21 agosto 2018

Crítica: "Frantz" (2016)

 Não falta a abordagem a assuntos relacionados com o luto, a morte, o amor, a mentira, a guerra, a intolerância e os nacionalismos em "Frantz", uma envolvente e requintada adaptação da peça "L'homme que j'ai tué" de Maurice Rostand (que já tinha servido de material para "Broken Lullaby", no qual este filme também retira inspiração). François Ozon mexe estes ingredientes com habilidade, enquanto explora os sentimentos contraditórios e intrincados que perpassam pela mente e a alma da dupla de protagonistas, sempre tendo como pano de fundo o contexto delicado do período após a I Guerra Mundial. Nos momentos iniciais do filme ficamos perante uma legenda que indica que estamos em 1919, em Quedlinburg, com "Frantz" a transportar-nos para o interior dos derrotados, de uma pequena cidade alemã onde é possível perceber que existe todo um sentimento nacionalista e revanchista muito forte em alguns sectores da sociedade. Imensas vidas foram perdidas, vários soldados regressaram estropiados, diversos territórios foram destruídos e o Tratado de Versalhes contribuiu para exacerbar um sentimento de revolta devido às fortes medidas punitivas para com a Alemanha. O sofrimento pelas perdas também é notório, que o diga Anna (Paula Beer), a protagonista, uma mulher que perdeu o noivo nos palcos franceses do conflito.

Com uma idade a rondar os vinte anos, Anna vive na casa de Hans (Ernst Stötzner) e Magda (Marie Gruber), os pais de Frantz, com o trio a encontrar-se a enfrentar a dor provocada pela morte deste último. Hans é um médico respeitado, de feições algo rígidas e marcado por um forte sentimento anti-francês, fruto do filho ter sido morto em terras gaulesas. Também Magda sofre com a ausência permanente de Frantz, embora exiba uma postura mais afável e maternal. O quotidiano do trio sofre um abanão com a entrada em cena de Adrien (Pierre Niney), um francês misterioso, que começa por deixar flores no túmulo do personagem do título, até entrar em contacto com Hans. O veterano rejeita falar com o violinista e antigo soldado, mas Magda e Anna logo tentam entrar em contacto com o mesmo, sobretudo por acreditarem que este era amigo do falecido. Inicialmente não sabemos se aquilo que este fala é verdade ou mentira, mas o que é certo é que as suas descrições bem vivas sobre Frantz parecem trazer algum conforto a esta família, inclusive a Hans, com Pierre Niney a inserir um tom simultaneamente atormentado, frágil e confiável ao seu Adrien. François Ozon joga com o mistério em redor de Adrien. Será um amigo de Frantz? Estaremos perante o soldado que matou o personagem do título? Terá mantido um caso com o noivo de Anna? São imensas dúvidas que contribuem para incutir uma certa incógnita no que diz respeito a este antigo soldado que carrega consigo um segredo em forma de mentira.

"Esta noite foi como se Frantz tivesse voltado para casa" comenta Magda, com Marie Gruber a expressar em palavras e em gestos o quanto a presença de Adrien contribui para preencher a casa de sentimentos calorosos. Note-se quando o encontramos a tocar no violino de Frantz, enquanto Anna começa a tocar piano e as cores mais vivas tomam temporariamente conta desta obra a preto e branco. Diga-se que o facto de "Frantz" ser filmado a preto e branco acentua não só o seu tom de época, mas também uma certa sensação de perda e o drama que perpassa pela alma dos personagens. A espaços ainda contribui para um uso quase expressionista das sombras, algo notório quando encontramos o personagem interpretado por Pierre Niney a fugir durante a noite, após ter tocado à campainha dos familiares do falecido, com a sua sombra disforme a acentuar a confusão que percorre a sua mente. No entanto, a cor também faz parte do filme, seja em flashbacks, em mentiras reconfortantes ou em momentos mais calorosos, com o realizador e o seu director de fotografia a utilizarem a paleta de cores com enorme perícia. Veja-se quando "Le suicidé", o quadro de Édouard Manet, é colocado em destaque, com este recurso a realçar eficazmente o estado de espírito dos personagens e a enorme relevância que esta pintura tem no interior do enredo.

Se a maioria dos alemães recebe mal o violinista, já Anna começa a formar uma proximidade com o mesmo, uma ligação que em alguns momentos parece poder vir a tornar-se em algo mais sério. Por vezes encontramos Anna à deriva, em outras situações indica que está decidida a tomar um rumo para a sua vida, com Paula Beer a explanar a convulsão de sensações que percorrem a sua personagem, uma jovem mulher que tem de lidar com uma série de dilemas intrincados. A intérprete consegue exprimir imenso através dos silêncios, bem como colocar em evidência os sentimentos contraditórios que envolvem a sua personagem e o modo como esta lida com as mentiras. Será melhor mentir para provocar conforto a alguém, ou contar uma verdade que promete arrasar emocionalmente uma pessoa que nos é muito querida? Esta é uma pergunta que assola a mente de Anna e Adrien, com o argumento a abordar a complexidade que pode envolver as mentiras. Outro dos assuntos expostos com acerto centra-se nos nacionalismos, algo notório quando encontramos hinos a serem tocados quer na Alemanha, quer em França, ou através dos actos algo intolerantes de habitantes destes países para com aqueles que foram os seus rivais nos últimos anos, um conjunto de gestos que remetem para o contexto periclitante da época. Note-se a intolerância de Kreutz (Johann von Bülow), um pretendente de Anna e paciente de Hans para com Adrien, ou os olhares de lado que a primeira recebe num comboio para Paris.

A presença da protagonista no comboio permite um dos planos mais marcantes de "Frantz", em particular, quando observamos uma cidade em ruínas a partir do reflexo do vidro deste meio de transporte. As ruínas e o rosto de Anna aparecem temporariamente ligados, com François Ozon e Pascal Marti (director de fotografia) a efectuarem uma ligação entre o estado emocional desta mulher e o território. O realizador consegue elaborar essa associação com enorme classe, bem como exprimir algumas das características quer de Quedlinburg, quer de Paris. É um retrato competente da época (realçado ainda pelo guarda-roupa e pela escolha dos cenários interiores e exteriores), que permite abordar o quanto o contexto influencia os personagens e os seus sentimentos, que o digam Anna e Adrien. Entre os dois forma-se algo de complexo, com ambos a partilharem algumas situações de alívio, tormentas e uma sensação de deslocamento. Estes são os personagens que se encontram em maior realce, embora existam mais alguns elementos em destaque. Veja-se os casos já mencionados de Hans, Magda e Kreutz, ou da mãe de Adrien (Cyrielle Clair), uma mulher controladora e altiva. As feridas da guerra continuam muito abertas em algumas destas figuras, tal como no território, seja num túmulo que representa uma perda mas está vazio no seu interior, ou na mente daqueles que não conseguem esquecer aquilo que fizeram ou sofreram, sobretudo a dupla de protagonistas deste drama elegante e envolvente.

Título original: "Frantz".
Realizador: François Ozon.
Argumento: François Ozon e Philippe Piazzo.
Elenco: Pierre Niney, Paula Beer, Ernst Stötzner, Marie Gruber, Johann von Bülow, Cyrielle Clair.

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