23 fevereiro 2018

FESTin 2018 - Entrevista aos realizadores de "Limpam com Fogo"

 Documentário inquietante, informativo, dinâmico e questionador, que expõe um caso delicado, afasta qualquer tipo de simplismo e contribui para despertar reflexão, seja esta sobre os assuntos abordados ou no que diz respeito ao nosso papel como cidadãos e seres humanos, "Limpam com o Fogo" é um dos filmes em destaque da nona edição do FESTin. A presença do filme na secção competitiva de documentários surgiu como a oportunidade perfeita para o Rick's Cinema entrevistar online os realizadores César Vieira, Conrado Ferrato e Rafael Crespo, o trio responsável pelo imensamente recomendável "Limpam com Fogo". Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com o trabalho de pesquisa efectuado pelos realizadores, a forma dinâmica como os discursos e a informação são colocados em diálogo, a relação entre o poder político e o sector imobiliário, entre outros temas.

Rick's Cinema: O "Limpam com Fogo" aborda de forma aprofundada a ligação entre os incêndios e a especulação imobiliária, explana o processo de gentrificação que se encontra em curso, bem como a tentativa de que as favelas não se consolidem nos terrenos mais valorizados, para além de contar com entrevistas a um conjunto heterogêneo de pessoas que contribuem para apresentar várias perspectivas. É notório que existiu um intenso e notável trabalho de pesquisa. Como é que se processou o trabalho de pesquisa para a elaboração do documentário? Como surgiu o impulso de desenvolverem "Limpam com Fogo" e abordarem o problema dos incêndios das favelas em São Paulo?

R: O projeto do Limpam com Fogo é, em grande parte, baseado na tese de doutorado da Ana Paula Bruno – uma das urbanistas que aparece no filme. Ela levantou uma base de dados de 20 anos e percebeu a relação entre o aspecto construtivo dos barracos, a localização das comunidades e a propensão a pegar fogo. A pesquisa dela nos permitiu desvendar o mecanismo social que opera por trás da epidemia de incêndios na cidade. É claro que a ideia do filme surgiu muito antes disso – na época ainda éramos estudantes de jornalismo e nos aventurávamos pela cidade em busca de histórias socialmente relevantes para trabalhos de faculdade. Fomos um dia na favela do Moinho, localizada no centro de São Paulo, para fazer um trabalho sobre moradia e descobrimos, através das falas dos moradores, sobre a devastação que o incêndio causou em suas vidas (no caso específico, o incêndio de Dezembro de 2011, que atingiu a comunidade e um prédio abandonado no entorno). A partir daí começámos a investigar sobre o assunto. Em um primeiro momento a intenção era encontrar um culpado: alguém ou um grupo de pessoas que, intencionalmente, incendiasse as favelas. Acredito que o projeto só amadureceu quando nos demos conta de que esse mecanismo social independe de intenção – a maneira como a cidade é construída hoje dá conta, por si só, de preparar o cenário para o incêndio. Não se trata de tacar fogo, mas de deixar queimar. Nesse teatro macabro somos todos culpados.


RC: Ao longo do documentário é particularmente notório que o sector imobiliário beneficia imenso com estes incêndios, embora exista uma relação bastante promiscua entre a especulação imobiliária e a classe política, algo que parece contribuir para não resolver o problema. Como encaram esta relação entre o poder político e o sector imobiliário?

R: Para qualquer um que acompanha o noticiário politico recente do Brasil fica evidente a promiscuidade entre o empresariado e os políticos do País. Para além de desvios e falcatruas com dinheiro público para beneficio próprio, existe, na base do problema, a questão do financiamento de campanhas e partidos. O atual modelo cria um clientelismo entre representantes do povo e aqueles que lhes financiam – um problema que atravessa todo o espectro politico. Por aqui se convencionou recortar os diversos parlamentares em bancadas: falamos em bancada evangélica, bancada da bala, bancada do agronegócio, de acordo com a origem do dinheiro que viabilizou a sua presença no parlamento, de forma que o debate politico hoje, em sua maior parte, não se dá mais entre representantes do povo, mas por representantes econômicos. Com isso em mente, e pensando na problemática do incêndio em favela e como ela foi tratada pela Câmara dos Vereadores de São Paulo, podemos afirmar, sem medo de erro, que existe na cidade uma bancada do cimento, que defende interesses de construtoras e incorporadoras e agiu para enterrar as investigações da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), como o filme mostra.


RC: O documentário envolve-se por cinco comunidades distintas ((Piolho, Heliópolis, Vila Prudente, Moinho e Penha). Qual foi a realidade que encontraram nestes espaços? Podem falar-nos um pouco da reação dos habitantes destas comunidades à vossa presença nas favelas?

R: Em cada uma delas encontrámos realidades distintas, mas em todas vimos falta de acesso ao saneamento básico, precariedade dos serviços públicos, soluções improvisadas pelos moradores para problemas estruturais, conflito com a população do entorno (a chamada cidade legal) e, principalmente, vimos que essas comunidades servem como solução para aqueles que ali vivem. Esse é o ponto principal – apesar de toda a precariedade, de toda a violência (interna e externa), as favelas são a melhor solução de moradia para quem vive ali. A outra alternativa é a rua. As favelas são os símbolos da herança escravista do Brasil – se no passado a lei deixava claro que existiam aqueles que eram cidadãos e tinham acesso a direitos e aqueles que não tinham, hoje temos cidadãos de primeira e segunda classe. Para os primeiros, aqueles que tem acesso à cidade graças a sua renda, existem garantias e dignidade. Aos que sobram, recai o ônus histórico do abismo social desse passado de segregação.

Esse hiato ficou claro nas entrevistas que fizemos nas comunidades. Quase todos os relatos, e o filme transparece isso, foram feitos em tom de desabafo – todos ali tinham muito a dizer. Na verdade, essa foi uma das dificuldades do trabalho: a profusão de denuncias dos moradores era tão grande que beirava à confusão. Eram vozes que raramente ganhavam repercussão e viam naquele momento da gravação uma oportunidade única de serem ouvidos (mesmo que por uma equipe precária de jovens estudantes de jornalismo). Um caso notório, e faço questão de citar, é o do Seo Marco Antônio, que encerra o documentário – a força da fala dele é a de quem está indignado e vê na câmera à sua frente a última chance de salvação. De fato, aquele depoimento foi a última vez que o vimos, mas as palavras dele ainda hoje ecoam na nossa mente quando falamos sobre o assunto. Quando voltamos ao local para fazer uma outra entrevista com ele, encontramos o terreno limpo, fechado por um portão com cadeado.


RC: Sentem que existiu um comportamento de "deixar queimar" estes espaços ao invés de tentar assegurar a sua proteção e dos seus habitantes? Consideram que existe um sistema que potencia estas tragédias?

R: O sistema existe. O filme é, justamente, a denuncia de que existe um mecanismo social que garante que favelas bem localizadas peguem fogo. O funcionamento desse mecanismo é tal que, com um pequeno esforço, é possível prever quais comunidades serão vitimas de incêndio. Para nós, a única explicação possível para um número tão expressivo de incêndios nos últimos anos é o descaso. Favelas são socialmente inviabilizadas, sem representação politica clara (não existem candidatos da favela), sem voz ativa nos principais veículos de mídia, e por isso os moradores não têm seus interesses atendidos. Mesmo que esse interesse seja algo tão básico quanto continuar vivo.


RC: Um dos elementos que despertam à atenção em "Limpam com Fogo" é a forma dinâmica como vocês colocam os discursos e a informação em diálogo. Por vezes quase como se os diversos entrevistados estivessem em debate ou a complementarem as informações uns dos outros, algo notório quando são expostos os contornos rocambolescos da CPI, ou a ineficácia do Bolsa Aluguel. Já tinham idealizado o documentário com esta estrutura de colocar os diversos discursos em diálogo? Quais os principais desafios que encontraram a elaborar estas entrevistas?

R: Desde o começo pensámos o filme com essa estrutura. A ideia era fazer, em filme, o debate que não acontecia na sociedade. Nós acompanhámos, em 2012, ainda como estudantes, o processo da CPI dos incêndios em favelas na Câmara dos Vereadores da Cidade de São Paulo. Foi o descaso dos parlamentares que motivou essa estrutura do filme. Na época, as reuniões não aconteciam por falta de quórum – os vereadores simplesmente não desciam de seus gabinetes para a sala designada para o debate, ou marcavam compromissos secundários para o mesmo horário, como ir ao dentista. O filme é o debate que deveria ter acontecido naquela sala.

Os desafios do filme foram tantos que achamos que não conseguiríamos elencar eles aqui – gostamos de brincar dizendo que fizemos esse filme com arco e flecha. Ele foi todo filmado com uma câmera fotográfica semiprofissional, usando um microfone lapela improvisado e um tripé de câmera emprestado. A precariedade das condições de gravação fez com que desistíssemos do projeto algumas vezes (sempre é bom lembrar que ele nasceu como um trabalho de conclusão de curso da PUC-SP). Por muito tempo achámos que alguém da grande mídia faria essa denúncia antes da gente. É sintomático que nenhum grande veículo de mídia tenha apurado com mais atenção essa pauta antes de três estudantes de jornalismo pessimamente equipados.


RC: O número alargado e heterogêneo de entrevistados valoriza imenso o documentário e demonstra o cuidado que tiveram na elaboração do mesmo. No entanto, alguns silêncios tornam-se bem sonoros, em particular, daqueles que rejeitaram ser entrevistados. Quais os motivos que conduziram o ex-prefeito Gilberto Kassab e os representantes do SECOVI a rejeitarem ser entrevistados? Depararam-se com alguma situação mais delicada durante o desenvolvimento do filme?

R: O SECOVI não teve interesse em participar do filme. Nós insistimos para que eles mandassem um representante para falar com a gente. Foram várias trocas de e-mail e até uma visita presencial à sede do sindicato, e mesmo assim eles não deram qualquer declaração para o documentário.

Já o ex-prefeito Gilberto Kassab alegou falta de disponibilidade de agenda. Na época ele era o titular do Ministério das Cidades. Em seu lugar veio a Elizabeth França, que foi Secretária Adjunta de Habitação na época em que o Kassab era prefeito. Exatamente por isso, as respostas dela no filme estão lado a lado com as do ex-prefeito Fernando Haddad. A ideia da montagem era deixar claro que quem deveria estar debatendo com Haddad era o Kassab. As respostas da Elizabeth são apenas o silêncio do Kassab.


RC: Num determinado momento de "Limpam com Fogo", o Luciano Martins (Observatório de Imprensa) explana não só o problema da relação pouco recomendável entre a imprensa de São Paulo e o mercado imobiliário, mas também a crise que assola os meios de comunicação social. Sentem que estão a colmatar uma lacuna que o jornalismo nem sempre consegue preencher? Podemos considerar que o "Limpam com Fogo" também é uma forma de vocês conseguirem exercer funções inerentes à área em que se formaram?

R: O Limpam com Fogo nasceu como um projeto jornalístico. Queríamos realizar uma pauta urgente que os veículos de mídia ignoravam (salvo as matérias imediatistas do dia a dia). Mas é preciso atentar ao meio que escolhemos para isso – o cinema foi uma escolha consciente. Como o próprio Luciano Martins diz no filme, o jornalismo como conhecíamos está morrendo. Mesmo que houvesse interesse em noticiar e explicar esses incêndios, os jornais teriam dificuldade em se aprofundar no assunto. Escolhemos o Cinema porque acreditamos que ele é o meio ideal para debater temas que exijam aprofundamento, tempo e atenção. O Cinema é um meio imersivo – por uma hora e meia nós capturamos a atenção do espectador, com a promessa de que, no fim, ele vai saber um pouco mais sobre esse tema complexo. Que outro meio permite esse tipo de comprometimento? Vivemos o tempo do Jornalismo líquido, para usar a expressão consagrada pelo sociólogo Zygmunt Bauman, em que as notícias não têm mais valor intrínseco. O que se diz agora daqui a pouco é esquecido. Mesmo os grandes veículos, responsáveis por fabricar os consensos políticos, têm dificuldades com isso e se apoiam na estratégia da repetição quando querem que um tema não seja volátil. O Cinema nos permite dizer a mensagem apenas uma vez, mas com força tal que nosso discurso seja entendido e fixado no imaginário de quem está assistindo.

Acreditamos que jornalismo não é uma profissão, é uma prática – sobre ela se equilibram os fundamentos da democracia. Quando fizemos essa escolha, antes do golpe parlamentar que desestabilizou a democracia brasileira, parecia algo trivial. Hoje, olhando para trás, fica claro o quanto isso nos colocou em um caminho de amadurecimento. Enquanto respondo isso, estamos, os três diretores, filmando nosso novo projeto em Recife, de tema semelhante: uma pequena comunidade de Boa Viagem, bairro nobre da capital pernambucana, formada por desabrigados de um incêndio ocorrido em 2002, sofre com uma ordem de despejo que tramita legalmente, enquanto eles vivem a ansiedade de um futuro incerto. Acompanhando algumas famílias próximas de perderem o lar e um morador que trabalha como vigia do entorno da favela, zelando pelos altos e caros prédios e empreendimentos da região, o filme procura imergir sobre os problemas oriundos de viver em uma moradia precária e discutir os conflitos urbanos de terra na cidade de Recife. As contradições e tensionamentos desse tipo de questão jamais caberiam dentro do formato tradicional de jornalismo.


RC: O "Limpam com Fogo" tem provocado algum debate junto dos políticos e da sociedade brasileira? Como é que a classe política, os especuladores imobiliários e os moradores das favelas receberam o documentário?

R: Vivemos um momento obscuro da história brasileira, em que a classe politica, em nome da sua própria salvação, trabalha abraçada entre si e de costas para o povo – lembrando uma célebre frase do jornalista brasileiro Millôr Fernandes “quem se curva diante dos poderosos vira a bunda para os oprimidos”. Nesse contexto é muito difícil levar à frente qualquer debate progressista. Hoje lutamos contra o avanço da barbárie para não perder os direitos que ainda não foram usurpados. Contudo, o Limpam com Fogo coleciona algumas vitórias. É um filme que tem despertado interesse para a pauta e gerou um espaço na mídia para discutir como, e para quem, a cidade se constrói. Ele tem um público cativo que milita pela causa do acesso à cidade e levanta bandeiras de igualdade e dignidade para os mais pobres. Diversas ONGs usaram o filme como ferramenta de consciencialização, e os moradores das comunidades reconhecem no filme o seu discurso invisibilizado. No Brasil de hoje a tática dos poderosos é a de manter a aparência de normalidade mesmo frente aos maiores absurdos – o presidente ilegítimo Michel Temer é um exemplo vivo disso. Infelizmente o Limpam com Fogo ainda não foi capaz de driblar esse bloqueio, mas criamos um documento que atesta o que aconteceu nessas comunidades. Podemos ser ignorados no momento, mas temos do nosso lado o tempo, e, com a força do público que assiste ao filme, com a alavancagem de festivais como FEStin, o Festiva do Rio, Festival de Cinema de Caruaru, Festival do SESC de Cinema, e tantos outros que abriram suas portas para nós, podemos fazer a diferença.

RC: Muito obrigado por concederem esta entrevista.

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