02 abril 2018

Crítica: "Buon inverno" (Happy Winter)

 Nos momentos iniciais de "Buon Inverno" (Happy Winter) ficamos diante de um plano plongée absoluto que permite estabelecer de forma rápida e eficaz o local onde se desenrola este documentário, nomeadamente, a praia de Mondello, em Palermo, na Sicília. No plano seguinte passamos do caso geral para o particular, com o realizador Giovanni Totaro a apresentar-nos a algumas das gentes que povoam este espaço durante uma parte considerável do Verão, enquanto estas tentam desfrutar das férias e esquecer temporariamente os problemas que as inquietam durante o ano. As cabanas que alugam servem não só de abrigo do Sol, da chuva e do vento, mas também dessas dificuldades, embora os diálogos dos veraneantes demonstrem que estes sabem que se encontram a protagonizar um pequeno intermezzo. "Temos de apertar os cintos, é sempre a mesma história" diz Tiziana para Giuseppe, o seu esposo, enquanto este replica "Nós apertamos e apertamos até sufocarmos", uma troca de falas que realça paradigmaticamente as dificuldades que ambos atravessam devido a estarem desempregados.

Giuseppe está sem dinheiro ou emprego e procura cair nas boas graças de Antonino Serio, um indivíduo que se pretende candidatar à comuna de Palermo. O discurso populista anti-migração e xenófobo de Antonino permite reforçar a ideia de que a realidade desta praia surge praticamente como uma amostra daquilo que acontece em Itália e das problemáticas que envolvem o país. O desemprego, o populismo, a crise económica e a descrença nos políticos encontram-se entre as temáticas abordadas, tal como o cuidado com as aparências, as relações matrimoniais e as dinâmicas entre pais e filhos, sempre a partir das figuras que povoam este espaço balnear. Um dos elementos que mais desperta à atenção é Antonio Patti, um indivíduo que vende refrigerantes, água e cerveja ao redor da praia. "Buon Inverno" consegue transmitir a dureza que envolve esta profissão e as rotinas repetitivas da mesma, bem como o esforço de Antonio para juntar o máximo dinheiro possível durante a época balnear, seja a vender produtos pelo areal ou no seu pequeno bar. Essa procura de acumular dinheiro para o resto do ano leva a que o vendedor nem sempre tenha tempo para estar junto dos seus e apreciar o espaço onde trabalha, um problema que afecta boa parte da sociedade contemporânea e é sobriamente abordado no documentário.

A certa altura do filme encontramos Antonio a conversar com o filho, tendo em vista a demonstrar junto do petiz que espera que este não venha a ter um trabalho tão pesado como o seu. É um momento dotado de sinceridade e sentimento, que reforça as preocupações deste indivíduo em relação ao futuro do filho ao mesmo tempo que realça as dificuldades inerentes ao seu trabalho. Esta representação que "Buon inverno" efectua das rotinas de Antonio durante o Verão é um exemplo paradigmático de que o cinema pode muitas das vezes funcionar como uma porta de entrada para observarmos outros mundos e encararmos realidades distintas a partir das figuras que nos são apresentadas. Quando estamos na praia é improvável que a nossa atenção esteja no labor destes trabalhadores. Giovanni Totaro faz com que nos interessemos por este indivíduo e pelo seu trabalho, bem como que respeitemos o mesmo. Diga-se que o cineasta consegue ainda que nos interessemos pela maioria dos personagens e pelas suas dinâmicas. Veja-se a cumplicidade que marca a relação de Mauro e Piera, um casal, ou as dinâmicas pontuadas pela leveza entre esta última, Anna e uma amiga de ambas.

O documentário não poupa em situações que envolvem o convívio entre os veraneantes. Observe-se os episódios em que visualizam os jogos da selecção de Itália durante o Euro 2016 (algo que permite não só discernir o período em que decorreram as filmagens do filme, mas também o papel do futebol para unir conhecidos e desconhecidos), ou nadam na água, ou cantam, entre outras situações. Diga-se que estes episódios de maior leveza atingem o seu ponto alto nas celebrações do dia 15 de Agosto, o Ferragosto, em que assistimos a imensa festa e a diversos eventos protagonizados pelos membros desta espécie de comunidade. Se a felicidade momentânea marca alguns episódios protagonizados por estes elementos, também não deixa de ser notório que diversos veraneantes não se esqueceram dos problemas. Note-se quando encontramos Tiziana a comentar junto de Anna que ela e o marido estão a ponderar emigrar. É algo que remete para a incapacidade destes homens e mulheres em deixarem as suas dificuldades totalmente de lado, embora tentem utilizar as suas cabanas para esquecer e esconder momentaneamente essa situação, enquanto vivem temporariamente em comunidade e aproveitam o calor para soltar os corpos e os sentimentos.

Não sabemos ao certo o que é real e encenado ao longo de "Buon inverno", ou o quanto a câmara influenciou as palavras e os gestos destes homens e mulheres, ou se estes estavam a interpretar versões de si próprios. O que sabemos é que o filme estabelece eficazmente um retrato de Itália a partir destas gentes e das suas histórias, com esta praia a surgir praticamente como um espelho deste país. Giovanni Totaro permite que fiquemos a conhecer estes veraneantes e as suas dinâmicas, observa atentamente o interior e o exterior das cabanas que albergam estas gentes, aventura-se pelos rituais mundanos que decorrem nesta praia e captura os ritmos deste espaço, enquanto deixa indicações muito positivas na sua estreia na realização de longas-metragens.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª edição da Festa do Cinema Italiano.

Título original: "Buon inverno".
Título utilizado inicialmente no Festival de Veneza: "Happy Winter".
Realizador: Giovanni Totaro.
Argumento: Giovanni Totaro.
Com a presença de: Antonino Serio, Piera La Placa, Anna D'Acquisto, Grazia Garito, Giuseppe Comito, Antonio Patti.

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