03 abril 2018

Crítica: "Guarda in alto" (2017)

 "Guarda in alto" embrenha-se pelos telhados de Roma, enquanto integra os espaços desta cidade e dos seus edifícios no interior de uma série de episódios nos quais a fantasia e a inocência imperam. Desde freiras que frequentam clubes nocturnos e conduzem gaivotas telecomandadas, passando por um grupo de jovens que se move pelos telhados, até à entrada em cena de uma francesa aventureira, "Guarda in alto" mira às alturas, desafia o nosso pragmatismo e exibe alguma ambição. O protagonista é Teco (Giacomo Ferrara), um jovem pasteleiro que se depara com a queda de uma estranha gaivota. Este estava a fumar com os colegas, mas logo abandona temporariamente os mesmos e parte em busca da ave. A curiosidade e a ingenuidade marcam a personalidade deste personagem, algo transmitido com competência por Giacomo Ferrara, com o actor a contribuir e muito para que acreditemos nas peripécias vividas pelo pasteleiro. Note-se desde logo quando encontra a ave, com esta a contar com características mecânicas e a transportar uma mão aparentemente mumificada. Pouco depois, Teco depara-se com duas freiras que procuram a gaivota, embora consiga esconder-se destas e iniciar uma jornada pelos telhados e terraços de Roma.

Com um enredo dinâmico e a espaços algo episódico, uma banda sonora que realça o pendor surreal de algumas situações e um protagonista com características que combinam na perfeição com a atmosfera sonhadora que marca a narrativa, "Guarda in alto" não tem receio em embrenhar-se pelo absurdo, em combater o cinzentismo e abraçar a inocência. É certo que nem sempre consegue desenvolver todos os personagens e episódios na justa medida, tal como é notório que a espaços abusa da simplicidade, embora não deixe de exibir qualidades que contribuem para que a sua visualização se torne uma experiência deveras agradável. A começar pelo cuidado colocado no design de produção. Note-se a pastelaria onde Teco trabalha, recheada de máquinas e propiciadora de rotinas repetitivas e incapazes de despertar a imaginação, algo que contrasta com o clube nocturno que o protagonista descobre nas suas deambulações, um espaço cheio de luzes, música e um ambiente que encoraja a ideia de que tudo é possível neste estabelecimento, seja uma corrida de caracóis ou freiras a beber cerveja. Observe-se ainda o convento de freiras e a forma criativa como as divisórias deste espaço são utilizadas, tais como uma sala de "alta tecnologia" ou a dispensa.

O trabalho na decoração e aproveitamento dos cenários é notório, bem como as tentativas do realizador Fulvio Risuleo para que o enredo continue dinâmico, surpreendente, leve e dotado de algum humor. A introdução rápida de personagens é um dos recursos utilizados pelo cineasta. Observe-se desde logo a entrada em cena de uma rapariga (Alida Baldari Calabria) acompanhada por uma "galinha-macho", com a jovem a integrar o protagonista no interior do seu grupo. O bando é composto por uma série de rapazes e raparigas mascarados, que têm em "Il Muto" uma espécie de líder (Emilio Gavira). Este é supostamente um rapaz mudo que se encontra a trabalhar na construção de um foguetão, com Emilio Gavira a dar vida a um personagem que conserva alguns segredos e proporciona diversas surpresas. Outro dos personagens com quem Teco se depara é Baobab (Lou Castel), um eremita incapaz de discernir o que é sonho ou realidade. Diga-se que Baobab é uma das várias figuras que raramente têm espaço para ganhar dimensão ao longo do filme, algo que se repete com uma dupla de nudistas alemães (Michele de Filippis e Giuseppe de Filippis)

Uma das personagens que mais sobressai neste périplo do pasteleiro pelos telhados é Stella (Aurélia Poirier), uma francesa que salta de um balão de ar quente. Esta tenta fugir de Joe (Ivan Franek), o seu namorado, enquanto protagoniza uma série de peripécias ao lado do protagonista e permite a Aurélia Poirier dar um ar da sua graça e do seu talento. "Guarda in alto" aproveita assim os telhados, os terraços e os espaços labirínticos romanos para dar largas à criatividade e demonstrar o que andamos a perder ao não observarmos e explorarmos com atenção os locais que nos rodeiam, com Fulvio Risuleo a conseguir que acreditemos neste universo narrativo. O cineasta abraça a fantasia, demonstra que valoriza o poder da imaginação, é capaz de transmitir a agradável sensação de efectuar descobertas e quebrar com as rotinas, enquanto transporta Teco para o interior de uma aventura delirante no interior de uma cidade de Roma em busca de ser (re)descoberta.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª edição da Festa do Cinema Italiano.

Título original: "Guarda in alto".
Realizador: Fulvio Risuleo.
Argumento: Fulvio Risuleo e Andrea Sorini.
Elenco: Giacomo Ferrara, Aurélia Poirier, Lou Castel, Alida Baldari Calabria, Ivan Franek, Emilio Gavira, Michele de Filippis, Giuseppe de Filippis.

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