29 agosto 2018

Crítica: "The Apartment" (1960)

 É a partir de um espelho partido que C.C. Baxter (Jack Lemmon) descobre que Fran Kubelik (Shirley MacLaine) mantém um caso com Jeff D. Sheldrake (Fred MacMurray), o seu superior. O seu rosto aparece reflectido com a falha que divide o espelho em dois pedaços desiguais, embora aquilo que mais transpareça seja o quão quebrado ficou o seu coração devido a esta revelação inesperada. Baxter trabalha no departamento de contabilidade da Consolidated Life, uma seguradora situada em Nova Iorque. Raramente o encontramos a exercer o seu ofício, apesar de estar cada vez mais próximo de subir alguns andares no elevado edifício onde trabalha e na hierarquia da empresa. As razões para esta possibilidade prendem-se acima de tudo pela sua lealdade e prestabilidade, que é como quem diz, por emprestar a casa a quatro dos seus superiores, tendo em vista a que estes possam dar as suas escapadelas com as amantes. Esta situação leva a situações caricatas como o protagonista ter de dormir algumas noites fora de casa, ou ter de fazer horas extra para aguardar que a habitação vague, ou seja considerado um mulherengo por Mildred (Naomi Stevens), a sua senhoria, uma senhora conservadora que tem pouca paciência para com as festarolas do apartamento do lado. Todo este contexto é apresentado inicialmente em voiceover pelo protagonista, com Jack Lemmon a inserir um estilo afável, espirituoso, algo atrapalhado e educado ao seu personagem, um indivíduo que tanto tem de ambicioso como de altruísta, que conta com uma habilidade inata para se envolver em imbróglios difíceis de resolver.

Baxter tem um fraquinho por Miss Kubelik, a ascensorista, embora inicialmente não saiba que ela mantém um caso com Sheldrake. Muito menos tem conhecimento que está a emprestar a casa a este último para que ele se reúna com a ascensorista. Sheldrake é um indivíduo casado, poderoso, algo frio, que tem em Fred MacMurray um intérprete capaz de expressar a sua faceta pragmática e pouco dada a grandes demonstrações de afecto. Note-se quando encontramos este indivíduo a trocar prendas com a amante na véspera de Natal. Ela oferece um disco em vinil do cantor que toca no restaurante onde jantam às escondidas. Ele dá-lhe dinheiro, quase como se estivesse a comprar um serviço. De cabelos curtos, olhar expressivo e um rosto que não se esquece com facilidade, Shirley MacLaine consegue transmitir a doçura, a humanidade e a delicadeza da sua personagem, uma ascensorista que se encontra presa a uma relação sem futuro. A actriz conta com uma química saliente com Lemmon, com a dupla a aproveitar as qualidades do argumento de Wilder e Diamond e a conseguir que acreditemos nos encontros e desencontros que pontuam as dinâmicas de Kubelik e Baxter. Diga-se que argumento não só contribui e muito para o trabalho notável do elenco, mas também surge como uma das principais forças da fita.

Essa força do argumento é visível em diversas ocasiões, sendo potenciada pelo trabalho de Wilder na realização e pelos intérpretes. Veja-se o modo como as situações aparentemente simples transformam-se em algo de especial, os diálogos certeiros, os comentários ácidos sobre a sociedade americana e os seus costumes (o adultério, o divórcio, as aparências, as trocas de favores, o capitalismo), ou a maneira sublime como o humor é conjugado com o drama e o romance. A qualidade do argumento contribui para o trio mencionado sobressair, bem como elementos como Jack Kruschen, Naomi Stevens e Johnny Seven. O primeiro é exímio a demonstrar a perplexidade do Dr. Dreyfuss, o esposo de Mildred, tendo um papel crucial numa fase decisiva do desenvolvimento, nomeadamente, quando uma personagem tenta cometer suicídio. Diga-se que "The Apartment" também convence na abordagem das situações mais sérias, ainda que nunca deixe de lado a sua faceta mais leve, algo notório nas interacções entre a personagem interpretada por Naomi Stevens e o contabilista. Já Johnny Seven dá vida a Karl Matuschka, o cunhado de Kubelik, um indivíduo duro, que o diga o protagonista, sobretudo quando tenta manter uma conversa afável com o mesmo, com esta a ser exposta com imensas doses de humor. Billy Wilder é sublime a trabalhar os ritmos do humor, seja através dos diálogos ou dos silêncios, ou das situações que são criadas, enquanto se embrenha pelos costumes da sociedade dos EUA.

Nem os intermináveis anúncios antes dos filmes, que fazem com que o protagonista desista de ver "Grand Hotel", escapam a "The Apartment", embora aquilo que mais sobressaia seja a extrema humanidade de Baxter e Kubelik. Regressemos ao espelho. É uma jogada de mestre para Billy Wilder expor quer a desilusão que percorre o rosto do protagonista, quer o estado emocional da ascensorista, para além de ser demonstrativo do cuidado colocado nos pequenos pormenores que muito acrescentam ao filme e aos personagens. Observe-se a raquete que o contabilista utiliza para escoar o esparguete, algo que demonstra o seu feitio peculiar e pouco dado a grandes luxos, ou o quanto o chapéu de executivo que este compra parece não encaixar com a sua personalidade. Como é perceptível, o design de produção é outro dos elementos em destaque. Note-se a casa do protagonista, o cenário principal do filme, um espaço acolhedor, de dimensões médias, decoração simples e prática, que reflecte o pouco tempo que este passa no local, ou o escritório onde Baxter trabalha no início do filme, uma sala enorme, recheada de uma imensidão de mesas e funcionários. 

A cinematografia contribui para criar a ideia de que o escritório mencionado conta com uma dimensão considerável, sobretudo através da utilização de alguns planos bem abertos e da perspectiva forçada. Diga-se que "The Apartment" é ainda bastante preciso no uso dos planos mais fechados. Veja-se quando encontramos os personagens interpretados por Shirley Maclaine e Fred MacMurray a dialogarem num restaurante, com o rosto desta a expressar o desencanto e a desilusão da sua Kubelik. Temos ainda outra personagem de relevo, ainda que esteja quase sempre em pano de fundo ou nas sombras, nomeadamente, a cidade de Nova Iorque, espaço que nunca dorme, de todas as possibilidades, de amores e desilusões, onde as vésperas de Natal podem ser marcadas pela desilusão e solidão, que o digam a ascensorista e o protagonista deste filme que muito tem dos romances ou das comédias de Billy Wilder. Note-se os mal-entendidos, os triângulos amorosos, os comentários de foro social, os diálogos marcantes, as identidades trocadas, as interpretações de relevo, a construção sublime das cenas humorísticas, a mescla de humor e drama, entre outros exemplos.  

E a banda sonora? É como o filme: dotada de algum romantismo e melancolia, a espaços vivaz e leve. Mas "The Apartment" tem algo mais. É falso simples. Sabe prender a atenção. Sabe apaixonar. Sabe aproveitar o talento dos seus intérpretes. Sabe usar a química de Jack Lemmon e Shirley MacLaine. Sabe fazer rir. Sabe criticar. Sabe comover. Sabe que é cinema. Provavelmente não sabe que não o vamos esquecer, mas isso sabemos nós.

Título original: "The Apartment".
Título em Portugal: "O Apartamento".
Realizador: Billy Wilder.
Argumento: Billy Wilder e I.A.L. Diamond.
Elenco: Jack Lemmon, Shirley MacLaine, Fred MacMurray, Jack Kruschen, Hope Holiday, Johnny Seven.

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