04 março 2018

Crítica: "As Duas Irenes" (2017)

 "As Duas Irenes" é um filme dotado de candura, sentimento e uma certa inocência. A sua atmosfera aproxima-se à de um conto de encantar, os conflitos são abordados com delicadeza e graciosidade, enquanto a relação de amizade que se forma entre as personagens do título é convincente e pontuada por episódios que realçam a cumplicidade que existe entre ambas. Mérito para o realizador e argumentista Fabio Meira, um estreante na realização de longas-metragens que nos traz para o interior de um território de características rurais que parece estar num enclave entre os dias de hoje e o passado, onde os telemóveis, as redes sociais e os computadores não se encontram presentes.

O realizador subverte em alguns momentos as nossas expectativas, sabe utilizar os silêncios que muito dizem e apresenta-nos a personagens dotados de espessura, tais como a Irene interpretada por Priscilla Bittencourt, uma pré-adolescente de treze anos de idade que descobre que Tonico (Marco Ricca), o seu pai, tem uma segunda família. Bittencourt exprime eficazmente o ressentimento que perpassa pela mente da sua personagem, mas também a curiosidade que esta nutre em relação a Irene (Isabela Torres), a sua meia-irmã, uma jovem da mesma idade. O que fazer numa situação destas? A protagonista ainda pondera expor o caso a Mirinha (Suzana Ribeiro), a sua mãe, com quem mantém uma relação algo conturbada, mas prefere manter o segredo, pelo menos a nível inicial. A jovem decide estabelecer contacto com Irene, a meia-irmã, bem como com Neuza (Inês Peixoto), uma costureira, a outra esposa do seu pai. Para isso, inventa que se chama de Madalena e finge que pretende os serviços da costureira, algo que a leva a entrar na casa da segunda família do seu progenitor.

O filme começa desde logo a surpreender-nos ao apresentar Neuza e Irene como personagens simpáticas e afáveis, que rapidamente começam a formar amizade com "Madalena", algo que desarma as possibilidades de conflito entre o trio. A cumplicidade das duas Irenes é sublinhada não só pelas dinâmicas extremamente convincentes de Bittencourt e Isabela Torres, mas também pela subtileza com que Meira estabelece e desenvolve a ligação que se forma entre ambas. Torres explana o lado desenvolto e aberto da sua personagem, uma jovem que se encontra apaixonada por um rapaz da sua idade, enquanto Bittencourt expõe a faceta mais inexperiente e pouco confiante da sua Irene. O quotidiano destas personagens é exposto com precisão, sejam as idas ao cinema para namorar, ou os momentos em que dialogam uma com a outra, ou as ocasiões em que estão em silêncio e transmitem uma imensidão de sentimentos, com os diversos planos de conjunto que integram a dupla a permitirem realçar a sua união.

As protagonistas encontram-se em transição para a idade adulta, a efectuar uma série de descobertas muito próprias da idade e a depararem-se com algumas desilusões, com a amizade que formam a surgir como uma das pedras-basilares do filme. Diga-se que essa amizade permite ainda que a Irene interpretada por Bittencourt se comece a soltar um pouco mais quer a nível do vestuário (note-se a blusa vermelha que utiliza no último terço, com esta tonalidade a permitir realçar as características fervilhantes de um momento revelador e a libertação da personagem), quer dos comportamentos. Em casa, esta começa por exibir alguma animosidade para com o progenitor, enquanto ele aparenta desconfiar que a filha tem conhecimento de algo, embora nunca demonstre totalmente essas dúvidas. Diga-se que o argumento concede espaço para a dúvida no que diz respeito ao que cada personagem sabe sobre Tonico, com esse mistério a atribuir algum tempero e ambiguidade ao enredo.

A personalidade do pai da protagonista é uma das forças do filme, ou não estivéssemos perante um indivíduo que ama as duas famílias, apresenta um feitio relativamente afável e demonstra um prazer notório em estar com os familiares, algo que é realçado pelo meritório trabalho de Marco Ricca. Esta situação atribui alguma complexidade ao personagem e compele-nos a tentar percebê-lo e aos seus comportamentos ao mesmo tempo que permite inserir uma certa sensação de incerteza ao enredo. Meira joga com o facto da protagonista saber o segredo do pai para criar algum mistério e tensão em volta das dinâmicas da jovem com o progenitor e a família. Veja-se quando a pré-adolescente pergunta aos familiares se estes sabem que existe outra Irene, embora desconverse rapidamente e desanuvie o ambiente com a mesma velocidade, com as "As Duas Irenes" a demonstrar que prefere quase sempre percorrer os caminhos mais subtis.

Estamos perante uma fita que é coerente no seu tom, que nunca se descontrola, nem deixa a violência emocional penetrar a fundo, embora toque em assuntos delicados relacionados com os laços familiares, as dinâmicas entre pais e filhos e entre irmãs, o adultério, a pré-adolescência e as classes sociais. Veja-se quando encontramos Madalena (Teuda Bara), a empregada de Tonico e Mirinha, a jantar na cozinha, enquanto a família dos seus superiores come na sala de jantar, num momento em que as diferenças sociais são expostas. Diga-se que a funcionária surge quase como a confidente de Irene, uma adolescente que nem sempre tem uma relação pacífica com os pais. O casal conta com três filhas: Solange (Maju Souza), a mais velha; Irene, a filha do meio; Cora (Ana Reston), a mais jovem. Meira apresenta de forma clara, precisa e concisa o quotidiano desta família, sejam as suas discussões ou os momentos de acalmia, ou alguns traços da personalidade destes personagens, enquanto concede algum espaço para os intérpretes sobressaírem.

A banda sonora contribui para o estilo deveras delicado de "As Duas Irenes", enquanto o guarda-roupa e os cenários realçam a sua atmosfera entre a contemporaneidade e o passado, quase a remeter para uma fábula. É um filme onde uma situação ambígua e intrincada é desenvolvida com um tom muito próprio, enquanto a cumplicidade das duas Irenes é aprofundada com enorme precisão, com Priscila Bittencourt e Isabela Torres a destacarem-se e a elevarem a recomendável estreia de Fabio Meira na realização de longas-metragens.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da nona edição do FESTin.

Título original: "As Duas Irenes".
Realizador: Fabio Meira.
Argumento: Fabio Meira.
Elenco: Priscila Bittencourt, Isabela Torres, Marco Ricca, Suzana Ribeiro, Maju Souza, Teuda Bara, Ana Reston.

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