17 agosto 2018

Crítica: "An" (Uma Pastelaria em Tóquio)

 Dotado de enorme sensibilidade e lirismo, "An" (Uma Pastelaria em Tóquio) é um filme terno, que enche a alma, comove, segue em sentido contrário aos ritmos acelerados do nosso quotidiano e concede uma atenção notável aos pormenores. Não é fast food aquilo que Naomi Kawase serve ao espectador, bem pelo contrário, com a cineasta a confeccionar um drama recheado de alguma doçura, delicadeza e imensas doses de humanidade, que aborda com sobriedade temáticas como a solidão, a busca por um sentido para a vida, o sentimento de culpa, a procura da felicidade, os preconceitos e a amizade. A banda sonora sublinha essa delicadeza, sendo capaz de realçar a vulnerabilidade, a solitude e a afabilidade de Sentaro (Masatoshi Nagase), Tokue (Kirin Kiki) e Wakana (Kyara Uchida). As dinâmicas destes três personagens são expostas e desenvolvidas com uma sensibilidade assinalável, tal como os traços da personalidade de cada um e os episódios que protagonizam, com a realizadora a deslindar gradualmente alguns segredos que envolvem o passado e o presente dos dois primeiros.

Masatoshi Nagase insere um tom inicialmente circunspecto ao seu Sentaro, o gerente de uma pequena pastelaria de rua, situada em Tóquio. O estabelecimento apenas vende dorayakis, tendo como clientes uma série de elementos que habitam as redondezas e estudantes, tais como a jovem Wakana. Esta vive num meio intrincado, é relativamente solitária, formou amizade com Sentaro e pondera começar a trabalhar no estabelecimento deste indivíduo. Quem também pretende laborar nesta diminuta pastelaria é Tokue, uma veterana que se encontra prestes a completar setenta e seis anos de idade. Kirin Kiki é a alma e o coração do filme. A intérprete incute uma personalidade doce, amável, gentil e poética à sua Tokue. As mãos desta personagem estão visivelmente desgastadas e exibem as marcas de uma doença, a sua alma é de uma generosidade assinalável e os seus gestos e as suas falas demonstram a maneira muito própria como esta observa os espaços que a rodeiam. Observe-se a curiosidade que manifesta para saber quem plantou a cerejeira que rodeia o estabelecimento de Sentaro, ou o modo peculiar como dialoga com as folhas e tenta entender os seus movimentos. O argumento estabelece estes traços da personagem de modo bastante natural, sem resvalar para a caricatura ou pieguice, um pouco à imagem da forma como desenvolve a ligação da veterana com o gerente da pastelaria.

Inicialmente é notório que Sentaro não leva a candidatura de Tokue a sério. Naomi Kawase evita facilitismos e prefere criar algo que gradualmente se torna especial, com o respeito mútuo que se forma entre os dois personagens a transformar-se em amizade. Os dois contam com segredos que não vamos aqui revelar e problemas no passado, são algo solitários e procuram dar um sentido às suas vidas. O que terá levado Tokue a candidatar-se a um emprego mal pago nesta pastelaria? É uma pergunta que nos colocamos. Parece notório que esta procura sentir-se útil e precisa de algo que a preencha. Por sua vez, Sentaro precisa de ajuda. O que motiva alguém que não gosta de doces a gerir uma loja de dorayakis? Este procura encontrar o seu rumo e fechar contas com o passado, tendo na chegada da veterana um momento de mudança para o seu estabelecimento. É esta quem ensina o protagonista a fazer o an, a pasta de feijão azuki que serve de recheio a este doce japonês, uma arte que demora tempo, sobretudo quando efectuada com o cuidado colocado pela personagem interpretada por Kirin Kiki. Diga-se que Naomi Kawase incute uma certa beleza e poesia ao modo como o an é confeccionado, enquanto transmite o tempo que Tokue demora a preparar todos os elementos e o carinho e a alma que ela coloca para criar algo de especial.

"Temos de deixar os feijões habituarem-se ao doce (...) É como um primeiro encontro, o casal precisa de se familiarizar" comenta a personagem interpretada por Kirin Kiki junto do seu chefe, enquanto este procura beber os conhecimentos da sua funcionária. Ficamos perante uma das várias falas que colocam em evidência a visão muito particular que Tokue tem da vida e de tudo aquilo que a rodeia, algo que transporta para o interior da cozinha da pastelaria, um espaço que se afasta dos ritmos apressados das cozinhas sem alma e personalidade de algumas grandes cadeias de fast food. Por momentos quase que sentimos o sabor do an e os aromas que permeiam este estabelecimento, com "An" a conceder tempo para percebermos os cuidados que envolvem as rotinas no interior desta cozinha a partir do momento em que Tokue entra em cena. Masatoshi Nagase deixa patente o agrado que o seu personagem sente pela presença da veterana e pelo sucesso de vendas destes bolos a partir do momento em que esta efectua o an, mas também as tormentas deste indivíduo. Diga-se que esta felicidade não dura muito tempo, embora a humanidade do trio esteja presente em diversos trechos do filme. Veja-se o momento em que observamos Sentaro e Wakana a visitarem Tokue ao espaço onde esta habita, com o trio a formar uma ligação forte e extremamente convincente.

O argumento desenvolve essa ligação e beneficia do trabalho imaculado dos intérpretes, enquanto a cinematografia sobressai pela sobriedade. Note-se a capacidade de captar e transmitir poesia e a passagem do tempo a partir da natureza, sobretudo através das cerejeiras (tanto as suas folhas ou flores), ou o modo observacional e delicado com que são expostos gestos aparentemente simples mas que dizem muito sobre os personagens, tais como as suas acções na cozinha. Diga-se que este destaque atribuído às cerejeiras não acontece ao acaso, com a flor desta árvore a simbolizar pureza e a efemeridade da vida, dois significados que podem ser associados às dinâmicas de Sentaro, Tokue e Wakana, bem como aos diversos episódios que povoam o enredo. Já o espaço onde a idosa habita permite colocar em evidência um lado menos positivo de certas políticas japonesas e realçar que a vivência neste local contribuiu para a forma como Tokue encara o mundo que a rodeia. As falas proferidas por esta personagem e a sua personalidade reflectem na perfeição a delicadeza e a bondade que o argumento incute a Tokue, com "An" a comprovar de forma paradigmática a sensibilidade da sua realizadora e a sua capacidade para criar um drama terno e extremamente humano.

Título original: "An".
Título em Portugal: "Uma Pastelaria em Tóquio".
Realizadora: Naomi Kawase.
Argumento: Naomi Kawase (inspirado no livro "An" de Durian Sukegawa).
Elenco: Kirin Kiki, Masatoshi Nagase, Kyara Uchida.

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