31 julho 2018

Crítica: "Visages villages" (Olhares Lugares)

 O acaso tem um papel fundamental em "Visages villages". É este que acompanha Agnès Varda e JR ao longo das suas viagens, enquanto a dupla demonstra a sua criatividade e a sua capacidade para extrair algo especial de pessoas, locais e situações aparentemente comuns. O documentário começa desde logo por jogar com as nossas expectativas ao exibir uma série de episódios onde ficamos perante as diversas formas como Agnès Varda e JR não se conheceram, com a reunião improvável destes dois artistas a resultar numa obra que parte de uma ideia simples para chegar a algo mais profundo e extremamente envolvente. Ele é um conhecido fotógrafo e muralista. Ela é um dos nomes icónicos do cinema francês e da Nouvelle Vague. Ambos são apaixonados pela fotografia e pelas imagens, contam com uma sensibilidade muito própria, têm uma diferença de idades assinalável e decidem partir em viagem pela França e as suas aldeias. Procuram olhares e lugares, mas também construir algo em conjunto, um pedaço de cinema que nasce do inesperado e encontra a certeza e a incerteza, sempre com alguma leveza e doses assinaláveis de humor.

A melancolia também está presente, tal como o drama. Veja-se quando Varda recorda Guy Bourdin e visita a casa do falecido fotógrafo, ou as fotografias que trazem uma série de memórias de outros tempos da vida da realizadora, ou uma atitude de Jean-Luc Godard que resulta num episódio de partir o coração (fruto da personalidade intragável do cineasta). Inesperadamente ou propositadamente, a atitude de Godard resulta num momento disruptivo do filme e permite expor alguns dos revezes da vida e as portas que se fecham, bem como as amizades que se desfazem ao longo da nossa existência, para além de reforçar o papel que o ocaso tem no interior deste documentário com ares de road movie. Em diversos momentos de "Visages villages" encontramos Varda e JR a viajarem na carrinha fotográfica deste último, enquanto tiram fotografias, criam retratos gigantes, efectuam uma união entre estes e os espaços que os rodeiam, para além de conversarem com uma série de pessoas. Uma parte considerável destas interacções tem como ponto de partida um conjunto de ideias soltas e resultam maioritariamente em diálogos amenos e dotados de situações que permitem perceber um pouco da humanidade e das transformações do território e da sociedade. Note-se como uma colecção de cartões postais sobre a vida dos mineiros serve como fonte de inspiração para uma viagem ao Norte.

25 julho 2018

Crítica: "Ant-Man and the Wasp" (Homem-Formiga e a Vespa)

 Pouco propenso a efectuar grandes surpresas ou a demonstrar ambição, "Ant-Man and the Wasp" partilha com "Ant-Man" a faceta comedida, o carisma de Paul Rudd e a honestidade da sua proposta. Também partilha a incapacidade de atribuir densidade dramática aos acontecimentos que apresenta, alguns diálogos genéricos e um antagonista sensaborão (neste caso, dois), bem como a eficácia a apresentar a escala a que os personagens percepcionam aquilo que os rodeia ou a dimensão que certos elementos adquirem devido à tecnologia criada por Hank Pym (Michael Douglas). Não faltam carros em miniatura que ganham dimensões mais elevadas, ou um fato de Ant-Man com problemas que faz com que o protagonista se envolva em situações caricatas, ou o herói do título a ganhar características gigantescas, com Paul Rudd a sobressair quer no humor físico, quer de situação. O actor incute carisma e simpatia ao seu Scott Lang, para além de conseguir que as falas mais simples ou pueris soem sinceras junto do espectador. Note-se logo nos momentos iniciais do filme, quando encontramos Scott a brincar com Cassie (Abby Ryder Fortson), a sua filha, com a dupla a simular que se encontra a efectuar um assalto e a exibir uma união assinalável.

Numa fase inicial do filme, o protagonista encontra-se a cumprir os últimos dias de prisão domiciliária, após ter sido detido devido a ter quebrado os Acordos de Sokovia. Essa situação supostamente impede-o de sair de casa, embora um sonho com Janet van Dyne (Michelle Pfeiffer), a desaparecida esposa de Hank Pym e mãe de Hope van Dyne (Evangeline Lilly), conduza Scott a contactar com estes, após um longo período sem dialogarem. Janet encontra-se perdida no quantum realm desde 1987, quando ficou em tamanho subatómico para desintegrar uma bomba que colocava um número elevado de população em risco, um episódio exposto de forma rápida no prólogo. No entanto, o facto de Scott ter conseguido sair do quantum realm conduz Hank a trabalhar num túnel quântico que permite transportar a esposa para a nossa realidade. Escusado será dizer que o sonho do protagonista pode conter informação valiosa, bem como que o personagem do título vai reunir-se com Hank e Hope, embora estes apresentem inicialmente algum ressentimento devido aos episódios que ocorreram na Alemanha (em "Captain America: Civil War").

23 julho 2018

Crítica: "Desde allá" (À Distância)

 Não são raros os trechos de "Desde allá" em que encontramos diversos elementos fora de foco, sejam objectos, cenários ou personagens. É um recurso utilizado de forma eficaz pelo realizador Lorenzo Vigas e pelo director de fotografia Sergio Armstrong quer para reforçarem a incerteza e a ambiguidade que percorrem os actos e os sentimentos de Armando (Alfredo Castro) e a estranha ligação que se arquitecta entre este e Elder (Luis Silva), quer para estimularem a imaginação e as dúvidas do espectador. Diga-se que o cineasta aposta imenso nos não ditos, nos diálogos que ficam por dizer, ou nos actos que ocorrem no fora de campo ou no decorrer das elipses, algo que em certa medida permite sublinhar a ambiguidade e o mistério em redor do enredo, para além de remeter para a personalidade comedida do protagonista e para o meio que o rodeia, uma cidade de Caracas marcada pelas assimetrias sociais e pelas distâncias entre os seus habitantes.

Armando trabalha a elaborar próteses dentárias, é rico, de meia-idade, solitário e tem o estranho hábito de atrair jovens adultos até sua casa. Não pretende ter sexo com os mesmos, mas sim observá-los desnudos enquanto se masturba, um hábito que tem tanto de estranho como de esclarecedor sobre as tentativas que efectua para não estabelecer laços ou grandes proximidades. Note-se os momentos iniciais do filme, quando encontramos o protagonista a masturbar-se perante um mancebo, com os filtros de um tom semelhante a amarelo seco e desprovido de vida a adensarem a frieza emocional deste episódio. É numa dessas procuras por rapazes garbosos e necessitados de dinheiro que Armando contacta com Elder, um pandillero que trabalha numa oficina e pratica alguns crimes. O primeiro diálogo entre os dois é praticamente omitido e exposto a uma certa distância, um meio utilizado por Vigas para adensar as nossas questões em relação a este episódio. Pouco depois, a dupla reúne-se na casa de Armando, em momentos pontuados pela incerteza que terminam com o jovem a agredir e a roubar o seu interlocutor.

21 julho 2018

Crítica: "Happy End" (2017)

 A certa altura de "Happy End", Eve (Fantine Harduin), uma pré-adolescente de treze anos de idade, comenta o seguinte junto de Thomas Laurent (Mathieu Kassovitz), o seu progenitor: "Eu sei que não amas ninguém. Não amaste a mãe, não amas a Anaïs, não amas essa Claire e não me amas. Não há problema. Eu só não quero acabar em um abrigo". Este não consegue refutar o comentário seco e certeiro da filha, com o golpe a reverberar pela sua alma e a deixar a nu a distância que sempre existiu entre os dois. A reunião forçada da dupla ocorre quando a mãe da jovem, a ex-mulher de Thomas, é internada no hospital devido a uma ingestão excessiva de sedativos. O parco convívio entre pai e filha reflecte-se no pouco à vontade que um tem com o outro, expresso de modo paradigmático por Fantine Harduin e Mathieu Kassovitz ao longo de diversos trechos do filme. Diga-se que a distância, o egocentrismo, o egoísmo e as dificuldades de comunicação são temáticas que atravessam o cerne de "Happy End", uma longa-metragem realizada por Michael Haneke que se envolve ainda por assuntos relacionados com as dinâmicas familiares, a crise dos migrantes, a solidão e a alienação.

As rotinas dos Laurent são marcadas pelo distanciamento, algo exibido desde um fase precoce do filme, em particular, quando encontramos Georges (Jean-Louis Trintignant), Anne (Isabelle Huppert), Pierre (Franz Rogowski) e Anaïs (Laura Verlinden) a jantarem à mesa, com os luxos do espaço que os rodeia a destoar da míngua de afectos que percorre as suas interacções. Diga-se que o trecho em questão é exposto em dois planos de longa duração, com este recurso a permitir exacerbar a incapacidade que os membros desta família apresentam para dialogarem de forma amena ou desfrutarem da presença uns dos outros. Note-se que Georges procura não ser importunado por uma possível discussão entre Anne e Pierre, enquanto estes parecem divididos por um muro criado pelo personagem interpretado por Franz Rogowski, ao passo que Anaïs tenta desanuviar a conversa, ainda que as suas palavras não obtenham qualquer reacção entusiasmada ou interessada. O que une esta família? Acima de tudo os laços de sangue, bem como a maioria dos seus integrantes contar com alguns segredos negros ou comprometedores, sejam Georges, Thomas, ou Eve, com "Happy End" a aproveitar estes personagens para esgueirar-se pelas profundezas de uma família burguesa e da nossa sociedade.

15 julho 2018

Crítica: "Intouchables" (Amigos Improváveis)

 Buddy movie inspirado numa história real, "Intouchables" (Amigos Improváveis) utiliza uma série de lugares-comuns associados ao subgénero, enquanto beneficia das dinâmicas extremamente convincentes de Omar Sy e François Cluzet e da perícia de ambos para dominarem os ritmos do humor. Uma dessas convenções dos buddy movies é a reunião de dois personagens de características antagónicas ou oriundos de meios distintos, um ingrediente que é inserido com perícia pelos realizadores e argumentistas Olivier Nakache e Éric Toledano. A dupla é formada por Philippe (François Cluzet) e Driss (Omar Sy). O primeiro é um milionário francês, pai de uma adolescente, viúvo, admirador de música clássica, subtil na escolha das palavras e dotado de sentido de humor, que ficou tetraplégico após sofrer um acidente de parapente. O segundo é oriundo do Senegal, habita nos subúrbios, é fã dos Earth, Wind and Fire, gosta de dançar, é mulherengo, extremamente espirituoso, saiu há seis meses da prisão e acaba por ser contratado como cuidador de Phillippe quando apenas queria que carimbassem um papel para obter um subsídio social de desemprego. 

Os dois formam gradualmente uma relação de amizade, respeito e proximidade, com as suas diferenças a complementarem-se e a contribuírem para uma série de momentos que variam entre o terno, o cómico e o dramático, algo arquitectado de modo eficiente pelos realizadores. Olivier Nakache e Éric Toledano não têm problemas em recorrer ao humor politicamente incorrecto, ou a alguns estereótipos e a clichés, com a proposta de ambos a passar acima de tudo pela criação de algo leve. Essa singeleza é particularmente notória não só na construção dos personagens, mas também na abordagem das temáticas, sejam estas relacionadas com o choque de culturas, a imigração, a vida nos subúrbios, com algumas das limitações do argumento a serem ultrapassadas graças à humanidade e genuinidade que Sy e Cluzet incutem aos protagonistas, mesmo quando se embrenham pelos lugares-comuns. Sy insere uma postura descomplexada, extrovertida e divertida ao seu Driss, um indivíduo que inicialmente parece pouco preparado para cuidar do seu novo empregador. Cluzet imprime uma faceta relativamente afável ao seu Philippe, um milionário que lida com o seu funcionário como um igual e parece claramente satisfeito por este não o tratar como alguém incapacitado. 

09 julho 2018

Crítica: "Telle mère, telle fille" (Tal Mãe, Tal Filha)

 Quase todos conhecemos alguém que é bastante espirituoso, embora não apresente o mínimo talento para contar anedotas ou fazer umas graçolas. Ou é a graça que falha, ou é o timing com que é dita, embora lá tenhamos por vezes que soltar um sorriso forçado para não parecermos totalmente indelicados. Se fosse um ser humano, "Telle mère, telle fille" seria essa pessoa. É filme que quer ter graça à força e pensa ser mais engraçado do que é na realidade, que desperdiça as poucas boas ideias que apresenta, estende as piadas até estas perderem o efeito e ainda conta com uma série de personagens que soam quase sempre a falso. A espaços lá acerta, mas as ocasiões são tão raras ao ponto de questionarmos no que os envolvidos estavam a pensar quando desenvolveram esta obra cinematográfica e o que levou Juliette Binoche a integrar o elenco principal. Não é que a actriz acerte sempre nas suas escolhas, embora "Telle mère, telle fille" raramente aproveite o talento da intérprete e a sua capacidade para dominar os ritmos do humor (como demonstrou recentemente em "Ma Loute").

A premissa do filme é muito simples: uma mãe com quarenta e sete anos de idade fica grávida ao mesmo tempo que a sua filha de trinta anos. A primeira é Mado (Juliette Binoche), uma mulher extrovertida, inconsequente, desempregada e divorciada, que se locomove quase sempre numa vespa cor de rosa, comporta-se muitas das vezes como se fosse uma criança de cinco anos de idade ou uma pré-adolescente e vive em casa de Avril (Camille Cottin), a sua filha. Esta trabalha numa empresa que fabrica detergentes e sprays para a casa de banho, gosta de planear tudo e é casada com Louis (Michaël Dichter), um indivíduo que se encontra a terminar a tese de mestrado. Mado vive na casa da filha e do genro, algo que acentua as diferenças entre a primeira e o casal, embora o trio até mantenha uma relação de alguma proximidade. A notícia da gravidez da filha mexe com a personagem interpretada por Juliette Binoche, mas a maior surpresa surge quando a segunda descobre que está grávida de Marc (Lambert Wilson), o seu ex-marido, um maestro deveras peculiar. Como reagir a esta situação? "Telle mère, telle fille" responde à questão da seguinte forma: com muita histeria e algumas doses consideráveis de simplismo.

04 julho 2018

Crítica: "Lean on Pete" (O Meu Amigo Pete)

 Drama sensível e envolvente, que conta com ingredientes de road movie e uma delicadeza assinalável, "Lean on Pete" (O Meu Amigo Pete) parte da história do jovem Charley (Charlie Plummer) para abordar temáticas sobre a adolescência, o luto, o sentimento de perda, a incerteza em relação ao futuro, a população das franjas dos EUA, a importância dos laços familiares e a ligação do protagonista com o cavalo do título. Charley é um jovem de quinze anos de idade, que gosta de correr e vive com Ray, (Travis Fimmel), o seu pai, com quem se mudou recentemente para Portland. Se o protagonista encontra-se a lidar com uma série de incertezas muito próprias da idade, já Ray é um adulto que apresenta comportamentos semelhantes a um adolescente, embora ame o filho e tenha uma relação relativamente próxima com o mesmo, algo exposto desde cedo, em particular, num plano de longa duração em que ambos falam de Lynn (Amy Seimetz), uma secretária casada que passou a noite com o segundo. Travis Fimmel é competente a exibir essa faceta extrovertida, relaxada e irresponsável do seu personagem, um indivíduo com parca disponibilidade financeira e uma enorme capacidade para se envolver em problemas, com o actor a contar com uma dinâmica convincente com Charlie Plummer.

Plummer é essencial para o filme funcionar. Este transmite o feitio reservado e solitário do seu Charley, bem como as dúvidas e a inquietação que assolam a sua mente a partir de uma determinada fase do enredo em que a esperança ameaça ser consumida pela desesperança. Em plenas férias de Verão, o personagem interpretado pelo jovem actor acaba por encontrar trabalho junto de Del (Steve Buscemi), um treinador de cavalos que exibe uma atitude algo fria no que diz respeito à sua profissão. Steve Buscemi alterna entre a afabilidade e a rispidez como este indivíduo peculiar que ensina alguns dos seus conhecimentos ao protagonista e coloca-o a cuidar do cavalo do título, um equídeo que apresenta algumas semelhanças com o adolescente, ou não estivéssemos perante dois corredores que nem sempre se destacam e estão longe de terem um rumo definido. A partir do momento em que começa a trabalhar para Del, o adolescente começa a frequentar os estábulos, os circuitos de corridas e a formar uma ligação com Lean on Pete, algo exposto por Andrew Haigh sem recurso a grandes romantismos ou acordes em falso, com o realizador a optar quase sempre pela perspectiva mais verosímil e honesta.