31 março 2018

Crítica: "Easy" (2017)

 Andrea Magnani não poupa no humor e no drama em "Easy", um road movie de contornos agridoces que surge como a primeira incursão do cineasta pela realização de longas-metragens. É uma obra cinematográfica em que a vida e a morte são colocadas lado a lado, tal como a comédia e a tragédia, com o argumento a conciliar habilmente estas diferentes vertentes do enredo, sempre tendo Isidoro (Nicola Nocella) como figura central. O título do filme remete exactamente para a alcunha de Isidoro, um indivíduo anafado, aparentemente apático, que padece de depressão, é viciado em antidepressivos, vive com a mãe (Barbara Bouchet) e conta com uma barba que sublinha o descuido que tem para consigo. Outrora foi uma promessa no automobilismo de competição, tendo supostamente abandonado este desporto devido a ter engordado em demasia. No presente, Isidoro parece ter perdido a fome de viver, com o seu quotidiano a ser marcado pelo marasmo e inacção, algo realçado pelo trabalho de Nicola Nocella na composição do personagem.

As rotinas de Easy sofrem um valente abanão quando Filo (Libero De Rienzo), o seu irmão, um vigarista de primeira, convence o antigo piloto a efectuar um trabalho aparentemente simples: transportar o corpo de Taras, um ucraniano que faleceu num local de construção que pertencia ao segundo, até à fronteira entre a Hungria e a Ucrânia. O protagonista ainda hesita, mas logo acaba por ajudar o familiar, embora, como é de esperar, a missão não seja tão simples como Filo conjecturara. A viagem é marcada por uma miríade de peripécias, contrariedades e a entrada em cena de uma série de figuras que mexem com o protagonista e o enredo. Veja-se o camionista beberrão (Beso Moistsrapishvili) que é oriundo da Geórgia e transporta consigo galinhas, ou a simpática família chinesa que acolhe temporariamente o protagonista, ou o padre (Joseph Luis Caballero) que pretende abandonar o seu ofício para dedicar-se à sua banda, ou o encontro do personagem do título com as autoridades ucranianas.

25 março 2018

Antevisão da 11ª Festa do Cinema Italiano

 Evento fundamental para dar a conhecer em Portugal o cinema e a cultura italiana, a Festa do Cinema Italiano chega à sua 11ª edição com uma programação digna dos mais variados elogios, sobretudo no que diz respeito às suas propostas cinematográficas. No ano passado, Stefano Savio, director e programador da FCI, comentou que um dos ingredientes para o sucesso do certame é a matéria-prima, em particular, o cinema italiano. Com uma produção bastante diversificada, o cinema italiano tem demonstrado uma enorme vitalidade quer em quantidade, quer em qualidade, algo que nos conduziu a questionar Stefano Savio sobre os principais desafios que os programadores encontraram para seleccionar essa matéria-prima e transmitir a pluralidade da mesma para os diferentes públicos do evento. Segundo o director artístico da FCI, "o trabalho mais complicado é fundamentalmente o de analisar ou escavar a fundo para perceber o que é bom e vale a pena mostrar. Dentro de um determinado tipo de olhar temos de perceber se o conteúdo é apropriado para um dado tipo de público. A coisa mais complicada para nós - que fazemos a selecção e somos maioritariamente italianos - é perceber o que faz sentido ou não para um português. Sabemos que alguma coisa que funcione muito bem junto do público italiano pode ou não encontrar paralelo em Portugal.

 Algum tipo de comédia pode ser mais complicado de trazer, já que nem tudo o que funciona em Itália resulta com o público português. Por sua vez, algum tipo de melodrama que para nós por vezes parece algo exagerado, ainda chama algum público português.  A dificuldade maior é perceber o que temos na mão. A produção de cinema italiano varia de ano para ano. Este ano não nos podemos queixar, é uma produção interessante. Quase tudo o que é interessante está no festival. Agora é trabalhar para que o público possa calhar na sessão certa. O desafio é exactamente este, nomeadamente, ganhar a experiência para perceber que conteúdo pode ter um contacto com o público que estás a formar. Estamos a oferecer conteúdos que o público recebe, mas ao longo de dez anos anos também formámos público. Estamos a trabalhar em sessões mais divididas, tendo em vista a que o nosso público consiga encontrar mais facilmente aquilo que procura. Também estamos a dar continuidade a autores e intérpretes. O cinema clássico italiano já tem os seus nomes e referências, mas o cinema italiano contemporâneo ainda não tem. O nosso trabalho ao longo destes dez anos também é criar um tipo de historiografia do cinema italiano contemporâneo. Se exibimos obras do Paolo Virzì como 'Tutta la vita davanti', 'La prima cose belle', 'Tutti santi giorni' e 'Il capitale umano', também exibimos o novo filme dele, o 'The Leisure Seeker'. Para nós é importante criar no nosso público um histórico dos autores e do tipo de cinema que gostamos. O nosso trabalho é também a formação de público".

20 março 2018

Crítica: "Amor Amor" (2017)

 Entre confissões e danças nocturnas, amores que se esfumam e outros que se reencontram, corridas madrugadoras ritmadas ao som da música "Ces Bottes Sont Faites Pour Marcher" e da libertação da alegria de viver, "Amor Amor" aborda com profunda sensibilidade a complexidade e a emotividade que permeiam o amor e os sentimentos inerentes ao mesmo. É filme profundamente romântico, que se envolve por uma teia de relações e pelas diferentes formas de lidar com o amor, as desilusões amorosas e os desejos incontroláveis, que o digam os seus personagens principais, um grupo de amigos que vive um corrupio de emoções no período compreendido entre a madrugada de dia trinta e um de Dezembro e a de um de Janeiro.

"Amor Amor" deixa-nos inicialmente diante de três grupos de personagens que se encontram em três espaços distintos. É um recurso bastante prático para o realizador Jorge Cramez apresentar com clareza alguns dos personagens principais do filme e os traços primordiais das suas personalidades. O primeiro agrupamento é formado por Marta (Ana Moreira) e Lígia (Margarida Vila-Nova), que encontramos a dialogar tendo a noite como confidente e a cidade de Lisboa como companhia. A primeira demonstra a sua vontade de casar e ter filhos com Jorge (Jaime Freitas), o seu namorado, com quem mantém uma relação há sete anos. A segunda manifesta algum desprezo para com Jorge, exibe uma postura mais cínica e pragmática do que a amiga no que diz respeito aos homens e expõe o desejo de ver Marta ao lado de Bruno (Guilherme Moura), o seu irmão. O segundo grupo é constituído por Bruno e os seus amigos. Quando os conhecemos estão a beber cerveja e a finalizar um jogo de matraquilhos, pelo menos até o irmão de Lígia demonstrar a sua falta de vontade para permanecer no local e exibir as dores inerentes a um amor aparentemente não correspondido.

14 março 2018

Breve balanço da cobertura da nona edição do FESTin

 A nona edição do FESTin decorreu entre os dias 27 de Fevereiro e 6 de Março de 2018. É a quinta vez que consigo cobrir o festival e não tenho dúvidas que esta foi uma das edições mais sólidas do certame. Obras como "Mulher do Pai", "Vazante", "Como Nossos Pais", "Redemoinho", "Limpam com Fogo" e "Organismo" enobreceram e muito a programação, enquanto que a presença de um número considerável de convidados permitiu enriquecer ainda mais o evento. Não digo que tenha sido a melhor cobertura que já fiz, mas fiquei bastante satisfeito com o resultado final da mesma. Consegui ver quinze filmes, escrevi onze críticas (ou algo que se pareça) e efectuar doze entrevistas (poderiam ter sido treze se um realizador não tivesse falhado com o envio das respostas). Pelo caminho tive a oportunidade de entrevistar o Pablo Villaça, a minha grande referência na crítica cinematográfica, naquele que foi o ponto alto deste blog desde que foi criado (a partir daqui é impossível subir mais). Um obrigado especial ao Roni Nunes que facilitou imenso a cobertura quer no que diz respeito às entrevistas, quer aos filmes. Dito tudo isto, aqui ficam os links para os posts publicados ao longo dos últimos dias:

Críticas a filmes:

- "Mulher do Pai" (2016)
- "Como Nossos Pais" (2017) 
- "Não Devore Meu Coração" (2017)
- "Redemoinho" (2016)
- "Açúcar" (2017)
- "Limpam com Fogo"
- "As Duas Irenes" (2017) 
- "Aparição" (2018) 
- "Praça Paris" (2017) 
- "Vazante" (2017)
- "Organismo" (2017).

Entrevistas:

- Roni Nunes  (programador).
- Felipe Bragança (realizador de "Não Devore Meu Coração").
- Renata Pinheiro (co-realizadora de "Açúcar").
- Maria Galant (protagonista de "Mulher do Pai")
- Cristiane Oliveira (realizadora de "Mulher do Pai").
- Luís Campos (director do "GUIÕES").
- Fernando Vendrell (realizador de "Aparição").
- César Vieira, Rafael Crespo e Conrado Ferrato (realizadores de "Limpam com Fogo")
- Jaime Freitas (actor de "Aparição").
- Laís Bodanzky (realizadora de "Como Nossos Pais").
- Lúcia Murat (realizadora de "Praça Paris").
- Pablo Villaça (crítico de cinema).


Post genérico sobre os vencedores que pode ser encontrado em qualquer site ou blog com falta de imaginação:

- Lista completa dos vencedores da edição de 2018 do FESTin.

Obrigado a quem acompanhou a cobertura.

12 março 2018

Crítica: "Organismo" (2017)

 "Do que eu lembro, eu sempre vi o Mundo através de frestas" comenta Diego (Rômulo Braga) nos momentos iniciais de "Organismo", a primeira longa-metragem realizada por Jeorge Pereira. É um dos vários momentos do filme em que a narração em off é utilizada para acrescentar informação e reforçar a ligação entre o protagonista e o espectador, enquanto ficamos diante de um episódio da infância deste personagem. O episódio é marcado por uma certa inocência, com Jeorge Pereira a deixar-nos perante o jovem Diego a observar uma mulher a tomar banho. Mais tarde voltamos a encontrar o protagonista a espreitar uma figura feminina através de uma fresta, em particular, Helena (Bianca Joy Porte), a sua namorada, embora o contexto seja amplamente distinto. Se no início esse olhar observador de Diego remete para uma sensação de descoberta tipicamente juvenil, já no último terço esse acto envolve uma redescoberta do desejo, uma tentativa de reaprender a lidar com o próprio corpo e a dar prazer sexual. A sensibilidade com que o cineasta coloca em diálogo o passado mais recente e o mais distante do protagonista e expõe estes episódios é algo transversal a diversos momentos de "Organismo", um pouco à imagem da metáfora das frestas, ou não estivéssemos na presença de uma obra que surge como uma janela entreaberta para o âmago do personagem principal.

No início do filme encontramos Diego acamado e aos cuidados de Valter (Arthur Canavarro), o seu fisioterapeuta e melhor amigo, após ter sofrido um acidente que o deixou tetraplégico, enquanto expressa em off que não acredita em Deus ou no pecado. Diga-se que a fé e a Religião marcam uma parte do enredo e da vida do protagonista, bem como o sentimento de perda e uma deambulação pelas memórias. Ao longo de "Organismo" ficamos diante de diversos trechos que envolvem um revisitar do passado de Diego, seja em episódios marcantes da sua infância, ou em situações vividas em plena idade adulta, enquanto este procura aprender a conviver com as novas limitações do seu corpo, tenta ganhar coragem para mergulhar no âmago do seu ser e pondera sobre o seu futuro. A metáfora do mergulho também está muito presente ao longo do filme, seja numa dança pelas águas de uma relação ou numa imersão que o protagonista tem que efectuar para chegar às profundezas da sua alma. Este mergulho é algo que Jeorge Pereira apresenta com enorme delicadeza e algumas doses de lirismo, com o cineasta a ter em "Organismo" uma obra plena de humanidade, pronta a deixar-nos diante das inquietações de um homem com o seu corpo.

10 março 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Pablo Villaça

 Provavelmente o crítico em actividade que mais teve (e tem) relevância na minha formação como cinéfilo, Pablo Villaça esteve presente na nona edição do FESTin como júri da crítica, bem como para leccionar uma masterclass sobre "A escrita na crítica cinematográfica" e moderar um debate. A presença do Pablo Villaça no festival foi a oportunidade ideal para entrevistá-lo. Ao longo da entrevista forma abordados assuntos relacionados com a prestação brasileira em Berlim, a riqueza do cinema brasileiro, a importância de Roger Ebert no modo como o Pablo Villaça encara a crítica e o trabalho do crítico, entre outros temas. O resultado final da entrevista aumentou ainda mais a minha enorme admiração pelo Pablo Villaça e a vontade de participar num possível curso do mesmo em Portugal. P.S. A fotografia será alterada mais tarde.


Rick's Cinema: O cinema brasileiro saiu mais uma vez bastante bem visto de Berlim. Qual é o balanço que faz desta prestação brasileira em Berlim? 

Pablo Villaça: O ano passado e este ano a participação do Brasil em Berlim foi especialmente boa. Não só na selecção dos filmes, que eram filmes mesmo muito bons, mas também na recepção do público. Todas as sessões estavam lotadas e o público muito entusiasmado, reagiu muito positivamente aos filmes. Fico até com medo de soar ufanista, mas dá um orgulho você perceber a produção do seu país, principalmente uma produção que é tão representativa da nossa cultura. Não são filmes genéricos. São filmes que trazem elementos que são muito característicos da cultura brasileira. Por exemplo, alguns filmes que foram exibidos em Berlim o ano passado e que vão passar no FESTin como "Não Devore Meu Coração", ou esse ano o "Bixa Travesty", "Tinta Bruta", têm uma brasilidade inquestionável. Ao invés de tornar o filme mais difícil para a plateia internacional, essa brasilidade de certa maneira torna-o ainda mais universal. Fiquei orgulhoso de ver como os filmes comunicaram bem com a plateia internacional. Aliás, o Brasil tem participações muito boas em festivais internacionais.


RC: O Kléber Mendonça Filho fez recentemente sucesso em Cannes com o "Aquarius"...

PV: Em Cannes no mesmo ano em que o Kléber Mendonça Filho estava lá com "Aquarius", também estava lá o Eryk Rocha com o "Cinema Novo", um documentário sobre o Cinema Novo que é um filme maravilhoso. Tivemos também em Cannes a passar na Semana da Crítica o "Gabriel e a Montanha", que ganhou dois prémios (de revelação e da Fundação Gan) - merecidamente, é um filme lindíssimo. O Brasil tem participações muito boas em festivais internacionais. O que me frustra ainda mais quando vejo que o cinema brasileiro tende a ser mal visto por boa parte do público brasileiro que frequentemente diz que o nosso cinema não presta, ou é ruim, embora não tenha a menor noção do que é na verdade o cinema brasileiro.


RC: Como se explica esta riqueza do cinema brasileiro? É que por exemplo basta simplesmente observamos os filmes que estão no FESTin como o Não Devore Meu Coração e o Açúcar para percebermos que são filmes muito distintos, que nem parecem do mesmo país...

PV: Acho que boa parte dessa riqueza do cinema brasileiro tem a ver com o facto do Brasil ser um país de dimensão continental. Embora também seja um país de dimensão continental, os EUA têm produção em Hollywood na Costa Oeste e em Nova Iorque na Costa Leste. São pólos muito marcados pelo próprio sistema de produção. No Brasil não temos isso. Tudo bem que temos uma predominância um pouco maior do Sudeste - de São Paulo e Rio de Janeiro, mas você tem produção cinematográfica no Nordeste, Centro Oeste, Sul (por exemplo, a Casa de Cinema de Portalegre). E, até, ainda que em menor grau, mas a começar a despontar, na região Norte. O ano passado um dos filmes que passaram em Berlim foi produzido em Manaus, o "Antes o tempo não acabava", que é um filme lindíssimo. Quando você produz cinema ou qualquer tipo de arte nas regiões é natural que essas produções tendam a reflectir a sensibilidade local. Como produzimos cinemas em todos os cantos do Brasil é natural que os filmes tenham uma diversidade temática, estética e de linguagem.

 Às vezes é como você falou, nem parecem do mesmo país. Quando você compara "Açúcar" com "Não Devore Meu Coração", "Mulher do Pai", "Como Nossos Pais", "Bixa Travesty" e "Tinta Bruta" quase que se pergunta: "esses filmes são do mesmo país?" Essa diversidade de produção no Brasil é uma das coisas que temos que são mais lindas. Digo isso sem medo de soar ufanista. Acho que a produção brasileira de cinema é uma das mais ricas do Mundo, porque temos uma diversidade que é rara nos outros países. Claro que quanto mais filmes produzimos, mais produzimos porcaria. A única coisa que é frustrante é que muitos desses filmes brasileiros mais autorais, que inclusive são os que se destacam nos festivais internacionais, tendem a não ganhar uma distribuição boa no Brasil. Os filmes que tendem a ganhar distribuição no Brasil são as globochanchadas. Isso é frustrante.


RC: O Brasil é uma fonte riquíssima de documentários. Tanto no artigo "O Rico Cinema Brasileiro" como no Videocast "O Riquíssimo cinema brasileiro", o Pablo menciona as qualidades dos documentaristas brasileiros. Podemos falar de uma sensibilidade especial ou diferente do documentarista e do documentário brasileiro? 

PV:  Acho que também tem a ver com essa diversidade a nível de questões de tema e regiões. Para mim o maior documentarista da História do Cinema é brasileiro, o Eduardo Coutinho. Eu sou fã de documentário. Se alguém me perguntasse o meu género cinematográfico favorito, sem dúvida que responderia que é o documentário. Se eu apenas pudesse ver um género cinematográfico para o resto da vida, esse género seria o documentário. O que não faltam são cineastas históricos sensacionais como o Errol Morris e o Werner Herzog, mas o Eduardo Coutinho tinha uma sensibilidade e uma humanidade que o tornavam diferente. Ele era capaz de chegar e dizer que ia fazer um documentário sobre quem ia a passar na rua. Ele parava as pessoas, entrevistava-as e ia tirar coisas lindíssimas dessas entrevistas. Essa empatia e humanidade era um dom do Coutinho.

  Fora isso temos uma quantidade muito grande de documentaristas/cineastas que não só têm especificidades culturais das suas regiões, mas também têm interesses particulares e estéticas diferentes. Quando você assiste a filmes do Marcelo Masagão como o "Nós Que Aqui Estamos por Vós Esperamos" ou o "1,99 - Um Supermercado Que Vende Palavras" e compara com João Moreira Salles, nomeadamente, "Santiago" ou o "No Intenso Agora" percebe que a estrutura do filme é muito diferente uma da outra. São formas diferentes de você contar aquelas histórias particulares e que são frequentemente muito interessantes. Não é simplesmente aquela coisa batida do documentário de cabeça falante, de você botar uma câmara num primeiro plano, entrevistar a pessoa e ela falar. Não, a estrutura que você usa para contar a história é diferente. Até mesmo quando você embaça a fronteira da ficção com a realidade. Temos o exemplo recente do "Era o Hotel Cambridge". É sensacional porque ao mesmo tempo em que o filme foi rodado em locação com aquelas pessoas que vivem aquela situação, muitas delas interpretando versões delas mesmas, você tem um José Dumont - que para mim é um dos melhores actores da História do Cinema Brasileiro - a interpretar claramente um personagem. Você tem esse cruzamento de personagens fictícios com personagens verídicos, reais, interpretados por eles mesmos. O filme funciona como uma ficcionalização, mas também como um documentário. Quando eles mostram a invasão ao outro prédio, eles estão mesmo a mostrar a invasão, ainda que inserida num contexto ficcional. É isso que me encanta no documentário brasileiro: essa capacidade de olhar para a realidade sem ser um olhar engessado, conseguir observar pontos de vistas diferentes e conseguir expressá-los de maneira diferente.

09 março 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Lúcia Murat sobre "Praça Paris"

 A realizadora Lúcia Murat esteve no FESTin para apresentar "Praça Paris", uma co-produção entre o Brasil e Portugal que conta com Grace Passô e Joana de Verona no elenco principal. O Rick's Cinema aproveitou a presença da realizadora em Lisboa para falar um pouco sobre o filme. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a pesquisa efectuada para abordar a temática da contratransferência, o trabalho de Grace Passô, a parceria com a Fado Filmes, entre outros temas.

Rick's Cinema: A Camila começa a transferir os problemas da paciente para o interior da sua mente, uma situação que a leva a começar a temer tudo e todos. Os efeitos da contratransferência não costumam ser muito abordados no cinema brasileiro. Como é que surgiu a ideia de retratar este tema e qual foi o trabalho de pesquisa que efectuou para abordar o mesmo?

Lúcia Murat: Na verdade esse tema surge de um facto real. Tenho uma amiga psicanalista que coordenava um centro de terapia para carentes numa universidade. Normalmente esses centros de terapia são compostos por alunos de mestrado, ou do último ano da licenciatura. No caso era uma universidade particular em que as pessoas eram de alta classe média. Ela contou-me que estavam a ter alguns casos de contratransferências. Ao entrarem em contacto com pessoas que tinham uma vivência de violência muito pesada, algumas jovens de alta classe média começaram a ter muito medo de sair à rua, sentiam-se perseguidas. A minha amiga até fez um trabalho sobre isso. Na ocasião pensei que isso poderia dar um filme interessante, que eu poderia transformar num thriller e exacerbar esse tipo de sentimento. Isso foi naquele período de violência no Rio de Janeiro, ainda antes da instalação das UPPs. Depois de instaladas as UPPs teve um primeiro momento em que parecia que ia ter um início de pacificação - não que eu acreditasse nisso. Os chefes do tráfico foram presos, ou foram para a baixada fluminense, libertando aquela zona. Quando eu decidi fazer o filme foi quando o fracasso das UPPs estava claro e estava a recomeçar a situação de violência nas favelas.

 Tivemos um psicanalista que nos auxiliou no argumento. Fizemos uma pesquisa muito grande no Morro da Providência e é impressionante como as coisas mudam muito rapidamente. Quando começámos a fazer a pesquisa já estava claro o fracasso nas UPPs, mas ainda era uma situação em que podíamos subir no Morro. Eu e uma menina que trabalha na produtora conseguimos subir sem autorização de ninguém, fizemos pesquisa, conversámos com pessoas das ONGs. Quando fomos filmar a situação já estava tão exacerbada que nem conseguimos filmar no Morro. Só fizemos a abertura ali em baixo e mesmo assim foi dificílimo, a negociação foi complicada. No dia em que fomos filmar até apareceram uns tipos armados. Já estava tudo a explodir.


RC: O argumento é assinado pela Lúcia Murat e pelo Raphael Montes. O quanto é que existe de cada um no interior do argumento?

LM: O argumento era meu a partir dessa situação em que conversei com a minha amiga. Eu tinha o argumento e o Raphael tinha acabado de lançar uns livros. É um autor muito jovem que fez sucesso com alguns livros de terror, thrillers e afins. Eu queria alguém que me ajudasse nessa questão de género. Eu não trabalho muito com género. Foi muito interessante, trabalhámos juntos, fizemos pesquisa, discutíamos ideias, foi bem compartilhado. Ele deu boas ideias em algumas cenas das quais eu gosto muito, tais como a do elevador.

08 março 2018

Crítica: "Vazante" (2017)

 "Vazante" surge como uma cápsula do tempo que chega de 1821 para provocar um efeito intenso e marcante nos dias de hoje. Os sons, as roupas, os gestos, a iluminação, os diálogos e as dinâmicas dos personagens remetem exactamente para o período, o contexto e o espaço em que somos colocados, nomeadamente, em 1821, em Minas, na Serra Diamantina. São elementos que permitem exibir o cuidado da realizadora Daniela Thomas e da sua equipa em recriarem a época representada, enquanto transportam o espectador para o interior de uma fazenda e das especificidades do quotidiano nas imediações desta propriedade. É um espaço exposto em toda a sua imponência e dimensão, onde o romantismo está muitas das vezes ausente, a escravatura é uma realidade e as relações reflectem os traços vincados de uma sociedade esclavagista e dotada de desigualdades. Essas assimetrias são visíveis entre o branco e o negro, o homem e a mulher, o negro e o negro, com o poder a ser um elemento central nas relações que são apresentadas, algo que em certa medida dialoga com o presente.

Não quer isto dizer que Daniela Thomas force o diálogo entre o passado e o presente, ou procure julgar os seus personagens. A cineasta prefere antes confrontar o espectador com os temas de outrora e a História. É um confronto doloroso, que coloca a nu o passado esclavagista do Brasil e de Portugal, bem como o racismo, a misoginia, a pedofilia, entre outros actos que poderiam ser encarados com normalidade na época, embora sejam imorais e ilegais nos dias de hoje. Diga-se que essa banalidade com que a violência e o racismo são encarados permite realçar e muito a crueza que permeia o quotidiano dos personagens de "Vazante" ao mesmo tempo que contribui para ir às raízes de problemas que continuam a afectar a nossa sociedade. Note-se o caso da utilização do poder como um meio de dominar o outro, algo exposto regularmente ao longo do filme, sobretudo a partir da figura de António (Adriano Carvalho), o dono da fazenda. Adriano Carvalho consegue expressar a faceta algo rude, fria e solitária do seu personagem, um indivíduo de nacionalidade portuguesa, pouco polido, que gosta de andar descalço e fica viúvo no início do filme, com o actor a ter um desempenho meritório.

07 março 2018

Lista completa dos vencedores da edição de 2018 do FESTin

A nona edição do FESTin já terminou e a lista dos filmes premiados já é conhecida. Aqui fica a lista completa dos vencedores da edição de 2018 do FESTin:

Categoria de Longa-metragem:

Melhor longa-metragem: “Redemoinho” de José Villamarim.
Melhor realizador: José Villamarim por “Redemoinho”.
Melhor actriz: Grace Passô por “Praça Paris”.
Melhor actor: Marat Descartes por “Mulher do Pai”.
Melhor filme – Júri da Crítica: “Açúcar” de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira.
Menção honrosa de longa-metragem - Júri da crítica: “Mulher do Pai” de Cristiane Oliveira.
Melhor filme – Júri Popular: “Como nossos pais” de Laís Bodanzky.


Categoria de Curta-metragem:

Melhor curta-metragem: “A gis” de Thiago Carvalhaes.
Menção honrosa de curta-metragem: “África na Europa” de Atcho Express e “Carga” de Luis Campos.
Melhor curta-metragem – Júri Popular: “Hospital da memória” de Pedro Paula de Andrade.


Categoria Documentário:

Melhor Documentário: “Saudade” de Paulo Caldas.
Menção honrosa de Documentários: “Serviçais das memórias à identidade” de Nilton Medeiros.
Melhor documentário – Júri Popular: “Serviçais das memórias à identidade” de Nilton Medeiros.


Categoria Infanto-Juvenil:

Melhor filme – Júri popular infantil: “Como surgiram as estrelas” de Renato Barbieri e Adriana Meirelles.

06 março 2018

Crítica: "Praça Paris" (2017)

 Elevado pela sólida interpretação de Grace Passô, "Praça Paris" embrenha-se pelas dicotomias do Rio de Janeiro, pelas assimetrias e injustiças sociais e pela violência que percorre esta cidade, enquanto aborda os efeitos da contratransferência e desenvolve a estranha ligação que se forma entre a dupla de protagonistas. É obra que se esgueira pelas fronteiras do drama, do filme-denúncia e do suspense, que conta com duas personagens principais de personalidades e origens distintas. As protagonistas da nova longa-metragem realizada por Lúcia Murat são Glória (Grace Passô) e Camila (Joana de Verona). A primeira vive no Morro da Providência, trabalha como ascensorista na UERJ, conta com um passado conturbado, é negra, crente e tem poucas posses financeiras. A segunda é uma jovem portuguesa que se encontra a efectuar um mestrado em psicologia aplicada na UERJ, um local onde exerce ainda a função de psicanalista.

Glória é uma das pacientes de Camila. As consultas contribuem para desenvolver as dinâmicas entre estas personagens e permitem que fiquemos diante de alguns pormenores sobre o passado e o presente da ascensorista e da percepção do quão difícil é para esta expor esses episódios que provocam um forte efeito na psicanalista. Joana de Verona consegue transmitir de forma relativamente competente as tentativas da sua personagem em manter uma postura pragmática e um certo distanciamento da paciente, bem como a inexperiência desta jovem e as dificuldades que sente ao escutar as falas de Glória. É uma protagonista dotada de alguma complexidade, que guarda para si muitos dos seus pensamentos e aos poucos começa a ficar perturbada pelos episódios de violência relatados pela sua interlocutora, enquanto exibe alguma incapacidade em compreendê-la, ou não fossem oriundas de meios completamente distintos.

05 março 2018

Crítica: "Aparição" (2018)

 Adaptação cinematográfica do romance homónimo de Vergílio Ferreira, "Aparição" transporta-nos para o interior de Évora no final dos anos 50, nomeadamente, a partir do momento em que Alberto Soares chega a esta cidade para dar aulas no liceu. Este jovem professor e escritor é interpretado por Jaime Freitas, um actor que imprime um tom aparentemente calmo e cordial ao protagonista, um existencialista que se preocupa com questões relacionadas com o Homem, a vida e a morte, a palavra e a existência. No liceu, expõe algumas das suas ideias e uma porção dos seus escritos, tenta estimular os seus alunos a pensar e a reflectir, algo que contraria o conservadorismo do reitor (João Lagarto) deste espaço e contrasta com os valores bolorentos do Estado Novo. Note-se quando o reitor utiliza um tom entre a sugestão e a ordem para pedir que o protagonista altere os temas das redacções dos alunos, um acto que sublinha a procura do primeiro em não romper com a ordem estabelecida.

Essa obsessão pela manutenção do status quo e a aversão à confusão é paradigmaticamente plasmada na figura de Machado (João Vaz), o proprietário da pensão onde Alberto fica inicialmente instalado. Machado aparece como uma forma leve e bem humorada do realizador Fernando Vendrell abordar o conservadorismo da época e o carácter fechado deste espaço citadino, com João Vaz a imprimir um estilo deveras peculiar a este individuo que parece fazer de tudo para que Basil Fawlty pareça um homem sensato em comparação com a sua pessoa. Diga-se que a cidade de Évora surge representada como um espaço labiríntico, onde todos se conhecem e ninguém sabe realmente uns sobre os outros, com as suas muralhas a estarem longe de sossegarem a alma do protagonista. Na cidade, este é bem recebido pelo Dr. Moura (Rui Morisson), um médico amigo do seu falecido pai, que logo o convida para jantar com a esposa (Teresa Madruga) e as três filhas.

04 março 2018

Crítica: "As Duas Irenes" (2017)

 "As Duas Irenes" é um filme dotado de candura, sentimento e uma certa inocência. A sua atmosfera aproxima-se à de um conto de encantar, os conflitos são abordados com delicadeza e graciosidade, enquanto a relação de amizade que se forma entre as personagens do título é convincente e pontuada por episódios que realçam a cumplicidade que existe entre ambas. Mérito para o realizador e argumentista Fabio Meira, um estreante na realização de longas-metragens que nos traz para o interior de um território de características rurais que parece estar num enclave entre os dias de hoje e o passado, onde os telemóveis, as redes sociais e os computadores não se encontram presentes.

O realizador subverte em alguns momentos as nossas expectativas, sabe utilizar os silêncios que muito dizem e apresenta-nos a personagens dotados de espessura, tais como a Irene interpretada por Priscilla Bittencourt, uma pré-adolescente de treze anos de idade que descobre que Tonico (Marco Ricca), o seu pai, tem uma segunda família. Bittencourt exprime eficazmente o ressentimento que perpassa pela mente da sua personagem, mas também a curiosidade que esta nutre em relação a Irene (Isabela Torres), a sua meia-irmã, uma jovem da mesma idade. O que fazer numa situação destas? A protagonista ainda pondera expor o caso a Mirinha (Suzana Ribeiro), a sua mãe, com quem mantém uma relação algo conturbada, mas prefere manter o segredo, pelo menos a nível inicial. A jovem decide estabelecer contacto com Irene, a meia-irmã, bem como com Neuza (Inês Peixoto), uma costureira, a outra esposa do seu pai. Para isso, inventa que se chama de Madalena e finge que pretende os serviços da costureira, algo que a leva a entrar na casa da segunda família do seu progenitor.

03 março 2018

Crítica: "Limpam com Fogo"

 A música que abre "Limpam com Fogo" remete para os ritmos que constam nos thrillers e nos westerns. É uma escolha que não parece ter sido efectuada ao acaso. Não faltam mistérios e perigos nos casos apresentados ao longo do filme, bem como uma incerteza muito própria das cidades de fronteira dos westerns, onde a população ainda se está a estabelecer e a lei nem sempre se consegue impor ou é eficaz. O espaço citadino que aparece em pano de fundo em "Limpam com Fogo" não é uma cidade do Velho Oeste, mas sim São Paulo, em pleno Século XXI. Não temos um gang de foras da lei a colocar uma cidade em perigo, embora os problemas que ameaçam alguns dos habitantes das favelas e as suas habitações pareçam saídos do Velho Oeste, em particular, uma epidemia de incêndios que desaloja famílias, destrói vidas e propriedades e conta com uma relação promiscua com a especulação imobiliária.

"(...) Curiosamente, onde tinha maior índice de valorização imobiliária, parece que a humidade do ar também era menor. Tinha incêndio em favela durante toda a semana. Nas regiões onde o mercado imobiliário se interessava menos, parece que chovia mais" salienta o Coordenador Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, Guilherme Boulos, um dos vários entrevistados deste documentário. É um comentário que exprime de forma paradigmática as coincidências esquisitas entre os incêndios e o interesse do mercado imobiliário nos terrenos onde se encontram as favelas. Esta relação entre os incêndios e a especulação imobiliária é abordada de forma dinâmica, informada e informativa ao longo do documentário, com os realizadores Rafael Crespo, Conrado Ferrato e César Vieira a denotarem que efectuaram um acurado e profundo trabalho de pesquisa.

02 março 2018

Crítica: "Açúcar" (2017)

 "Açúcar" coloca em diálogo o passado e o presente de uma propriedade e de uma mulher. Esse diálogo permite que o filme se envolva pela História do Brasil, seja pelas questões raciais, o esclavagismo, o racismo, as assimetrias sociais e as transformações que ocorreram ao longo do tempo, enquanto conversa com os dias de hoje e estimula reflexão. A mulher mencionada é Bethania, uma personagem que se encontra presa às suas memórias, aos seus preconceitos, às suas contradições e aos seus segredos, algo transmitido com precisão por Maeve Jinkings. 

A actriz imprime presença, dimensão e uma mescla de altivez e fragilidade à protagonista, com estes atributos a ficarem demonstrados desde os momentos iniciais do filme, quando encontramos Bethania a regressar à Zona da Mata. A sua pose vagueia entre a melancolia e a determinação de uma reconquistadora disposta a recuperar as suas terras, as suas posses e o passado, embora o cenário que encontra seja bem distinto em relação àquele que preservara nas suas memórias. Veja-se quando observa uma propriedade já praticamente em ruínas, com o seu rosto a não esconder o impacto provocado pelo contraste entre a realidade e as imagens que permaneceram guardadas nas suas memórias. Diga-se que não deixa de ser algo irónico que o regresso de Bethania seja efectuado num barco à vela chamado "Sou Feliz", ou este não fosse um sentimento pouco exibido pela protagonista ao longo do filme.

01 março 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Laís Bodanzky sobre "Como Nossos Pais"

 O título de "Como Nossos Pais" remete para a canção homónima composta por Belchior e imortalizada pela poderosa voz de Elis Regina. A música em questão nunca entra em cena pela voz da cantora, mas a sua letra ecoa e de que maneira no interior dos dilemas vividos pela personagem principal e daqueles que a rodeiam. "Como Nossos Pais" foi o filme seleccionado para abrir a nona edição do FESTin. Foi exactamente no âmbito da cobertura do festival que o Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar a realizadora Laís Bodanzky sobre este magnífico filme. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com o argumento, o papel da culpa, o trabalho de Maria Ribeiro, a menção a Rita Lee num diálogo muito específico, entre outros temas. "Como Nossos Pais" estreia em Portugal a 15 de Março, sendo distribuído pela Alambique. Photo credit: Antonio Brasiliano / Revista Ocas.

Rick's Cinema: Como é que correu a recepção do "Ex-Pajé" em Berlim. Os filmes brasileiros causaram furor em Berlim...

Laís Bodanzky: Foi muito bom, muito interessante. No final os filmes brasileiros ganharam oito prémios. São prémios paralelos, mas, mesmo assim, para a nossa cinematografia foi a primeira vez que isso aconteceu. Acho que isso é o resultado de um trabalho e de um esforço da classe cinematográfica brasileira e da nossa indústria, que a cada ano tem vindo a ficar cada vez mais sofisticada, com um discurso cada vez mais aprimorado. Foi muito interessante. O próprio "Ex-Pajé" também ganhou o Prémio especial do júri de documentário. Foi muito importante para nós, ficámos muito felizes.

RC: "Como Nossos Pais" embrenha-se por assuntos relacionados com a mulher na sociedade contemporânea, os conflitos geracionais, a solidão, as crises conjugais e profissionais, o adultério, a paternidade, a maternidade, a sexualidade e a falta de diálogo, sempre a partir da perspectiva de Rosa. O quanto é que existe da Laís Bodanzky no argumento de "Como Nossos Pais"? Sente que seria possível um homem retratar estes temas com tanta credibilidade?

LB: Tem muito do meu ponto de vista. Eu escrevi o argumento com o Luiz Bolognesi. Ele participou sobretudo na primeira etapa. Depois eu segui sozinha e ele participou como leitor e como crítico, contribuindo também com ideias. Dos meus quatro filmes, este é o primeiro em que eu fiz a escrita. Por isso, eu também assino o argumento. Fiz por uma provocação de uma amiga minha cineasta, que me disse: "Laís, esse filme você também tem de escrever". Foi algo que começou a ficar claro. Primeiro eu queria falar sobre a minha geração. Conforme a pesquisa foi evoluindo, vi que não queria falar só sobre a minha geração, mas fazer um recorte mais específico: "o que é ser mulher na minha geração". Eu era também o objecto de pesquisa. Em todos os meus filmes eu sempre fui atrás do público que tinha haver com o tema. No caso dos adolescentes, eu fui conversar com os adolescentes. Com a terceira idade, fui falar com a terceira idade. Nos manicómios, conversei com pacientes e enfermeiros, fui ter com o meu público. No "Como Nossos Pais", eu fui à porta da minha vizinha. Foi a pesquisa mais fácil dos meus filmes (risos). Sou eu mesma, podia fazer qualquer coisa. Eu vou a uma padaria, ou a uma reunião de trabalho, é algo que conta como pesquisa. É só observar como as pessoas se comportam, as situações que acontecem, isso já me interessava.

Neste caso, o meu olhar como argumentista e realizadora prevaleceu com muita força  Não acho que um homem não seja capaz de fazer um filme com uma abordagem de um ponto de vista de uma mulher. Não acho isso. Tudo é possível. Mas, o facto de eu ser mulher contribuiu para que tema me deixasse mais aguçada, mais interessada, até por também ser uma descoberta para mim. Durante a pesquisa, a filmagem, a montagem e mesmo durante o lançamento, confesso que mudei. Aprendi enquanto fiz esse filme. Eu como "Laís Mulher" também mudei. Aprendi palavras que não conhecia. Aprendi direitos que não sabia que tinha ao me aproximar com tanta intimidade do tema. Fico feliz. Eu vejo como esse tema é recente na sociedade, apesar de nos anos 60 já termos um movimento mundial feminista importante e da mulher ter começado a votar no início do Século XX. Ao mesmo tempo, apesar de vermos que isto tem muito mais de cem anos, na História da Humanidade é algo que acabou de acontecer.

Só muito recentemente é que a mulher começou a ocupar um espaço na sociedade. No Brasil, a mulher só começou a votar em 1932. Na Suíça, a mulher apenas começou a votar em 1990. Por isso algumas mulheres hoje ainda se perguntam, "porque precisamos exactamente de votar?".  Nós vemos como a entrada da mulher na vida pública é algo recente. O direito ao voto, a trabalhar, a ter os mesmos direitos. Mesmo no mundo do desporto, a possibilidade da mulher poder fazer desportos de contacto físico é algo recente. Quando a Democracia surgiu na Grécia Antiga, ela referia o direito do cidadão. Mas a mulher não era considerada cidadã. Então, ela não fazia parte da Democracia. Na História da Humanidade, só recentemente é que a mulher começou a ter voz e a participar activamente com as suas opiniões e a defender os seus direitos.

Crítica: "Redemoinho" (2016)

 Em alguns momentos das nossas vidas acabamos por reencontrar amigos de outrora com quem deixámos de manter contacto. Esses episódios são ocasionalmente marcados por alguma nostalgia, ou melancolia, ou uma euforia momentânea. A esse acontecimento por vezes sucede-se alguma conversa, ou uma combinação rápida que permite reacender temporariamente os laços de outrora, ou pura e simplesmente relembrar as razões que conduziram a um afastamento prolongado. "Redemoinho" aborda com mestria uma situação do género, com o reencontro entre Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (Júlio Andrade), dois amigos que nasceram e foram criados em Cataguases, a trazer ao de cima uma série de episódios de outros tempos e uma multitude de emoções que se encontravam entorpecidas no interior do âmago de cada um.

Após um conjunto de trabalhos bastante respeitáveis na televisão, José Luiz Villamarim estreia-se em grande nível na realização de longas-metragens, sendo capaz de desenvolver as dinâmicas intrincadas entre estes personagens e a tensão latente que pontua alguns episódios do enredo, enquanto explora as características do território onde se desenrola a história. O meticuloso trabalho de Walter Carvalho na cinematografia contribui para captar e expor as características desta cidade pequena, sejam os seus espaços verdejantes e propícios à agricultura e pecuária, as estradas de terra ou de pedras, ou a linha de comboio que marca o território. Note-se os planos em que encontramos Luzimar a locomover-se numa bicicleta, enquanto conseguimos observar todos os elementos mencionados, bem como uma certa sensação de isolamento.