05 abril 2018

Crítica: "Cuori puri" (2017)

 "Cuori puri" começa e termina praticamente com uma corrida, com a câmara a seguir atentamente os protagonistas, pronta a expressar os sentimentos que perpassam pelos seus rostos e a acompanhar os ritmos dos movimentos dos seus corpos. Em ambos os casos encontramos Agnese (Selene Caramazza) e Stefano (Simone Liberati) em destaque, ou não fossem os "corações puros" do título da primeira longa-metragem realizada por Roberto De Paolis. No início do filme encontramos Agnese a correr, enquanto foge desesperadamente de Stefano. Ele é um segurança. Ela acabou de roubar um telemóvel do centro comercial onde este trabalha. Selene Caramazza coloca em evidência o desespero da sua personagem, enquanto esta clama para o segurança deixá-la partir. Simone Liberati incute uma certa intensidade no olhar e expressa a tentativa de Stefano em fazer com que a jovem se dirija ao centro comercial para devolver o telemóvel e ser identificada pelas autoridades. Os seus rostos transmitem o cansaço da corrida, mas também o desconforto que sentem por estarem diante de uma situação pouco agradável que termina de forma surpreendente: Stefano deixa Agnese partir.

Estão lançadas as bases para um romance improvável entre estes dois personagens que contam com personalidades e vivências distintas, com Roberto De Paolis a desenvolver habilmente as suas dinâmicas, a conseguir inserir as características do meio que os rodeia no interior das suas histórias e a jogar com enorme acerto com as convenções dos romances improváveis. Diga-se que, apesar de utilizar algumas convenções do género, o cineasta consegue surpreender-nos em alguns momentos de "Cuori puri". Veja-se desde logo quando contrasta a imagem inicial de Agnese com o episódio que se segue, nomeadamente, a jovem a cantar no coro da igreja na companhia de Marta (Barbora Bobulova), a sua mãe, uma mulher extremamente devota e conservadora. A protagonista encontra-se quase a completar dezoito anos de idade, é profundamente religiosa, procura manter-se virgem até ao casamento e vive com a progenitora. Esta procura que a filha conserve a virgindade até ao matrimónio, tenta controlar todos os passos da jovem e efectua trabalho voluntário quer para ajudar os ciganos, quer os refugiados, com Barbora Bobulova a transmitir eficazmente a personalidade conservadora da sua personagem, uma mulher extremamente protectora e insegura. Estamos longe de nos encontrar diante de uma personagem desprovida de sentimento, ou completamente unidimensional, com o argumento a expor a ligação muito específica que existe entre Marta e a filha.

Em certa medida, "Cuori puri" remete para obras como "La ragazza del mondo" e "Corpo Celeste", que abordavam a influência da religião na vida das jovens protagonistas e no modo como estas lidam com o mundo que os rodeia. No caso de Agnese, a religião ocupa uma parte importante do seu dia a dia, seja na sua relação com a mãe, ou com Beatrice (Isabella Delle Monache), a sua melhor amiga, ou na igreja. O quarto de Agnese permite expressar de forma paradigmática não só o cuidado na decoração dos cenários interiores, mas também a religiosidade desta personagem e a "redoma" em que foi criada. Não faltam fotografias que remetem para momentos felizes, a figura da Virgem Maria na porta, desenhos com motivos religiosos, um objecto semelhante a uma maçã dentada de Eva e toda uma parafernália que realça o meio acolhedor, protector e extremamente ligado à religião que envolve a protagonista. Diga-se que o quarto de Agnese e a sua habitação permitem reforçar o contraste entre o ambiente que rodeia a jovem com a violência e a crueza que marcam o dia a dia de Stefano, seja quando este se encontra no local de trabalho ou a lidar com Angela (Antonella Attili) e Ettore (Federico Pacifici), os seus pais.

 Após ter sido despedido do centro comercial, Stefano foi destacado para um parque de estacionamento de um supermercado, um espaço marcado pela insegurança e falta de condições. Ao lado do parque encontra-se um acampamento de ciganos, com o protagonista a logo entrar em confronto com estes elementos e vice-versa. A cerca que separa os dois cenários parece demasiado frágil para impedir problemas mais sérios, algo que se torna evidente em diversas ocasiões do filme. É notório que Stefano tem alguns preconceitos em relação aos ciganos, sobretudo devido a encará-los como uma ameaça à segurança do espaço que tem de guardar. No fundo, é um cenário que surge praticamente como metáfora para o meio que rodeia o segurança, ou seja, instável. É precisamente neste parque de estacionamento que a dupla de protagonistas se reencontra, nomeadamente, quando Agnese acompanha a mãe ao acampamento numa acção de solidariedade. Mais tarde, Agnese e Stefano voltam a entrar em contacto e começam a desenvolver algo que promete desafiar as suas diferenças e aquilo em que acreditam, com "Cuori puri" a colocar-nos diante do nascimento de uma relação improvável.

Selene Caramazza insere uma mescla de fragilidade, curiosidade e inocência à sua personagem, uma jovem que balanceia entre cumprir os sonhos da mãe ou quebrar as regras e iniciar uma relação com Stefano. Perder ou não a virgindade? É uma questão que apoquenta a protagonista, algo que mexe com os seus ideais de pureza, ou, pelo menos, com aqueles que lhe foram incutidos. Simone Liberati coloca intensidade no olhar do seu personagem, um jovem que não precisa de falar muito para se expressar. O actor consegue transmitir o vulcão de emoções que Stefano por vezes tenta conter no seu interior, bem como a sinceridade e a vulnerabilidade deste segurança que começa a sentir algo de muito forte por Agnese. As diferenças entre ambos são latentes, sendo realçadas em diversos momentos do filme. Veja-se alguns dos exemplos já mencionados, ou o contraste entre a festa de dezoito anos da protagonista com um reencontro de Stefano com os amigos. Se a festa de aniversário é pontuada por um ambiente inocente e inofensivo, diálogos em que a religião não é esquecida e alguma felicidade, já o reencontro do segurança com o grupo de Lele (Edoardo Pesce), o seu melhor amigo, é marcado por um jogo de futebol intenso e um assalto que realça de forma clara os meios distintos que envolvem os dois personagens principais.

 As diferenças entre os dois protagonistas são ainda realçadas pela relação destes com os pais, com o excesso de protecção e de expectativas de Marta a contrastarem com os comportamentos erráticos de Angela e Ettore, um casal com graves problemas financeiros. A unir os protagonistas encontra-se o desejo, a curiosidade que nutrem um pelo outro e uma química considerável, com a dupla a confirmar que os opostos se atraem. Os seus rostos aparecem imensas vezes em destaque, com "Cuori puri" a não poupar na utilização dos close-ups que permitem expressar imenso sobre o estado de espírito dos protagonistas. As trocas de olhares entre os personagens interpretados por Simone Liberati e Selene Caramazza não enganam e realçam a proximidade que estes formam, com os intérpretes a demonstrarem que existe muito a unir e a separar estes dois personagens, enquanto os acompanhamos pelos meandros deste território da periferia de Roma. A cinematografia (a cargo de Claudio Cofrancesco) é marcada por um estilo quase documental, pronta a captar a luz natural e a destacar as características destes espaços. Observe-se o trecho em que encontramos os protagonistas na praia, num momento de acalmia e proximidade que logo é cortado por uma chamada telefónica, ou o episódio em que Lele visita Stefano ao parque de estacionamento, com o calor dos sentimentos a aliar-se ao da temperatura ambiente. 

 Esse calor das emoções é muitas das vezes realçado com recurso a planos de longa duração que permitem captar a essência das dinâmicas destes personagens e dos meios que os rodeiam. Observe-se o trecho em que Marta discute com a filha, com a câmara de filmar a acompanhar de forma atenta este episódio mais intenso, enquanto tudo é exposto com recurso a poucos cortes e a uma multitude de sentimentos. Os valores de Marta influenciam e muito a protagonista, com mãe e filha a manterem dinâmicas que variam entre a acalmia e a agitação. O argumento explora com acerto esta ligação muito particular entre estas duas personagens, bem como o papel da religião católica na vida de ambas, embora no cerne de tudo esteja a história de amor muito particular entre Agnese e Stefano. A pureza de ambos remete não só para alguma inocência e sinceridade, mas também para algo que não se mistura, com Stefano e Agnese a terem de aprender a aceitar as suas diferenças e as daqueles que os rodeiam, uma situação realçada ao longo do filme (e reforçado pelo realizador). Selene Caramazza e Simone Liberati sobressaem ao longo deste drama com ingredientes de romance, com "Cuori puri" a destacar-se não só pelo trabalho dos seus intérpretes, mas também pela solidez do seu argumento e pela sua capacidade para explorar as características do meio que rodeia a dupla de protagonistas. 

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª edição da Festa do Cinema Italiano.

Título original: "Cuori puri". 
Realizador: Roberto De Paolis.
Argumento: Roberto De Paolis, Luca Infascelli, Carlo Salsa, Greta Scicchitano.
Elenco:  Selene Caramazza, Simone Liberati, Barbora Bobulova, Edoardo Pesce, Antonella Attili, Federico Pacifici, Isabella Delle Monache.

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