20 fevereiro 2018

Entrevista a Luís Campos sobre a quarta edição do GUIÕES - Festival de Roteiros de Língua Portuguesa

 A quarta edição do GUIÕES - Festival de Roteiros de Língua Portuguesa vai decorrer entre os dias 2 e 4 de Março. A edição deste ano conta não só com as célebres sessões de Pitching, mas também com Masterclasses de Pablo Villaça e José Carvalho, bem como debates dotados de interesse. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar Luís Campos, o director e criador do GUIÕES. Ao longo da entrevista forma abordados assuntos relacionados com os principais desafios de preparar a quarta edição do GUIÕES, a parceria com o FESTin, o processo de selecção de finalistas, as masterclasses, entre outros temas.

Rick's Cinema: O Luís Campos já conta com uma série de argumentos no currículo, entre os quais do bem conhecido "Um Funeral à Chuva", para além de ter realizado diversas curtas-metragens. Sente que um festival como o GUIÕES teria sido importante para apresentar os seus argumentos após ter finalizado o Curso de Cinema na UBI? O argumentista que apresenta o seu trabalho no GUIÕES tem um palco privilegiado para dar a conhecer e valorizar o seu argumento? 

Luís Campos: Enquanto guionista eu próprio (ou aspirante a tal), senti que existia espaço para fazer mais e melhor pelos guionistas de Língua Portuguesa. As dificuldades que encontrei nas tentativas de contacto com produtores, a carência de diálogo e de oportunidades em torno da actividade de escrita cinematográfica, a escassa visibilidade do próprio cinema de Língua Portuguesa e alguma falta de representatividade do sector, todos esses factores me motivaram a criar uma espécie de plataforma que se permitisse a dar voz aos guionistas de Língua Portuguesa. Costumo dizer que o GUIÕES foi criado e tem vindo a ser moldado na lógica do festival que, enquanto guionista, eu gostava que existisse - quem me dera poder participar eu próprio no GUIÕES. Não duvido, tendo em conta os esforços contínuos que o GUIÕES aplica para aproximar os guionistas da restante indústria, que o festival proporciona um palco privilegiado para quem escreve cinema em Língua Portuguesa. O objectivo passa por afirmar cada vez mais o GUIÕES enquanto local de criação cinematográfica de eleição e dotá-lo de uma capacidade cooperativa de geração de negócios entre os vários países de Língua Portuguesa.


RC: A parceria com o FESTin é mais um passo para o crescimento do GUIÕES? Quais foram os principais desafios que encontrou a preparar a quarta edição do GUIÕES?

LC: O GUIÕES nasceu fruto da vontade de uma pessoa. Num determinado quarto, numa determinada secretária, num computador. Tal qual como cada projecto cinematográfico. Aos poucos a ideia foi gerando intenções de apoio, primeiro em São João da Madeira (onde teve lugar a 1ª edição do festival), depois em Lisboa. Várias entidades e pessoas têm acreditado no projecto, empenhando apoios diversos (nomeadamente na questão dos prémios para os vencedores) e tantas outras manifestam princípios de interesse que depois não se concretizam. O festival continua a existir sem qualquer apoio monetário, financiando-se exclusivamente através da taxa de submissão de projecto por participante, e a parceria com o FESTin permite consumar uma vontade que já vinha desde a edição anterior - ampliar o programa para mais dias de festival, permitindo mais oportunidades de visibilidade para os projectos que são apresentados no âmbito do GUIÕES e incorporar mais momentos de partilha e de diálogo (que este ano serão materializados sobretudo nas Masterclasses com o Pablo Villaça e com o José Carvalho).
 Tinha a ideia de que cada nova edição seria um pouco mais fácil de montar, dado o histórico crescente do festival, mas a verdade é que tem sido o cenário oposto. É um festival low cost, filho da crise, que tem encontrado muita resistência em questões por vezes difíceis de compreender e/ou aceitar. Nesse sentido, a manifestação de interesse do FESTin nesta parceria tem sido de enorme apreço. Permitiu-nos reforçar o nosso conceito, ampliar as actividades sem ter de deixar o espaço que tem sido a nossa casa desde a 2ª edição do festival (Cinema São Jorge) e potenciar a programação conjunta - toda ela em torno do cinema de Língua Portuguesa. Estamos muito gratos por este elo que se criou e esperamos que possa perdurar por muitos mais anos.


 RC: Como é que se processa a selecção dos finalistas? O número de candidatos continua a crescer de edição para edição?

LC: Recebemos cerca de 600 candidaturas em 4 edições, o que perfaz uma média de 150 candidaturas por ano. Falamos exclusivamente de guiões de longa-metragem em Língua Portuguesa, com uma média superior a 80% de candidaturas de origem Brasileira. Dessa colheita anual, processa-se uma exaustiva leitura e análise de todos os projectos submetidos e apuram-se 10 finalistas. Esses 10 finalistas são avaliados por um júri (que é diferente em todas as edições) e os guiões com melhor avaliação são os vencedores. Desde o ano passado lançámos também a opção de serviço de feedback, que permite a cada participante receber um serviço de feedback sobre o guião submetido e que tem sido um serviço muito popular e recomendado. Cerca de 25% das candidaturas requerem esse serviço adicional, que não tem qualquer tipo de influência na avaliação dos projectos e no apuramento dos finalistas/vencedores. Como anunciamos desde a primeira edição, o GUIÕES só privilegia duas coisas: o talento do autor e a qualidade do guião. Não olhamos a nomes, currículos ou qualquer tipo de influências externas ao guião. Acreditamos que cada guião tem uma vida própria e que no mínimo merece o respeito da nossa consideração. Tentamos certificar-nos que o candidato reconhece esse respeito pela obra submetida - não conseguia conceber o festival de outra forma.
 

RC: O "Elon não acredita na morte" e o "Uma vida sublime" são a concretização do sucesso do GUIÕES? Quais são os principais traços em comum e as diferenças entre os argumentos apresentados na primeira edição do GUIÕES e o resultado final das duas obras cinematográficas?

LC: A concretização do “Elon Não Acredita na Morte” e do “Uma Vida Sublime” são sobretudo a concretização do sucesso dos seus autores, que de forma abnegada e confiante levaram os projectos à respectiva produção/concretização. São os primeiros guiões finalistas do GUIÕES a ganhar “vida” e é com muito orgulho e prazer que iremos exibir os filmes no âmbito do programa desta 4ª edição do festival. Os debates que iremos proporcionar no final das respectivas sessões irão abordar esse aspecto da eventual mutação do filme-escrito até ao filme-filmado (e filme-montado). Da nossa parte podemos dizer que eram guiões com muito potencial, completamente distintos na sua forma, género e estilo, e a carreira que os filmes têm obtido até então dá provas dessa qualidade (o Elon passou por Roterdão, IndieLisboa, Brasília, entre outras distinções; o Vida Sublime vai estrear no Fantasporto e depois FESTin). O GUIÕES pode ter ajudado a dar visibilidade aos projectos e a reforçar a confiança dos autores no material - assim o esperamos - mas o mérito é todo das respectivas equipas que levaram avante os projectos com muito amor e dedicação.


RC: Já existem mais argumentos com o "selo" GUIÕES a "transformarem-se" em filme? Produções nacionais ou co-produções com o Brasil?

LC: Temos conhecimento de mais um finalista da primeira edição que já esteve em rodagem e que se encontra agora em pós-produção. Dois outros finalistas dessa edição conseguiram realizar negócios com produtores depois da participação no festival. Sabemos que existe um finalista de outra edição que ganhou um edital de financiamento para a produção e que deverá avançar para rodagem em breve. Sabemos de outros finalistas que começaram a trabalhar exclusivamente como guionistas depois da participação (e conquistas) no GUIÕES. Esperamos contribuir cada vez mais para o lançamento (ou reforço) da carreira destes talentosos profissionais e estimular cada vez mais a colaboração entre produtores de Língua Portuguesa (queremos muito promover possibilidades de co-produção entre Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, etc), afirmando a plataforma do GUIÕES como espaço privilegiado de contacto e de concretização de negócios.


RC: Para além das sessões de Pitching, este ano contam com duas masterclasses com convidados que têm um currículo notável, nomeadamente, Pablo Villaça e José Carvalho. O que podemos esperar de cada uma destas Masterclasses?

LC: A Masterclass com o Pablo é um fruto directo desta proveitosa relação com o FESTin. Sabendo de antemão que o Pablo estaria presente no FESTin, foi-nos proposto pela organização do FESTin a organização de uma actividade que pudesse beneficiar a partilha dos conhecimentos do Pablo em abono dos participantes do GUIÕES e do FESTin. O Pablo é um crítico experiente, muito reconhecido, que certamente trará valor pelos conteúdos que apresentará na sua Masterclasss - de entrada livre ao público geral. O José Carvalho vem de uma relação de respeito e de admiração pela sua obra enquanto guionista e também enquanto professor de guião (fundador da Roteiraria, uma escola de renome no Brasil e entidade parceira do festival). O José demonstrou interesse no festival desde o primeiro momento e quis vir a Portugal apresentar as suas ideias para o desenvolvimento da prática de escrita cinematográfica e estimular cada vez mais pessoas a escrever cinema em Língua Portuguesa. Estamos muito felizes por poder, através do GUIÕES, disponibilizar esta oportunidade para o público de Portugal. Ambas as Masterclasses serão imperdíveis e momentos de grande honra no percurso do festival.

RC: O Pablo Villaça vai ainda moderar o debate "Práticas de mercado - O Valor do Guião". Considera que o argumento e o argumentista são devidamente valorizados pelo mercado, o público e a crítica?

LC: Gostamos que sejam críticos de cinema - pela experiência e conhecimento alargados do panorama da criação cinematográfica internacional - a moderar os debates do GUIÕES. No ano passado tivemos membros do À Pala de Walsh a moderar os nossos debates (Luís Mendonça a moderar um debate sobre o ensino de guião nas escolas de cinema nacionais e a Sabrina D. Marques a moderar um debate sobre métodos e processos de escrita), este ano teremos o João Antunes a moderar um debate sobre co-produção internacional (com a participação de importantes e muito experientes produtores de Língua Portuguesa) e o Pablo a moderar um debate sobre o valor do guião (com a participação de jovens guionistas e produtores portugueses e brasileiros).
  Acreditamos que o guião e o guionista ainda são muito desconsiderados pelo mercado, sendo que existe algum reconhecimento por parte do público e da crítica. A escrita de um guião é uma parte muito importante do processo de criação/produção cinematográfica e os produtores de Língua Portuguesa nem sempre parecem querer valorizar esse aspecto; há pouca prática de investimento na criação e no desenvolvimento de material. Esperamos contribuir para que se trate com mais respeito a actividade e para que cada vez mais se valorize o mérito da criação cinematográfica de qualidade. Queremos muito contribuir para incutir uma lógica de investimento no material escrito - que acreditamos poder ter valor diferenciador num determinado mercado.


RC: O que é que o espectador do GUIÕES pode esperar da quarta edição do Festival?

LC: Muita celebração ao cinema, à criação cinematográfica e muita partilha de ideias e de conteúdos. O GUIÕES é cada vez mais uma oportunidade única para conhecer os intervenientes do meio e falar sobre projectos. Iremos fazer o nosso melhor para que o GUIÕES consiga ser inspirador e estimulante, para que cada vez mais pessoas consigam sentar-se na sua secretária e enfrentar a folha em branco.

RC: Muito obrigado por ter concedido esta entrevista. 

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