16 fevereiro 2018

Entrevista a Roni Nunes sobre a Nona Edição do FESTin

 O FESTin chega à sua nona edição, uma ocasião perfeita para efectuar mais uma entrevista a Roni Nunes, um dos programadores do certame. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com os principais desafios de preparar a programação da nona edição do FESTin, as temáticas em diálogo em diversas longas-metragens, o sucesso do cinema brasileiro nos grandes certames, a selecção dos filmes de abertura e encerramento, a presença de Pablo Villaça, entre outros assuntos.

Rick's Cinema: Quais os principais desafios de preparar a programação da nona edição do Festin?

Roni Nunes: Cada nova edição trás sobre si o peso das anteriores – e com isso um nível de exigência acrescido. Em termos de cinema lusófono, tem havido uma relativa facilidade na busca por projetos interessantes no caso do cinema brasileiro, enquanto em Portugal há sempre uma grande luta para apresentar filmes inéditos em Lisboa devido ao pouco número de projetos existentes, a existência de outros festivais e a estratégia comercial das distribuidoras. Este ano foi algo resolvido de forma particularmente feliz – com vários projetos lusitanos nas diferentes seções. Também será a primeira edição onde todos os países ligados à comunidade lusófona serão representados. É o caso de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e Timor-Leste.
  
RC: A abrir a nona edição do FESTin temos "Como Nossos Pais" e a fechar contamos com "As Duas Irenes". Como é que chegaram à decisão de seleccionar estes filmes para abrir e encerrar esta edição do certame?
  
RN: “Como nossos Pais” é daqueles filmes que consegue reunir praticamente de tudo – qualidade estética, temáticas relevantes e uma enorme acessibilidade junto do público – algo particularmente importante numa sessão de abertura. É um filme intenso e que já tem um “twist” nos primeiros 15 minutos. Essa qualidade dramática acaba por ser particularmente eficaz ao abordar o tema do papel da mulher e das relações familiares na sociedade contemporânea.
 Já “As Duas Irenes” tem uma enorme qualidade poética e aborda outro extrato – o universo adolescente. Novamente é um filme agradável e bonito – com todos os requisitos para uma belíssima sessão de encerramento.
 Ambos os filmes vêm de marcantes passagens pelo Festival de Berlim. Lá eles herdaram a boa vontade do público alemão com o cinema brasileiro – numa via aberta anteriormente pela Anna Muylaert – por acaso também num filme com forte temática feminina (“Que Horas Ela Volta”). As sessões foram muito aplaudidas. “As Duas Irenes” fez parte da seção Generations, dedicado a um público mais jovem, e terminou por ser uma grata surpresa para o público que, a exemplo do que costuma acontecer lá, havia lotado as sessões.
  
RC: Ao observamos a programação é possível encontrarmos um diálogo entre diversas obras cinematográficas: o passado colonial e esclavagista em "Açúcar" e "Vazante"; as relações familiares em "Como Nossos Pais", "Mulher do Pai" e "Antes que eu me esqueça"; o  tom de fábula de "As Duas Irenes" e "Não Devore Meu Coração"; entre  outros exemplos. Este diálogo foi propositado ou foi algo que nasceu conforme a programação foi ganhando corpo?

RN: Seria muito difícil ser propositado, pois a programação de um festival termina por ser uma grande aventura – com alguns golpes de sorte, de azar, de acontecimentos inesperados e boas surpresas. Todos os programadores de festivais deparam-se com isso e por isso todos os resultados finais são bastante heterogéneos.
 Assim aquilo que guia um curador desde o início é sempre um princípio básico – e óbvio – que é o de que a coerência estilística ou temática se dê em função da qualidade do resultado final. Mesmo assim, penso que esteticamente é mais fácil encontrar um nexo entre os filmes da Competição, por exemplo.
 Neste sentido acho interessante frisar o nosso pressuposto básico – que é escolher para a Competição filmes que comuniquem com o público em geral e não sejam direcionados a nichos demasiado específicos. A noção de “filme de qualidade” de forma alguma exige o alheamento do público generalista. Isso não implica, obviamente, que as narrativas sejam tradicionais – do contrário perder-se-ia completamente o espírito de ousadia e experimentalismo que se procura para um festival de cinema. Sem serem propriamente contemplativos, as obras da Competição em geral se afastam do ritmo acelerado ou de sentimentalismo fácil dos filmes de Hollywood.
  
RC: Entre esses filmes, o "Vazante" provocou alguma polémica no Brasil. Esperas que essa reacção também aconteça em Portugal? O que podemos esperar do filme?

RN: Se o filme causar algum tipo de reação em Portugal penso que não será pelas mesmas razões que no Brasil. Entrevistei a Daniela Thomas em Berlim e posso imaginar o espanto que ela pode ter sentido ao receber ataques vindo de minorias que ela julgava defender no filme. Aparentemente, no Brasil houve vozes incomodadas pelo facto da história das injustiças do passado colonial ser mostrados num enredo com um protagonista branco. Pessoalmente acho que a mensagem que ela quis passar é cristalina – e anti-esclavagista – apenas não recorre ao tom explícito de filmes como “12 Anos Escravo”. De resto o filme é um portento visual e sonoro – um projeto de alguém que já há muito sabe fazer filmes e que vem de uma longa parceria com Walter Salles.
  
RC: O "Vazante" é uma co-produção entre Portugal e o Brasil, tal como "Praça Paris", algo que a juntar a "Aparição" e a "Uma vida  sublime" leva a que a competição de longas-metragens conte com quatro filmes portugueses. É o número mais elevado de filmes  portugueses nesta secção desde que o festival foi criado? Esta aposta na inclusão de co-produções é para manter ou depende muito do  contexto produtivo?

RN: Se houver coproduções será sempre de manter, claro. Felizmente o que se tem assistido é o cinema unir cada vez mais os laços entre Brasil e Portugal – com muitos realizadores brasileiros vindo trabalhar aqui e cineastas portugueses desenvolvendo projetos na América do Sul. É paradigmático o caso da atriz Joana de Verona – “Praça Paris” já é o segundo trabalho dela entre os filmes do FESTin que foi rodado no Brasil. O outro foi “O Touro”, exibido há dois anos. Sim, devido às dificuldades que mencionei antes, é a maior participação portuguesa na Competição de longas de ficção no FESTin.

RC: A competição de longas-metragens mescla trabalhos de cineastas já consagrados, tais como Lúcia Murat, Laís Bodanzky, Fernando Vendrell e Daniela Thomas, com outros estreantes nestes formato. Entre esses estreantes nas longas-metragens encontram-se  Cristiane Oliveira, Felipe Bragança (estreia a solo) e José Luís Villamarim. Quais as principais qualidades que estes estreantes apresentaram nos seus trabalhos?

RC: O José Luís Villamarim é um estreante no cinema, mas tem um vasto currículo na televisão. Neste sentido o que impressiona é o facto de “Redemoinho”, de resto um filme extraordinário, não reter praticamente nada dos vícios deste meio. É um trabalho com uma gestão perfeita entre ritmo, enredo, simbolismos visuais e um “duelo” de protagonistas fantástico.
 O Felipe Bragança também é um argumentista cujo currículo traz participações em trabalhos fundamentais do cinema brasileiro – como “O Céu de Suely” e “Praia do Futuro”, do Karim Ainouz.  Outro trabalho seu, nesta área, é “Mormaço”, da Mariana Meliande, que teve uma receção calorosa na recente edição do Festival de Roterdão. “Não Devore o meu Coração” trás uma mistura muito original de história do Brasil e questões sociais – numa abordagem com um pé no fantástico.
 Por seu lado o projeto de Cristiane Oliveira trás uma enorme maturidade – num projeto onde ela pôde aperfeiçoar o seu talento apoiada numa longa carreira de vitórias em editais. É outro filme de fronteiras, mas mais intimista – marcado por uma abordagem sutil da sexualidade e excelentes desempenhos do elenco.
  
RC: Uma parte considerável dos filmes brasileiros da competição de longas-metragens já conta com uma série de presenças em festivais internacionais. Este sucesso do cinema brasileiro facilita o processo de selecção de filmes ou dificulta ainda mais a vossa tarefa?
  
RN: Facilita no sentido de conferir um estatuto que termina por ser importante na hora de divulgar o filme. Em Portugal ainda existe um relativo desconhecimento do cinema feito no Brasil e o selo dos grandes eventos internacionais, como Sundance, Berlim e Roterdão, por exemplo, ajuda a que o público cinéfilo possa querer transpor essa barreira. Dificulta porque encarece os filmes e tornam as negociações mais árduas…! Mas, claro, penso que no cômputo geral isso é extremamente positivo – e, como já se vê em 2018 a julgar pela quantidade de projetos selecionados para os três festivais que mencionei, é para continuar.
  
RC: Quais são para ti as razões do sucesso do cinema brasileiro junto dos programadores dos diversos certames internacionais?

RN: No caso do sucesso dos filmes brasileiros em seções como Panorama e Generations, em Berlim, isso explica-se porque são exibidas obras com temas e narrativas fortes e, por norma, mais acessíveis ao grande público. O cinema brasileiro está repleto de projetos assim. Ao mesmo tempo há filmes selecionados para seções como a Fórum da Berlinale ou festivais como o de Roterdão, de clara vocação experimental. Neste último caso, o festival holandês é um dos maiores suportes do cinema brasileiro de autor – cujos laboratórios financiam muitos projetos nos seus mais variados estágios. Basicamente, acho que o Brasil tem hoje uma cinematografia que produz praticamente de tudo.
  
RC: Este é também uma edição marcada por fortes interpretações. Desde Maria Ribeiro em "Como Nossos Pais", passando por Maeve  Jinkings em "Açúcar" e Maria Galant em "Mulher do Pai", até Irandhir  Santos e Júlio Andrade em "Redemoinho", ou Joana de Verona e Grace  Passô em "Praça Paris". Algum destes desempenhos surpreendeu-te pela positiva?

RN: Aí só posso dizer que gosto de todos. No caso dos últimos dois que citas é fantástico por que são filmes que não se sustentam apenas num líder que monopoliza atenções, mas numa interação entre personagens e intérpretes muito diferentes. No caso de “A Mulher do Pai” acrescentaria o contraponto oferecido por Marat Descartes a Maria Galant – esta certamente uma grata surpresa.
  
RC: Filmes como "Aparição", "Como Nossos Pais" e "Vazante"  contam com distribuição em Portugal. É mais fácil "mexer" com filmes  que contam com distribuição em circuito comercial no mercado  nacional, ou nem por isso? Alguns programadores por vezes salientam   que as distribuidoras consideram que os festivais "roubam"  espectadores que os filmes poderiam ter em circuito comercial. Foi  um problema que tiveram durante a elaboração da programação?

RN: Todas as eventuais dificuldades que tivemos neste ano foram superadas positivamente – tanto que os filmes estarão em exibição no FESTin. Mas há distribuidoras que pensam assim, de facto – e não só em relação ao nosso festival. Dados os resultados e alguns casos concretos que tenho acompanhado ao longo de anos de envolvimento com programação ou cobertura de festivais, acho uma política bastante questionável. Mas, enfim, eles é que são os profissionais dos números…

RC: O FESTin este ano conta com uma parceria com o Guiões e o Lusophone Film Festival, para além de contar com uma nova secção como a Mostra Latim. O que podemos esperar dessas parcerias e dessa  nova secção?

RN: Os Guiões são um grupo de profissionais altamente qualificados de cinema que fomentam a interação entre autores e o mercado. Foi uma excelente aproximação, que vai qualificar o festival e que eu espero que se mantenha. O Lusophone Film Festival é uma parceria que engrandece as itinerâncias do FESTin, levando filmes exibidos no festival aos lugares distantes como África, Ásia e Austrália. A Mostra Latim é uma expansão do FESTin rumo à Europa, assim como um incentivo a diversificação da programação oferecida.

RC: Um dos convidados deste ano é o crítico de cinema Pablo Villaça. Como é que surgiu a possibilidade de o trazer a Portugal? Quais são as actividades do festival nas quais este vai estar envolvido?

RN: Tínhamos estabelecido contato com ele no ano passado, quando ele também divulgou o festival no Brasil, disse que gostava da programação e que um dia gostaria de marcar presença. Felizmente apenas um ano depois propiciou-se a oportunidade – e ele fará uma “masterclass” sobre crítica cinematográfica.
 Será uma oportunidade única para discutir esse tema – já que ele é um dos grandes críticos de cinema do Brasil, com livros publicados e reconhecimento inclusive no exterior. Além disso ele foi convidado pela equipa dos Guiões para ser moderador num debate sobre o mercado. Vale lembrar que o Villaça representa um tipo de profissional inserido nas novas tecnologias e nas novas formas de comunicação. Também o convidamos para fazer parte do Júri da Crítica.
  
RC: Outro dos convidados de relevo é o Monsenhor Dario Edoardo  Viganò. Podemos dizer que a sua presença na nona edição do FESTin é um dos grandes eventos do certame?

RN: Sim, tendo em vista a relevância do cargo que ocupa como um dos responsáveis pela comunicação do Papa Francisco. Aqui acho que o tema vai muito além de crenças religiosas e entra num terreno particularmente fascinante – o da comunicação mediática muito particular de um Papa que escolheu ou foi escolhido para ser visto como um símbolo de progresso – contrariando a imagem do anterior pontífice. Dario Edoardo Viganò fará uma palestra sobre o assunto e vai apresentar a sessão de um filme produzido no Vaticano – “O Menor Exército do Mundo”.
  
RC: O que os espectadores que se dirijam ao FESTin podem esperar da nona edição do festival?

RN: Esta edição está muito rica em termos de cinema e eventos paralelos – tudo sediado num mesmo espaço. O FESTin, apesar de não ter um grande orçamento, tem sempre muitos convidados e este ano não será diferente – oferecendo ao público uma enorme oportunidade de discutir cinema pelos diferentes espaços do cinema São Jorge.

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