09 junho 2018

Crítica: "Les gardiennes" (As Guardiãs)

 Inspirado no livro homónimo de Ernest Pérochon, "Les gardiennes" começa de forma silenciosa, pronto a provocar um enorme impacto e a deixar-nos perante o lado sombrio dos conflitos bélicos, com a câmara a deslizar suavemente e a exibir uma série de corpos de soldados que pereceram num dos palcos da I Guerra Mundial. É uma forma rápida e ágil de Xavier Beauvois explanar um pouco do do que estava a ocorrer num dos cenários do conflito, embora o interesse do cineasta seja outro tipo de palcos e de beligerantes. O foco de "Les gardiennes" está acima de tudo naqueles que permanecem, nomeadamente, nas mulheres que ficam a guardar as terras e as propriedades. É a partir destas que Beauvois aborda temas relacionados com a emancipação, a honra, o desejo, o cultivo da Terra, o amor, o luto, a fé e a família, tendo como cenário primordial a fazenda de Hortense (Nathalie Baye), uma veterana que viu os seus dois filhos, Georges (Cyril Descours) e Constant (Nicolas Giraud), bem como o seu cunhado, Clovis (Olivier Rabourdin), partirem para as trincheiras. Esta conta com uma presença assinalável, em grande parte graças ao trabalho notável de Nathalie Baye, com a actriz a exprimir os receios e a resiliência da sua personagem, uma mulher que preza pela honra da família e luta para manter a sua propriedade a funcionar. 

Essa resistência é realçada pelas roupas da veterana, muitas das vezes marcadas por um tom azulado semelhante à farda militar, com o guarda-roupa a sublinhar eficazmente a ideia de que estamos diante de soldados que se encontram a lutar em campos distintos de batalha e a lidarem com a incerteza do conflito. Regularmente associada à harmonia e serenidade, a tonalidade azul permite ainda realçar as características de Hortense, sejam estas relacionadas com o seu empenho para manter a família unida e a quinta a funcionar, ou com a frieza que demonstra ao tomar uma decisão extremamente insensível e condenável para proteger a honra do seu núcleo familiar. Outra das mulheres da casa é Solange (Laura Smet), a esposa de Clovis e filha de Hortense. É a partir desta que são abordadas temáticas que envolvem o desejo sexual, a honra e a emancipação, com Laura Smet a incutir elegância e personalidade a Solange, uma mulher que conserva alguma dor no seu interior e tenta ajudar nas tarefas que envolvem o funcionamento do Paridier, a propriedade da progenitora.

As ausências marcam esta casa, embora, a espaços, encontremos alguns militares a regressarem para aproveitarem os breves períodos de licença. No início do filme somos precisamente colocados perante o breve regresso de Constant, com este a conviver com a mãe e a irmã, a visitar a escola onde leccionava e a dar notícias sobre o front. "Parte-se para uma guerra relâmpago e depois, por dois anos, vivemos no inferno" comenta o tenente junto da irmã, numa fala que permite sublinhar a surpresa destes elementos em relação à longa duração do conflito. É essa longa duração e as ausências que conduzem as mulheres a assumirem temporariamente as rédeas da casa e dos postos de trabalho que pertenciam aos homens, algo que dá uma autonomia inesperada às primeiras. Diga-se que a propriedade conta regularmente com a presença de Henri (Gilbert Bonneau), o irmão de Hortense, um camponês que participa em algumas tarefas. As dificuldades no trabalho da terra conduzem a veterana a contratar os serviços de Francine (Iris Bry), uma jovem de dezanove anos que ganha uma relevância crescente no interior do enredo e permite que a sua intérprete apareça como uma agradável surpresa. Iris Bry transmite a seriedade, a capacidade de trabalho e a inocência da sua Francine, uma camponesa de cabelos ruivos e olhar afável, que se adapta com facilidade a este local marcado por rotinas muito próprias. 

Xavier Beauvois é exímio a captar os ritmos e as especificidades do quotidiano destas mulheres. Note-se o cuidado na exposição das diversas actividades que envolvem o trabalho da terra, sejam os campesinos a atirarem sementes, ou a ceifarem o trigo, ou a ordenharem as vacas, com o cineasta a encontrar alguma poesia e beleza na realidade crua que pontua o quotidiano destes personagens. Aos poucos ficamos a conhecer as rotinas diárias destes camponeses, a dimensão da propriedade de Hortense, a influência das estações e da meteorologia para a colocação das actividades em prática, os aparelhos que são adquiridos para facilitar o trabalho da terra e o quanto as notícias da frente de batalha marcam estes elementos. A troca de correspondência é o meio primordial de contacto entre aqueles que partem e os que ficam, algo exposto ao longo do filme, muitas das vezes com recurso à narração em off, naquela que é uma das várias maneiras que Xavier Beauvois utiliza para colocar-nos perante os receios, inquietações e a confusão que perpassa por alguns personagens. Note-se a correspondência trocada por Georges e Francine, com os dois a formarem alguma proximidade a partir do primeiro regresso do soldado a casa.

Cyril Descours tem um desempenho competente como Georges, com o actor a explanar os traumas e a revolta do seu personagem, bem como a afinidade que este começa a sentir por Francine. A relação entre estes dois personagens é marcada por algum romantismo e proximidade, com ambos a surgirem como figuras algo solitárias que encontram conforto na presença um do outro. Este envolvimento mexe com Marguerite, a filha de Clovis (fruto de outra relação), uma jovem que se encontra interessada em Georges e colhe as preferências de Hortense. Uma decisão questionável de Hortense, tendo em vista a proteger a honra da família, altera o rumo do enredo e atribui uma carga dramática acrescida a esta obra cinematográfica, para além de permitir que Xavier Beauvois exponha o sentido muito próprio de dignidade de alguns personagens. Com uma naturalidade e subtileza impressionantes, Iris Bry coloca em evidência o sentido de honra da sua Francine, o amor que esta sente por Georges, o empenho que coloca no trabalho e a sua capacidade para lutar contra os revezes. O trabalho sublime de Iris Bry na composição da sua personagem é um exemplo paradigmático da capacidade de Xavier Beauvois para extrair interpretações de relevo dos intérpretes que compõem o elenco. Observe-se o poder que Laura Smet imprime a um silêncio cortante de Solange, ou o modo credível como Olivier Rabourdin expõe o quanto a guerra afectou o seu Clovis. 

 A notícia da morte de vários soldados exacerba o negrume e a violência deste conflito, com aqueles que partem e aqueles que ficam a viverem numa constante incerteza. As despedidas dos militares são momentos de enorme angústia, sobretudo por nunca se saber quando e como regressam, enquanto os regressos são marcados pelo contacto temporário com os entes queridos e a sensação de que algo mudou nas suas pessoas. "Les gardiennes" concede uma enorme atenção àqueles que permanecem, seja aos seus comportamentos ou aos seus rostos. Note-se um travelling que percorre os rostos dos elementos que se encontram a trabalhar a terra, maioritariamente mulheres, durante uma refeição, ou os travellings que explanam as emoções que vagueiam pelos semblantes das figuras que se encontram no interior de uma missa em honra dos falecidos. O realizador demonstra todo um cuidado para com os pequenos gestos ou com os actos aparentemente banais que muito dizem sobre os personagens, seja através de um plano fechado que nos deixa perante duas mãos a deslizarem por um dólmen até se reunirem e consumarem uma aproximação, ou da poesia e beleza que são incutidas a uma acção simples como atirar sementes para a terra.

Colaboradora habitual de Xavier Beauvois, a directora de fotografia Caroline Champetier contribui para realçar as características destes espaços e para encontrar a poesia no quotidiano. Observe-se os planos que nos deixam perante a debulhadora em funcionamento, enquanto o sol bate fortemente e aquece e ilumina os campos de trigo. A iluminação natural é utilizada com uma precisão notória, muitas das vezes ao serviço de um certo naturalismo que percorre o filme, algo notório quando encontramos estes personagens a efectuarem as suas tarefas neste território campestre. Diga-se que a quinta de Hortense surge praticamente como uma das protagonistas, com "Les gardiennes" a colocar-nos perante um espaço dotado de imensos terrenos e de uma família que procura enfrentar a Primeira Guerra Mundial a partir de dois palcos distintos do conflito. "Após a guerra tudo será diferente" diz Constant numa fase inicial do filme, embora este desejo de mudança seja regularmente contrastado com a teimosa permanência de alguns valores arcaicos. As mulheres conquistam uma independência que não tinham, mas o regresso dos homens traz um amargo retorno ao passado. No entanto, a semente da independência continua a germinar, com "Les gardiennes" a abordar os efeitos da Primeira Guerra Mundial a partir de uma perspectiva muito particular.

No cerne de "Les gardiennes" estão Francine e Hortense, duas personagens de gerações distintas que exibem um enorme espírito de sacrifício e uma personalidade vincada, com Iris Bry e Nathalie Baye a protagonizarem os momentos de maior destaque do filme. Xavier Beauvois sabe criar esses momentos e incutir credibilidade aos episódios que pontuam o drama, sempre com uma sobriedade e uma classe assinaláveis, enquanto deixa que tudo se desenrole aos ritmos do quotidiano dos elementos que marcam o enredo. A banda sonora dialoga com esses ritmos, sendo harmoniosamente inserida no interior da narrativa, enquanto o guarda-roupa, a maquilhagem e a decoração dos cenários remetem eficazmente para a época e para o meio onde os personagens habitam. É um local onde muito e pouco acontece, onde o trabalho é pesado, as rotinas repetitivas, a religião tem um papel de relevo, os rumores fluem com facilidade e a influência da Primeira Guerra Mundial é sentida. O front destes personagens é outro, mas nem por isso menos duro, com "Les gardiennes" a colocar-nos perante as batalhas que estas mulheres travam, sobretudo Francine e Hortense.

Título original: "Les gardiennes".
Título em Portugal: "As Guardiãs".
Realizador: Xavier Beauvois.
Argumento: Xavier Beauvois, Marie-Julie Maille, Frédérique Moreau.
Elenco: Nathalie Baye, Iris Bry,  Laura Smet, Cyril Descours, Nicolas Giraud, Olivier Rabourdin, Gilbert Bonneau.

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