06 março 2018

Crítica: "Praça Paris" (2017)

 Elevado pela sólida interpretação de Grace Passô, "Praça Paris" embrenha-se pelas dicotomias do Rio de Janeiro, pelas assimetrias e injustiças sociais e pela violência que percorre esta cidade, enquanto aborda os efeitos da contratransferência e desenvolve a estranha ligação que se forma entre a dupla de protagonistas. É obra que se esgueira pelas fronteiras do drama, do filme-denúncia e do suspense, que conta com duas personagens principais de personalidades e origens distintas. As protagonistas da nova longa-metragem realizada por Lúcia Murat são Glória (Grace Passô) e Camila (Joana de Verona). A primeira vive no Morro da Providência, trabalha como ascensorista na UERJ, conta com um passado conturbado, é negra, crente e tem poucas posses financeiras. A segunda é uma jovem portuguesa que se encontra a efectuar um mestrado em psicologia aplicada na UERJ, um local onde exerce ainda a função de psicanalista.

Glória é uma das pacientes de Camila. As consultas contribuem para desenvolver as dinâmicas entre estas personagens e permitem que fiquemos diante de alguns pormenores sobre o passado e o presente da ascensorista e da percepção do quão difícil é para esta expor esses episódios que provocam um forte efeito na psicanalista. Joana de Verona consegue transmitir de forma relativamente competente as tentativas da sua personagem em manter uma postura pragmática e um certo distanciamento da paciente, bem como a inexperiência desta jovem e as dificuldades que sente ao escutar as falas de Glória. É uma protagonista dotada de alguma complexidade, que guarda para si muitos dos seus pensamentos e aos poucos começa a ficar perturbada pelos episódios de violência relatados pela sua interlocutora, enquanto exibe alguma incapacidade em compreendê-la, ou não fossem oriundas de meios completamente distintos.

"Praça Paris" deixa-nos perante a visão do outro sobre o Rio de Janeiro e do olhar de quem vive no território desde sempre, algo que se repercute nas dinâmicas das duas personagens. Camila é inexperiente, ainda está a adaptar-se ao Rio de Janeiro e às suas especificidades. Glória procura falar com alguém sobre os seus problemas e os seus traumas, embora nem sempre consiga dizer toda a verdade. Os diálogos que estas trocam no consultório são marcados pelas perspectivas distintas que têm da vida e do território que as rodeia. Veja-se a forma como se referem a um estabelecimento de reeducação, com Camila a utilizar o termo reformatório, enquanto Glória aplica um duro "prisão de menores", algo que expressa o conhecimento que esta última tem da realidade destes espaços no Brasil.

A psicanalista não consegue manter o pragmatismo, sobretudo a partir do momento em que começa a transferir os problemas da paciente para o interior da sua mente, uma situação que a leva a começar a temer tudo e todos. Note-se o medo que tem ao abrir a porta para receber uma encomenda, ou a estranha obsessão que começa a formar pela avó e o destino trágico da mesma. Essa fixação é paradigmaticamente demonstrada num plano em que ficamos diante de Camila a observar-se ao espelho, enquanto o rack focus permite que o foco se divida entre esta e uma fotografia da familiar, algo que realça a confusão que percorre a mente da jovem. É um dos vários planos e momentos que sobressaem ao longo do filme. Observe-se ainda o plano fixo, filmado por trás de um gradeamento, em que Glória e Samuel (Digão Ribeiro), um vizinho e pretendente desta, aparecem cobertos pelas grades, algo que contribui para exacerbar uma certa sensação de prisão e isolamento em volta destes personagens que são colocados muitas das vezes à margem pela sociedade.

A ascensorista encontra-se presa ao passado e ao presente, à sua condição social e aos seus laços, enquanto tem de lidar com o preconceito, a violência e a solidão, com Grace Passô a imprimir uma postura séria e credível à sua personagem, uma mulher desafortunada, que praticamente não conheceu o calor humano, algo que se reflecte nos seus comportamentos. A aspereza marca o dia a dia de Glória, seja quando visita o irmão (Alex Brasil) na prisão, um indivíduo perigoso com quem esta mantém uma relação complicada, ou em situações em que se depara com a postura agressiva da polícia. Diga-se que Lúcia Murat não poupa nos comentários de foro social, seja a explanar a incapacidade da polícia e do Estado no que diz respeito à protecção dos cidadãos, ou a colocar em evidência o racismo, o machismo e algumas das dicotomias e particularidades que marcam o Rio de Janeiro.

O filme expõe de forma clara e directa que os brancos e os negros são tratados de forma distinta pela polícia, um problema que entronca com a realidade brasileira (e não só) e aparece como um dos vários elementos que contribuem para que Glória e Camila tenham uma percepção distinta deste território. Se a ligação que se estabelece entre as protagonistas é um dos pontos fortes do filme, já a relação de Camila com o namorado (Marco Antonio Caponi) raramente é desenvolvida ou convence, enquanto o avançar do enredo conta com algumas revelações e reviravoltas pouco polidas e uma série de falas que resvalam em excesso nos lugares-comuns. Existem alguns desequilíbrios no interior de "Praça Paris" - sobretudo quando deixa que a ânsia de expor as suas mensagens se sobreponha a tudo o resto - mas também diversos acertos.

Entre os ingredientes que sobressaem pela positiva encontra-se a eficácia com que o design de som é aproveitado para exacerbar a inquietação interior e a paranóia da protagonista, ou a forma precisa com que alguns planos são arquitectados. Veja-se um plongée seguido de um contra-plongée que exacerbam o mistério e a inquietação em volta de uma morte. Outro desses acertos está relacionado com o elenco secundário, com Digão Ribeiro a exibir a afabilidade e a humanidade de Samuel, ao passo que Alex Brasil expõe eficazmente o lado perigoso de Jonas. No entanto, o grande destaque do elenco é Grace Passô, com a actriz a contribuir e muito para elevar esta obra que tanto tem de irregular como de intrigante e perturbadora.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da nona edição do FESTin.

Título original: "Praça Paris".
Realizadora: Lúcia Murat.
Argumento: Lúcia Murat e Raphael Montes. 
Elenco: Grace Passô, Joana de Verona, Marco Antonio Caponi, Alex Brasil, Digão Ribeiro, Babu Santana.

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