01 março 2018

Crítica: "Redemoinho" (2016)

 Em alguns momentos das nossas vidas acabamos por reencontrar amigos de outrora com quem deixámos de manter contacto. Esses episódios são ocasionalmente marcados por alguma nostalgia, ou melancolia, ou uma euforia momentânea. A esse acontecimento por vezes sucede-se alguma conversa, ou uma combinação rápida que permite reacender temporariamente os laços de outrora, ou pura e simplesmente relembrar as razões que conduziram a um afastamento prolongado. "Redemoinho" aborda com mestria uma situação do género, com o reencontro entre Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (Júlio Andrade), dois amigos que nasceram e foram criados em Cataguases, a trazer ao de cima uma série de episódios de outros tempos e uma multitude de emoções que se encontravam entorpecidas no interior do âmago de cada um.

Após um conjunto de trabalhos bastante respeitáveis na televisão, José Luiz Villamarim estreia-se em grande nível na realização de longas-metragens, sendo capaz de desenvolver as dinâmicas intrincadas entre estes personagens e a tensão latente que pontua alguns episódios do enredo, enquanto explora as características do território onde se desenrola a história. O meticuloso trabalho de Walter Carvalho na cinematografia contribui para captar e expor as características desta cidade pequena, sejam os seus espaços verdejantes e propícios à agricultura e pecuária, as estradas de terra ou de pedras, ou a linha de comboio que marca o território. Note-se os planos em que encontramos Luzimar a locomover-se numa bicicleta, enquanto conseguimos observar todos os elementos mencionados, bem como uma certa sensação de isolamento. 

 Luzimar permaneceu nesta pequena cidade situada em Minas Gerais, onde trabalha numa fábrica de algodão, um espaço representado com tonalidades frias e sons agressivos, algo que permite exacerbar a aspereza do dia a dia neste local. Gildo foi para São Bernardo do Campo em busca de melhores condições de vida. Ambos seguiram rumos diametralmente opostos e contam com personalidades e estilos de vida distintos, algo expresso pelos dois intérpretes ao longo do filme. Irandhir Santos compõe um personagem calmo, afável e pouco ambicioso, que conta com um olhar triste e ama Toninha (Dira Paes), a esposa, uma mulher carinhosa e gentil. Júlio Andrade exprime a faceta intensa e atormentada do seu personagem, um indivíduo que acredita ter encontrado o sucesso profissional e pessoal em São Paulo. O seu carro novinho em folha é o símbolo dessa prosperidade financeira, tal como o televisor que comprou para Marta (Cássia Kis), a sua mãe, enquanto a notícia de que casou e tem duas filhas exprime alguma das suas concretizações pessoais.

As oposições entre os dois personagens são expostas desde cedo. Gildo viaja de carro, com o silêncio e o conforto que existe no interior do veículo a contrastar com o barulho infernal do local de trabalho de Luzimar. Se o personagem interpretado por Júlio Andrade conta com um bólide luxuoso, já o outro protagonista locomove-se regularmente de bicicleta, algo revelador da sua simplicidade e do estilo de vida mais calmo deste espaço citadino que conta com características quase rurais. O reencontro entre a dupla de protagonistas ocorre num acaso, em plena véspera de Natal, quando Luzimar caminha nas imediações da habitação de Marta, poucos momentos depois de Gildo ter chegado a casa. O reencontro é regado a diálogos que fluem ao ritmo das cervejas sorvidas e permitem expor as posturas distintas destes personagens, com Gildo a apresentar uma atitude mais extrovertida, enquanto Luzimar demonstra inicialmente algum pouco à vontade.

"Traz mais uma cerveja", diz Gildo para a mãe, enquanto expõe inicialmente os seus sentimentos de forma eufórica. Este representa alguém que saiu da sua terra natal e regressa ao local onde ficaram presas algumas das suas memórias e inquietações, embora sinta que já não faz parte deste lugar. Gildo acredita que fez a melhor opção ao sair, algo que expõe por diversas vezes, embora essa necessidade de reiterar o sucesso deixe subentendido que nem tudo está bem na sua vida. Por sua vez, Luzimar parece conter no seu interior uma certa angústia por nunca ter arriscado sair do espaço onde nasceu, apesar de ter uma vida segura e feliz ao lado da sua mulher. Diga-se que o casal tem uma relação pontuada pela delicadeza, na qual muito é expresso através dos gestos cúmplices e dos olhares. Existe amor e amizade a marcar a relação de Luzimar e de Toninha, mesmo quando estes se afastam temporariamente um do outro, algo expresso pelos intérpretes e pelas suas acções.

"Redemoinho" é obra que concede uma atenção notória àquilo que não é dito e aos sentimentos que permanecem contidos. A ligação entre os personagens interpretados por Irandhir Santos e Dira Paes explana paradigmaticamente esse cuidado colocado naquilo que fica subentendido, algo demonstrado com delicadeza e contenção em alguns dos momentos finais do filme. Quanto mais sabemos sobre estes personagens mais admiramos a sua relação, mesmo que esta nem sempre seja a mais calorosa e guarde no seu interior alguns problemas. No entanto, observar estes dois reunidos ao final do dia é algo simplesmente mágico e comovente, com Dira Paes e Irandhir Santos a terem momentos sublimes como este casal. Dira Paes insere uma certa candura e imensa humanidade à sua personagem, uma mulher que carrega consigo um passado intrincado e um segredo que anseia revelar no momento certo. Esta bem liga ao marido, mas ele tarda em chegar a casa, tal como este texto tem retardado o regresso à reunião dos dois amigos de infância.

Regressemos então ao reencontro destes dois amigos. José Luiz Villamarim tem o mérito de transmitir uma sensação de passagem do tempo, enquanto consegue que tenhamos a impressão de que estamos a passar o final de tarde e uma parte considerável da noite com os protagonistas. Gildo e Luzimar trocam conversa na habitação de Marta, circulam pelo território no carro do primeiro e revisitam locais que frequentavam quando eram mais novos, seja o campo de futebol ou uma ponte onde protagonizaram um episódio traumático, reencontram algumas pessoas que conheceram e deixam que a alegria comece a ser gradualmente contaminada pela dor, algo que os leva a entrar num caminho tortuoso. A amargura de um erro do passado começa a reabrir uma ferida que queima a alma, enquanto as diferenças entre estes dois indivíduos começam a tornar-se cada vez mais nítidas, tal como o ressentimento que guardam, até um redemoinho de sentimentos começar a avançar e a provocar estragos.

Júlio Andrade e Irandhir Santos conseguem expressar a multitude de sentimentos que percorre este reencontro e a forma como as opções que os seus personagens tomaram contribuiu para aquilo em que são nos dias de hoje. O elenco tem um trabalho notável, ou não estivéssemos perante um filme que sabe valorizar o trabalho dos actores e a capacidade que estes têm de atribuir sentimento e densidade aos seus personagens. Veja-se os casos dos intérpretes mencionados, ou de Cássia Kis e Demick Lopes. Cássia Kis exibe as preocupações de Marta, a solidão e a tristeza que percorrem o seu âmago, com o seu rosto a surgir como um meio privilegiado para os silêncios e as emoções falarem e chegarem ao espectador. Demick Lopes como Zunga, um indivíduo instável, que perdeu a sanidade mental e protagoniza alguns episódios eivados de violência.

 Outro dos destaques do elenco é Cyria Coentro como Hélia, a irmã de Luzimar, com a intérprete a protagonizar um momento digno de atenção ao lado de Júlio Andrade. Diga-se que é um dos vários trechos em que fica paradigmaticamente exibido o cuidado na composição dos planos, com os dois personagens a serem expostos em contraluz, quase como dois espectros do passado que ganham corpo no presente. Esse trabalho sublime na arquitectura dos planos é visível em diversos trechos do filme. Veja-se quando encontramos Luzimar e Gildo na ponte, num episódio em que sobressai um plano fixo (de conjunto), onde a escuridão nocturna é contrastada com a iluminação deste espaço, enquanto o passado é recordado e colocado em diálogo com o presente. 

O cuidado na elaboração dos planos é ainda notório num momento de relevo em que muito é exibido e escondido a partir de uma janela, quase como se o campo e o fora de campo se juntassem, enquanto umas grades transmitem a clausura a que uma personagem está sujeita e a entrada em cena de um comboio exibe a influência deste meio de transporte no território. O comboio surge como uma das marcas desta cidade, com a sua presença a ser sentida por diversos habitantes, enquanto o seu barulho é bem audível. Este é também um filme que sabe aproveitar os sons ao serviço do enredo, com o trabalho a nível do design de som a permitir reforçar os barulhos efectuados pelas máquinas da fábrica, ou do comboio, quase como se fizessem parte da banda sonora da vida destes personagens. 

Ficamos assim perante um drama intenso e envolvente, marcado por interpretações de relevo e planos arquitectados com minúcia, que sabe explorar as dinâmicas dos personagens e realçar a relevância dos não ditos, com José Luiz Villamarim a ter uma estreia na realização de longas-metragens da qual se pode orgulhar. 

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da nona edição do FESTin.

Título original: "Redemoinho".
Realizador: José Luiz Villamarim.
Argumento: George Moura (inspirado no livro "Inferno Provisório - O Mundo Inimigo Vol. II" de Luiz Ruffato).
Elenco: Irandhir Santos, Júlio Andrade, Dira Paes, Demick Lopes, Cássia Kis, Cyria Coentro.

1 comentário:

Gil António disse...

Bom dia. Imagino que seja um bom filme.
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* Soneto escrito no escuro ... em versos de luz sombria *
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Deixo um abraço amigo