19 fevereiro 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Felipe Bragança sobre "Não Devore Meu Coração"

 Filme de imagens inebriantes, que se move ao ritmo da sua marcante banda sonora e do seu grupo heterogéneo de personagens, "Não Devore Meu Coração" é uma das longas-metragens em destaque na nona edição do FESTin. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar o realizador Felipe Bragança sobre esta recomendável obra cinematográfica. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a banda sonora, os maiores desafios para captar e expressar as características do território, o trabalho com Eduardo Macedo e Adeli Benitez, entre outros assuntos.


Rick's Cinema: A banda sonora tem uma enorme influência na narrativa de "Não Devore Meu Coração", seja para sublinhar as emoções, ou para criar uma atmosfera envolvente e inebriante. Por vezes quase a ditar o ritmo do enredo (como nos momentos em que encontramos os motoqueiros durante a noite, com os sintetizadores "à John Carpenter" a serem sentidos). Como trabalhou a inclusão da trilha sonora no interior da narrativa? Já tinha pensado na mesma enquanto estava a desenvolver o roteiro do filme ou foi algo que nasceu com o avançar das filmagens?

Felipe Bragança: Desde a escrita do roteiro eu começo a visualizar o ritmo e o tom de cada cena, o que costuma ser também algo que vem musicalmente na minha cabeça: costumo dizer que eu estou pronto parar filmar uma cena quando tenho a intuição da sonoridade que ela vai ter. Dessa forma, a sonoridade de sintetizadores pontuando o sentido de suspensão onírica do filme foi se tornando presente na escrita e na edição. Assim como a pontuação de músicas regionais (sertanejas e reagtones) trazendo uma musicalidade mais terrena e documental a determinadas cenas. Em todo esse processo, o trabalho e sensibilidade do Fernando Henna (designer de som) e do Baris Arkadere (músico holandês) foi mais do que central.


RC: O território de fronteira entre o Brasil e o Paraguai que é apresentado em "Não Devore Meu Coração" é marcado não só pelas águas do Rio Apa, mas também pelas memórias da Guerra do Paraguai. Quais os maiores desafios que encontrou para captar e expressar as características deste território de fronteira e a geografia das emoções que percorrem os seus personagens?

FB: Foram 4 anos de visitas à região. Há algo de muito específico na paisagem humana da fronteira. A mistura desorganizada e matizada da cultura brasileira, paraguaia e guarani. Desde o início em que pensei em se este filme eu tive uma certeza: só poderia ser filmado em uma cidade ela de fronteira e com a presença de muitos não-atores locais. As pessoas da região carregam nos olhos memórias da guerra e das mitologias da violência daquela terra, de uma forma que eu acho praticamente impossível recriar, imitar. Corpos e a terra vermelha da região se misturam. O desafio era justamente conseguir construir uma fábula onírica que estivesse muito conectada com a materialidade deste lugar.


RC: As marcas da Guerra do Paraguai são sentidas e expressas ao longo do filme. Deparou-se com esta realidade quando esteve a pesquisar no território? O que o surpreendeu mais quando esteve a efectuar essas pesquisas?

FB: As memórias guerra estão em ruínas, nas histórias contadas pelas pessoais velhas e no imaginário identitário dos jovens e adolescentes. Assim como a silenciosa animosidade entre brasileiros e paraguaios, que continua a se misturar nas entrelinhas das relações de trabalho, sociais e afetivas.


RC: Na entrevista ao Papo de Cinema você salientou uma conversa com Apichatpong Weerasethakul sobre todos os filmes serem documentários. A fábula em "Não Devore Meu Coração" surge como um meio não só de dialogar com as experiências da realidade e comentar a mesma, mas também para abrir um leque enorme de possibilidades e soltar a imaginação?

FB: A fábula me permite misturar tempos e camadas de sentido. Como se casa imagem fosse ela mesma em si, mas também uma camada invisível que ela mesma carrega. O que eu conversava com o Apichatpong é que no fundo a ficção é nada mais do que a documentação de pessoas (atores e não-atores) projetando suas imaginações e seus corpos no espaço e no tempo para a construção de um sentido. Filmar ficção é documentar o sonho.



RC: Os jovens Eduardo Macedo e Adeli Benitez surgem como agradáveis surpresas que contribuem para espelhar a faceta intrincada e romântica da relação que se forma entre os personagens que interpretam. Pode falar-nos um pouco não só do trabalho que fizeram em conjunto na composição dos personagens, mas também a desenvolver as dinâmicas entre Joca e Basano?

FB: Foram 4 meses de ensaios. Trabalhei primeiro longamente com cada um deles separadamente, sem que eles se encontrassem. Depois de um bom tempo, promovemos o encontro deles em um ensaio ao ar livre, em uma altura do trabalho em que ambos já estavam imbuídos de seus personagens. Foi um encontro bonito e engraçado, pois pedi para Adeli, Basano, descrever Joca com o máximo de palavras pejorativas e xingamentos que ela pudesse imaginar e improvisar. Em seguida, fomos ao oposto, propondo uma dança romântica de corpos colados. Só no segundo ensaio, os dois puderem conversar um com o outro "fora" dos personagens.


RC: Basano e Joca contrariam um pouco o status quo, sobretudo este último, um jovem que não tem problemas em exibir o amor pela primeira, algo que diverge em relação ao machismo da maioria dos personagens masculinos que pontuam o enredo. Quando começou a idealizar o projecto já tinha pensado nestes personagens como dois disruptores do status quo? Esta relação já estava presente nos contos de Joca Reiners Terron ou foi algo que acrescentou durante a escrita do argumento?

FB: Foi algo que me veio na pesquisa e na escrita, imaginando esse menino brasileiro que via em seu amor uma forma de mudar o mundo, em um romantismo um tanto voluntarioso e idealizado. E por outro lado, imaginando essa menina guarani cheia de si e orgulhosa de sua cultura, não aceitando a dominação masculina de forma alguma - nem a agressiva vinda de seu primo Alberto, sem a adoção vinda de Joca. O tom dos dois personagens estava indicado nos contos de Terron, mas fomos expandido os detalhes de suas personalidades ao longo do processo do roteiro e ensaios.


RC: O guarda-roupa e o trabalho a nível de maquilhagem e penteados é particularmente relevante para sublinhar a personalidade de personagens como Basano, Telecath e Lucía. Qual a importância do trabalho da Ana Carolina Lopes e da Tati Chaves para esse sublinhar das características dos personagens?

FB: Trabalhando no registo da fábula você procura uma realidade onde os volumes das coisa parece estar sempre um tom acima do codificado como real. O trabalho delas, combinado com a Direção de Arte da Dina Salem Levy e a fotografia do Glauco Firpo, foi essencial para a construção dessa iconografia ao mesmo tempo bruta e mágica, sombria e doce.

RC: Muito obrigado por ter concedido esta entrevista.

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