04 abril 2018

Crítica: "Sicilian Ghost Story" (2017)

 A coruja é muitas das vezes associada à sabedoria, bem como à morte, escuridão, azar, mistério e protecção dos mortos, um conjunto de atributos que justificam a sua presença recorrente em "Sicilian Ghost Story", a nova longa-metragem realizada por Fabio Grassadonia e Antonio Piazza. A dupla coloca-nos diante de uma obra que se esgueira pelas fronteiras do sonho e da realidade, enquanto divaga pelos meandros dos contos e pela crueza da vida. É um filme simultaneamente belo e duro, no qual um amor cresce perante a impossibilidade, o sofrimento inerente à clausura tem na fantasia um meio fugaz de evasão e um bosque parece surgir como um estranho portal entre duas realidades, enquanto a sua fascinante dupla de protagonistas desafia os limites do corpo, da mente, da alma, da razão e da afeição. Julia Jedlikowska (a intérprete de Luna) e Gaetano Fernandez (o actor que dá vida a Giuseppe) transmitem com afinco os sentimentos fortes que rodeiam os seus personagens e convencem que existe algo de especial entre ambos, algo que ajuda a elevar ainda mais a história destes dois pré-adolescentes. 

Nos momentos iniciais do filme encontramos Luna a seguir Giuseppe pelo bosque. Ela tem uma paixoneta pelo colega de escola. Ele exibe uma enorme curiosidade para saber o conteúdo da carta que esta conserva nas mãos. Entre os dois existe algo de especial que é assinalado por um beijo inocente, embora sejam fisicamente separados a partir do momento em que Giuseppe desaparece misteriosamente. O que aconteceu ao jovem? Luna procura na casa deste e no bosque, embora quase ninguém consiga dar as respostas que esta pretende, com Julia Jedlikowska a transmitir a dor e a revolta que perpassam pela mente da sua personagem. A jovem actriz consegue transmitir as especificidades da sua personagem, uma pré-adolescente que gosta de desenhar, tem uma enorme facilidade em sonhar e gera uma enorme obsessão em relação ao destino do amado. O seu quarto diz muito da sua personalidade e dos episódios que a envolvem. Note-se a presença do telescópio, algo que remete para a faceta sonhadora da protagonista, ou os desenhos nas paredes, com estes a reforçarem o seu gosto pelo desenho.

As pinturas das paredes do quarto de Luna contam com um significado notório, ou não ficássemos perante um cavalo semelhante a Pégaso (que remete quer para a figura mística, quer para o facto de Giuseppe gostar de andar a cavalo), ou de uma árvore que alude ao bosque, um cenário primordial desta obra cinematográfica. O próprio nome da protagonista remete para a Lua, que aparece associada ao sonho e ao subconsciente, tal como à noite e à luz nocturna, ou não estivéssemos diante de uma pré-adolescente que a espaços tem estranhos sonhos ou visões que a colocam diante da realidade de Giuseppe. A história de Giuseppe é livremente inspirada no caso que envolveu Giuseppe Di Matteo (a quem os realizadores dedicam o filme), o filho de um chefe da Máfia. O jovem foi raptado a 23 de Novembro de 1993 por elementos da Cosa Nostra que procuravam evitar que o pai de Giuseppe continuasse a revelar informações sobre a organização criminosa às autoridades. Nesse sentido, "Sicilian Ghost Story" também se embrenha pelos meandros da máfia, com o enredo a contar com alguma negritude e doses assinaláveis de violência.

Aos poucos também ficamos diante de alguns episódios que envolvem Giuseppe, sobretudo a partir do momento em que este foi raptado por membros da máfia. O magnífico trabalho de Luca Bigazzi na cinematografia adensa a faceta opressora que perpassa por quase todos os poros das cenas em que o jovem está envolvido. A escuridão percorre boa parte destes episódios, algo que remete para a clausura e para a violência física e psicológica a que o pré-adolescente é sujeito. Diga-se que a arte de Luca Bigazzi sobressai em boa parte do filme, seja para exacerbar a atmosfera próxima de um sonho ou de um conto, ou o mistério que abrange o enredo e os perigos que rodeiam alguns acontecimentos. Observe-se os planos que contam com uma espécie de névoa ao seu redor, quase como se estivéssemos perante um sonho ou a visualizar o sonho de alguém. Veja-se ainda os planos em contra-plongée que captam as árvores que povoam o bosque, enquanto a câmara movimenta-se em seu redor e exacerba o mistério e o ambiente próximo a um conto de características negras que envolve "Sicilian Ghost Story", ou as grande angulares que adensam a inquietação e a hostilidade em volta de alguns cenários.

O trabalho de som e o uso precisa do fora de campo também contribuem para exacerbar o mistério que rodeia uma miríade de acontecimentos que marcam o enredo. Note-se quando encontramos Luna a sair da casa da mãe de Giuseppe, com a utilização da grande angular, os sons desconcertantes da banda sonora e o grito da segunda, oriundo do fora de campo, a contribuírem para acentuar o mistério que rodeia o desaparecimento do jovem. As buscas de Luna conduzem-na essencialmente ao bosque, um espaço quase místico onde um lago pode servir como um ponto de encontro entre a liberdade e a clausura, ou entre a vida e a morte. É um cenário que em certa medida remete para as já mencionadas características de conto de "Sicilian Ghost Story", uma obra que tem a Sicília como pano de fundo. Os espaços deste território e as suas singularidades são aproveitados com precisão ao serviço do enredo, seja os hábitos da população, ou a forte presença da máfia, com o silêncio em volta do desaparecimento de Giuseppe a aludir ao medo que existe dos grupos mafiosos. No entanto, Luna não se conforma, algo que mexe com o seu quotidiano quer na escola, quer junto dos seus pais.

A mãe (Sabine Timoteo) da protagonista apresenta uma faceta mais rígida, enquanto o progenitor (Vincenzo Amato) conta com uma atitude mais apaziguadora, com ambos a exibirem a sua preocupação de modo distinto. Quem está imensas vezes ao lado de Luna é Loredana (Corinne Musallari), a sua melhor amiga, com ambas a partilharem confidências e algumas peripécias. Note-se quando se rebelam e pintam o cabelo de azul, tendo em vista a distribuírem cartazes a alertar para a inércia no que diz respeito à busca por Giuseppe. Diga-se que este é um dos vários trechos em que a banda sonora dialoga com os acontecimentos e contribui para elevar os mesmos. No caso mencionado temos "Mandinka" de Sinead O'Connor em destaque, embora a canção que mais deixe marca seja "Safe with me" de Soap & Skin. A melancolia e a tristeza assolam a nossa alma, fruto da canção "Safe with me" e dos eventos que presenciamos ao longo desta obra dotada de romantismo, alguma fantasia e doses consideráveis de crueza, com a música a combinar na perfeição com o novo trabalho de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza.

Os dois realizadores tiveram como ponto de partida não só a história de Giuseppe Di Matteo, mas também o conto "Un cavaliere bianco" de Marco Mancassola (inspirado na história real do adolescente). Se a espaços parece certo que os cineastas arrastam um pouco o filme e esticam em demasia a sua duração, também não deixa de ser notório que conseguem algo que provoca um efeito que perdura após a sua visualização. Tudo parece funcionar para que sejamos transportados para este conto que tem na Sicília o seu território primordial e no nosso coração um espaço que conquista de forma gradual, seja devido aos seus planos arquitectados com enorme primor, ou à sua magnífica banda sonora, ou à sua dupla de protagonistas extremamente fascinante, ou à sua história tão dura, mas ao mesmo tempo tão romântica. 

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª edição da Festa do Cinema Italiano

Título original: "Sicilian Ghost Story".
Realizadores: Fabio Grassadonia e Antonio Piazza.
Argumento: Fabio Grassadonia e Antonio Piazza.
Elenco: Julia Jedlikowska, Gaetano Fernandez, Sabine Timoteo, Vincenzo Amato, Corinne Musallari.

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