08 abril 2018

Crítica: "Hannah" (2017)

 Charlotte Rampling dá uma masterclass de interpretação em "Hannah", a segunda longa-metragem realizada por Andrea Pallaoro. A actriz consegue transmitir imenso com pouco, praticamente sem proferir grandes diálogos ou demonstrar emoções efusivas. Diga-se que o trabalho de Chayse Irvin na cinematografia contribui e muito para exacerbar a solidão e a melancolia que rodeiam o quotidiano da personagem principal. Não faltam planos compostos com rigor e brio, com a maioria a conseguir realçar a solitude que permeia a protagonista, seja quando ela está em casa, ou no metro, ou em outros cenários. Note-se o episódio em que a encontramos a lavar o cão do esposo, com as cores da casa de banho a parecerem ter sido drenadas de vida, algo que acentua a dor da protagonista, ou os trechos em que nos deparamos com Hannah sozinha, praticamente às escuras, com a parca iluminação a intensificar a melancolia que contamina a personagem.

No início do filme encontramos Hannah a acompanhar o esposo (sobriamente interpretado por André Wilms) até à prisão. Sabemos que este foi preso, embora os motivos para o aprisionamento raramente sejam esclarecidos, ou não estivéssemos perante uma obra que se preocupa mais em estimular o espectador a questionar aquilo que observa do que em responder às perguntas que são levantadas. Quais as razões para o filho de Hannah não querer falar com a mãe, nem deixar que esta contacte com o neto? O que está exposto nas fotografias que a protagonista encontra? O que levou uma mulher a dirigir-se exaltada à casa da personagem principal? Quem é que lhe liga para casa e desliga quando esta atende? Será que foi abandonada por todos aqueles que lhe são próximos? São perguntas e silêncios a mais, com Andrea Pallaoro a usar e abusar de um tom excessivamente minimalista, por vezes algo distante, enquanto tenta transportar o espectador para o âmago das tormentas interiores da protagonista. Quase tudo depende de Charlotte Rampling e dos seus silêncios, com a intérprete a atribuir dimensão à personagem do título. No seu olhar encontramos desolação, tristeza, melancolia, confusão e solidão, enquanto a sua Hannah procura manter a dignidade.

Hannah evita expressar os seus sentimentos juntos daqueles que a rodeiam ou não tem alguém a quem expor os seus problemas? Raramente encontramos a protagonista com amigos. Muito menos a ter longos diálogos. O facto do esposo ter sido preso mexeu com a protagonista e as suas rotinas, isso parece certo, com Hannah a ter de enfrentar a solidão e uma série de sentimentos contraditórios. Esta trabalha a cuidar de uma casa e do filho da patroa, tendo nas flores e no teatro alguns dos seus hobbies. A peça que ensaia em certa medida dialoga com a sua vida, enquanto a sua habitação adensa o seu isolamento. Note-se a dificuldade que esta tem em lidar com o cão do esposo, com o companheiro de quatro patas a exacerbar a ausência do personagem interpretado por André Wilms. Diga-se que a decoração deste espaço interior contribui para exacerbar essa solidão. Veja-se quando nos deparamos perante Hannah a arrumar a roupa do esposo no guarda-fato, ou o momento em que a encontramos amargurada na cama do casal, um espaço que outrora partilhava com o marido.

Será que Hannah acredita na inocência do esposo? A certa altura do filme, este diz que todos acreditam que ele cometeu o crime. Esperamos ouvir uma palavra de conforto por parte da protagonista, mas ao invés disso somos colocados perante um silêncio cortante que coloca em evidência que existe alguma dúvida a rodear os pensamentos da veterana. É um dos trechos de "Hannah" em que os silêncios resultam paradigmaticamente ao serviço do enredo, embora nem sempre seja assim. Por vezes gostávamos de a ouvir falar sobre si mesma e os seus problemas, que esta se exprimisse de forma mais viva e reagisse de modo menos introspectivo, ou que fossem concedidas respostas aos nossos anseios para que conseguíssemos embrenhar-nos a fundo na sua luta para reaprender a viver, mas não é isso que acontece.

Andrea Pallaoro segue um caminho minimalista, pronto a despertar dúvidas, a abordar temáticas como a alienação no espaço urbano ou a busca que uma mulher efectua para reencontrar-se. Para isso deixa que os silêncios preencham as lacunas, praticamente a transformar "Hannah" num puzzle que o espectador tem de decifrar. O problema é que o cineasta esquece-se de forma amiúde de conceder as peças para completarmos esse puzzle, quase que a pedir para preenchermos os espaços em branco com recurso à nossa capacidade de imaginar aquilo que não é dado. No entanto, em quase todos os momentos do filme Charlotte Rampling aparece em seu auxílio e eleva esta obra.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª Festa do Cinema Italiano.

Título original: "Hannah".
Realizador: Andrea Pallaoro.
Argumento: Andrea Pallaoro e Orlando Tirado.
Elenco: Charlotte Rampling, André Wilms, Stéphanie Van Vyve.

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