08 fevereiro 2018

Crítica: "Neruda" (2016)

 Como realizar um filme de pendor biográfico sobre Pablo Neruda? É uma pergunta a que Pablo Larraín responde de forma improvável: no formato de policial com ingredientes de noir, road movie e suspense, tendo um comissário e o famoso poeta e político chileno como figuras centrais, sempre sem descurar o contexto histórico e o retrato da atmosfera da época. Larraín concentra-se num período específico da vida do protagonista, embrenha-se pelas liberdades criativas e pelos factos históricos ao mesmo tempo que foge ao retrato hagiográfico do poeta. O Pablo Neruda que Luis Gnecco interpreta é um individuo recheado de contradições, que tanto tem de idealista e altruísta como de egocêntrico e egoísta, que se preocupa com a sua imagem e sabe o poder da sua figura no imaginário daqueles que o rodeiam. É uma abordagem que permite atribuir ainda mais espessura e complexidade ao protagonista, algo que Gnecco consegue transmitir, com o actor a explanar não só o carisma deste poeta e político chileno, mas também o seu engajamento político e a força da suas palavras.

 Quando recita poemas, Neruda deixa quase tudo e todos presos à sua figura, seja numa festa luxuosa, ou no interior dos bordéis (locais que gosta imenso de frequentar), com a sua poesia a estar em destaque, bem como a sua vertente de político e os seus ideais comunistas. No início do filme ficamos precisamente perante a faceta política do poeta, quando crítica abertamente o Presidente Gabriel González Videla (Alfredo Castro), em pleno congresso, devido à perseguição que este efectua aos comunistas e aos líderes sindicais. O enredo começa em 1948, em plena Guerra Fria, numa fase política e socialmente conturbada do Chile. Note-se que Videla está sob a esfera dos EUA, tendo aprovado a lei de "Defesa Permanente da Democracia", que visa proibir a participação política do Partido Comunista de Chile. O então Presidente iniciou ainda uma perseguição aos comunistas, uma situação que conduziu diversos militantes a terem de viver na clandestinidade ou exilados, entre os quais Pablo Neruda.

"Como sou mais perigoso, preso ou foragido?" pergunta Neruda num determinado momento do filme, enquanto demonstra estar consciente do poder da sua pessoa junto do povo chileno. Fugir não lhe agrada, mas ainda tenta dirigir-se para a Argentina, na companhia da pintora Delia del Carril (Mercedes Morán), a sua esposa. Perante a impossibilidade de fugir para a Argentina, é convencido a viver clandestinamente no interior da casa de um amigo, algo que o leva a experimentar um estilo de vida mais modesto, enquanto é perseguido por Óscar Peluchonneau (Gael García Bernal), um comissário temível e atormentado. Entre estes dois personagens forma-se uma espécie de jogo entre o gato e o rato, quase como se estivessem a jogar xadrez, embora Neruda esteja quase sempre à frente do adversário, pronto a deixar pistas e a desafiar o comissário. A perseguição a Neruda é um dos temas primordiais do filme, bem como o seu quotidiano no período em fuga, o seu talento para a escrita e para declamar poesia, a relação sóbria com Delia del Carril, o seu gosto pela vida nocturna e os seus ideais comunistas.

Ao longo do filme encontramos Neruda a deslocar-se por diversos locais, com as viagens e os episódios protagonizados pelo poeta a permitirem deixar-nos diante do contexto histórico, bem como de alguns traços da sua personalidade. É irreverente, idealista, mulherengo, sensível, egoísta, egocêntrico, ou seja, recheado de contradições e um enorme carisma, algo expresso por Gnecco. A narrar uma parte considerável dos acontecimentos encontra-se Peluchonneau, qual protagonista atormentado dos filmes noir, com Gael García Bernal a inserir uma mescla de tons ao discurso do seu personagem. Observe-se o tom sardónico quando corrige que Neruda não está a trabalhar, mas sim a escrever livros, ou os trechos em que exibe a dicotomia entre o estilo de vida do protagonista e os seus ideais, ou o momento pontuado pela vulnerabilidade em que fala do pai e da mãe. A narração em off é utilizada de forma dinâmica, informativa e irreverente, pronta a evidenciar os tumultos interiores de Peluchonneau, um personagem que enfrenta os fantasmas do passado e a incapacidade para conseguir superar a figura que persegue.

 Larraín concentra parte das atenções neste jogo entre o gato e o rato, enquanto deixa estes personagens a desafiarem-se mutuamente. No último terço assistimos a um aproximar perigoso entre ambos, quando o enredo ganha características de western e a cinematografia realça as características frias do cenário por onde a dupla circula e a baixa temperatura que grassa pelo mesmo. É nesta fase da narrativa que nos deparamos com um grande proprietário que gosta de fugir aos impostos, com Larraín a não descurar os comentários de foro social e o humor ao longo do enredo. Os ingredientes de comédia também estão presentes em "Neruda", com o próprio protagonista a apresentar um certo sentido de humor, algo notório nos livros que deixa ao seu perseguidor. Peluchonneau e Neruda são dois dos personagens de relevo do filme, embora alguns elementos secundários também sobressaiam. Note-se o caso de Álvaro Jara (Michael Silva), o militante responsável pela segurança do protagonista, com ambos a entrarem em conflito em alguns momentos, ou Delia del Carril, com Mercedes Morán a transmitir o lado compreensivo e afável da esposa de Neruda.

 O protagonista não lida bem com a reclusão, tal como Larraín não parece apreciar os grilhões dos filmes biográficos, algo particularmente notório ao longo de "Neruda". O cineasta "foge a sete pés" da habitual estrutura narrativa dos biopics que abordam um período alargado de tempo e acabam por não desenvolver quase nada, enquanto insere uma mescla de géneros no interior do enredo que funciona surpreendentemente bem. Pelo caminho reúne factos e ficção, utiliza as elipses com acerto (tanto para agilizar o enredo como para expor a faceta abrupta de alguns episódios), desenvolve as dinâmicas entre o poeta e os militantes comunistas e evidencia que existiu todo um cuidado no figurino e na cenografia para respeitar a época representada. A juntar a tudo isto temos algo que também podemos encontrar em "Jackie", outro filme de pendor biográfico assinado por Larraín, nomeadamente, um protagonista que sabe o seu papel na História e da importância das suas decisões para o seu legado, algo desenvolvido com acerto em ambas as obras.

Em "Neruda" encontramos um homem preocupado com a sua causa e o papel que assume na mesma, com Larraín a deixar-nos diante de uma figura deveras sumarenta e complexa. Ancorado por boas interpretações de Luis Gnecco e Gael García Bernal, uma mistura surpreendentemente feliz de géneros e subgéneros cinematográficos, "Neruda" subverte as nossas expectativas e demonstra a perícia de Pablo Larraín para desenvolver biopics que se afastam do "mais do mesmo".

Título original: "Neruda".
Realizador: Pablo Larraín.
Argumento: Guillermo Calderón.
Elenco: Luis Gnecco, Gael García Bernal, Mercedes Morán, Alfredo Castro, Michael Silva.

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