25 março 2018

Antevisão da 11ª Festa do Cinema Italiano

 Evento fundamental para dar a conhecer em Portugal o cinema e a cultura italiana, a Festa do Cinema Italiano chega à sua 11ª edição com uma programação digna dos mais variados elogios, sobretudo no que diz respeito às suas propostas cinematográficas. No ano passado, Stefano Savio, director e programador da FCI, comentou que um dos ingredientes para o sucesso do certame é a matéria-prima, em particular, o cinema italiano. Com uma produção bastante diversificada, o cinema italiano tem demonstrado uma enorme vitalidade quer em quantidade, quer em qualidade, algo que nos conduziu a questionar Stefano Savio sobre os principais desafios que os programadores encontraram para seleccionar essa matéria-prima e transmitir a pluralidade da mesma para os diferentes públicos do evento. Segundo o director artístico da FCI, "o trabalho mais complicado é fundamentalmente o de analisar ou escavar a fundo para perceber o que é bom e vale a pena mostrar. Dentro de um determinado tipo de olhar temos de perceber se o conteúdo é apropriado para um dado tipo de público. A coisa mais complicada para nós - que fazemos a selecção e somos maioritariamente italianos - é perceber o que faz sentido ou não para um português. Sabemos que alguma coisa que funcione muito bem junto do público italiano pode ou não encontrar paralelo em Portugal.

 Algum tipo de comédia pode ser mais complicado de trazer, já que nem tudo o que funciona em Itália resulta com o público português. Por sua vez, algum tipo de melodrama que para nós por vezes parece algo exagerado, ainda chama algum público português.  A dificuldade maior é perceber o que temos na mão. A produção de cinema italiano varia de ano para ano. Este ano não nos podemos queixar, é uma produção interessante. Quase tudo o que é interessante está no festival. Agora é trabalhar para que o público possa calhar na sessão certa. O desafio é exactamente este, nomeadamente, ganhar a experiência para perceber que conteúdo pode ter um contacto com o público que estás a formar. Estamos a oferecer conteúdos que o público recebe, mas ao longo de dez anos anos também formámos público. Estamos a trabalhar em sessões mais divididas, tendo em vista a que o nosso público consiga encontrar mais facilmente aquilo que procura. Também estamos a dar continuidade a autores e intérpretes. O cinema clássico italiano já tem os seus nomes e referências, mas o cinema italiano contemporâneo ainda não tem. O nosso trabalho ao longo destes dez anos também é criar um tipo de historiografia do cinema italiano contemporâneo. Se exibimos obras do Paolo Virzì como 'Tutta la vita davanti', 'La prima cose belle', 'Tutti santi giorni' e 'Il capitale umano', também exibimos o novo filme dele, o 'The Leisure Seeker'. Para nós é importante criar no nosso público um histórico dos autores e do tipo de cinema que gostamos. O nosso trabalho é também a formação de público".


 É exactamente no âmbito da formação de público que em Lisboa encontramos 'Sicilian Ghost Story' como filme de abertura, bem como 'The Place' como obra de encerramento. O primeiro é a nova longa-metragem realizada por Antonio Piazza e Fabio Grassadonia, a dupla de 'Salvo' (exibido em 2014 na Festa do Cinema Italiano). O segundo é realizado por Paolo Genovese, o cineasta responsável por 'Perfetti sconosciutti', um dos grandes filmes da edição de 2017 da FCI. Os dois filmes mencionados integram a Panorama, uma secção que conta com as novas longas-metragens de cineastas bem conhecidos como Gianni Amelio ('La tenerezza'), Paolo Virzì ('The Leisure Seeker'), Marco Tullio Giordana ('Nome di donna'), Sergio Castellito ('Fortunata'), Gabriele Muccino ('A casa tutti bene'), Paolo Taviani ('Una questione privata') e Ermanno Olmi ('Vedete sono uno di voi'), ou êxitos comerciais como 'La ragazza nella nebbia', protagonizado por Toni Servillo. É um conjunto de nomes que impressiona, com a Panorama a contar com algumas obras que constam na colheita mais recente do cinema italiano. A selecção é pontuada pela qualidade e pela diversidade, com esta secção a contar ainda com uma série de comédias que em certa medida remetem para algumas das tradições das comédias à italiana.

 Sobre as comédias que integram a secção Panorama, Stefano Savio comentou que "'Poveri ma ricchi' é uma comédia muito divertida, com grandes tempos de comédia. Tem alguma capacidade para 'picar' politicamente, sobretudo um dado tipo de esquerda intelectual italiana, ou uma ideia de uma burguesia que para ficar rica tem de se mostrar liberal, inteligente e ecológica, quando na realidade aquilo é uma ficção. O filme goza um pouco com uma ideia elitista do ser ecológico, aberto e intelectual quando na realidade às vezes é mais uma condição social do que uma vontade pessoal. Os outros dois filmes são talvez mais interessantes. Tanto o 'L'ora legale' como o 'Sono tornato' tocam um bocado em questões políticas da Itália contemporânea. O 'L'ora legale' foi um grande sucesso em Itália. É uma comédia muito banal a nível da sua estrutura, mas no final é provável que tanto os italianos como os portugueses fiquem bastante amargurados. Todos estamos prontos a chamar pela legalidade. Queremos mais legalidade, que o Estado funcione bem, que não exista corrupção. No entanto, quando a legalidade também é aplicada ao nosso dia a dia, as coisas mudam rapidamente. Quando afecta a nossa maneira de ser e a nossa comodidade, então nós também acabamos por dar um passo atrás. 

 O 'Sono Tornato' é um filme muito recente, é a primeira vez que é exibido fora de Itália. É uma obra que talvez tenha uma ligação forte com Portugal, bem como com países como Itália, Espanha e Alemanha, que tiveram uma ditadura deste tipo. É uma comédia que mistura ficção com documentário. Foi filmado com o actor principal vestido de Mussolini a passear pelas ruas de Roma. As pessoas festejavam o regresso de Mussolini. É completamente assustador no sentido em que o populismo é tão forte que pode pegar completamente num segundo. 'Sono tornato' fala de Mussolini que regressa a Itália para encontrar o perdão e ser novamente recolocado. O filme aborda a ideia de não perdoar. Não é porque passaram cinquenta ou sessenta anos que podemos perdoar. A facilidade em esquecer e perdoar é a facilidade em voltar a ter o que aconteceu há cinquenta anos". A comédia marca também algumas das sessões especiais do certame, sobretudo no que diz respeito à exibição da trilogia "Smetto quando voglio", com a 11ª Festa do Cinema Italiano a exibir não só o último capítulo da saga ("Smetto quando voglio - Ad honorem"), mas também os dois primeiros ("Smetto quando voglio" e "Smetto quando voglio - Masterclass"). Diga-se que as sessões especiais contam ainda com a exibição de uma série de documentários deveras promissores, nomeadamente, 'Caravaggio – L'Anima e il Sangue', 'Raffaello - il Principe delle Art' e "Botticelli – Inferno', centrados individualmente nos artistas que constam em cada título.

 Um dos grandes destaques da programação é a sua fortíssima secção Competitiva, que conta maioritariamente com primeiras obras, tais como os recomendáveis 'Cuori puri' e 'Buon inverno' ('Happy Winter'). Questionado sobre a secção competitiva e o que estas novas vozes têm a trazer ao cinema italiano, o director artístico da Festa do Cinema Italiano comentou "Acho que este ano está bastante equilibrada. Este ano reduzimos a competição para termos praticamente só primeiras obras e filmes que pudessem dialogar entre si. O único que está um bocado fora desta realidade é o 'Happy Winter', que é um documentário sobre a maneira quase ritual ou religiosa como os italianos vivem na praia. Todos os filmes contam com uma ideia autoral bastante forte. Dois deles estão mais ligados às crianças e à infância, o 'La guerra dei cafoni' e o 'Guarda in alto'. Em ambos o mundo da infância é apresentado de uma maneira fantasiosa, com esse mundo a representar por vezes o dos adultos, algo que em certa medida liga com o filme de abertura. O 'Cuori puri' é um filme de formação. É um filme sólido, uma revelação do Festival de Cannes, que já tem força para caminhar sozinho. Fala sobre como o amor adolescente pode crescer contra algumas convenções, nomeadamente da religião católica, inserido no contexto da periferia urbana. Temos ainda um filme que é uma surpresa, o 'Easy', um road movie. Também é um filme de formação. O protagonista ainda não está muito acordado para a vida e cresce fundamentalmente durante a viagem. Todos os realizadores enfrentaram uma ideia de passagem, ou de crescimento".

 A Altre Visione prima por contar com alguns filmes mais experimentais ou com uma linguagem cinematográfica mais audaz, pelo que pedimos a Stefano Savio para salientar as obras mais arrojadas desta secção e a resposta foi a seguinte: "O filme que nos batemos muito para ter e não foi fácil é o 'Hannah', que esteve em competição no Festival de Veneza. Tem como protagonista uma grande actriz inglesa, a Charlotte Rampling, embora tenha sido filmado em França. Tem uma enorme performance autoral desta fantástica actriz, que praticamente sem dizer nada, com mínimos detalhes representados no seu corpo e na sua cara, consegue demonstrar os sentimentos da personagem". A secção conta ainda com 'Surbiles', uma obra realizada por Giovanni Columbu que promete colocar-nos perante estas criaturas femininas lendárias, muito semelhantes aos vampiros, que pertencem há séculos à fantasia popular da Sardenha. Outro dos destaques desta secção é 'Il cratere', um filme que se esgueira pelas fronteiras do documentário e ficção, sendo realizado por Luca Bellino e Silvia Luzi. A completar a Altre Visione está 'Beautiful Things', uma obra híbrida entre o documentário e a videoarte.

 Outra das pedras basilares da Festa do Cinema Italiano é a secção Amarcord. A retrospectiva deste ano é dedicada a Marco Ferreri, uma escolha que "vem de vários pontos. O ano passado ficou marcado pelos vinte anos do desaparecimento do Marco Ferreri. Foram feitas várias coisas em Itália, que gostaríamos de continuar. Reparámos que nos últimos anos tivemos um bom ponto de vista sobre a comédia à italiana, com os grandes autores como o Mario Monicelli, o Dino Risi, o Ettore Scola. Pensámos que talvez fosse justo chegar à degeneração final da commedia all'italiana. Já em Scola existia aquele ponto em que a comédia se tornava mais pesada, como em 'Brutti, sporchi e cattivi'. O Ferreri apanhou o lado grotesco da comédia e tornou ainda mais anárquico, agressivo e provocador, puxou aquilo ao extremo. É um autor que ainda não foi totalmente descoberto, é um dos autores que naquele período fez coisas mais interessantes, mas nunca ficou consagrado entre os clássicos do cinema italiano. Ficou muito como um outsider. Estamos curiosos para saber se algumas fortes provocações de Ferreri ainda provocam impacto, ou se as suas intuições sobre a nossa sociedade se terão realizado". A secção Amarcord deste ano fica ainda marcada pela exibição da versão restaurada do magnífico 'Nuovo Cinema Paradiso' (que vai ser reposto em circuito comercial pela Alambique).

 A juntar a todos estes ingredientes a edição de 2018 da FCI conta ainda com a exibição de curtas-metragens (na secção Il corto), bem como eventos como a exposição 'Il Postino, Salina - A Metáfora da Poesia', ou o célebre Cine-jantar (onde teremos boa comida e a exibição de 'Il postino'), ou a instalação de vídeo 'Patafísica italiana – jovens videoartistas'. O mais difícil é escolher os filmes e os eventos a deixar de lado, já que não faltam bons motivos para mergulharmos a fundo no interior das várias propostas que constam em mais uma edição fortíssima do certame. Tal como aconteceu no ano passado, a Festa do Cinema Italiano volta a realizar-se em simultâneo em várias cidades – Lisboa, Porto, Cascais, Setúbal, Almada e Coimbra –  seguindo, depois, para Aveiro, Évora, Viseu, Beja, Moita, Tomar, Loulé, Viana do Castelo, Caldas da Rainha e Funchal, entre outras a anunciar em breve e, além fronteiras, no Brasil, Angola e Moçambique. No caso de Lisboa, o certame decorre entre os dias quatro e doze de Abril em espaços como o Cinema São Jorge, salas UCI - El Corte Inglés e na Cinemateca Portuguesa. Podem consultar mais informações sobre a programação da 11ª Festa do Cinema Italiano no site do certame: https://www.festadocinemaitaliano.com/

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