29 maio 2018

Crítica: "L'atelier" (O Workshop)

 Uma oficina de escrita destinada a jovens que contam com um passado escolar problemático serve como ponto de partida para "L'atelier" abordar temáticas relacionadas com a intolerância, a sensação de insegurança provocada pelos atentados, a violência, a solidão, a escrita, as mutações de uma cidade, a mescla de culturas que existem no interior da França, as ansiedades dos jovens e a incerteza que estes têm em relação ao futuro. O workshop do título decorre durante o Verão, em La Ciotat, uma comuna francesa com um forte passado industrial, um espaço marcado por uma enseada que reúne diversos personagens e pela presença de um estaleiro naval que foi encerrado há mais de vinte anos e convertido num local destinado à manutenção e reparação de iates. A liderar este atelier encontra-se Olivia (Marina Foïs), uma escritora experiente, oriunda de Paris, que procura ensinar os seus sete pupilos a criarem algo em grupo, a desafiarem o ócio e a ganharem ferramentas que sirvam para o futuro de todos, embora lide com a rejeição inicial de boa parte destes elementos, pelo menos até começarem a trabalhar na história.

O enredo do romance policial que estes jovens começam a desenvolver tem de se desenrolar em La Ciotat e abordar elementos sobre este espaço citadino, um recurso que é utilizado pelos idealizadores desta oficina de escrita para colocarem os membros do grupo em contacto com a cidade e consigo próprios. Laurent Cantet consegue explorar as dinâmicas destas reuniões com uma autenticidade notável, com boa parte dos diálogos e ideias trocadas a permitirem abordar diversos temas mencionados no inicio do texto, bem como as divergências que existem entre estes elementos, o modo como encaram o meio que os rodeia e as suas inquietações. A decisão de escolher intérpretes não profissionais ou estreantes joga a favor de Cantet, um pouco à imagem do que já tinha acontecido em "Entre les murs", sobretudo pelo cineasta conseguir retirar dos mesmos uma genuinidade que reforça a credibilidade das interacções entre os personagens e os seus gestos e acções. De "Entre les murs" encontramos ainda a capacidade do realizador para abordar temáticas sobre a sociedade francesa e a sua heterogeneidade, bem como o desenvolvimento de assuntos relacionados com os jovens e as suas dinâmicas com um professor, ou os diálogos improvisados e a presença de um grupo.

27 maio 2018

Crítica: "Fuchi ni tatsu" (Harmonium)

 "Fuchi ni tatsu" começa com os sons cadenciados de um harmónio, quase a transmitir uma sensação de paz e inocência. No final, não escutamos um som controlado, mas sim o barulho proveniente de uma respiração ofegante e descompassada, algo que sublinha de forma paradigmática a tensão crescente e a inquietação que envolvem o enredo desta longa-metragem realizada por Kôji Fukada. Esses sentimentos mais irrequietos tomam forma a partir do momento em que Yasaka (Tadanobu Asano) se envolve no interior da casa de Toshio (Kanji Furutachi) e Akié (Mariko Tsutsui), um casal que mantém uma relação relativamente fria e conta com uma filha, a jovem Hotaru (Momone Shinokawa). Tadanobu Asano é essencial para adensar o mistério em redor de Yasaka, um amigo de longa data de Toshio, que cumpriu pena de prisão, guarda alguns segredos sobre este último e conta com objectivos nem sempre claros. O intérprete incute uma faceta simultaneamente enigmática, perigosa e afável ao seu personagem, um indivíduo algo fechado, que mexe com o quotidiano do casal, sobretudo a partir do momento em que o antigo companheiro o convida para trabalhar consigo e para viver num quarto da sua casa. Akié fica perplexa com a decisão do esposo, embora a relação de ambos seja marcada por um distanciamento notório, algo que ajuda a explicar o facto desta não ter sido consultada. 

Essa distância é exposta de forma bastante precisa nos momentos iniciais do filme, em particular, quando encontramos o casal à mesa com a filha, com Toshio a pouco ou nada a falar com a esposa. Note-se ainda quando observamos Hotaru e Akié a rezarem antes de começarem a comer, um acto que não é partilhado pelo personagem interpretado por Kanji Furutachi, naquele que é um dos vários gestos que sinalizam o afastamento entre ambos. O actor insere uma personalidade fechada ao seu personagem, um indivíduo aparentemente introvertido, que conta no seu interior com um certo sentimento de culpa e receia o amigo de longa data, embora integre o mesmo no seio do seu lar e da sua oficina (situada no interior da habitação). Kôji Fukada deixa inicialmente no ar algum mistério em relação às verdadeiras razões que conduziram Toshio a trazer Yasaka para o seu lar e para o seu local de trabalho, enquanto joga com as emoções dos personagens e dos espectadores. Note-se a amizade que o antigo presidiário forma com Akié, com ambos a partilharem momentos reveladores e sentimentos quentes, com Mariko Tsutsui e Tadanobu Asano a contarem com uma química relativamente convincente e a expressarem com precisão as especificidades que permeiam as dinâmicas dos seus personagens. 

24 maio 2018

Crítica: "Le Redoutable" (Godard, O Temível)

 "Le Redoutable" apresenta Jean-Luc Godard (Louis Garrel) como um destruidor que aniquila o seu cinema e as suas relações, que é extremamente contraditório, idealista, egocêntrico, arrogante, criativo, inseguro, instável e incapaz de proteger a integridade dos seus óculos. Louis Garrel transmite com competência estas características do personagem, enquanto vagueia pelas margens da caricatura, sempre sem descurar alguma da complexidade que envolve Godard. Seria impossível captar todas as especificidades que pontuam a existência e a personalidade deste cineasta. O realizador Michel Hazanavicius está consciente dessa impossibilidade e efectua uma obra maioritariamente leve, a espaços quase a satirizar o cineasta, enquanto brinca com os recursos e artifícios utilizados pelo grande expoente da Nouvelle Vague e aborda o período que envolveu a relação entre Godard e a actriz Anne Wiazemsky (Stacy Martin), em particular, entre as filmagens de "La chinoise" (1967) e "Le vent d'est" (1970). É um ciclo marcado por um contexto histórico fervilhante, pontuado por protestos, conflitos e o Maio de 68, algo retratado de modo muito simples por Hazanavicius, quase como um adorno que permite explanar algumas das mudanças da figura retratada ao longo do filme.

Dividido em capítulos, muitos deles com títulos carregados de ironia e a remeterem para diversas obras de Godard, "Le Redoutable" começa por apresentar os dois protagonistas com recurso à narração em off, tendo como cenário o set de filmagens de "La chinoise". A paleta de cores destes trechos iniciais remete precisamente para essa obra, com Hazanavicius a demonstrar que estudou bem o modo criativo como o biografado utilizava a linguagem cinematográfica. Se Godard utilizava estes recursos com um significado ou para dizer algo, nem que fosse para desestabilizar, já o realizador de "Le Redoutable" emprega estes artifícios para adornar e apimentar o filme. Hazanavicius está longe de querer ser disruptivo, embora tenha algum sucesso a encontrar o humor na vida do retratado e a expor a desintegração do matrimónio deste com Wiazemsky. Stacy Martin imprime maturidade, personalidade e charme à sua personagem, uma jovem mulher que inicialmente sente algum encanto e admiração por Godard, apesar de começar a afastar-se gradualmente do mesmo, fruto das mudanças de comportamento do protagonista. Note-se as atitudes cada vez mais politizadas e irascíveis do realizador, ou a sua incapacidade para aceitar ideias que o contrariem, ou o modo surpreendente como rejeita as suas obras mais populares, ou a dificuldade em lidar com a má recepção de "La chinoise".

23 maio 2018

Críticas e/ou classificações a filmes estreados em 2018 (circuito comercial)

Janeiro:

- The Killing of a Sacred Deer (5/5).
- L'amant d'un jour (4/5).
- Pop Aye (3/5). 
- Aus dem Nichts (4/5). 
- Ôtez-moi d'un doute (3/5).
- Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (4/5).
- Molly's Game (4/5).
- Call Me By Your Name (5/5).
- Mudbound (3.5/5).
- Kedi (3.5/5).
- Faithfull (1.5/5). 

Fevereiro:

- Nelyubov (4/5).
- Visages villages (4.5/5).
- Amor Amor (4/5).
- The Florida Project (4.5/5).
- Alias Maria (3/5).

Março: 

- No Intenso Agora (4/5).
- Como Nossos Pais (4/5).
- Lady Bird (3/5).
- Aparição (3.5/5).
- Sandome no satsujin (4/5).

Abril:

Goksung (4/5).
- La ragazza nella nebbia (3/5).
- Ammore e malavita (3/5).
- The Death of Stalin (3.5/5).
- Insyriated (3/5).
- Death Wish (1.5/5).
- Rampage (2/5).
- Chavela (3/5).
- Au revoir là-haut (3/5).
- The Place (4/5).


Maio:

- Martírio (4/5).
- You Were Never Really Here (1.5/5).
- Frantz (4/5).
- Submergence (2/5).
- Die göttliche Ordnung (2/5).
- As Boas Maneiras (4/5).
- Mr & Mme Adelman (3/5).
- Le Redoutable (3/5).
- L'atelier (4/5).

Junho:

- Les gardiennes (4/5).
- Nagai iiwake (4/5).
- Hikari (4/5).
- Western (3.5/5).
- Columbus (4/5).
- Telle mère, telle fille (1/5).
- The Bookshop (1.5/5).
- Banshun (reposição).

Julho:

- Nico, 1988 (3.5/5).
- Lean on Pete (4/5).
- Desde allá (3.5/5).
- Happy End (3.5/5).

Agosto:

- A Ciambra (3.5/5).
- Ant-Man and the Wasp (2.5/5).
- Ana, mon amour (4/5).
- Touchez pas au grisbi (reposição).
- Ascenseur pour l'échafaud (reposição).
- Pickpocket (reposição).

Setembro:

- Vazante (4/5).
- In guerra per amore (4/5).
- Joaquim (4/5).

Outubro:

- Praça Paris (3/5).
- 9 Doigts (3.5/5).
- Como Fernando Pessoa Salvou Portugal (3.5/5).
- Lazzaro felice (4/5).

Sem data definida:

- Sicilian Ghost Story (4/5).
- Girl (5/5).
- Tinta Bruta (4/5)

21 maio 2018

Crítica: "Umimachi Diary" (Our Little Sister)

 "Umimachi Diary" contém diversos traços transversais a várias obras de Hirokazu Koreeda, embora estejamos diante de um dos raros trabalhos do cineasta e argumentista que adapta material já existente, em particular, a série de manga homónima. É filme profundamente sensível e terno, onde os conflitos nunca atingem proporções extremas e as temáticas são abordadas com imensa subtileza, tendo no seu centro quatro personagens femininas dotadas de personalidade, carisma e dimensão. A união destas é realçada em diversos planos de conjunto e exposta com enorme precisão por Hirokazu Koreeda, com o cineasta a embrenhar-se pelo interior de temáticas e assuntos que envolvem as relações familiares, as ausências, o luto, as especificidades da cultura e da sociedade japonesa, a religião e as memórias, sempre sem descurar uma enorme atenção a todos os pormenores e aos pequenos gestos do quotidiano que muito dizem sobre os personagens. O realizador é fiel a si próprio, seja na escolha das temáticas ou no modo sublime com que desenvolve os assuntos e as relações dos personagens, tendo ainda o auxílio de um elenco principal que conta com uma enorme química, algo essencial para explorar as dinâmicas de Sachi (Haruka Ayase), Yoshino (Masami Nagasawa), Chika (Kaho) e Suzu (Suzu Hirose), as quatro irmãs que dominam as atenções desta doce longa-metragem.

No início do filme, Sachi, Yoshino e Chika recebem a notícia de que o pai de ambas faleceu. Estas não contactavam com o progenitor há mais de quinze anos, nomeadamente, após este se ter divorciado de Miyako (Shinobu Ôtake), a mãe do trio. No funeral, encontram Suzu, a meia-irmã, com quem nunca tinham dialogado, embora a adolescente logo desperte a atenção de Sachi, que decide convidá-la para ir viver na casa do trio, em Kamakura. Estão lançadas as peças para a integração da jovem no interior da habitação das irmãs, um espaço que conta com uma atmosfera muito própria, tendo na personagem interpretada por Haruka Ayase a figura mais responsável. A intérprete é eficaz a transmitir a faceta sóbria, madura e honesta de Sachi, a irmã mais velha, uma enfermeira que lida diariamente com pacientes terminais e mantém uma relação com um médico casado (Shin'ichi Tsutsumi), algo que a coloca perante uma série de dilemas interiores. Esta é uma das figuras centrais do filme, bem como Suzu. A integração da jovem num novo espaço e no interior das dinâmicas da família surge como um elemento essencial desta obra, com Suzu Hirose a incutir uma certa candura à sua personagem, uma adolescente que está a formar e a afirmar a sua personalidade, gosta de jogar futebol, tem algum receio de falar sobre o pai com as irmãs e guarda no interior da sua alma uma certa dor pelo facto da mãe pouco se preocupar consigo.

18 maio 2018

Crítica: "Kono sekai no katasumi ni" (In This Corner of the World)

 Tendo maioritariamente como pano de fundo os territórios japoneses de Kure e Eba entre 1933 e 1946, "Kono sekai no katasumi ni" deixa-nos perante aqueles que lidam de perto com os efeitos da Segunda Guerra Mundial. O contexto histórico que envolve os personagens poderia contribuir para que o realizador Sunao Katabuchi decidisse enveredar por caminhos excessivamente melodramáticos. No entanto, aquilo que este consegue é algo bem mais fascinante e impressionante, com o cineasta e a sua equipa a conseguirem construir um filme de animação dotado de esperança, que balanceia com enorme acerto os momentos mais dramáticos com as situações de maior leveza. Pelo caminho, Sunao Katabuchi explana a realidade deste período, seja através do guarda-roupa ou dos hábitos dos personagens, ou do modo como a entrada do Japão na II Guerra Mundial começou a afectar o quotidiano de cada um e do território. Alguns episódios são pontuados por uma enorme delicadeza e subtileza, embora, em vários momentos, os bombardeamentos ou a entrada em cena de um clarão tragam consigo a destruição e o perigo, com os acontecimentos históricos a serem expostos e incluídos de forma precisa no interior da história dos personagens

No centro do enredo está Suzu (Rena Nônen), uma jovem sonhadora. Esta tem um grande talento para o desenho, uma afabilidade contagiante e uma aparente fragilidade que esconde uma enorme força interior. A partir do momento em que se foca em algo, Suzu esquece praticamente tudo aquilo que a rodeia, enquanto deixa a sua mente viajar pelos meandros da ilusão. Os momentos iniciais do filme servem para apresentar algumas destas características da protagonista, bem como o meio em que habita, em particular, a sua casa, em Eba (Hiroshima), onde vive com os pais (Masumi Tsuda como Kiseno e Tsuyoshi Koyama como Juro) e os irmãos. Esta mantém uma relação algo afastada com Yoichi, o irmão mais velho, embora seja próxima de Sumi (Megumi Han), a irmã, algo notório quando as encontramos a partilharem alguns momentos de maior leveza, ou proximidade. Em Abril de 1943, ainda com dezoito anos de idade, Suzu é pedida em casamento por Shusaku (Yoshimasa Hosoya), um indivíduo um pouco mais velho, com quem partilhara um episódio peculiar, embora já nem se lembre do semblante deste último. Embora não conheça bem o noivo, a jovem aceita o pedido de casamento, indo viver para a casa do primeiro e dos sogros, em Kure (também em Hiroshima), onde se depara com um espaço muito marcado pela presença da marinha e das embarcações militares, algo exposto com acerto. 

13 maio 2018

Crítica: "Sandome no satsujin" (O Terceiro Assassinato)

 Se algumas obras realizadas por Hirokazu Koreeda despertam uma sensação de paz de espírito, tais como "Umimachi Diary" e "Umi yori mo mada fukaku", já "Sandome no satsujin" leva-nos ao limite da dúvida, levanta questões pertinentes sobre a justiça e o sistema legal e apresenta a habitual capacidade do cineasta para conceder atenção aos pormenores. Pelo meio existe espaço para o realizador abordar temáticas muito típicas das suas obras, sobretudo a envolverem as relações familiares e as especificidades do Japão, sempre com uma subtileza e uma humanidade assinaláveis. No centro de boa parte do enredo estão Misumi (Kôji Yakusho) e Shigemori (Masaharu Fukuyama). O primeiro assassinou o seu chefe, queimou o corpo do mesmo e confessou o crime junto das autoridades, sendo bastante provável que seja condenado à morte. O segundo é um advogado que é chamado para trabalhar na defesa do acusado, tendo inicialmente uma série de certezas sobre o seu cliente, embora estas comecem a desvanecer-se com o avançar do enredo. 

"Não é preciso entender um cliente para defendê-lo" diz Shigemori a Kawashima (Shinnosuke Mitsushima), o seu assistente, uma frase que remete para a ideia de que os advogados procuram acima de tudo criar uma estratégia legal que defenda os interesses dos seus clientes e estão pouco preocupados com a verdade, embora o protagonista encontre-se longe de conseguir manter esse distanciamento. Diga-se que um dos grandes méritos de "Sandome no satsujin" é exactamente a espessura que atribui aos dois protagonistas. O assassino aparece como uma figura dotada de dimensão e complexidade, que intriga, desperta curiosidade e conta com uma aparente afabilidade que contrasta com os actos hediondos que cometeu (já tinha cumprido pena por duplo assassinato), algo transmitido na perfeição por Kôji Yakusho. Este imprime sobriedade e uma aparente brandura a Misumi, um personagem incongruente, que nunca sabemos ao certo se está perturbado, ou a tentar jogar com os advogados, ou a esconder algo, com a sua atitude de confessar o crime de homicídio e furto a dificultar e muito a tarefa de Shigemori. Masaharu Fukuyama insere um estilo inicialmente despreocupado ao seu personagem, embora o advogado comece aos poucos a ser invadido por uma miríade de dúvidas, sobretudo quando começa a investigar o seu cliente e os acontecimentos que envolveram o crime.

10 maio 2018

Crítica: "Umi yori mo mada fukaku" (After the Storm)

 Como lidar com a noção de que não concretizámos os nossos sonhos ou objectivos? Qual a melhor forma de enfrentar a sensação de que não conseguimos corresponder a todas as expectativas que criaram em nosso redor? Estas são perguntas que parecem acompanhar e atormentar Ryota (Hiroshi Abe), o protagonista de "Umi yori mo mada fukaku", um detective endividado, que outrora chegou a ser considerado um escritor promissor. Diga-se que a espaços parece que Hirokazu Koreeda também está a confrontar-nos com essas questões, com o realizador a mesclar com precisão diversos elementos tipicamente japoneses com situações e sentimentos amplamente universais que ressoam e muito junto do espectador. O cineasta volta a agarrar em pequenos pedaços da vida e a transportá-los para o interior do enredo de um filme da sua autoria, enquanto regressa às temáticas e assuntos que envolvem as relações familiares, as ausências, o luto, a religião, o embate entre a modernidade e a tradição, as permanências e divergências entre gerações, a memória, sempre num estilo muito sóbrio, honesto e extremamente delicado.

Existe um enorme sentimento e sentido de harmonia a rodear não só os vários acontecimentos de "Umi yori mo mada fukaku", mas também a banda sonora, a composição dos planos e os gestos dos personagens, com Hirokazu Koreeda a deixar tudo fluir com imensa naturalidade e brandura. No centro de boa parte dos acontecimentos estão as relações familiares dos diversos elementos que passamos a conhecer ao longo do enredo, bem como as memórias que guardam e a forma como enfrentam o facto das suas vidas nem sempre terem prosseguido pelos caminhos que estes esperavam percorrer. A certa altura do filme, encontramos Yoshiko (Kirin Kiki), a mãe de Ryota, a questionar-se: "Pergunto-me porque os homens não conseguem amar o presente. Ou continuam a perseguir o que já perderam, ou continuam a sonhar além do seu alcance. Como podem aproveitar a vida desse jeito?" É uma pergunta pertinente, que reflecte paradigmaticamente os dilemas da maioria dos personagens desta longa-metragem, sobretudo do rebento da veterana. Diga-se que, em certa medida, Ryota depara-se com alguns dos problemas do falecido pai e apresenta comportamentos semelhantes ao mesmo, sobretudo no que diz respeito à capacidade de se endividarem, algo que preocupa a progenitora.

07 maio 2018

Crítica: "Tsukiji Wonderland" (2016)

 "Tsukiji Wonderland" consegue transmitir o entusiasmo, o rigor e a energia dos vários elementos que contribuem para que o mercado de Tsukiji conte com uma atmosfera especial e surja como um pedaço fundamental de Tóquio e do Japão. Realizado por Naotarô Endô, o documentário transporta-nos para o interior daquele que é considerado o maior mercado atacadista de peixes e frutos do mar do Mundo, um entreposto de enormes dimensões, situado no centro de Tóquio, que conta com rotinas muito particulares e uma imensidão de pessoas a circularem no seu interior. Entre trabalhadores e compradores, este estabelecimento conta diariamente com a presença de cerca de quarenta e duas mil pessoas, com o filme a captar as dinâmicas muito próprias que existem no seio deste lugar, sobretudo as relações de confiança entre os clientes e os nakaoroshi (os grossistas), bem como o conhecimento destes últimos e o respeito que têm pelo seu ofício e pela satisfação daqueles que recorrem aos seus serviços. 

Acima de tudo ficamos perante um modo de vida muito particular, com "Tsukiji Wonderland" a conduzir-nos para o interior de toda uma cultura distinta e fascinante ao mesmo tempo que aborda diversos assuntos relacionados com este espaço, tais como a sua importância para os trabalhadores e os clientes, a sua arquitectura, o seu papel na História do Japão e da cidade de Tóquio, entre outros exemplos. Por vezes excede-se e avança por caminhos redundantes, mas o interesse da informação que é disponibilizada e das entrevistas superam e muito algumas das suas pequenas escorregadelas. Diga-se que Naotarô Endô demonstra que efectuou um cuidado trabalho de pesquisa, com os dezasseis meses de filmagens e as mais de cento e cinquenta entrevistas efectuadas pelo cineasta e a sua equipa a contribuírem para que o documentário transmita a relevância deste mercado e as especificidades que envolvem o dia a dia neste local, para além de despertar uma vontade enorme de observar com mais atenção as particularidades do quotidiano em recintos do género. 

02 maio 2018

Crítica: "Hikari" (Esplendor)

 Profundamente romântico, cândido e terno, "Hikari" surge como um raio de sol que ilumina a alma e aquece o coração. No seu centro estão dois personagens sensíveis, solitários, pouco faladores, dotados de espessura e capazes de despertarem empatia. Esses personagens são Misako Ozaki (Ayame Misaki) e Masaya Nakamori (Masatoshi Nagase). Ela escreve os textos para as audiodescrições de filmes (destinadas a cegos ou a deficientes visuais), tem uma sensibilidade muito especial e procura transmitir as emoções da Sétima Arte a partir dos seus escritos. Ele é um conhecido fotógrafo que está a perder lentamente a visão e tem na sua Rolleiflex o seu coração. Os dois entram em contacto nas reuniões entre Misako e um grupo de deficientes visuais, que têm como objectivo aferir o que resulta ou não no interior dos textos e limar os mesmos. Diga-se que estes eventos contribuem ainda para expor a forma bem viva como alguns cegos conseguem captar a essência do cinema, bem como o desejo da protagonista em transmitir uma plêiade de emoções aos homens e mulheres que escutam a obra cinematográfica e a narração que descreve a mesma.

Um dos vários méritos desta longa-metragem centra-se exactamente na sua capacidade para apresentar de modo credível e delicado a realidade que envolve a produção das audiodescrições. Outro dos seus méritos é o de expor com enorme precisão a forma como os deficientes visuais absorvem este tipo de conteúdos, com o trabalho de Arata Dodo a ser essencial para esse feito. O director de fotografia e a realizadora Naomi Kawase apostam numa série de planos fechados que permitem realçar as expressões que percorrem os rostos dos diversos personagens que povoam a sala de reuniões, um cenário onde imensas experiências e sugestões são partilhadas, com "Hikari" a colocar-nos perante o modo muito particular como os cegos e deficientes visuais contactam e relacionam-se com o cinema. É uma ligação que a espaços traz à memória a relação que formamos com os livros, com muito a ser concebido na mente e com recurso à criatividade, com esta longa-metragem a exibir de forma paradigmática a capacidade que o cinema tem para transportar-nos para o interior de realidades que não dominamos ou conhecemos de forma clara.