07 maio 2018

Crítica: "Tsukiji Wonderland" (2016)

 "Tsukiji Wonderland" consegue transmitir o entusiasmo, o rigor e a energia dos vários elementos que contribuem para que o mercado de Tsukiji conte com uma atmosfera especial e surja como um pedaço fundamental de Tóquio e do Japão. Realizado por Naotarô Endô, o documentário transporta-nos para o interior daquele que é considerado o maior mercado atacadista de peixes e frutos do mar do Mundo, um entreposto de enormes dimensões, situado no centro de Tóquio, que conta com rotinas muito particulares e uma imensidão de pessoas a circularem no seu interior. Entre trabalhadores e compradores, este estabelecimento conta diariamente com a presença de cerca de quarenta e duas mil pessoas, com o filme a captar as dinâmicas muito próprias que existem no seio deste lugar, sobretudo as relações de confiança entre os clientes e os nakaoroshi (os grossistas), bem como o conhecimento destes últimos e o respeito que têm pelo seu ofício e pela satisfação daqueles que recorrem aos seus serviços. 

Acima de tudo ficamos perante um modo de vida muito particular, com "Tsukiji Wonderland" a conduzir-nos para o interior de toda uma cultura distinta e fascinante ao mesmo tempo que aborda diversos assuntos relacionados com este espaço, tais como a sua importância para os trabalhadores e os clientes, a sua arquitectura, o seu papel na História do Japão e da cidade de Tóquio, entre outros exemplos. Por vezes excede-se e avança por caminhos redundantes, mas o interesse da informação que é disponibilizada e das entrevistas superam e muito algumas das suas pequenas escorregadelas. Diga-se que Naotarô Endô demonstra que efectuou um cuidado trabalho de pesquisa, com os dezasseis meses de filmagens e as mais de cento e cinquenta entrevistas efectuadas pelo cineasta e a sua equipa a contribuírem para que o documentário transmita a relevância deste mercado e as especificidades que envolvem o dia a dia neste local, para além de despertar uma vontade enorme de observar com mais atenção as particularidades do quotidiano em recintos do género. 

Entre os entrevistados encontram-se uma série de nakaoroshi, chefes de cozinha, fabricantes de gelo, académicos, peixeiros e jornalistas. Note-se o caso do antropólogo Theodore C. Bestor, professor em Harvard e autor do livro "Tsukiji: The Fish Market at the Center of the World", um indivíduo fascinado por este estabelecimento, seja pela forma como o mesmo se encontra conectado com a vida de várias pessoas (alimenta cerca de vinte e cinco milhões de homens e mulheres por dia), ou pelas suas tradições e pela ética de trabalho dos vários elementos que povoam o mercado. No caso dos chefes de cozinha, temos algumas entrevistas a especialistas em sushi como Jiro Ono (Sukiyabashi Jiro), Ryuchi Yui (Kizushi), Takashi Saito (Sushi Saito), ou a peritos em comida tradicional japonesa (Washoku) como Tora Okuda (Ginza Koju), ou Rokusaburo Michiba (Ginza Rokusanntei), entre outros que exibem não só uma enorme ética de trabalho e conhecimento, mas também uma notável relação de confiança com os nakaoroshi a quem compram o peixe ou frutos do mar. Note-se os elogios que Takashi Saito faz aos seus intermediários, ou o respeito que Ryuchi Yui demonstra pela sabedoria dos vendedores da sua confiança.

A sabedoria destes intermediários é assinalável, com a maioria das bancas a ser especializada num determinado tipo de peixe. Observe-se os especialistas que compram atum aos grossistas nos leilões que decorrem no mercado, ou os peritos em enguias ou safios, ou os conhecimentos que os nakaoroshi têm sobre os peixes e os frutos do mar que são mais saborosos consoante cada estação. A rivalidade entre os diversos intermediários é exibida a partir de uma perspectiva saudável e de respeito, com o documentário a apresentar o mercado como um espaço quase à parte, onde se trabalha desde o início da noite e o ambiente é de uma energia extremamente positiva. É provável que Naotarô Endô não esteja a mostrar tudo (a quase ausência de mulheres neste local é algo que poderia levantar algumas questões relevantes sobre a sociedade japonesa), mas aquilo que exibe é regularmente dotado de interesse. Aos poucos observamos as diversas espécies de peixes que são transaccionadas neste estabelecimento, a seriedade com que os nakaoroshi encaram os leilões, o conhecimento evidenciado por estes indivíduos e as suas preocupações, inclusive no que diz respeito às mudanças dos hábitos alimentares dos japoneses.

Tendo começado a operar em 1935, após o Grande sismo de Kanto (1923) ter destruído o mercado de peixe de Nihonbashi, o mercado de Tsukiji acompanhou de perto uma miríade de alterações na sociedade e cultura nipónica, tais como a menor disponibilidade dos japoneses para utilizarem o seu tempo para cozinhar e as modificações dos hábitos alimentares no período após a II Guerra Mundial, com estas mutações a resultarem numa quebra de vendas de peixe, algo que preocupa os nakaoroshi. O que se mantém praticamente imutável é a forma muito própria como cada figura que é apresentada ao longo do filme encara o seu negócio. A maioria prefere a satisfação do cliente ao lucro e exibe um enorme conhecimento, algo explanado em diversos momentos do documentário, com "Tsukiji Wonderland" a conseguir transmitir o ambiente muito próprio deste mercado, um local onde tudo parece especial e único, sejam as relações de respeito que forjam no seu interior, os seus ritmos muito específicos, ou a miríade de peixes que chega a este lugar. Não falta ainda a exibição de um filme da época que nos coloca diante da construção e inauguração deste estabelecimento, bem como a apresentação de alguns pratos confeccionados com os peixes adquiridos em Tsukiji, enquanto somos temporariamente transportados para este mercado e ficamos perante a sua relevância para aqueles que o frequentam e para o território que o circunda.

Título original: "Tsukiji Wonderland".
Realizador: Naotarô Endô.
Banda sonora: Takahiro Kido.

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