01 março 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Laís Bodanzky sobre "Como Nossos Pais"

 O título de "Como Nossos Pais" remete para a canção homónima composta por Belchior e imortalizada pela poderosa voz de Elis Regina. A música em questão nunca entra em cena pela voz da cantora, mas a sua letra ecoa e de que maneira no interior dos dilemas vividos pela personagem principal e daqueles que a rodeiam. "Como Nossos Pais" foi o filme seleccionado para abrir a nona edição do FESTin. Foi exactamente no âmbito da cobertura do festival que o Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar a realizadora Laís Bodanzky sobre este magnífico filme. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com o argumento, o papel da culpa, o trabalho de Maria Ribeiro, a menção a Rita Lee num diálogo muito específico, entre outros temas. "Como Nossos Pais" estreia em Portugal a 15 de Março, sendo distribuído pela Alambique. Photo credit: Antonio Brasiliano / Revista Ocas.

Rick's Cinema: Como é que correu a recepção do "Ex-Pajé" em Berlim. Os filmes brasileiros causaram furor em Berlim...

Laís Bodanzky: Foi muito bom, muito interessante. No final os filmes brasileiros ganharam oito prémios. São prémios paralelos, mas, mesmo assim, para a nossa cinematografia foi a primeira vez que isso aconteceu. Acho que isso é o resultado de um trabalho e de um esforço da classe cinematográfica brasileira e da nossa indústria, que a cada ano tem vindo a ficar cada vez mais sofisticada, com um discurso cada vez mais aprimorado. Foi muito interessante. O próprio "Ex-Pajé" também ganhou o Prémio especial do júri de documentário. Foi muito importante para nós, ficámos muito felizes.

RC: "Como Nossos Pais" embrenha-se por assuntos relacionados com a mulher na sociedade contemporânea, os conflitos geracionais, a solidão, as crises conjugais e profissionais, o adultério, a paternidade, a maternidade, a sexualidade e a falta de diálogo, sempre a partir da perspectiva de Rosa. O quanto é que existe da Laís Bodanzky no argumento de "Como Nossos Pais"? Sente que seria possível um homem retratar estes temas com tanta credibilidade?

LB: Tem muito do meu ponto de vista. Eu escrevi o argumento com o Luiz Bolognesi. Ele participou sobretudo na primeira etapa. Depois eu segui sozinha e ele participou como leitor e como crítico, contribuindo também com ideias. Dos meus quatro filmes, este é o primeiro em que eu fiz a escrita. Por isso, eu também assino o argumento. Fiz por uma provocação de uma amiga minha cineasta, que me disse: "Laís, esse filme você também tem de escrever". Foi algo que começou a ficar claro. Primeiro eu queria falar sobre a minha geração. Conforme a pesquisa foi evoluindo, vi que não queria falar só sobre a minha geração, mas fazer um recorte mais específico: "o que é ser mulher na minha geração". Eu era também o objecto de pesquisa. Em todos os meus filmes eu sempre fui atrás do público que tinha haver com o tema. No caso dos adolescentes, eu fui conversar com os adolescentes. Com a terceira idade, fui falar com a terceira idade. Nos manicómios, conversei com pacientes e enfermeiros, fui ter com o meu público. No "Como Nossos Pais", eu fui à porta da minha vizinha. Foi a pesquisa mais fácil dos meus filmes (risos). Sou eu mesma, podia fazer qualquer coisa. Eu vou a uma padaria, ou a uma reunião de trabalho, é algo que conta como pesquisa. É só observar como as pessoas se comportam, as situações que acontecem, isso já me interessava.

Neste caso, o meu olhar como argumentista e realizadora prevaleceu com muita força  Não acho que um homem não seja capaz de fazer um filme com uma abordagem de um ponto de vista de uma mulher. Não acho isso. Tudo é possível. Mas, o facto de eu ser mulher contribuiu para que tema me deixasse mais aguçada, mais interessada, até por também ser uma descoberta para mim. Durante a pesquisa, a filmagem, a montagem e mesmo durante o lançamento, confesso que mudei. Aprendi enquanto fiz esse filme. Eu como "Laís Mulher" também mudei. Aprendi palavras que não conhecia. Aprendi direitos que não sabia que tinha ao me aproximar com tanta intimidade do tema. Fico feliz. Eu vejo como esse tema é recente na sociedade, apesar de nos anos 60 já termos um movimento mundial feminista importante e da mulher ter começado a votar no início do Século XX. Ao mesmo tempo, apesar de vermos que isto tem muito mais de cem anos, na História da Humanidade é algo que acabou de acontecer.

Só muito recentemente é que a mulher começou a ocupar um espaço na sociedade. No Brasil, a mulher só começou a votar em 1932. Na Suíça, a mulher apenas começou a votar em 1990. Por isso algumas mulheres hoje ainda se perguntam, "porque precisamos exactamente de votar?".  Nós vemos como a entrada da mulher na vida pública é algo recente. O direito ao voto, a trabalhar, a ter os mesmos direitos. Mesmo no mundo do desporto, a possibilidade da mulher poder fazer desportos de contacto físico é algo recente. Quando a Democracia surgiu na Grécia Antiga, ela referia o direito do cidadão. Mas a mulher não era considerada cidadã. Então, ela não fazia parte da Democracia. Na História da Humanidade, só recentemente é que a mulher começou a ter voz e a participar activamente com as suas opiniões e a defender os seus direitos.


RC: A Rosa é interpretada com sensibilidade, emoção, carisma, intensidade e autenticidade por Maria Ribeiro, com as suas falas a soarem sinceras ao ouvido do espectador, tal como as suas dúvidas e inquietações. Como é que trabalhou a composição da Rosa com a Maria Ribeiro?

LB: A Maria é uma actriz muito boa e importante. Ela também é escritora, é realizadora e durante quatro anos fez parte de um programa de televisão como apresentadora, o "Saia Justa" - que debate o tema  da mulher na sociedade contemporânea. Eram quatro mulheres a discutir e ela era a mais polémica. Eu gostava disso. Acho que a Rosa tem esse espírito não politicamente correcto, de muitas das vezes comprar uma luta que parece estar errada. Mas no fundo não está, ela tem a coragem de não ser politicamente correcta. Eu pensei que se convidasse a Maria, ela talvez pudesse emprestar essa forma de pensar e de se comportar para a personagem. Não que a personagem seja a Maria. Eu trabalho muitas das vezes assim com os actores. Peço a contribuição deles, que defendam os seus personagens. Eu queria uma actriz inteligente, que domina-se o tema. A Maria veio e fez exactamente o que eu queria. Ela contribui de certeza para a ironia da personagem.

 RC: Sente que criaram uma personagem que dialoga com uma boa parte das mulheres do nosso tempo? Você comentou numa entrevista que em Berlim ficou surpreendida com a forma como as mulheres aderiram bastante ao filme e aos seus temas...

LB: Fiquei surpresa, porque achei que essa opressão da mulher era uma coisa restrita ao Brasil e de que a mulher na Europa já estivesse noutra etapa. No debate as mulheres identificaram-se e comentaram que essa opressão permanece. Estamos em sintonia na questão dos direitos da Mulher e de que esse movimento novo da mulher é Mundial e conectado. É muito curioso, lembro-me que um jornalista português fez-me uma pergunta muito divertida lá no festival de Berlim, ainda que sem querer. Ele disse "então Laís, nesse filme você escreveu o argumento. Como é que o Luiz deixou você fazer?" (risos). Eu até perguntei "você assistiu ao filme?" (risos). A forma de perguntar já é traidora. No Brasil também é assim. Muitas das vezes nós as mulheres falamos assim umas para as outras: "você tem sorte, o teu marido ajuda-te em casa". Mas isso está errado. O marido não tem de ajudar ninguém, é obrigação dele. Nós não temos de dizer "ah, o meu marido ajuda-me". Se eu faço, ele faz igual. Ele não me aplaude, porque é que eu vou aplaudir ele? Sem perceber, a gente se trai.


 RC: Na entrevista ao Cinema em Cena você falou do papel da culpa. O quanto é que o sentimento de culpa e o receio de se sentir culpada em relação aos seus actos influência os comportamentos de Rosa?

LB: No fundo, esse filme fala da questão da mulher, mas tem outro tema que talvez seja ainda mais importante do que o tema da mulher: nós respeitarmos os nossos desejos. No caso de uma mulher que se permite fazer a pergunta: estou a fazer da minha vida aquilo que queria mesmo fazer? Essa é uma pergunta que muitas das vezes não fazemos a nós próprios porque dá medo, porque ela provoca movimento. Dependendo da sua resposta, pode descobrir que não, que não está a fazer da sua vida aquilo que você queria. Na hora que você descobre isso, então aparece a segunda pergunta: o que é que eu quero? Responder a essa pergunta provoca muito medo, porque por vezes você tem medo de aceitar os seus desejos verdadeiros. Descobrir já é difícil, então descobrir e aceitar é ainda mais complexo. No caso de uma mulher, quando ela descobre, aceita e tem de colocar em prática, muitas das vezes acontece o sentimento da culpa, porque parece que ela está a fazer uma coisa proibida, que é errada. Para além de ter de passar por todas essas etapas, de descobrir, enfrentar, aceitar e ir atrás, ela ainda tem de enfrentar a culpa. E a culpa é a etapa mais complexa. Você fala: eu não tenho culpa, é o meu direito, eu posso. A culpa é a sociedade que te coloca, mas ela é mais perversa, porque é um discurso interno seu. Você mesmo se culpa. A tua luta é contra você mesmo. A sociedade pode até fazer isso, mas se você aceitou é porque o discurso da sociedade está em você. Negar esse discurso não é fácil.


RC: Num determinado momento do filme, encontramos a Rosa a ler uma história relacionada com Eva. Considera que a religião e estas histórias aparentemente inocentes, em certa medida, contribuem não só para exacerbar esse sentimento de culpa, mas também para perpetuar as desigualdades do género? 

LB: Eu não sou contra a religião, mas ela pode ser utilizada de várias formas. Pode ser utilizada como um espaço libertador e de autoconsciência, de unidade, mas a mesma religião também pode ser utilizada como uma ferramenta opressora e retrógrada no sentido de não aceitar o outro, de não aceitar que possamos coexistir. Isso acontece em todas as religiões, não é só na católica. No caso da questão da Eva vamos até ao Antigo Testamento, que é também um pouco o surgimento das outras religiões. Eu acho que ali (o episódio mencionado) sim tem uma crítica à religiosidade, mas também à maneira como observamos e perpetuamos esse texto. O nosso olhar crítico tem de estar instalado o tempo inteiro.

No Brasil temos alguns escritores que foram muito machistas nos seus textos. Por exemplo, o Monteiro Lobato, que fez "O Sítio do Picapau Amarelo". É um escritor que é importante para nós, mas os seus textos são nitidamente racistas. Teve uma época em que diziam "temos de proibir os textos do Monteiro Lobato". Não tem de proibir, temos é de aprender a ler esse texto e entender como foi escrito e em que contexto. É importante que saibamos que ele foi escrito numa época, mas que tenhamos o distanciamento histórico para fazer uma crítica e não aceitar como uma verdade eterna. Eu encaro assim o texto da Bíblia. O texto da Bíblia tem essa ironia no filme. Nós perpetuamos o texto sem a crítica e reproduzimos isso. Se pararmos para pensar, o que é que estamos a falar? Que a mulher nasceu de uma costela do homem, o que não é verdade. Nós temos o mesmo número de costelas (risos). Temos de interpretar porque é que esse texto foi escrito dessa forma, ter um olhar crítico e entender como caminhou a Humanidade. Temos sempre de fazer a crítica.


RC: O Dado acha que abdicou de muito ao deixar de jogar futebol com os amigos. A Rosa deixou temporariamente de lado a escrita de uma peça de teatro. O facto do Dado achar possível efectuar uma comparação entre um hobbie e o sonho de uma vida é sintomático do desequilibro deste jogo matrimonial. Podemos encarar o "Como Nossos Pais" como uma obra que estimula o questionamento das relações no contexto da sociedade contemporânea? Por exemplo, a Caru questiona esse tipo de relacionamento...

LB: Sim. Durante a pesquisa do filme eu assisti a uma palestra de uma psicanalista brasileira, a Maria Rita Kehl. Ela falou algo que para mim explica muita coisa do que está a acontecer. A Maria Rita Kehl tentou explicar para a plateia qual é a situação do homem nos dias de hoje. Ele está um pouco confuso. Afinal de contas, qual é o papel dele na sociedade? Como se deve comportar? Ele está a ser tão criticado que pensa: "bem, eu não sei mais o que posso falar, o que devo fazer, o melhor é eu não fazer nada, ficar parado". Aí ela explica o que está a acontecer e dá um exemplo muito bom. Um casal na hora em que forma uma família está a dividir o mesmo cobertor. Eles estão juntos no mesmo cobertor. Só que esse cobertor é muito curto. Durante milénios esse cobertor sempre esteve mais do lado do homem. O homem sempre esteve muito quentinho, confortável e aconchegado.

O que está a acontecer nos últimos cem ou cinquenta anos é que a mulher puxou o cobertor para ela. Quando a mulher fez esse movimento, ela passou a sentir-se confortável e aconchegada. O cobertor é curto, então o homem passou a ficar com um pé de fora, algo que nunca tinha acontecido. E ele começou a falar: "existe algo que me está a incomodar, eu estou a sentir uma coisa que nunca senti. Não sei o que fazer". Na verdade, o cobertor é curto, é um facto. O cobertor não tem de ficar mais com o homem ou com a mulher. Temos um único cobertor e temos de recombinar a regra de como dividi-lo. Nunca vai ficar totalmente bom para os dois, mas também não pode ficar ruim para ambos. Então temos de redescobrir uma fórmula e para isso é preciso ter diálogo. Não é um contra o outro, mas sim um a ouvir o outro e a tentar entender a questão do outro para encontrar um ponto de equilíbrio.

O facto é que o cobertor é mesmo pequeno. Não adianta fingir que não é. Por isso a Caru, a personagem dessa menina mais jovem, questiona o formato de família. Porque esse formato de família, em que há um aparente equilíbrio a partir do momento em que a mulher aceita que o homem tenha mais direitos, é equivocado. A estrutura de família, como ela é até agora, patriarcal e monogâmica, é arcaica. Ela corresponde ao antigo imaginário de família. A nossa sociedade contemporânea e o nosso pensamento intelectual já estão muito mais avançados, mas a nossa prática é antiga. Existe um abismo entre a teoria e a prática que não combina mais. Acho que a estrutura familiar tem de mudar. Temos de aceitar e entender que existem novas possibilidades de relacionamento. Hoje talvez nos assustemos, mas as próximas gerações já estão mais capazes de parar para pensar e elas vão dizer: isso que os meus pais dizem que é o certo, talvez eu não ache que isso seja uma verdade absoluta. Há outras formas de viver. Não é contra a família monogâmica. Ela é uma forma de viver. Não existe o certo, existem vários formatos que são certos. Também não existe o errado, então isso é difícil.

RC: Você mencionou a Maria Rita Kehl em diversas entrevistas. Qual a relevância dela para si? 

LB: Ela estuda o tema da mulher. Há muito tempo que ela estuda isso. Temos uma pensadora feminista mundial que é a Simone de Beauvoir, sem dúvida nenhuma. Depois da Simone vieram novas. Eu considero a Maria Rita Kehl uma continuidade nesse pensamento mais contemporâneo. Ela para mim tem essa importância.


 RC: A Rosa e a Clarice mantêm dinâmicas pontuadas por largas discussões, alguns momentos de acalmia e a sensação de que não são assim tão diferentes como querem fazer parecer. Quando criou esta personagem já pensou na mesma como uma força disruptiva que mexe com a filha?

LB: Sem dúvida. A personagem da Clarice é de uma geração muito interessante dos anos 70, que viveu muita liberdade, sem a crítica. É uma geração que se permitiu viver determinadas loucuras que as novas gerações não se permitiram viver. Isso é muito raro, é muito bonito, mas também é muito assustador. Ser filho dessa geração não é fácil. O Homero é inspirado no actor que o interpreta, o Jorge Mautner, um cantor muito conhecido no Brasil, que pertence a essa geração. Existe um documentário sobre ele (Jorge Mautner: O Filho do Holocausto), que eu assisti quando estava a fazer a pesquisa para o filme. O documentário mostra uma cena dele a conversar com a filha, a Amora Mautner, uma realizadora conhecida por trabalhos nas telenovelas. A conversa entre os dois é linda. A Amora fala: "Pai, você ia buscar-me à escola de sunga, praticamente pelado". E o pai responde: "Mas qual é o problema, isso era normal na época". E ela responde "não, aquilo não era normal na época" (risos). Ao que ele responde, "Eu não sabia, eu fazia por amor". Ela conta muitas histórias de traumas de infância por ter um pai que é considerado transgressor, mas nessa conversa existia amor entre eles. Poderia ser uma discussão, mas não é. O documentário faz isso muito bem. 

No filme, eu quero reproduzir esse sentimento dessas duas gerações. É mais fácil quando é a filha com o pai. Quando você tem a filha com a mãe, a abordagem desse tema tem de ser completamente diferente. Esse é o meu desafio. Eu como mulher nunca tinha parado para pensar o quanto é complexa a relação entre mãe e filha. Na psicanálise, que comentamos no bar, estamos muito acostumados a falar da relação da filha com o pai, ou do filho com a mãe. Mas da filha com a mãe e da mãe com a filha nunca falamos. É raro. A psicanálise não desenvolveu muito isso. A Maria Rita Kehl estuda isso. Tem um outro psicanalista do Brasil que também estuda isso, o Contardo Calligaris. Também li textos dele. Quando o filme foi lançado no Brasil, ele escreveu um texto maravilhoso no jornal a falar da relação entre mãe e filha. Ele fala de coisas fortíssimas. O momento em que a filha inicia a sua vida fértil coincide com a fase em que mãe envelhece e sai da vida fértil. Na sociedade, uma mulher envelhecer é ultracomplexo. Você tem o exemplo da Branca de Neve, em que a madrasta pergunta "Espelho, espelho meu, existe alguém mais belo do que eu?" E ele responde, "existe e é uma menina". A reacção dela é: "quero matar essa menina". No nosso inconsciente da relação entre as mulheres existe a disputa, a inveja, a raiva, a manipulação. Você falar que isso não existe é uma mentira. Acho importante pararmos para pensar e assumirmos que isso é um facto para pelo menos amenizarmos esses sentimentos. É muito difícil para a mãe e para a filha. É uma relação muito, muito complexo.

   
 RC: A canção "Como Nossos Pais" nunca aparece acompanhada com a voz de Elis Regina, embora seja tocada ao piano num momento tocante. A música tem um papel de relevo ao longo do filme, seja nesse trecho, ou quando somos colocados perante o tema "Super Mulher" de Jorge Mautner (numa situação de maior leveza e libertação dos sentimentos), ou no momento em que Rosa agradece à mãe pela ida a um concerto da Rita Lee. Como surgiu a ideia de incluir estas canções nestes momentos específicos e a menção a Rita Lee?  

LB: Essa frase específica da Rita Lee é uma mensagem minha para a minha própria mãe (risos). As outras não. Foi muito divertido, porque eu não lhe contei. Quando ela assistiu o filme comentou: "Eu não sabia" (risos). Eu adoro a Rita Lee. De facto, quando eu era muito criança a minha mãe levou-me a um espectáculo da Rita Lee. A Rita para mim é uma mulher transgressora, que pertence a essa geração do Mautner, a esse momento em que você podia se expor dessa forma. Ela trouxe para mim uma referência de que era possível ser mulher diferente daquilo que me era imposto como a Barbie ou a princesa. A Rita Lee é tão mulher como a Barbie ou a princesa. Do meu ponto de vista é ainda mais mulher. Ela passou a ser a minha referência de mulher. Eu cresci a observar a Rita Lee. Nós precisamos de referências. Quando somos crianças, se nos dão essa referência, isso pode marcar-nos para a vida inteira. A Rita marcou-me a vida inteira. Quando estava a fazer a pesquisa para o filme, essa história apareceu na minha cabeça. Com tantos conflitos na vida, por vezes esquecemo-nos de agradecer as pequenas coisas que nos marcam e nos definem para sempre. No meu caso, a Rita Lee me definiu. Eu nunca tinha contado isso para a minha mãe, porque acho que nem eu tinha percebido isso. Então é uma piada interna.

 Os outros temas tenho de confessar que foram por motivos diferentes. A música do Mautner, a "Super Mulher", quem trouxe foi o montador. Eu não conhecia. Quando o montador trouxe e colocou na cena eu disse: "Que música é essa, parece que foi feita para o filme". A outra música que é só instrumental do "Como Nossos Pais", aí é claro. Antes de escrever o argumento, eu já tinha o título "Como Nossos Pais", que é inspirado na música. A música para mim surgiu quase como uma provocação para escrever a história. Mas não queria que a letra fosse cantada, pois acho que pode diminuir e virar legenda, acho isso bobo e pequeno. Quem conhece óptimo, quem não conhece assiste igual.


RC: "Como Nossos Pais" é um filme recheado de metáforas e de gestos marcantes, seja os fantoches que simbolizam os fantasmas do passado, ou uma parede que aparece quase como um split-screen que divide dois quartos e espelha a divisão entre um casal. Essas metáforas já estavam pensadas desde o início? Pode falar-nos um pouco do trabalho que efectuou para, em conjunto com a sua equipa, tornar estas metáforas naturais no interior do enredo?

LB: Isso já veio do argumento. Tirar do papel e colocar na imagem e em acção, isso é a equipa. Sem dúvida nenhuma. Essa imagem, essa divisão dos quartos, buscávamos isso o tempo inteiro. Nós explicámos ao produtor de locação que precisávamos de um apartamento com um corredor. Então o produtor de locação mostrava as fotos dos apartamentos, sobretudo dos corredores. A decisão foi em conjunto com o fotógrafo, o Pedro Marques (que é espanhol, mas mora aqui em Lisboa) e a directora de arte, a Rita Faustini. Fomos os três em busca do apartamento. Claro que tem de ter o quarto, a cozinha, a casa de banho, mas aquilo que determinou a escolha foi esse plano, esse corredor. Entendíamos que isso era o que mais representava a narrativa do filme e a estrutura familiar. É um feliz encontro da direcção, da arte e da fotografia. Os três precisavam de decidir juntos a narrativa do filme.

RC: E a entrada do "Casa de Bonecas" do Henrik Ibsen no interior da história?

LB: Maria Rita Kehl. Na mesma palestra. Quando foi desenvolver o tema do feminismo, ela falou sobre a obra. Até hoje, na dramaturgia, o texto que mais representa o espaço da mulher e o feminismo ainda é o "Casa de Bonecas" e ela explica o porquê. Nunca tinha lido, nem assistido a qualquer encenação. Quando li, entendi tudo o que a Maria Rita Kehl tinha falado nessa palestra e pensei: "a minha personagem tem de ler este texto". Ele é tão importante, significativo e impactante, ainda continuamos a reproduzir a mesma estrutura familiar que o Ibsen escreveu. Falei, "a minha personagem precisa de conhecer isso". Foi aí que eu defini que o sonho dela era ser escritora de teatro.

RC: Muito obrigado pela enorme disponibilidade e simpatia a responder às questões. 

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