11 abril 2018

Crítica: "The Place" (2017)

 Instado por Chiara (Alba Rohrwacher), uma freira, a responder se acredita em Deus, o protagonista (Valerio Mastandrea) de "The Place" comenta que acredita nos detalhes. Tudo está nos detalhes para este indivíduo misterioso e para Paolo Genovese, o realizador desta obra cinematográfica. O cineasta volta a utilizar na justa medida o cenário primordial onde decorre o enredo, bem como a efectuar comentários sobre a sociedade contemporânea e a natureza humana, um pouco à imagem de "Perfetti sconosciutti", uma obra cinematográfica onde também conseguia conciliar com acerto as intrincadas histórias de um número alargado de personagens. Diga-se que encontramos diversos nomes em comum entre os dois filmes, inclusive o de Valerio Mastandrea, o intérprete do enigmático protagonista de "The Place", uma fita livremente inspirada na série "The Booth at the End".

Valerio Mastandrea consegue incutir uma mistura de benevolência e malícia ao seu personagem, um indivíduo aparentemente ponderado, que se encontra sempre no restaurante do título, onde é interpelado por um conjunto de homens e mulheres. Todos querem colocar as habilidades do personagem principal à prova, em particular, a sua capacidade para conceder desejos, ainda que este peça em troca o cumprimento de uma tarefa intrincada. Diga-se que este não obriga ninguém a efectuar esses actos e repete por diversas vezes que os utilizadores dos seus serviços podem recuar nas suas intenções, uma atitude que permite desafiar os valores morais daqueles que o interpelam. O argumento consegue estabelecer rapidamente a personalidade de cada elemento que procura os serviços deste homem cujo nome desconhecemos, bem como a facilidade ou a dificuldade com que encaram a missão que lhes é incumbida, com as histórias e os caminhos de alguns destes personagens a cruzarem-se e a conduzirem a situações inesperadas ou mais tensas. O elenco é de grande nível e contribui para elevar a interacção entre as figuras que povoam o enredo, enquanto observamos as suas entradas e saídas do estabelecimento do título, com nomes como o do já mencionado Valerio Mastandrea, ou de Alba Rohrwacher, Marco Giallini, Giulia Lazzarini, Rocco Papaleo e Sabrina Ferilli a mostrarem carisma e talento.

Marco Giallini expressa de forma convincente a personalidade dura e nem sempre recomendável do seu Ettore. Inicialmente este pretende recuperar o dinheiro de um furto. Mais tarde deseja reencontrar o seu filho. Para o primeiro desejo ser cumprido tem de espancar alguém, enquanto que para o segundo ser concretizado tem de esconder a queixa de uma mulher que foi agredida. Rocco Papaleo dá vida a um mecânico que quer uma noite com uma "mulheraça", tendo para isso de salvar uma rapariga ao longo de duas semanas. Por sua vez, o personagem interpretado por Vinicio Marchioni tem de eliminar uma jovem para poder salvar o seu filho. Diga-se que Marcella (Giulia Lazzarini) também tem uma missão mortífera, nomeadamente, assassinar um número assinalável de pessoas com recurso a uma bomba. Giulia Lazzarini consegue transmitir as dúvidas sentidas pela veterana, uma das personagens mais complexas do filme, com a a intérprete a contar com algumas das falas mais interessantes de "The Place". Por um lado quer salvar o esposo, um indivíduo que padece de Alzheimer, embora também não deixe de ser notório que está longe de se sentir à vontade com a espinhosa tarefa.

Ao longo do filme ficamos ainda a conhecer personagens como Alex (Silvio Muccino), um criminoso de pouca monta que não quer voltar a ver o seu pai, ou Martina (Silvia D'Amico), uma jovem que pretende ficar mais bonita, ou Azzurra (Vittoria Puccini), uma mulher que tem de destruir uma relação para alcançar o seu desejo. Já Chiara quer reencontrar-se com Deus, enquanto Fulvio (Alessandro Borghi) pretende recuperar a visão. Os intérpretes têm o mérito de convencerem como estes personagens recheados de idiossincrasias, que aos poucos exibem os seus receios, inseguranças e o seu lado negro ou a sua bondade, ou seja, a sua humanidade. No centro de tudo está Valerio Mastandrea como um indivíduo que assume uma postura entre um anjo e Mefistófeles, que alimenta o que de melhor e pior os seus clientes têm para oferecer ao mesmo tempo que é surpreendido pelos mesmos, desafia os seus valores e procura saber detalhadamente aquilo que estes sentem. É uma figura solitária, que tanto tem de inflexível como de compreensiva, que raramente observamos a sair do seu canto no restaurante, onde é regularmente atendido por Angela. Sabrina Ferilli imprime uma postura dialogante e afável à sua Angela, uma mulher que procura decifrar o protagonista e aparece como uma das poucas pessoas que não lhe pede nada. 

Paolo Genovese consegue manter o mistério em relação ao protagonista e intrigar-nos no que diz respeito às suas intenções, enquanto aproveita a actividade deste indivíduo para efectuar comentários contundentes sobre o ser humano e a nossa sociedade. Todos temos os nossos valores morais, mas será que estes se mantêm perante situações adversas ou complicadas? O personagem principal não obriga a sua clientela a cumprir os acordos, embora deixe todos os clientes perante decisões difíceis. Num determinado momento do filme, encontramos Marcella a salientar que "Existe algo horrível em todos nós. Aqueles que não são obrigados a enfrentá-lo têm muita sorte". Quase todos os personagens de "The Place" são obrigados a enfrentar e visitar essa faceta menos recomendável que percorre as suas almas, com o argumento a desenvolver sobriamente os diversos dilemas destes representantes da humanidade. Quem também é praticamente um personagem é o estabelecimento do título, um cenário onde os diversos "clientes" entram e saem, que contribui para exacerbar a solidão do protagonista e potencia a atmosfera inquietante em volta das figuras que se reúnem com o mesmo. 

As transições entre diversos episódios são marcadas muitas das vezes pelo recurso ao fade in e fade out, algo que reforça a faceta episódica destes encontros e reencontros ao mesmo tempo que realça a passagem de tempo entre os acontecimentos que são expostos. O que faríamos na posição destes homens e mulheres? O que estamos dispostos a fazer para alcançarmos os nossos desejos? Estas são perguntas que fazemos a nós próprios ao longo do filme, com Paolo Genovese a testar não só os seus personagens, mas também o espectador. O cineasta conta ainda com o contributo de Fabrizio Lucci, o director de fotografia, um colaborador habitual. Este aposta maioritariamente em planos fechados que exacerbam as dinâmicas muito próprias entre o protagonista e aqueles que procuram os seus serviços ao mesmo tempo que respeitam a essência da série televisiva na qual o filme é inspirado e permitem manter o foco nas ligações que se formam entre os personagens. Paolo Genovese consegue incutir dinamismo e interesse aos diversos episódios que pontuam o enredo, enquanto desenvolve os dilemas dos personagens, permite que o elenco e a qualidade do argumento sobressaiam e expõe alguma da complexidade do ser humano, seja a sua capacidade para cometer actos que surpreendem pela positiva, ou a sua incapacidade para evitar os erros ou as acções menos recomendáveis.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª edição da Festa do Cinema Italiano.

Título original: "The Place".
Realizador: Paolo Genovese.
Argumento: Paolo Genovese e Isabella Aguilar.
Elenco: Valerio Mastandrea, Alba Rohrwacher, Marco Giallini, Alessandro Borghi, Vittoria Puccini, Sabrina Ferilli, Silvio Muccino, Rocco Papaleo, Giulia Lazzarini.

Sem comentários: