30 setembro 2018

Crítica: "Ninna Nanna Prigioniera" (2016)

 Como criar os filhos no interior da prisão? É preferível deixar os petizes em cativeiro ao lado do pai ou da mãe, ou entregá-los temporariamente a familiares ou à assistência social? Será possível manter crianças no interior de um espaço fechado e recheado de grades? Estas são perguntas que percorrem "Ninna Nanna Prigioniera" e a mente de Yasmina, uma reclusa que se encontra detida no interior de uma prisão de segurança mínima, tendo a companhia dos seus filhos mais novos, Lolita e Diego. Armando, o filho mais velho da figura central do documentário, encontra-se a viver na casa da avó, enquanto Donato, o esposo da detida e progenitor dos rebentos, está "entre trabalhos" e praticamente nunca o chegamos a conhecer. A lei italiana permite que os jovens até aos três anos de idade possam permanecer com as progenitoras na prisão, uma medida que visa evitar cortar os laços entre pais e filhos, embora careça de condições para ser colocada em prática, algo exposto pela realizadora Rossella Schillaci ao longo do filme. A cineasta envolve-se de forma simples e eficaz pelo quotidiano repetitivo do trio, ao mesmo tempo em que aflora assuntos relacionados com o sistema prisional italiano, a maternidade, a infância e dá a conhecer um pouco de Yasmina, Lolita e Diego.

Inicialmente, "Ninna Nanna Prigioniera" procura sobretudo despertar o nosso lado observador. Note-se a exposição de alguns momentos do quotidiano desta família no interior da prisão. Posteriormente, Rossella Schillaci procura informar, sobretudo a partir do momento em que deixa a prisioneira falar e expor aquilo que percorre a sua mente, seja quando está isolada ou na companhia da sua advogada ou dos rebentos. Presa devido a ter furtado uma habitação, Yasmina pretende ser destacada para prisão domiciliar e assim poder ficar ao lado dos filhos. No entanto, a pretensão da protagonista está dependente da decisão do juiz, algo que a apoquenta. O que também coloca a mente de Yasmina num desassossego é a crescente necessidade de Lolita e Diego saírem da prisão e extravasarem as suas emoções. Um dos poucos jovens com quem a rapariga contacta regularmente é Samuel, o filho de uma reclusa, tendo nas saídas diárias à creche um dos parcos meios de libertação. Note-se quando a encontramos a espreitar atentamente a partir da janela da creche, ou entusiasmada durante a viagem, com "Ninna Nanna Prigioniera" a captar a necessidade das crianças expandirem a energia e o quanto sentem as especificidades do meio que as rodeia.

Na prisão, Lolita brinca em espaços maioritariamente fechados, com a presença das grades a ser sentida e a exacerbar a falta de liberdade no interior deste lugar. Quem cometeu o crime não foram os petizes, embora à mesma habitem no espaço fechado da prisão. Parece óbvio que não é o lugar mais saudável para viverem e crescerem. No entanto, também é notório que estes precisam da progenitora e mantêm uma relação de proximidade com a mesma. A espaços gostaríamos de conhecer um pouco mais sobre esta figura, em particular, sobre o seu passado e o seu convívio com outros elementos no interior da prisão, embora o documentário aborde estes assuntos pela superfície. Diga-se que Rossella Schillaci nem sempre aprofunda as temáticas ou situações que lança no interior do enredo. Observe-se quando encontramos algumas reclusas a protestarem contra a falta de condições do estabelecimento prisional, algo que é exposto com a mesma rapidez que é descartado, embora as rotinas da protagonista permitam dar a perceber que este lugar está longe de corresponder às necessidades das detidas.

Em determinado ponto do filme, podemos encontrar Yasmina a exibir alguma tristeza devido ao facto do filho associá-la à clausura e encarar os elementos que o levam para a creche como figuras que o transportam temporariamente para a liberdade. É notório que percebe que os petizes necessitam de mais liberdade, embora relute em deixar que os mesmos sigam outro rumo. Ela própria não esconde o entusiasmo por rever uma série de lojas quando sai temporariamente da prisão, um acto que seria banal em outras ocasiões, apesar de ganhar características especiais devido ao contexto em que é efectuado. A hipótese de perder o convívio com os filhos ou o facto de sentir um desconforto crescente nos mesmos apoquenta-a e revolta-a, enquanto começa a exibir uma certa impaciência. Ao longo de "Ninna Nanna Prigioniera" somos colocados perante os dilemas desta mulher, bem como diante da sua relação com os filhos, com a sua história particular a permitir que Rossella Schillaci se envolva por assuntos mais abrangentes, sejam estes os laços familiares, as condições das prisões, a eficácia ou ineficácia destes espaços para a posterior reintegração dos reclusos na vida pública, a educação das crianças, entre outros.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da edição de 2018 do Olhares do Mediterrâneo para a Take Cinema Magazine.

Título original: "Ninna Nanna Prigioniera".
Realizadora: Rossella Schillaci.
Argumento: Rossella Schillaci e Chiara Cremaschi.
Fotografia: Stefania Bona.
Produtores: Simone Catania e Jerome Wiciak.

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