02 março 2018

Crítica: "Açúcar" (2017)

 "Açúcar" coloca em diálogo o passado e o presente de uma propriedade e de uma mulher. Esse diálogo permite que o filme se envolva pela História do Brasil, seja pelas questões raciais, o esclavagismo, o racismo, as assimetrias sociais e as transformações que ocorreram ao longo do tempo, enquanto conversa com os dias de hoje e estimula reflexão. A mulher mencionada é Bethania, uma personagem que se encontra presa às suas memórias, aos seus preconceitos, às suas contradições e aos seus segredos, algo transmitido com precisão por Maeve Jinkings. 

A actriz imprime presença, dimensão e uma mescla de altivez e fragilidade à protagonista, com estes atributos a ficarem demonstrados desde os momentos iniciais do filme, quando encontramos Bethania a regressar à Zona da Mata. A sua pose vagueia entre a melancolia e a determinação de uma reconquistadora disposta a recuperar as suas terras, as suas posses e o passado, embora o cenário que encontra seja bem distinto em relação àquele que preservara nas suas memórias. Veja-se quando observa uma propriedade já praticamente em ruínas, com o seu rosto a não esconder o impacto provocado pelo contraste entre a realidade e as imagens que permaneceram guardadas nas suas memórias. Diga-se que não deixa de ser algo irónico que o regresso de Bethania seja efectuado num barco à vela chamado "Sou Feliz", ou este não fosse um sentimento pouco exibido pela protagonista ao longo do filme.

 O barco conta com uma vela vermelha, uma cor que não parece ter sido colocada ao acaso, ou esta não remetesse para a confusão e o perigo. Bethania pretende recuperar a propriedade, enquanto os antigos trabalhadores deste espaço, liderados por Zé (José Maria Alves), procuram vender a Casa Grande e transformar o local numa espécie de museu sobre a escravatura. São objectivos completamente antagónicos, tal como a percepção que a protagonista e os antigos trabalhadores da plantação têm do passado, com os realizadores Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro a explorarem as tensões que envolvem as dinâmicas entre estes personagens. Bethania mantém um estilo de vida anacrónico, pouco questionador do seu passado e inseguro da sua identidade, enquanto que Zé representa alguém que pretende valorizar a cultura de Cabo Verde, conservar as memórias dos seus antepassados e explorar a terra trabalhada pelos ancestrais. 

A senzala pode estar destruída, mas as suas marcas continuam bem vivas, seja no território, ou no corpo e na alma daqueles que foram explorados ou beneficiaram de trabalho escravo. Veja-se quando encontramos Bethania a obrigar Alessandra (Dandara de Morais), uma jovem negra, a utilizar uma farda de criada que conta com odor a mofo, uma exalação que remete para os valores obsoletos da primeira, com a protagonista a parecer quase sempre um peixe fora de água que tarda em despedir-se no passado. A propriedade onde esta habita é vasta, decadente e encontra-se longe de quase tudo e todos, algo exposto em diversos planos abertos que permitem colocar em evidência os largos terrenos de plantações e exacerbar uma sensação de isolamento em volta da Casa Grande.  

A demora da reinstalação da electricidade contribui para adensar algum mistério e nervosismo em volta de diversos episódios que decorrem no interior da habitação, com a luz das velas a ser utilizada de forma frequente. O trabalho a nível de iluminação sobressai pela positiva, embora a Casa Grande permita ainda discernir o cuidado colocado na decoração de cenários interiores, ou não estivéssemos perante um espaço que reforça a ligação da protagonista ao passado. Não faltam fotografias e pinturas, móveis antigos e roupas que remetem para outros tempos, candelabros e porcelanas que carregam consigo o pó da História, entre outros objectos e elementos que trazem consigo uma série de memórias. Note-se quando encontramos a protagonista e Branca (Magali Biff), a sua madrinha, a observarem um álbum de fotografias, enquanto recordam o passado, ou uma festa em que as características deste espaço parecem contribuir para trazer ao de cima vícios antigos e tensões incapazes de serem contidas. 

Esse momento festivo é dos pedaços mais marcantes do filme, com a câmara a movimentar-se ao ritmo dos sentimentos, enquanto alguns planos de longa duração permitem deixar fluir as emoções que percorrem os personagens. Pelo meio não faltam algumas situações meio surreais associadas ao misticismo e ao sobrenatural, ou a sonhos delirantes, bem como diversos momentos que realçam a cultura dos antigos trabalhadores do local e alguns trechos pontuados pela tensão e o suspense (por vezes a remeter para "I Walked With a Zombie", em particular os momentos em Hounfour). Se o açúcar surge associado à doçura, já a longa-metragem em questão revisita temas amargos e pertinentes, embora por vezes escorregue e revele algumas debilidades. Veja-se quando encontramos Bethania a telefonar a partir de um telefone fixo para reactivarem a electricidade da sua habitação (algo impossível de fazer sem electricidade), ou a forma demasiado pueril como alguns personagens são apresentados e definidos, com o caso de Branca a ser o mais evidente. 

Não poderia existir um nome mais óbvio para uma personagem altiva, prepotente e algo racista do que Branca, uma figura desprovida de dimensão que sublinha uma faceta menos subtil do filme. No entanto, também não deixa de ser notório que "Açúcar" conta com uma protagonista dotada de espessura. Os seus comportamentos permitem discernir alguma altivez, mas também doses consideráveis de mistério e diversas dúvidas. Esta tanto receia como hostiliza os negros, para além de evidenciar uma mescla de curiosidade, desejo e desprezo em relação aos mesmos, com o choque de culturas e as contradições identitárias da protagonista a exacerbarem a inquietação em volta de alguns episódios do enredo, sobretudo quando "Açúcar" se envolve para terrenos das lendas e dos mitos. 

Este é também um filme que deixa espaço à interpretação e à ambiguidade, em que uma masturbação tanto pode simbolizar o apego à terra como a libertação do desejo e dos medos, enquanto um incêndio traz consigo a destruição de alguns resquícios coloniais. Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro arquitectam alguns momentos dignos de atenção, enquanto se aprofundam pelas dicotomias que pontuam o enredo: aqueles que possuem a terra e os que a trabalham; o branco e o negro; as janelas que se abrem e as que se fecham; as chegadas e as partidas; o realismo e a fantasia; o passado e o presente. Estas são algumas das dicotomias colocadas em diálogo ao longo da obra, sempre com Bethania como elemento central, enquanto Maeve Jinkings acrescenta mais uma personagem marcante ao seu currículo. 

Observação: Visionado no âmbito da cobertura da nona edição do FESTin.

Título original: "Açúcar".
Realizadores: Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro.
Argumento: Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro.
Elenco: Maeve Jinkings, Dandara de Morais, Magali Biff, José Maria Alves.

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