07 abril 2018

Crítica: "Ammore e malavita" (2017)

 Pontuado por números musicais delirantes e bem coreografados, mortes, traições, romance, reviravoltas, perseguições, sátira, disputas entre mafiosos, comentários de foro social, imensas referências cinéfilas e uma miríade de outros ingredientes, "Ammore e malavita" nem sempre está à altura das suas ambições, mas nem por isso deixa de ser um pedaço de cinema extremamente apelativo, estimulante e provocador. Os realizadores Antonio e Marco Manetti regressam a Nápoles para efectuarem uma representação vivaz dos espaços e das particularidades desta cidade, enquanto deambulam por uma profusão de géneros e subgéneros, sejam os musicais, os dramas, os filmes da máfia, os noir, a comédia e espionagem. Os momentos iniciais de "Ammore e malavita" permitem discernir desde logo essa mescla de géneros e a atmosfera delirante que marca o enredo, com os irmãos Manetti a deixarem-nos perante um morto (Carlo Buccirosso) a cantar e a salientar que não conhece ninguém que está no local onde decorreu o velório. Diga-se que o falecido enfatiza que não sabe quem é Don Vincenzo (também interpretado por Carlo Buccirosso), o chefe da máfia que supostamente foi assassinado e deveria estar no caixão, algo que permite deixar-nos com a pulga atrás da orelha em relação a todo este episódio.  

Se o número musical protagonizado pelo defunto decorre maioritariamente num espaço contido, fruto do corpo estar no caixão e deste estar a ser transportado da igreja para o carro funerário, já o episódio que se segue permite uma exibição mordaz do território de Nápoles. Ficamos perante um guia que apresenta Scampia a um grupo de turistas oriundos dos EUA, enquanto estes homens e mulheres rejubilam com os edifícios cinzentos e degradados, bem como com a possível presença de criminosos e de situações perigosas. De uma assentada os irmãos Manetti satirizam não só com alguns costumes dos turistas, mas também com os preconceitos e lugares-comuns associados a este espaço. Todo este número musical conta com doses assinaláveis de humor, uma coreografia enérgica e vibrante, uma letra inteligente e um ritmo dinâmico. Pouco tempo depois, passamos para um episódio que mexe com o filme, nomeadamente, um atentado que praticamente vitima Don Vincenzo, o "Rei do Peixe". Este é um chefe da Máfia, em particular, da Camorra, que é atacado pelos homens ao serviço de Salernitano (Giovanni Esposito), um rival, sendo salvo in extremis por Ciro (Giampaolo Morelli) e Rosario (Raiz), os seus "dois tigres", que é como quem diz, os seus homens de confiança mais mortíferos e leais.

Entre exageros, mortes, ameaças, facadas, humor e um tiro no traseiro do chefe da máfia, o ataque promovido contra Vincenzo permite reforçar a certeza de que estamos perante um filme que vagueia pelas franjas de uma série de géneros. O episódio mencionado conduz a que o mafioso expresse o desejo de desaparecer, algo que leva Maria (Claudia Gerini), a sua esposa, a conjurar uma saída de cena à James Bond em "You Only Live Twice", ou seja, forjar a morte do primeiro. Os únicos que sabem deste plano são Maria, Vincenzo, Ciro, Rosario e Gennaro (Franco Ricciardi). Ciro e Rosario ficariam com os negócios relacionados com o peixe. Gennaro, outro dos homens de confiança de Vincenzo, substituiria o chefe como líder da organização, enquanto o casal viveria sossegadamente com identidades falsas. Para isso subornam o médico que trata o mafioso do tiro no traseiro e eliminam um indivíduo semelhante ao segundo, mas os planos de todos sofrem um enorme revés com a entrada em cena de Fatima (Serena Rossi), uma enfermeira que contacta inadvertidamente com o camorrista. 

A ordem é clara: Fatima tem de morrer. O problema é que esta é o grande amor da infância de Ciro, com o reencontro a reacender sentimentos antigos, algo que leva o assassino a trair os seus superiores e a fugir com a amada. Diga-se que é mais um trecho em que ficamos diante de um número musical magnífico, que tanto tem de enérgico como de romântico, cómico e extravagante, com "What a Feeling" a servir como ponto de partida para "L'ammore overo", uma canção cantada por Fatima em que o passado e o presente se unem para que esta mulher expresse os seus sentimentos por Ciro. Os mafiosos logo procuram eliminar Ciro, enquanto este esforça-se para se livrar dos inimigos e manter a amada a salvo, com estas novas dinâmicas a atirarem "Ammore e malavita" para o interior dos meandros dos filmes de acção e a mexerem com este grupo peculiar de personagens. Diga-se que nem todos os personagens são desenvolvidos com acerto, tal como nem sempre tudo funciona ao longo do filme, sobretudo quando os realizadores pedem para que levemos a sério esta espécie de jogo entre o gato e o rato de Ciro com os seus antigos empregadores. Nunca sentimos uma tensão verdadeira a rodear os acontecimentos, ou uma sensação de urgência, embora a nova longa-metragem dos irmãos Manetti conte com diversos momentos e personagens dignos de atenção

Uma dessas personagens é Maria, com Claudia Gerini a personificar na perfeição a atmosfera da obra cinematográfica: espalhafatosa, expressiva, cinéfila e carismática. A actriz transmite todos estes atributos, enquanto demonstra o afecto que a sua Maria tem por Vincenzo, bem como a paixão desta pela Sétima Arte. Desde uma miríade de dvds espalhados pela sala, passando por uma série de carros em miniatura relacionados com obras cinematográficas, ou o plano a imitar "You Only Live Twice", até à sala de pânico inspirada no filme de David Fincher, esta mulher não poupa nas demonstrações de amor pelo cinema e surge praticamente como a desculpa perfeita para os irmãos Manetti inserirem mais referências cinéfilas no interior do enredo de "Ammore e malavita". Por sua vez, Carlo Buccirosso incute um registo simultaneamente cómico, temível e impulsivo ao seu Vincenzo, um mafioso que ama a sua esposa e nem sempre é capaz de tomar as opções mais pragmáticas. Outra das personagens em destaque é Fatima, algo que permite a Serena Rossi ter algum espaço para sobressair, sobretudo nos números musicais, ou quando a enfermeira tem de colocar um plano mirabolante em prática. Já Giampaolo Morelli transmite eficazmente a rigidez e a vertente mortífera do seu Ciro, mas é incapaz de convencer totalmente no que diz respeito aos sentimentos mais calorosos que este sente por Fatima, algo que prejudica e muito as dinâmicas da dupla.

As dinâmicas entre Fatima e Ciro são marcadas pelas tentativas que este efectua para proteger a amada, enquanto esta tenta que o assassino não elimine mais pessoas, com ambos a pertencerem actualmente a mundos distintos, embora estejam ligados por sentimentos bem fortes e um passado em comum. Se o casal protagoniza alguns momentos que conseguem despertar a atenção, já Raiz raramente convence como Rosario, com o actor e cantor a conferir um estilo unidimensional ao seu personagem. Essas limitações fazem com que praticamente não acreditamos nos dilemas morais de Rosario, com o intérprete a falhar no quesito de atribuir espessura a este criminoso de gestos abrutalhados. Diga-se que Raiz não é ajudado pelo argumento, um pouco à imagem do que acontece com Giampaolo Morelli. Se o argumento nem sempre está à altura da sua ambição e a espaços falha no desenvolvimento dos personagens, já o trabalho a nível do guarda-roupa é deveras inspirado. Note-se a farda vermelha de Fatima, pronta a realçar os problemas que vão envolver esta mulher, ou as vestes escuras dos dois tigres, capazes de reforçar a faceta mortífera e perigosa dos mesmos, ou a mescla de vulgaridade e elegância que rodeia o guarda-roupa de Maria, algo que sublinha alguns traços da personalidade desta personagem. 

O aproveitamento dos cenários exteriores também é digno de realce. Note-se a eficácia com que o espaço do porto é utilizado para realçar a inquietação em redor de uma emboscada, ou o modo preciso como a praia é aproveitada para a colocação de um plano em prática e para um confronto inevitável. A fotografia de Francesca Amitrano realça os contrastes e as especificidades que marcam o território e o filme. Observemos a mescla de cinzentismo e vida da Scampia que é apresentada no número musical, ou as características radiosas e quentes da praia, ou as cenas nocturnas marcadas por um tom estilizado, nas quais a iluminação permite banhar as imagens em movimento de uma tonalidade amarelada. Os elogios merecem ainda ser aplicados à decoração dos cenários interiores. Veja-se a espécie de sala de pânico do mafioso, marcada por uma decoração que realça a cinefilia de Maria, ou a forma como a habitação deste casal é aproveitada para um enérgico número musical no qual a personagem interpretada por Claudia Gerini assume a defesa da empregada. Como já foi mencionado, nem tudo funciona ao longo do filme. No entanto, "Ammore e malavita" também conta com uma miríade de ingredientes de peso que fazem com que a visualização da nova longa-metragem dos irmãos Manetti surja como uma experiência e tanto. Entre esses ingredientes encontram-se os números musicais criativos, enérgicos e delirantes, bem como a saudável loucura que pontua uma parte assinalável do enredo desta peculiar obra cinematográfica. 

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª edição da Festa do Cinema Italiano.

Título original: "Ammore e malavita".
Realizadores: Antonio Manetti e Marco Manetti. 
Argumento: Antonio Manetti, Marco Manetti e Michelangelo La Neve.
Elenco: Claudia GeriniGiampaolo Morelli, Serena Rossi, Carlo Buccirosso, Raiz, Antonio Buonomo.

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