09 abril 2018

Crítica: "Nome di donna" (2018)

Não existem grandes dúvidas de que "Nome di donna" é um filme bem-intencionado. A partir da história de Nina (Cristiana Capotondi), a protagonista, a longa-metragem realizada por Marco Tullio Giordana aborda temáticas relacionadas com o assédio sexual, o abuso de poder, o medo de denunciar casos do género e os intrincados trâmites legais que envolvem os mesmos, entre outros assuntos. O problema é que "Nome di donna" praticamente apenas tem boas intenções para oferecer, com Marco Tullio Giordana a colocar-nos perante um filme insípido, extremamente previsível, repleto de diálogos pouco inspirados e incapaz de abordar as suas temáticas com um mínimo de espessura ou subtileza. A juntar a tudo isto temos ainda uma banda sonora extremamente intrusiva, que parece recear que o espectador não perceba algum episódio ou estado de espírito à primeira. Note-se os momentos iniciais do filme, com a música a procurar exacerbar a todo o custo a felicidade de Nina nesta nova fase da sua vida.

Cristiana Capotondi tem uma interpretação relativamente competente como Nina, uma mulher que se muda de Milão para uma pequena aldeia na Lombardia, onde consegue trabalho num lar de idosos, nomeadamente, o Instituto Baratta. O estabelecimento conta com imenso prestígio e dimensões alargadas, embora boa parte dos seus espaços pouco ou nada sejam aproveitados ao serviço do enredo. Esse pouco aproveitamento é visível não só a nível dos espaços interiores, mas também no que diz respeito à exibição das dinâmicas internas do Instituto Baratta. Note-se que a maioria dos clientes surgem como meros figurantes, com excepção de Ines (Adriana Asti), uma veterana com uma personalidade deveras peculiar, com esta personagem a formar uma ligação especial com a protagonista. As rotinas laborais de Nina raramente são desenvolvidas, um pouco à imagem da relação da protagonista com as figuras que a rodeiam. É sempre tudo muito superficial, sejam as dinâmicas da personagem principal com Caterina (Giulia Caputo), a sua filha, ou com Luca (Stefano Scandaletti), o seu namorado, algo que prejudica e muito o peso dramático de alguns acontecimentos que marcam o desenvolvimento de "Nome di donna".

O momento em que Nina é chamada para se reunir com Marco Maria Torri (Valerio Binasco), um dos directores do Instituto Baratta, termina com a atmosfera feliz que rodeava a presença da protagonista neste local. As expressões nos rostos das suas colegas ao ouvirem a notícia deixam antever problemas para a protagonista e para o filme. Não existe a mínima tentativa de criar alguma dúvida ou mistério no que diz respeito aos objectivos de Torri: ele tenta utilizar o seu poder para assediar a funcionária, enquanto ela rechaça imediatamente os avanços. Quase todas as funcionárias pareciam saber deste tipo de conduta do superior hierárquico, embora a maioria apresente uma postura resignada, ou temerosa. A partir daqui assistimos à luta de Nina para defender os seus direitos e a verdade, tendo para isso não só de entrar numa batalha legal, mas também de vencer a oposição de algumas colegas e de Torri, com "Nome di donna" a dialogar e muito com a actualidade, em particular, com os casos relacionados com as denúncias de assédio e abuso de poder. 

Essas chamadas de atenção que o filme faz são necessárias, mas ganhariam outro fulgor se estivessem inseridas no interior de um argumento sólido e de um filme competente. O que não acontece. Veja-se o fraco desenvolvimento dos personagens, com a maioria a cingir-se à sua descrição inicial: Torri é o assediador; Don Ferrari (Bebo Storti), um padre responsável por parte do processo de recrutamento do lar, é um indivíduo conservador que compactua com os actos do primeiro; Tina Della Rovere (Michela Cescon) é uma advogada audaz que defende Nina. Por sua vez, Luca nunca chega a ganhar dimensão, já que a sua função no enredo resume-se praticamente a ser o namorado da protagonista. Tal como já foi mencionado, "Nome di donna" apresenta ainda uma gritante incapacidade no que diz respeito ao desenvolvimento das temáticas. Note-se a superficialidade na abordagem das repercussões da decisão de Nina, sejam estas a envolver as dinâmicas da protagonista com as colegas, ou naquilo que diz respeito ao quotidiano dos familiares da personagem principal ou daqueles que são próximos a Torri.

Os diálogos também estão longe de primarem pela inspiração. Veja-se as falas de Torri quando assedia Nina, ou o trecho em que Alina (Anita Kravos), uma colega da protagonista, revela que o progenitor a violava e é o pai da sua filha. Num filme que defende os direitos das mulheres, é no mínimo surpreendente observar a forma pueril, simplista e extemporânea como a revelação é feita e os objectivos da mesma, nomeadamente, para Alina demonstrar junto de Nina que não aceita mais abusos, após esta começar a discutir com a colega por ela não ter exposto os segredos de Torri. Temos ainda uma série de momentos "hilariantes" em que a filha de Nina começa a colocar a culpa de alguns acontecimentos negativos nos imigrantes. Será que Nina vai ter um diálogo com a filha para evitar que esta continue na ignorância xenófoba? Porque é que o realizador resolveu inserir a temática da imigração quando não apresenta o mínimo interesse em desenvolver a mesma? É uma subtrama completamente desnecessária, que realça acima de tudo as debilidades do argumento de Marco Tullio Giordana e Cristiana Mainardi.

A falta de chama e a desinspiração que grassam pelos trechos que decorrem no tribunal também são completamente desnecessários. Não falta um personagem a fazer esgares caricaturais de felicidade quando pensa que a sua advogada está a vencer, ou um momento pouco subtil em que o mesmo elemento deixa claro que é defendido por uma mulher para utilizar esse argumento a seu favor. Já tínhamos percebido a intenção, mas o argumento faz questão de não deixar qualquer dúvida. Extremamente simplista e insosso, sem saber aproveitar o seu elenco ou criar personagens dignos desse substantivo, "Nome di donna" vale acima de tudo pelas suas boas intenções. O problema é que elas por si só não chegam para sustentar uma obra cinematográfica.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª edição da Festa do Cinema Italiano.

Título original: "Nome di donna".
Realizador: Marco Tullio Giordana.
Argumento: Marco Tullio Giordana e Cristiana Mainardi.
Elenco: Cristiana Capotondi, Valerio Binasco, Stefano Scandaletti, Adriana Asti, Anita Kravos.

Sem comentários: