26 junho 2018

Crítica: "Sade Ma'bar" (Blockage)

 Corrupto, impulsivo, inquieto e errático, Qasem (Hamed Behdad), o protagonista de "Sade Ma'bar", é um inspector municipal que está longe de cumprir as suas funções com idoneidade. Este deveria impedir que os vendedores de rua efectuassem negócios ilegais ou em locais proibidos, mas ao invés disso abusa do poder que tem à disposição para lucrar com subornos ou negociatas. É a partir deste personagem e do contexto que o rodeia que o realizador Mohsen Gharaie aborda temas como a corrupção, a instabilidade laboral, a criminalidade em Teerão, a crise económica e a hipocrisia de alguns sectores da sociedade iraniana, enquanto permite a Hamed Behdad compor uma figura que tem uma habilidade inata para tomar decisões questionáveis. Nem sempre é fácil acompanhar este indivíduo, em grande parte devido às razões mencionadas, mas também é difícil deixar de seguir os acontecimentos que pontuam esta obra marcada por alguns momentos emocionalmente intensos. Essa intensidade emocional é particularmente visível nas dinâmicas entre Qasem e a esposa, Nargess (Baran Kosari), com o casal a contar com objectivos distintos para o futuro próximo. Ela quer utilizar a herança deixada pelo pai para adquirir uma casa. Ele pretende investir num camião e assim ganhar dinheiro com o negócio da reciclagem, algo que não é do agrado da sua cônjuge.

O casal habita no interior da casa do pai de Qasem, um indivíduo ponderado que procura ajudar os filhos como pode, seja a dar conselhos, ou apoio financeiro. As dinâmicas de Nargess e Qasem com a restante família nem sempre são desenvolvidas na justa medida, embora o argumento estabeleça que estes recebem regularmente a visita dos familiares. Note-se que Nargess mantém uma proximidade notória com Mona, a irmã de Qasem, ao ponto de confidenciar-lhe alguns dos seus segredos, inclusive que se encontra grávida. Desta família ficamos ainda a conhecer Alireza, o esposo de Mona, bem como Mohsen e Nafiseh, o irmão e a irmã do protagonista. Quase todos contam com os seus problemas e compreendem os comportamentos e os desejos de Nargess, uma mulher que se encontra claramente desiludida e cansada das atitudes do esposo. Baran Kosari explana de forma competente o desencanto e o desgosto que a sua personagem sente, sobretudo no último terço, quando se torna bastante óbvio que Nargess já não aguenta mais os comportamentos erráticos de Qasem. Por sua vez, este envolve-se numa espiral descendente que contribui e muito para que a sua vida pessoal e profissional entre num turbilhão de emoções. 

23 junho 2018

Crítica: "Lupo" (2018)

 Num determinado momento de "Lupo" somos colocados perante uma frase da autoria de Herberto Hélder, nomeadamente, "Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios, quando alguém morria perguntavam apenas: tinha paixão?". É uma citação que permite realçar a paixão que o metteur en scène do título tinha pela Sétima Arte e pelo risco, ou não estivéssemos perante um filme de pendor documental que se aventura pela peculiar e fascinante história de Rino Lupo. Consciente das limitações impostas pelas fontes disponíveis, o realizador Pedro Lino salienta desde cedo que a obra reúne no seu interior "factos e suposições", enquanto recupera algumas memórias do nosso cinema e deste italiano com espírito de aventureiro. A informação é utilizada de modo dinâmico e articulada com engenho, com Pedro Lino a recorrer a trechos de filmes realizados por Rino Lupo ou que contavam com a presença do mesmo no elenco e a vídeos de arquivo, a apresentar críticas da época e documentos sobre as obras, a refazer o percurso que a figura do título efectuou desde que saiu de Itália e a elaborar um diálogo entre o passado e o presente de certos espaços. Note-se o contraste entre o presente e o passado do local onde estava o Gaumont-Palace, ou o espaço em que se encontrava a Invicta Film.

É notório que existiu todo um cuidado trabalho de investigação e uma tentativa de incutir uma ordem cronológica à informação que foi reunida sobre esta figura maior do que a vida. Rino Lupo teve vários pseudónimos, duas famílias e passou por vários territórios. Note-se que saiu de Itália e permaneceu algum tempo em países como França, Alemanha, Dinamarca, Rússia, Polónia, Portugal e Espanha, onde deixou obra feita e uma série de incertezas para aqueles que pretendem estudar a sua vida. Em Portugal, passou pela Invicta Films e pela Ibéria Film, criou a sua própria produtora, fundou uma "Escola de Arte Cinematográfica" e realizou obras como "Mulheres da Beira", "O Diabo em Lisboa", "Fátima Milagrosa". Pelo meio teve alguns fracassos e ficou conhecido pela sua incapacidade para respeitar o cronograma de filmagens e os orçamentos, bem como por filmar ao ar livre, captar as especificidades dos territórios e apostar na "etnoficção". O documentário apresenta não só estes elementos que envolvem a passagem do realizador por Portugal, mas também algum material relacionado com a sua presença em diversos países, tais como na Alemanha, onde realizou "Wenn Völker streiten", com boa parte destes ingredientes a serem acompanhados pelo discurso do narrador ou por pequenas entrevistas.

20 junho 2018

Crítica: "Matar a Jesús" (2017)

 "Matar a Jesús" transporta-nos para o interior de uma cidade de Medellín marcada pela insegurança, incerteza e criminalidade, um espaço onde vidas se esfumam à velocidade de uma bala, um jogo de futebol mexe com uma parte considerável da população e uma jovem adulta procura eliminar o assassino do seu pai. Muitas das vezes inquieta, a câmara acentua essa instabilidade, enquanto acompanha Paula (Natasha Jaramillo), também conhecida como Lita, uma estudante de artes que é apaixonada por fotografia. Os momentos iniciais desta longa-metragem realizada por Laura Mora Ortega permitem estabelecer de forma rápida e eficaz a personalidade descontraída da protagonista, bem como a proximidade que esta tem com o pai, José Maria Ríos (Camilo Escobar), um professor universitário afável, que tem ideias e ideais que desafiam o sistema. O assassinato deste indivíduo ocorre numa fase inicial do filme, nomeadamente, quando o docente está a sair do carro, após ter vindo da universidade na companhia da filha, com este episódio a mexer imenso com a estudante universitária e a contribuir para o argumento abordar temáticas relacionadas com o luto, a violência na Colômbia, a corrupção policial, o crime e se envolva pelos meandros do filme de vingança.

Na esquadra, Paula depara-se com a indiferença e a corrupção daqueles que deveriam combater o crime. Note-se quando ouvimos um indivíduo a reclamar devido à inoperância das autoridades (em fora de campo), ou o misterioso desaparecimento do relógio que estava no corpo do falecido. Para a família de José Maria Ríos, a morte deste indivíduo é uma catástrofe que abre uma ferida impossível de sarar. Para a polícia, este episódio é apenas mais um assassinato, algo comentado por um dos oficiais encarregues da investigação quando salienta que todos os dias recebem entre cinco a dez casos relacionados com homicídios. É um problema sistémico que contamina uma sociedade colombiana muito marcada pela criminalidade, algo que revolta a protagonista. Numa saída nocturna, pontuada pelo consumo de álcool, tabaco e drogas, Paula encontra na discoteca o possível assassino do seu pai. É um dos vários momentos em que a iluminação, o trabalho de câmara e o design de som são utilizados ao serviço do enredo para adensar a inquietação. Observe-se o rosto da protagonista e a multitude de sentimentos que deixa transparecer, algo intensificado pela música da discoteca e as luzes azuis que percorrem a face da estudante enquanto repara em Jesús (Giovanny Rodríguez), o assassino do seu pai, um jovem que esta conseguira ver de raspão durante o homicídio. Impelida por uma certa curiosidade e desejo de vingança, Paula segue este indivíduo a outra discoteca e trava conversa com o mesmo, embora não revele as suas intenções ao seu interlocutor, com "Matar a Jesús" a estabelecer uma dinâmica complexa entre os dois personagens. 

18 junho 2018

Crítica: "Vinterbrødre" (Winter Brothers)

 Estreia de Hlynur Palmason na realização de longas-metragens, "Vinterbrødre" surge como uma espécie de masterclass sobre como utilizar o design de som e a cinematografia ao serviço do enredo. O trabalho de Maria von Hausswolff na cinematografia acentua a frieza que pontua os cenários, seja a exibir os tapetes de neve que cobrem o território, ou as árvores despidas, ou a escuridão que percorre as minas onde boa parte dos personagens laboram, com a parca iluminação a realçar a dureza que envolve as actividades que decorrem neste espaço e os perigos e a incerteza que permeiam o mesmo. Note-se os trechos iniciais do filme, quando encontramos um grupo de trabalhadores no interior da mina, com a única iluminação a provir dos seus capacetes, uma situação que dificulta a nossa capacidade para discernirmos as acções destes indivíduos.

O barulho das máquinas e dos aparelhos da fábrica e da mina fazem parte da banda sonora do quotidiano do protagonista e da narrativa, algo realçado em diversos momentos do filme. Hlynur Palmason e a sua equipa exibem ainda todo um cuidado a captar e destacar outros sons aparentemente banais que envolvem os personagens e potenciam certas características de alguns episódios ou cenários. Observe-se o destaque que é concedido à queda da chuva e ao barulho da mesma, algo que antecede e acompanha a tempestade que se avizinha no interior de uma habitação, ou o som efusivo das balas que esvoaçam ao ritmo do desespero. A banda sonora também é utilizada com enorme acerto. Atente-se à banda sonora desconcertante que acompanha Emil (Elliott Crosset Hove) durante a colocação de um plano perigoso em prática, com estes ruídos inquietantes a dialogarem imenso com os actos do protagonista e as imagens em movimento. A elevar este personagem está Elliott Crosset Hove, com o actor a inserir um estilo peculiar, solitário, introvertido, intempestivo e invulgar ao seu Emil, um indivíduo que vive com Johan (Simon Sears), o irmão, com quem mantém uma relação nem sempre pacífica.

16 junho 2018

Crítica: "Blue My Mind" (2017)

 Com uma barbatana na realidade e outra na fantasia, "Blue My Mind" aborda uma série de temáticas relacionadas com a adolescência, uma fase onde tudo parece ser vivido e sentido com uma intensidade assinalável. Imensas descobertas são efectuadas, a relação com o corpo conta com especificidades muito próprias e existe uma necessidade de afirmar a personalidade, que o diga Mia (Luna Wedler), a protagonista de "Blue My Mind", uma adolescente que se encontra prestes a completar dezasseis anos de idade. Esta não só tem de lidar com uma miríade de problemáticas e questões próprias da idade, mas também com uma mudança de escola, algo que se deve ao facto dos progenitores (interpretados por Regula Grauwiller e Georg Scharegg) terem mudado de casa. A relação da jovem com os pais é marcada por um certo distanciamento e frieza. É certo que estes lhe dão tudo, mas existe uma barreira que os separa e permite a "Blue My Mind" envolver-se por assuntos relacionados com os choques geracionais, os problemas entre pais e filhos e as dificuldades de comunicação entre os mesmos. 

Essas diferenças e constantes altercações contribuem e muito para que a protagonista acredite que é adoptada, sobretudo quando o seu corpo começa a sofrer um conjunto de modificações que mexem com as suas rotinas e os seus comportamentos. A realizadora e argumentista Lisa Brühlmann explana essas alterações de modo gradual e extremamente convincente, enquanto reúne na justa medida uma série de ingredientes que trazem a fantasia para o interior do realismo e da naturalidade que pontuam diversos pedaços do enredo. Essa situação torna-se particularmente latente quando Mia começa a ser confrontada com mudanças inesperadas no seu corpo. Note-se os dedos que se unem, ou o ímpeto voraz para comer peixe, ou as escamas que começam a aparecer nas suas pernas. A relação dos adolescentes com o corpo nem sempre é pacífica. No caso da protagonista de "Blue My Mind" essa relação ganha um fulgor acrescido devido ao facto da jovem estar a lidar com uma situação inesperada e aparentemente incontrolável, algo que intensifica as suas inseguranças e inquietações. 

09 junho 2018

Crítica: "Les gardiennes" (As Guardiãs)

 Inspirado no livro homónimo de Ernest Pérochon, "Les gardiennes" começa de forma silenciosa, pronto a provocar um enorme impacto e a deixar-nos perante o lado sombrio dos conflitos bélicos, com a câmara a deslizar suavemente e a exibir uma série de corpos de soldados que pereceram num dos palcos da I Guerra Mundial. É uma forma rápida e ágil de Xavier Beauvois explanar um pouco do do que estava a ocorrer num dos cenários do conflito, embora o interesse do cineasta seja outro tipo de palcos e de beligerantes. O foco de "Les gardiennes" está acima de tudo naqueles que permanecem, nomeadamente, nas mulheres que ficam a guardar as terras e as propriedades. É a partir destas que Beauvois aborda temas relacionados com a emancipação, a honra, o desejo, o cultivo da Terra, o amor, o luto, a fé e a família, tendo como cenário primordial a fazenda de Hortense (Nathalie Baye), uma veterana que viu os seus dois filhos, Georges (Cyril Descours) e Constant (Nicolas Giraud), bem como o seu cunhado, Clovis (Olivier Rabourdin), partirem para as trincheiras. Esta conta com uma presença assinalável, em grande parte graças ao trabalho notável de Nathalie Baye, com a actriz a exprimir os receios e a resiliência da sua personagem, uma mulher que preza pela honra da família e luta para manter a sua propriedade a funcionar. 

Essa resistência é realçada pelas roupas da veterana, muitas das vezes marcadas por um tom azulado semelhante à farda militar, com o guarda-roupa a sublinhar eficazmente a ideia de que estamos diante de soldados que se encontram a lutar em campos distintos de batalha e a lidarem com a incerteza do conflito. Regularmente associada à harmonia e serenidade, a tonalidade azul permite ainda realçar as características de Hortense, sejam estas relacionadas com o seu empenho para manter a família unida e a quinta a funcionar, ou com a frieza que demonstra ao tomar uma decisão extremamente insensível e condenável para proteger a honra do seu núcleo familiar. Outra das mulheres da casa é Solange (Laura Smet), a esposa de Clovis e filha de Hortense. É a partir desta que são abordadas temáticas que envolvem o desejo sexual, a honra e a emancipação, com Laura Smet a incutir elegância e personalidade a Solange, uma mulher que conserva alguma dor no seu interior e tenta ajudar nas tarefas que envolvem o funcionamento do Paridier, a propriedade da progenitora.