10 março 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Pablo Villaça

 Provavelmente o crítico em actividade que mais teve (e tem) relevância na minha formação como cinéfilo, Pablo Villaça esteve presente na nona edição do FESTin como júri da crítica, bem como para leccionar uma masterclass sobre "A escrita na crítica cinematográfica" e moderar um debate. A presença do Pablo Villaça no festival foi a oportunidade ideal para entrevistá-lo. Ao longo da entrevista forma abordados assuntos relacionados com a prestação brasileira em Berlim, a riqueza do cinema brasileiro, a importância de Roger Ebert no modo como o Pablo Villaça encara a crítica e o trabalho do crítico, entre outros temas. O resultado final da entrevista aumentou ainda mais a minha enorme admiração pelo Pablo Villaça e a vontade de participar num possível curso do mesmo em Portugal. P.S. A fotografia será alterada mais tarde.


Rick's Cinema: O cinema brasileiro saiu mais uma vez bastante bem visto de Berlim. Qual é o balanço que faz desta prestação brasileira em Berlim? 

Pablo Villaça: O ano passado e este ano a participação do Brasil em Berlim foi especialmente boa. Não só na selecção dos filmes, que eram filmes mesmo muito bons, mas também na recepção do público. Todas as sessões estavam lotadas e o público muito entusiasmado, reagiu muito positivamente aos filmes. Fico até com medo de soar ufanista, mas dá um orgulho você perceber a produção do seu país, principalmente uma produção que é tão representativa da nossa cultura. Não são filmes genéricos. São filmes que trazem elementos que são muito característicos da cultura brasileira. Por exemplo, alguns filmes que foram exibidos em Berlim o ano passado e que vão passar no FESTin como "Não Devore Meu Coração", ou esse ano o "Bixa Travesty", "Tinta Bruta", têm uma brasilidade inquestionável. Ao invés de tornar o filme mais difícil para a plateia internacional, essa brasilidade de certa maneira torna-o ainda mais universal. Fiquei orgulhoso de ver como os filmes comunicaram bem com a plateia internacional. Aliás, o Brasil tem participações muito boas em festivais internacionais.


RC: O Kléber Mendonça Filho fez recentemente sucesso em Cannes com o "Aquarius"...

PV: Em Cannes no mesmo ano em que o Kléber Mendonça Filho estava lá com "Aquarius", também estava lá o Eryk Rocha com o "Cinema Novo", um documentário sobre o Cinema Novo que é um filme maravilhoso. Tivemos também em Cannes a passar na Semana da Crítica o "Gabriel e a Montanha", que ganhou dois prémios (de revelação e da Fundação Gan) - merecidamente, é um filme lindíssimo. O Brasil tem participações muito boas em festivais internacionais. O que me frustra ainda mais quando vejo que o cinema brasileiro tende a ser mal visto por boa parte do público brasileiro que frequentemente diz que o nosso cinema não presta, ou é ruim, embora não tenha a menor noção do que é na verdade o cinema brasileiro.


RC: Como se explica esta riqueza do cinema brasileiro? É que por exemplo basta simplesmente observamos os filmes que estão no FESTin como o Não Devore Meu Coração e o Açúcar para percebermos que são filmes muito distintos, que nem parecem do mesmo país...

PV: Acho que boa parte dessa riqueza do cinema brasileiro tem a ver com o facto do Brasil ser um país de dimensão continental. Embora também seja um país de dimensão continental, os EUA têm produção em Hollywood na Costa Oeste e em Nova Iorque na Costa Leste. São pólos muito marcados pelo próprio sistema de produção. No Brasil não temos isso. Tudo bem que temos uma predominância um pouco maior do Sudeste - de São Paulo e Rio de Janeiro, mas você tem produção cinematográfica no Nordeste, Centro Oeste, Sul (por exemplo, a Casa de Cinema de Portalegre). E, até, ainda que em menor grau, mas a começar a despontar, na região Norte. O ano passado um dos filmes que passaram em Berlim foi produzido em Manaus, o "Antes o tempo não acabava", que é um filme lindíssimo. Quando você produz cinema ou qualquer tipo de arte nas regiões é natural que essas produções tendam a reflectir a sensibilidade local. Como produzimos cinemas em todos os cantos do Brasil é natural que os filmes tenham uma diversidade temática, estética e de linguagem.

 Às vezes é como você falou, nem parecem do mesmo país. Quando você compara "Açúcar" com "Não Devore Meu Coração", "Mulher do Pai", "Como Nossos Pais", "Bixa Travesty" e "Tinta Bruta" quase que se pergunta: "esses filmes são do mesmo país?" Essa diversidade de produção no Brasil é uma das coisas que temos que são mais lindas. Digo isso sem medo de soar ufanista. Acho que a produção brasileira de cinema é uma das mais ricas do Mundo, porque temos uma diversidade que é rara nos outros países. Claro que quanto mais filmes produzimos, mais produzimos porcaria. A única coisa que é frustrante é que muitos desses filmes brasileiros mais autorais, que inclusive são os que se destacam nos festivais internacionais, tendem a não ganhar uma distribuição boa no Brasil. Os filmes que tendem a ganhar distribuição no Brasil são as globochanchadas. Isso é frustrante.


RC: O Brasil é uma fonte riquíssima de documentários. Tanto no artigo "O Rico Cinema Brasileiro" como no Videocast "O Riquíssimo cinema brasileiro", o Pablo menciona as qualidades dos documentaristas brasileiros. Podemos falar de uma sensibilidade especial ou diferente do documentarista e do documentário brasileiro? 

PV:  Acho que também tem a ver com essa diversidade a nível de questões de tema e regiões. Para mim o maior documentarista da História do Cinema é brasileiro, o Eduardo Coutinho. Eu sou fã de documentário. Se alguém me perguntasse o meu género cinematográfico favorito, sem dúvida que responderia que é o documentário. Se eu apenas pudesse ver um género cinematográfico para o resto da vida, esse género seria o documentário. O que não faltam são cineastas históricos sensacionais como o Errol Morris e o Werner Herzog, mas o Eduardo Coutinho tinha uma sensibilidade e uma humanidade que o tornavam diferente. Ele era capaz de chegar e dizer que ia fazer um documentário sobre quem ia a passar na rua. Ele parava as pessoas, entrevistava-as e ia tirar coisas lindíssimas dessas entrevistas. Essa empatia e humanidade era um dom do Coutinho.

  Fora isso temos uma quantidade muito grande de documentaristas/cineastas que não só têm especificidades culturais das suas regiões, mas também têm interesses particulares e estéticas diferentes. Quando você assiste a filmes do Marcelo Masagão como o "Nós Que Aqui Estamos por Vós Esperamos" ou o "1,99 - Um Supermercado Que Vende Palavras" e compara com João Moreira Salles, nomeadamente, "Santiago" ou o "No Intenso Agora" percebe que a estrutura do filme é muito diferente uma da outra. São formas diferentes de você contar aquelas histórias particulares e que são frequentemente muito interessantes. Não é simplesmente aquela coisa batida do documentário de cabeça falante, de você botar uma câmara num primeiro plano, entrevistar a pessoa e ela falar. Não, a estrutura que você usa para contar a história é diferente. Até mesmo quando você embaça a fronteira da ficção com a realidade. Temos o exemplo recente do "Era o Hotel Cambridge". É sensacional porque ao mesmo tempo em que o filme foi rodado em locação com aquelas pessoas que vivem aquela situação, muitas delas interpretando versões delas mesmas, você tem um José Dumont - que para mim é um dos melhores actores da História do Cinema Brasileiro - a interpretar claramente um personagem. Você tem esse cruzamento de personagens fictícios com personagens verídicos, reais, interpretados por eles mesmos. O filme funciona como uma ficcionalização, mas também como um documentário. Quando eles mostram a invasão ao outro prédio, eles estão mesmo a mostrar a invasão, ainda que inserida num contexto ficcional. É isso que me encanta no documentário brasileiro: essa capacidade de olhar para a realidade sem ser um olhar engessado, conseguir observar pontos de vistas diferentes e conseguir expressá-los de maneira diferente.


RC: Algumas pessoas por vezes associam documentários a filmes pouco emotivos, mas, por exemplo, temos obras como o "Cássia" que comprovam o que o documentário pode informar e emocionar...

PV: O Paulo Henrique Fontenelle para mim é um dos grandes documentaristas contemporâneos. Eu já admirava o Paulo Henrique antes de me tornar amigo dele. O "Loki - Arnaldo Baptista" que ele fez sobre o Arnaldo Baptista; o "Dossiê Jango" que é um filme importantíssimo. O Paulo tem uma humanidade muito grande. Se ele vai fazer um filme sobre a Cássia, ele não faz um filme sobre a figura quase mítica de Cássia Eller. O Paulo vai querer entender quem é essa mulher, o que a movia e a sua arte, a perda dela para a companheira e o filho. Mesmo quem não goste de Cássia Eller vai olhar e dizer: "que história interessante". Eu acho o "Cássia" lindíssimo. Eu assisti o filme algumas vezes. Primeiro vi quando ainda estava a ser montado, o Paulo enviou-me o quinto ou sexto corte do filme e eu falei: "porra, já está foda". E ele respondeu "é só o quinto ou sexto corte, está muito precário". O filme já estava lindo. No Festival do Rio a sessão estava lotada. No final do filme, a pessoa que estava à minha frente, a que estava à minha esquerda e a que se encontrava à minha direita choravam convulsivamente. Eu estava cercado por choro. Uma das coisas que acho lindo no cinema é essa experiência comunal, essa oportunidade de compartilhar sentimentos com outras pessoas. Não é só ver filmes bonitos, ou emocionantes, é você compartilhar a reacção que esse filme gera nas pessoas em seu redor.

 
RC: O Pablo ministra cursos sobre Teoria, Linguagem & Crítica e de Forma & Estilo Cinematográficos, mas tem outro que desperta particularmente a minha atenção, o Decifrando o Padrinho. Como nasceu a ideia de criar este curso e essa paixão pelo "O Padrinho"?

PV: Para mim a trilogia é um filme só de dez horas. Vejo muita gente a falar da terceira parte, mas eu acho ela tão sensacional como as outras duas. Tenho um vídeo em que falo só sobre a terceira parte. Eu tenho um fascínio pela trilogia do "O Poderoso Chefão" que é antigo e só aumenta. Tenho uma tradição particular em que pelo menos uma vez por ano eu assisto os três filmes de uma assentada e todas as vezes eu descubro coisas novas sobre os filmes. Numa dessas vezes eu pensei: "caramba esses filmes são tão fantásticos e têm tanta coisa que é um curso de cinema. Dá para se ensinar cinema". Então falei, "opa é um curso de cinema". Então peguei e montei um curso só sobre o primeiro filme. Passo quinze horas com a turma a assistir ao primeiro filme. São cinco aulas, três horas cada dia, em que passamos quinze horas a assistir a um filme de três horas. Paramos plano por plano e analisamos a fotografia, direcção de arte, design de produção, figurino, montagem, desenho de som, elementos das actuações dos personagens, elementos estruturais do argumento. Para mim funciona como uma faculdade de cinema intensa em uma semana a partir de "O Poderoso Chefão". Sem falar que me dá uma desculpa boa para ver o filme mais uma vez (risos). Eu tenho a maior inveja quando um leitor avisa que está a ver o filme pela primeira vez. Quem me dera poder assistir ao filme de novo pela primeira vez. Então a maneira que eu tenho de assistir ao "O Poderoso Chefão" de novo pela primeira vez é com as pessoas que ainda não conhecem o filme.


RC: Ao efectuarmos uma nova visualização do filme ganhamos uma perspectiva mais alargada do mesmo, mas também pode acontecer o caso de mudarmos de opinião. Por exemplo, o Roger Ebert no texto sobre o "Elogio ao Amor" (In Praise of Love) do Jean Luc-Godard salienta que gostou do filme quando o viu em Cannes, mas que passou a discordar dessas palavras após ter visto a obra uma segunda vez. O Pablo já contou com algum caso em que viu um filme num contexto específico e mais tarde percebeu que não concordava com a sua primeira análise?

PV: Não, isso acontecia mais quando eu era mais novo. Por exemplo, assistia um filme aos catorze anos e achava o filme insuportável. Assistia de novo aos trinta e pensava "opa, o filme é bom". Hoje em dia é difícil. Quando você chega a uma certa idade, o seu olhar já está formado em vários aspectos. É claro que você descobre coisas novas. Há um filme que pode envelhecer mal. Você revê e fala "esse filme é misógino para caramba. Como é que eu não notei que ele era assim?". Não quer dizer que o filme fique ruim. Simplesmente ganha uma cor acinzentada. Antes não tínhamos reparado nessa pincelada não tão colorida do filme. Mas mudar radicalmente de opinião após assistir um filme de novo é algo que não acontece há muito tempo. Às vezes acontece aumentar a apreciação ao conhecer coisas novas do filme, ou achar que não envelheceu tão bem.

 Sabe o que acontece às vezes - nem sei se é o caso específico - tem vários elementos que em festivais são complicados. Às vezes a versão que é exibida em festivais como de Cannes não é a versão final. O próprio Roger tem uma história interessante com o "The Brown Bunny" do Vincent Gallo. Ele viu o "The Brown Bunny" no Festival de Cannes e odiou o filme. Aí teve uma discussão, o realizador falou uma coisa horrível para ele. O Roger que é de uma elegância imensa, respondeu elegantemente. Posteriormente o Vincent Gallo remontou o filme, o Roger reviu e elogiou, que era outro filme. Às vezes isso pode acontecer. Outra vezes o que acontece é o clima de festival. O Festival de Cannes tem um clima particularíssimo. Não só pela chance de você estar a ver um filme em lançamento mundial, que ninguém viu ainda, mas também por você estar a assistir no Palácio dos Festivais e na Riviera Francesa. É diferente. Quando você assiste na sala comum da sociedade, com o céu cinza, o trânsito lá fora e tem de se lembrar de pagar a conta de telefone, é algo que pode acontecer.

 O que acho que mais acontece é você passar a observar a partir de outro ponto de vista. O próprio Roger tem uma história que eu acho muito linda com o "La dolce vita". Ele conta que quando assistiu ao filme pela primeira vez, quando ainda era adolescente, olhava para o personagem interpretado pelo Marcello Mastroianni e pensava "caramba, ele é tudo o que eu quero ser: um jornalista respeitado, onde ele vai todos abrem as portas, as mulheres, a bebida, o glamour". Quando assistiu ao filme dez anos depois, ele já era um jornalista estabelecido e conta que pensou: "eu sou o personagem interpretado pelo Mastroianni". Ele assistiu o filme dez anos mais tarde. Tinha sido alcoólico e largado o álcool, então passou a olhar para o personagem com uma espécie de melancolia: "eu escapei disso, ele ficou preso". Quando assistiu novamente ao filme, passados mais dez anos, ele identificou-se com o pai do Mastroianni. Isso é muito lindo, porque o que mudou não foi o filme, mas o ponto de referência dele. Isso é semiótica pura. O ponto referente dele mudava e mudava também a maneira dele enxergar o filme. Isso é muito lindo. A arte pode provocar esse tipo de coisa.


RC: Qual é a importância do Roger Ebert no modo como o Pablo Villaça encara a crítica cinematográfica e o trabalho do crítico?

PV: É fundamental. Eu descobri o potencial da crítica graças ao Roger. Quando era adolescente ganhei um cd-rom que funcionava como um banco de dados sobre cinema que tinha a ficha técnica dos filmes. Quase como se fosse o IMDB, mas num CD. Os filmes tinham as críticas do Roger e do Leonard Maltin, mas acho que este último sempre foi mais um resenhista, um guia de consumo, do que um crítico. Então criei o hábito de ver o filme e depois ler o que o Roger escreveu. Eu falava frequentemente: "Caramba, eu não vi isso. Eu perdi". Comecei a perceber como a crítica tinha a possibilidade de apurar o olhar e de apresentar elementos do filme que passavam meio despercebidos para quem não tinha um olhar tão sofisticado. Sem falar que o Roger escrevia muitíssimo bem. Eu lia tudo. Ele tinha uma sensibilidade imensa. Tinha um conhecimento histórico e técnico colossal e era um excelente escritor. Eu comecei a ler e com o tempo comecei a ter interesse em ler sobre teoria cinematográfica, História, Cinema e linguagem cinematográfica por causa do Roger. Quando comecei a escrever a abordagem do Roger para mim fazia sentido. O Roger morreu em 2013, mas até hoje ainda me pego a pensar "o que o Roger diria sobre esse filme".


RC: O Roger tinha um estilo em que parecia que o conhecíamos através da escrita. Parecia quase que dialogava com o leitor...

PV: Você sentia que passava a conhecê-lo e de certo modo a saber as coisas que iam ofendê-lo ou agradar-lhe. Ele virava um amigo. Mais tarde eu tive o grande privilégio de me tornar amigo do Roger. Uma das minhas grandes vitórias na vida foi ter conseguido ficar amigo do Roger. Ele era um ser humano absolutamente maravilhoso. Para você ser um apreciador de arte, um crítico, acho que uma das principais características passa por você ter empatia. Ser capaz de saber que o Mundo é muito maior do que você. Você ser capaz de enxergar a dor do outro ou a alegria do outro, ou a ansiedade do outro. A arte é isso. O Roger tinha uma capacidade imensa de fazer isso. Tinha uma capacidade imensa de se compadecer com a dor alheia. Essa humanidade reflectia-se no olhar dele sobre a arte.


RC: O Pablo vai efectuar uma masterclass sobre o papel da escrita na crítica cinematográfica. Quais são os factores aos quais você atribui prioridade quando está a escrever um texto sobre um filme?

PV: Depende do filme. Cada filme exige uma escrita diferente em vários sentidos. Tanto do ponto de vista de estrutura do texto como do que você vai discutir. Tem filmes em que eu assisto e imediatamente me salta um tema importante que este discute. Antes do filme acabar eu já sei que a crítica vai ser sobre aquele tema em específico. Ou sobre um tema social e político, ou um tema existencial, seja uma reflexão sobre a morte, o amor, a perda, ou que for. Tem filmes em que eu assisto e eu já sei de caras que aquilo que me encanta no filme é a construção narrativa, a construção técnica do filme: a maneira como ele casa a fotografia com design de produção e montagem para construir uma história que tem uma atmosfera evocativa, que mergulha o espectador numa lógica particular.

 Dependendo da abordagem que o filme exige, o estilo da escrita muda. Tem textos em que parto para o humor. São textos que acabam por sair engraçados porque o filme meio que exigiu isso. Tem textos que são extremamente pessoais: eu vou falar sobre o meu amor sobre os meus filhos, eu ter perdido o meu pai quando tinha cinco anos, ou a força da minha mãe. Tem filmes em que eu vou falar sobre questões políticas. A boa crítica é uma forma de expressão artística. Para mim a crítica é uma arte que é construída em resposta a outra forma de expressão artística. Como a crítica é uma resposta a uma outra forma de expressão, ela tem de ser aberta ao que aquele filme específico inspira. Você não pode pré-estruturar a crítica, não pode engessar. Se vai falar sempre sobre a mesma coisa não faz sentido. A crítica tem de reagir ao filme específico.


RC: No Jovens Clássicos você efectua análises aprofundadas em que sentimos que estamos perante uma pequena "aula/lição" sobre o filme. Qual é o trabalho de preparação que efectua antes de escrever esses textos e quanto tempo é que demora a escrever os mesmos?

PV: São extremamente trabalhosos. Normalmente, eu apenas vejo os filmes uma vez para escrever. É praticamente impossível ver todos os filmes duas vezes antes de escrever. Os Jovens Clássicos não. Esses são filmes que eu já vi, sobre os quais quero argumentar o porquê de que, embora aquele filme não tenha quarenta ou cinquenta anos, ele pode ser considerado um clássico. Eu revejo o filme pelo menos mais duas vezes. Na primeira revejo de seguida e a fazer anotações. Na segunda assisto a parar o filme quase plano por plano, um pouco como no curso do "O Poderoso Chefão". Tento dissecar a construção da narrativa do filme. Como esse plano levou àquele, os leitmotivs, as rimas visuais, temáticas e estéticas que se repetem e o porquê de se repetirem. O objectivo do Jovens Clássicos é meio que dissecar o filme para demonstrar para o leitor que não está habituado a pensar nesses elementos do filme, que existe um motivo para o filme ser bom. Quando você chora, ri, ou fica com medo, esses sentimentos vêm de algum lugar. Esse lugar é a construção narrativa do filme. Eu gosto de mostrar isso: o medo que você sentiu veio disso, desse movimento de câmara específico, desse corte, ou da luz. É também um pouco do que eu faço no Youtube no Cenas em Detalhes.

Eu tento sempre que toda a crítica seja até certo ponto didáctica, mas o objectivo do Jovens Clássicos é essencialmente esse. No caso do Jovens Clássicos do "Antes Só do que Mal Acompanhado" do John Hughes, levei mais ou menos três semanas para fazer aquele texto. E são os textos menos lidos. Se você somar todo o mundo que leu o texto ao longo de um mês, num dia o texto sobre o "Liga da Justiça" teve mais leitores. A mesma coisa com os vídeos. Experimente comparar as views do Cenas em Detalhes e do novo filme do "Homem-Aranha".


RC: Quais são os principais desafios que encontra a escrever um texto interessante sobre um filme desinteressante? É que alguns dos seus textos mais acutilantes e interessantes são sobre filmes medíocres. Por exemplo, o seu texto sobre "Transformers: O Último Cavaleiro" (a teoria do “foda-se”; "Lembrando-se ao menos de manter a consistência do racismo e da misoginia que percorrem sua filmografia"), ou "Yoga Hosers" (em que coloca roteirizado entre aspas).

PV: É o desafio de qualquer escritor em qualquer texto. A minha primeira preocupação ao escrever é uma preocupação literária. Se você for ler a minha biografia nas redes sociais a primeira coisa que eu coloco não é crítico, mas sim escritor. Em primeiro lugar eu sou escritor. Não sei se vou ser crítico de cinema o resto da vida, mas sei que vou ser escritor. Eu preciso escrever. É algo que eu sempre precisei e sempre vou precisar. A escrita é a minha forma de expressão primordial. Quando estou a escrever uma crítica, a minha primeira preocupação não é só com o conteúdo mas também literária. O texto tem de ser interessante de ler.

Nunca em nenhum texto meu em que detestei o filme você vai ver eu falar assim: "não vê esse filme não". Não acho que essa seja a função do crítico. Primeiro porque os filmes ruins são uma boa forma de aprendizagem. Eu sempre aproveito um filme ruim como uma maneira de ensinar nem que seja pelo contraexemplo, mas ao mesmo tempo eu fico lixado. Existem filmes que são ruins, porque é algo que acontece, percebemos que o cara tentou. Agora tem filmes que são ruins porque o cara é picareta. Por exemplo, o Kevin Smith é um dos maiores picaretas do cinema contemporâneo. Ele encontrou um nichozinho ali, sabe que o pessoal vai bater sempre palminhas, mas ele é uma merda. O primeiro filme dele, "O Balconista", foi lançado em 1992, mas ele ainda hoje não sabe filmar um plano e um contraplano. Por exemplo, quando eu vejo um filme como o "Yoga Hosers", eu me sinto ofendido. Esse cara não teve o menor respeito comigo como espectador. Ele olhou para mim e falou: "olha vou gastar hora e meia do seu tempo limitado de vida para você ver essa bosta". Esses textos tendem a ser engraçados, mas eles estão a vir de um lugar de profundo ódio e ressentimento. As críticas mais fáceis de escrever são as que você se apaixonou pelo filme ou odiou o mesmo. As críticas mais difíceis de escrever são aquelas aos filmes de três estrelas.


RC: O Pablo mencionou há pouco que coloca que é escritor. Embora seja uma referência na escrita, o Pablo também conta com um canal no Youtube. Qual é a importância que atribui ao vídeo como modo de expressão da crítica e de chegada ao público?

PV:  Toda a forma de expressão nova tem potencial. O vídeo obviamente tem uma vantagem imensa porque o cinema é uma arte visual. O vídeo permite demonstrar visualmente argumentos que no texto seriam complicados porque você tem de descrever. O vídeo tem vantagens e desvantagens. Acho que uma das grandes desvantagens do vídeo, principalmente hoje em dia, é que ele tem de ser curto. Se as pessoas entram e o vídeo tem quinze minutos elas nem começam a assistir. É difícil você dizer alguma coisa profunda, relevante, consistente e interessante em cinco minutos. Quando você começa a introduzir o argumento já tem de terminar. Isso me frustra. Desse jeito não tenho interesse em fazer. Eu acho que faço bem vídeo no sentido que me expresso bem. Agora para falar em quatro ou cinco minutos... Por exemplo, os vídeos que eu fiz sobre o "2001". Fiz dois vídeos de quinze minutos cada (1 e 2). Vá lá ver os views. São baixíssimos, acho frustrante. Quando vejo um bom vídeo-ensaio eu fico encantadíssimo, acho maravilhoso. Mas a maior parte das pessoas que usam o youtube para falar sobre cinema, elas não estão preocupadas com isso, elas estão preocupadas simplesmente em dizer tudo rapidamente - e eu entendo, porque é algo que dá cliques. Eventualmente eu também vou ter de acabar por fazer. Nunca vou parar de escrever, porque é o que eu faço, mas paralelamente vou ter de investir mais nisso porque é para onde as coisas estão a caminhar.


RC: Sente que se está a perder um pouco o hábito de ler sobre cinema?

PV: Sim. Me frustra muito. Eu publico um texto e aí alguém vem e fala: "quando sai o vídeo?". Meu Deus do céu, acabei de escrever um texto com mil e duzentas palavras porque é que eu vou fazer um vídeo. A pessoa não diz que tem preguiça de ler. Ela vai dizer: "é porque às vezes falta tempo e posso ouvir o vídeo quando estou no carro e não sei o quê".


RC: Eu não consumo muito críticas no youtube, embora goste de ouvir um ou outro youtuber. Por exemplo, o Tiago Belotti criou algo dinâmico, com conteúdo e consegue expressar-se de forma rápida...

PV: Eu gosto do Tiago Belotti (Meus Dois Centavos). Acho que o Tiago é um bom exemplo de um bom youtuber. Ele usa bem a mídia. Não é só ele. Tem o Octávio Ugá, que tem um canal chamado Super Oito. Ele foi meu aluno e faz algumas coisas com um pouco mais de humor. Tem um cara em que muita gente começou a falar bem dele, o Max Valarezo do EntrePlanos. Ele também foi meu aluno. É bacana ver pessoas que foram suas alunas a desenvolverem uma linguagem própria e a fazerem bem feito. Tem outra aluna minha, a Joyce Pais, que tem um canal muito bacana. Você tem bons exemplos. Três desses exemplos foram meus alunos, mas é coincidência (risos). Mas a maioria é muito ruim.


RC: Ao ler as críticas do Pablo é possível observar que você tanto atribui nota cinco ao episódio VII e VIII do Star Wars como atribui um ao "Cemitério do Esplendor" (Apichatpong Weerasethakul). Tal como atribui cinco estrelas a um filme como "Corpo e Alma" e uma estrela ao novo "Transformers". Como é que o Pablo consegue manter esse discernimento na análise ao filme e na escrita da crítica sobre o mesmo? É que existem diversos críticos que no caso dos blockbusters já vão de pé atrás antes de entrarem na sala...

PV: Para mim não existe diferença entre um filme produzido em Hollywood por duzentos e cinquenta milhões de dólares, ou nas Filipinas por cem dólares. O que me interessa é o filme em si. Não é o contexto financeiro por trás do filme ou o modelo de produção. É se o filme me toca. Tem gente que é isso. Só do filme ter sido produzido nas Filipinas já eleva o filme. Muito sinceramente, o Apichatpong Weerasethakul é um cinema que não fala comigo em absolutamente nada. Eu acho um cinema vazio. Cinema do tipo: "vamos produzir imagens genéricas e cada um projecta o que quiser na tela e vira um filme cheio de significados". Quando na verdade o cara está rindo: "ahahah, enganei todo o Mundo".

Eu procuro analisar o filme por aquilo que ele se propõe. Tem muito crítico e acho que esse é um erro comum, que escreve não sobre o filme que ele viu, mas sobre o filme que ele queria ter visto. Eu reajo ao filme que eu vi. Não me interessa a origem do filme, interessa-me é o filme. Não tenho nada nem contra um lado, nem contra o outro. Nem contra o filme Hollywoodiano, nem contra o filme independetaço. Isso para mim não é algo pensado ou intencional. Não penso: vou dar x estrelas para ir na contramão. Eu vou adorar se ficar apaixonadissímo pelo novo filme do Apichatpong Weerasethakul ou pelo novo do Kevin Smith. Eu gosto de cinema. Muita gente tem essa visão do crítico: o crítico não gosta de nada. Se eu não gostasse de cinema, eu não virava crítico. Eu não pré-julgo não.


RC: O Pablo cobre uma série de festivais de cinema internacionais e do Brasil. Quais são as experiências que mais o fascinam nestas coberturas?

 PV: O que me fascina é a diversidade e a possibilidade de ver filmes que representam direccionamentos novos do cinema ao redor do Mundo. O que se está a tentar fazer de novo nas Filipinas, ou na Tailândia, ou nos EUA, ou em Portugal. O festival permite que você faça uma imersão intensa durante dez dias no cinema mundial contemporâneo. Eu não costumo ir a retrospectivas nos festivais. Embora ache importante, para mim o festival é o lugar de mergulhar no agora e para onde estamos a ir. O que mais gosto no festival é descobrir o que está a ser feito agora.


RC: No entanto, embora cubra os festivais você raramente efectua entrevistas, talvez com excepção do "Kate Plays Christine". É algo que não o estimula?

PV: Eu nunca faço entrevistas. Fiz essa entrevista porque fiquei fascinado com o filme. E aí entrei em contacto com a assessora e falei que queria entrevistar o realizador e a actriz. Primeiro porque eu não gosto de perder tempo a fazer entrevistas em festival. Só o tempo de sair de um lugar, ir para outro, esperar, entrevistar, voltar e ver o próximo filme, praticamente dava tempo para ver mais dois filmes. Sinto que estou a desperdiçar tempo. Em segundo lugar, acho que o cinema tem de falar por si só. Em alguns casos de filmes e realizadores específicos, eu tenho vontade. Uma coisa que eu também não faço é participar no Q&A. A não ser que o filme tenha mexido comigo, mas aí também não faço perguntas. Não é algo que eu aprecie.


RC: Esta situação política caótica do Brasil tem afectado o cinema e a produção cinematográfica?

PV: Por enquanto o reflexo disso ainda não está a ser visto, mas vai ser sentido porque os modelos de produção no Brasil estão muito presos à maneira como o Governo estimula ou não a produção. Hoje temos à frente do Ministério da Cultura e da ANCINE figuras pelas quais eu tenho desprezo pessoal. São pessoas com uma visão muito reduzida do que significa cinema, da importância cultural do cinema para a identidade de um país. Isso claramente vai afectar a forma como se faz cinema no Brasil. Eles já estão a tentar diminuir uma série de incentivos. Estão a tentar cortar o Fundo Sectorial, que é a principal fonte de financiamento do cinema brasileiro. Acho extremamente preocupante e que eventualmente vai afectar a produção. Os filmes que estão a sair agora já estavam em produção há dois ou três anos. Mas é uma preocupação.


RC: Como tem sido a sua experiência como júri do FESTin e qual o balanço que faz da competição de longas-metragens? 

PV: Eu não conhecia o FESTin. Adorei esse cinema (Cinema São Jorge). O cinema de rua é uma coisa que praticamente acabou no Brasil. É um cinema em que você claramente vê que tem uma história. Quando você entra no cinema não está só a ver aquele filme em 2018, está a ver cinquenta anos de filmes que passaram ali. A ideia da valorização da nossa língua, independentemente do país de origem, é algo que considero fundamental. A língua portuguesa já enfrenta uma dificuldade muito grande porque ela é pouco falada. Sobretudo se for comparar com o inglês, o francês, o espanhol e o italiano. O Brasil dentro da América Latina está praticamente isolado. A limitação imposta pela língua dificulta e muito a divulgação e propagação do nosso cinema. Quando tem um festival que está justamente interessado em estimular, propagar e divulgar a produção em língua portuguesa, só isso já seria o suficiente para valorizar o festival. Ao assistir aos filmes seleccionados, aquilo que me tem passado é que é uma curadoria extremamente diversificada, que tem procurado filmes com linguagens estéticas diversificadas, com temas diferentes e que são representativos da cultura local. Nesse sentido, é uma curadoria muito bem feita. A única coisa que eu tenho achado meio triste, talvez seja pelo tempo chuvoso, é o público não estar a aderir. Estive a assistir ao "Açúcar", a sala estava vazia e isso me doeu um pouco. É uma oportunidade desperdiçada. O público deveria valorizar mais.


RC: Só uma curiosidade. Quando é que teremos um curso do Pablo Villaça em Portugal?

PV: Eu tenho muita vontade de fazer um curso aqui, mas não sei se teria público. Eu tenho vinte e quatro anos de carreira. No Brasil eu já tenho um certo nome, já posso dizer que sou relativamente conhecido por lá. Eu faço cursos em todas as regiões do país e os cursos esgotam. Aqui, muito provavelmente não. A maior parte das pessoas não tem a menor ideia de quem eu sou.
 Eu tenho vontade de fazer curso aqui. Tenho vontade em explorar mais Portugal nesse sentido. Em vários sentidos, até porque estou numa fase inédita da minha vida. Sempre valorizei muito e fui muito apaixonado pelo Brasil. Sempre achei o Brasil um país lindíssimo, com um povo maravilhoso, uma cultura sensacional, que não valorizávamos. Quando alguém falava que ia embora eu dizia, "cara, não". Nos últimos dois anos a minha desilusão pelo país é completa. Eu não reconheço o Brasil de hoje como o Brasil que eu sempre conheci e amei. Hoje é um país repleto de intolerância, ódio e destruição completa da Democracia. Um país que não reflecte em nada os interesses, as vontades e as necessidades do povo. Como pai você começa a pensar: "Eu quero que os meus filhos cresçam aqui? Eu quero que os meus filhos cresçam num país em que um cara como o Bolsonaro já é garantido no segundo turno?" Quem sabe se de repente faço uma parceria com alguém daqui para produzir um curso, eu ficaria muito feliz.

RC:  Eu seria um dos alunos. Muito obrigado pela disponibilidade e amabilidade a conceder esta entrevista.

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