos, o realizador e argumentista Eugène Green altera a nomenclatura do produto, mas mantém o seu visual e essência, enquanto aborda, sempre com algum humor à mistura, os motivos que levaram o poeta a criar o slogan, o impacto que este provocou e a procura do Estado em impedir que a bebida chegasse a Portugal. O cineasta expõe estes episódios de forma concisa e leve, enquanto despe praticamente os intérpretes de emoções, coloca-os no centro dos planos (um recurso semelhante ao utilizado em "A Religiosa Portuguesa") e permite que estes sobressaiam, sobretudo Carloto Cotta.

11 outubro 2018

Entrevista a F.J. Ossang sobre "9 Doigts"

 Escritor, músico e cineasta, F.J. Ossang conta com uma série de obras de respeito, tais como "9 Doigts", a sua nova longa-metragem, um noir com ingredientes de aventura marítima. O realizador esteve em Portugal para promover o filme, algo que foi encarado pelo Rick's Cinema como uma oportunidade única para entrevistá-lo. A entrevista decorreu no interior dos escritórios da O Som e a Fúria, a co-produtora da fita, tendo sido marcada pela disponibilidade, simpatia e expressividade desta figura singular do cinema francês. Ossang começou por salientar que fala francês, inglês e espanhol. Ainda sabia falar um pouco da nossa língua, ainda que, como salientou, "em Madrid e sobretudo na América do Sul perdi o meu português" (risos). No entanto a presença nos Açores não foi esquecida, "Fui pela primeira primeira vez aos Açores em 1988. Em 1989 filmei 'Le trésor des îles chiennes', em Cinemascope, a preto e branco. O filme vai ser restaurado. Sou fascinado pelos Açores. A reunião entre os três continentes. Nesses tempos era muito mais difícil do que agora, nomeadamente, do ponto de vista material. Mas fui muito feliz. Então, voltei para os Açores para filmar o meu primeiro filme neste espaço, 'Dharma Guns', também em preto e branco".

Outro dos territórios onde "9 Doigts" foi filmado é Biarritz. Em entrevista ao canal do International Film Festival Rotterdam, F.J. Ossang realçou o clima tempestuoso deste lugar, algo que nos levou a querer saber um pouco mais. De acordo com o cineasta, "Já estava presente no argumento que precisávamos de temperatura de inverno. Por acaso filmámos em Biarritz. O filme entrou em produção e tivemos de começar a filmar rapidamente. Não podíamos perder dinheiro. Nós filmámos duas semanas em França. O tempo era terrível. Para ires de carro de Paris a Biarritz tinhas de fazer três ou quatro quilómetros a mais. As inundações eram imensas. No entanto, a tempestade foi muito boa para o filme". Ainda no campo dos líquidos e da Sétima Arte, decidimos colocar o realizador perante o célebre comentário que efectuou ao À Pala de Walsh, em particular, "o verdadeiro cinema é como gin tónico" e questioná-lo sobre a preparação desta bebida noir com ecos de aventura marítima: "Para mim o bom cinema, aquele que eu gosto, é como um psicotrópico. Coloca-te em outro estado, um pouco como o álcool. Eu gosto bastante de cinema. Algumas boas ideias dos meus filmes resultam frequentemente de beber duas noites. E, depois, começo a escrever (enquanto isso, simula de forma bem viva o processo de escrever). Por vezes, é bom. Desta vez tinha de me apressar, pois tinha uma semana para terminar. Saiu do fundo do coração, da minha alma. Decidi fazer um filme sobre barcos porque sempre fui fascinado pelas histórias do capitão Frederick Marryat e de Joseph Conrad, então no '9 Doigts' existe quase sempre um grande fantasma a um canto, o Marryat".

10 outubro 2018

Crítica: "9 Doigts" (9 Dedos)

 "É preciso uma autoridade! Algo que mande no Tempo, senão o tempo estende-se! Nós é que temos de nos impor a ele!" comenta Ferrante (Pascal Greggory) num estado visivelmente alterado quer pelos revezes de uma viagem que adensa a paranóia, quer pelo álcool que consumiu em excesso. Se este gangster anseia por algo que controle o tempo, já F. J. Ossang demonstra ser exímio nesta tarefa. Hábil a transmitir a rapidez e a intensidade com que os personagens sentem tudo o que ocorre no primeiro acto de "9 Doigts", o realizador é igualmente competente a explanar a lentidão com que as figuras que percorrem o enredo vivem os episódios do segundo e terceiro acto. Essa sensação de tempo está indubitavelmente associada ao espaço. Note-se como no segundo e terceiro acto a presença prolongada de uma parte considerável dos personagens no interior de um barco contribui para exponenciar todo um ambiente de imobilidade e incerteza. Fora do veículo marítimo, em particular, no primeiro acto, tudo decorre com mais ritmo, seja pelas perseguições e fugas, ou pelo contacto de Magloire (Paul Hamy), o protagonista, com o gang liderado por Kurtz (Damien Bonnard). Mais do que tomar a iniciativa dos acontecimentos, Magloire depara-se com uma série de eventos que mexem com o seu quotidiano sem rumo, sobretudo a partir do momento em que encontra um indivíduo prestes a falecer.

O moribundo entrega vinte mil dólares ao protagonista e logo o avisa para fugir. Com mais dinheiro no bolso, Magloire começa a correr desenfreadamente, enquanto é perseguido por um grupo de criminosos. São trechos pontuados por alguma tensão e uma utilização sublime do contraste entre luz e sombras ao serviço do enredo, ou não estivéssemos diante de uma obra marcada por uma série de ingredientes associados aos filmes noir. Não faltam as sombras salientes e vincadas, dignas herdeiras do expressionismo e capazes de adensarem a inquietação e a sensação de malaise, os personagens de moral ambígua, a insegurança no espaço citadino, os ângulos de câmara que acentuam a inquietação, o fumo dos cigarros que exacerba a fugacidade e a transitoriedade da vida. Diga-se que a influência dos noir é notória em diversas situações que parecem surgir como referências a outras fitas, sejam estas menções propositadas ou casuais. Observe-se o aquário que cedo traz "The Lady From Shanghai" à memória, ou uma fuga à "The Third Man", ou uma ameaça atómica que muito tem de "Kiss Me Deadly". Temos ainda um assalto e um grupo de criminosos que faz recordar ao de leve alguns noir franceses, tais como "Rififi", ou diversas fitas de Jean-Pierre Melville. No entanto, pese a miríade de referências que já foram inseridas no texto, "9 Doigts" é filme com vida própria. E que vida estranha e inebriante tem esta obra.

06 outubro 2018

Crítica: "Joaquim" (2017)

 O que leva alguém a desafiar o sistema? Como surge a tomada de consciência de alguém em relação ao mundo que o rodeia? Estas são perguntas a que "Joaquim" procura responder através da figura do título, com Marcelo Gomes a deixar-nos perante um filme sobre o passado e o presente do Brasil. O enredo tem lugar em pleno Século XVIII. No entanto, a sociedade que é apresentada permite que encontremos traços de problemas e especificidades que marcam esta Nação nos dias de hoje, algo particularmente notório quando somos confrontados com a corrupção e as desigualdades promovidas pela Coroa de Portugal no interior do território canarinho. O realizador e argumentista Marcelo Gomes foge aos caminhos fáceis e previsíveis. Não temos uma obra de pendor biográfico que abarca um período alargado da vida de Tiradentes, ou uma representação do mesmo como uma figura messiânica, ou o culminar do enredo com o auge da conhecida Inconfidência Mineira. Marcelo Gomes prefere concentrar as suas atenções num período específico da existência de Joaquim José da Silva Xavier, em particular, os momentos que antecederam a sua tomada de consciência, enquanto efectua um retrato complexo desta personalidade histórica.

Júlio Machado consegue expressar as dúvidas, defeitos, virtudes e contradições do seu Joaquim, um dentista e alferes que tem como principal função capturar contrabandistas de ouro em Minas Gerais. Com longos e descuidados cabelos compridos, muitos deles recheados de piolhos, Joaquim diz que é filho de portugueses, mas sabe que não tem os mesmos benefícios dos mesmos. Essas discrepâncias são desde logo visíveis a partir da figura de Manoel (Miguel Pinheiro), um alferes corrupto que acompanha o protagonista na caça aos contrabandistas e demonstra uma certa sobranceria e desprezo para com este e os locais, tendo mais hipóteses de ser promovido do que o segundo devido a ser português. É um exemplo paradigmático de uma sociedade estratificada e recheada de assimetrias, que promove as desigualdades e parece esquecer-se que contém no seu interior uma enorme diversidade. No topo dos cargos de poder e chefia encontramos os portugueses, sendo seguidos dos brasileiros, enquanto os mestiços ocupam uma posição mais baixa que estes últimos. Por sua vez, os escravos negros e os indígenas são tratados quase como mercadoria, com o argumento a explorar o quanto esta estrutura delineada pelos colonizadores contribui para fomentar as desigualdades e o racismo, algo que, em certa medida, permite efectuar um diálogo com as assimetrias do Brasil de hoje.

03 outubro 2018

Crítica: "Thelma" (2017)

 Drama poderoso e inquietante, que se embrenha pelo terror e a fantasia, "Thelma" deixa-nos perante uma jovem adulta que se encontra a descobrir a sua sexualidade e o seu corpo, a lidar com uma série de sentimentos e sensações contraditórias, bem como a enfrentar o despertar de poderes que se encontravam adormecidos e aparecem ao sabor do desejo, da liberdade e da culpa. O prólogo é fulcral para Joachim Trier marcar o tom enigmático e tenso do filme, com o cineasta a colocar-nos diante de um episódio da infância da personagem do título. No trecho mencionado, encontramos Thelma (Grethe Eltervåg) e o pai no interior de uma floresta recheada de neve, enquanto este se prepara para caçar um cervo. A presença da neve e a profusão de tonalidades frias tanto reforçam a hostilidade do cenário como transmitem uma certa sensação de pureza, algo que contrasta com o casaco vermelho da protagonista, uma cor forte e exacerbadora do perigo, com esta discrepância tonal entre a frieza e o calor a sublinhar o mistério e a sensação de ameaça que rodeiam os momentos iniciais do filme.

Essa ameaça é reforçada quando Trond muda de alvo. Inicialmente focado no cervo, o pai da protagonista desloca o olhar e a espingarda na direcção da filha, um acto que explana de forma paradigmática o desejo de eliminar a petiz. O que leva um pai a ponderar assassinar o seu rebento? É uma pergunta que colocamos e é respondida com o avançar do enredo, sobretudo a partir de uma fase em que ficamos na posse de mais elementos sobre os personagens e o seu passado. O trabalho de Jakob Ihre na cinematografia é essencial para exacerbar a inquietação e mistério que percorrem o prólogo e o restante enredo. Note-se o plano geral que nos deixa diante de Trond, Thelma, o cervo, a neve e a tentação, ou a eficácia com que o director de fotografia realça as cores frias que adensam a hostilidade do território onde se desenrola o trecho inicial do filme. A tonalidade vermelha da roupa de Thelma aparece como um elo de ligação entre o prólogo e o episódio seguinte da fita, nomeadamente, quando ficamos diante da protagonista a deslocar-se até à universidade, onde se prepara para assistir a uma aula.

01 outubro 2018

Entrevista a Guilherme Daniel sobre "A Estranha Casa na Bruma"

 "A Estranha Casa na Bruma" venceu o Prémio de Melhor Curta de Terror Portuguesa/Méliès d'Argent na edição de 2018 do MOTELx. A curta-metragem vai estrear em circuito comercial ao lado de "Thelma", a nova longa-metragem de Joachim Trier. O Rick's Cinema aproveitou a ocasião proporcionada por este lançamento Cinema Bold para entrevistar o realizador da curta, Guilherme Daniel. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a escolha dos cenários, o que foi mantido e alterado do conto "The Strange High House in the Mist", entre outros temas.  

Rick's Cinema: O quanto é que existe de "The Strange High House in the Mist" e de H.P. Lovecraft no interior de "A Estranha Casa na Bruma"? O que o atraiu no conto?

Guilherme Daniel: O que me atraiu neste conto foi uma ambiência pesada de mistério e um sentido de suspense carregado, principalmente na aproximação da personagem principal à casa e aquando da visita inesperada. Nestes momentos tentamos ser bastante fieis ao conto. Onde ele se afasta é essencialmente na definição da personagem principal, que Lovecraft define como um homem de pensamento racional, e que a mim me interessava mais retratar como um homem de profunda crença religiosa. Esta mudança redefiniu o início e o fim da história, mas ao mesmo tempo penso que se mantêm fieis ao espírito original.
 
RC: Pontuado por cores frias, nevoeiro, árvores despidas e uma certa hostilidade, o território que rodeia a casa contribui para o ambiente enigmático e a espaços algo inquietante que permeia o filme, um pouco à imagem do interior da habitação. Como é que decorreu o processo de selecção e decoração dos cenários? O quanto é que a sua experiência como director de fotografia contribuiu para a eficiência com que expressa as particularidades destes espaços e cria o ambiente que marca "A Estranha Casa na Bruma"?

GD: A maior dificuldade na escolha dos cenários foi de uma questão prática - o local onde construiríamos a casa, que necessitávamos que oferecesse determinadas condições de segurança, para além de proporcionar o efeito de abismo desejado. A envolvência da casa também era importante, daí termos procurado uma floresta para a cena inicial que oferecesse essa hostilidade e ao mesmo tempo nos remetesse para um espaço irreal. Admito que tive algum conflito interno em filmar numa zona ardida do Pinhal de Leiria, como se de alguma forma me tivesse a "aproveitar" da tragédia, mas era de facto o ideal para o filme e em coordenação com as autoridades locais tudo correu pelo melhor.
Houve um trabalho conjunto entre a fotografia e a direcção de arte (Raquel Santos) de forma a criar uma palete para o filme com um jogo de cor que diferenciasse o mundo real e o que está para lá do que os olhos da personagem alcançam, e penso que é a partir deste trabalho que o filme cresce.

Crítica: "Mr Gay Syria" (2017)

 O título de "Mr Gay Syria" remete para um concurso organizado por Mahmoud Hassino, um jornalista e activista que fundou o movimento LGBTI da Síria. O vencedor tem de se deslocar a Malta e participar no Gay World, um evento que é encarado por Mahmoud como uma possibilidade única para despertar a atenção sobre a situação complicada em que se encontram os refugiados LGBTI sírios e defender a sua causa, algo exposto ao longo do documentário. Também ele um refugiado, o jornalista desloca-se da Alemanha, onde está instalado, para a Turquia, tendo em vista a reunir-se com alguns membros da comunidade síria que se encontram no local. Entre esses elementos encontra-se Husein, outra das figuras centrais do filme, um cabeleireiro de vinte e quatro anos de idade que fugiu da Guerra na Síria, embora tenha de enfrentar um conflito deveras intrincado. Como assumir a homossexualidade no interior de uma sociedade conservadora? É uma questão que apoquenta este indivíduo que é praticamente obrigado a protagonizar uma vida dupla.

Durante seis dias da semana, nomeadamente, aqueles em que se encontra a trabalhar, Husein lida com as limitações inerentes ao conservadorismo da sociedade turca, embora encontre algum conforto junto da comunidade LGBTQI síria, onde exprime as suas ansiedades, dúvidas, anseios e motivações. Na folga, tem de se deslocar para junto da esposa, da filha e dos progenitores, algo que o atormenta e inquieta. Coragem e desespero surgem como algumas das motivações de Husein para participar no Mr Gay Syria, tendo a companhia de diversos elementos que lhe são próximos. Note-se o caso de Omar, um cozinheiro que anseia reunir-se com o marido na Noruega, ou de Wissam, um indivíduo com uma barba farta e um talento peculiar para a dança. Uma parte considerável do primeiro terço do documentário centra-se na apresentação destas figuras, com especial incidência em Mahmoud e Husein, bem como nos preparativos para o concurso. O desenrolar do evento conta com música, dança e um momento emotivo protagonizado pelo barbeiro. Este vence o concurso, mas começa desde logo a temer as repercussões da vitória, em particular, a possibilidade dos pais descobrirem que é homossexual.