26 fevereiro 2018

Crítica: "Não Devore Meu Coração" (2017)

 Filme de imagens inebriantes, que se move ao ritmo da sua marcante banda sonora e do seu grupo heterogéneo de personagens, "Não Devore Meu Coração" balanceia entre a fábula e a realidade, entre rivalidades com raízes profundas e uma romance poético com traços de "Romeu e Julieta", sempre tendo como pano de fundo um território de fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Essa barreira é paradigmaticamente marcada não só pelas águas do Rio Apa, mas também pelas memórias da Guerra do Paraguai e pelas rivalidades entre dois grupos de motoqueiros. É um contexto delicado, ou seja, propício a amores que desafiam a razão e o status quo, que o diga Joca (Eduardo Macedo), um jovem de treze anos de idade que se apaixona por Basano La Tatuada (Adeli Benitez), uma indígena paraguaia de catorze anos de idade. Ela tanto o rejeita como parece sentir uma estranha atracção pelo jovem. Ele sente que o seu coração está na posse da amada.

Os jovens Eduardo Macedo e Adeli Benitez surgem como agradáveis surpresas que contribuem para espelhar a faceta intrincada e romântica da relação que se forma entre os personagens que interpretam. O primeiro insere um estilo sonhador, quase naïf e romântico a Joca. A segunda deixa claro que a guarani não é indiferente ao pretendente, embora tenha consciência das enormes barreiras que os separam, sejam estas relacionadas com a História, a sociedade ou a rivalidade entre familiares. Os diálogos trocados pelos dois jovens parecem imensas vezes saídos de uma fábula, ou de um romance maior do que a vida, algo realçado pelo facto do protagonista acreditar que Basano possui o seu coração. Diga-se que essa faceta de fábula é adensada pelos traços de alguns personagens e por diversos acontecimentos que pontuam a narrativa, bem como pelos cinco capítulos que dividem a história da primeira longa-metragem realizada a solo por Felipe Bragança.

A personalidade e a caracterização da guarani remetem e muito para essa faceta fabulesca de "Não Devore meu Coração". Com uma tatuagem que ocupa parte da mão e do braço esquerdo, longos cabelos negros e um olhar que tanto conta com traços dominantes como alguma vulnerabilidade, Basano aparece praticamente como uma princesa que sabe as responsabilidades que tem para com o seu reino, que conhece as dores sofridas pelos seus antepassados e a origem do sangue que escorre pelas suas veias. Se esta tem um bastão, já Joca utiliza em alguns momentos uma espada que se encontrava enterrada no rio, uma arma que traz à memória a Guerra do Paraguai e acentua essa faceta entre a fábula e a realidade de "Não Devore Meu Coração". As notícias da descoberta de corpos de guaranis remetem para esse passado sangrento, tal como o conflito entre os indígenas e os fazendeiros e a rivalidade intensa entre dois grupos de motoqueiros que combatem pelo domínio do asfalto e do território.

Um desses grupos é liderado por Telecath (Marco Lori), um indivíduo de cabelo desgrenhado, expressivo e carismático, que tem em Fernando (Cauã Reymond) o seu homem de confiança. Cauã Reymond transforma o seu Fernando num indivíduo misterioso, mulherengo e problemático, que vagueia entre a rebeldia e a responsabilidade de ter de ajudar a cuidar do irmão mais novo, o jovem Joca. Os dois mantêm uma dinâmica pontuada quer por momentos de afabilidade, nos quais exprimem o apreço pelos super-heróis de banda-desenhada, quer por situações dotadas de rispidez. Estes vivem com Joana (Cláudia Assunção), a mãe de ambos, uma mulher divorciada, que padece de depressão e raramente está presente no quotidiano dos rebentos. A ausência quase constante de Joana diz muito da relação complexa desta com os filhos, enquanto estes lidam com problemas que acabam por se cruzar.

O outro grupo de motoqueiros tem em Alberto (Mario Verón), o primo de Basano, um dos seus líderes. Este é um bando constituído por paraguaios, na maioria guaranis, que rivalizam com o gang de Telecath, com os conflitos ancestrais a serem replicados por ambos nas estradas. Os dois bandos são essencialmente compostos por homens, uma situação que permite a "Não Devore Meu Coração" embrenhar-se por temáticas relacionadas com a masculinidade e o machismo, com estes indivíduos a quererem demonstrar a sua superioridade e força a todo o custo. Veja-se quando encontramos Telecath a felicitar Fernando por este ter mantido um affair com a namorada de Alberto, um dos rivais. A única mulher que sobressai no bando de Telecath é Lucía (Zahy Guajajara), uma indígena que atinge uma preponderância notória a partir do momento em que o enredo começa a assumir características mais intensas.

As dinâmicas internas destes dois grupos nunca são trabalhadas na justa medida, algo que retira algum impacto aos momentos em que os seus membros estão reunidos ou protagonizam alguns episódios mais intensos. Note-se que no grupo de Alberto apenas este é que consegue sobressair, mesmo sem ser um personagem dotado de enorme espessura, enquanto que Fernando é o único que ganha dimensão no gang de Telecath. Diga-se que o argumento revela ainda algumas fragilidades a desenvolver as dinâmicas de Joca com os colegas de escola (o mesmo é válido com Basano), enquanto exibe alguma dificuldade em deixar alguns episódios de relevo ganharem peso na mente do espectador. No entanto, vale a pena realçar que diversos momentos do filme permanecem e muito na memória, sobretudo quando envolvem Joca e Basano, ou os motociclistas a circularem pelas estradas.

Basano e Joca contrariam um pouco o status quo, sobretudo este último, um jovem que não tem problemas em exibir a sua submissão e o amor pela primeira, algo que diverge em relação ao machismo da maioria dos personagens masculinos que pontuam o enredo. Os dois jovens vivem um amor quase impossível, embora pleno de sentimento e marcado por episódios que deixam rasto na nossa memória. Veja-se quando encontramos Joca e Basano no lago, durante a noite, iluminados por pirilampos e cobertos pelas tonalidades azuis nocturnas e por sentimentos quentes, com tudo a ser filmado com enorme poesia. Felipe Bragança demonstra que sabe filmar e que tem em Glauco Firpo um director de fotografia capaz de captar as características deste território de fronteira e a geografia das emoções que percorrem os seus personagens. Note-se uma reunião do grupo de Telecath pontuada por muito fumo emanado pelos cigarros tragados, algo que remete para uma sensação de fugacidade e para o estilo de vida perigoso e efémero destes personagens.

A banda sonora também contribui para essa atmosfera envolvente e inebriante de "Não Devore Meu Coração". Observe-se os momentos em que encontramos os motoqueiros a circularem nas suas motos em plena noite, enquanto as luzes e os sons dos veículos sobressaem, os capacetes revelam alguns traços destes elementos e os sintetizadores "à John Carpenter" exacerbam as emoções. Por sua vez, o território e as suas características são expostos com enorme acerto praticamente desde os momentos iniciais, com planos bem abertos a deixarem-nos diante de Joca a correr atrás de Basano, enquanto observamos os terrenos descampados e recheados de florestação, ao mesmo tempo que o Sol bate bem forte e contribui para aquecer os sentimentos. Temos ainda as estradas de terra vermelha e as suas fazendas, mas também o Rio Apa, com as suas águas a trazerem consigo uma série de histórias e memórias.

As recordações da Guerra do Paraguai são regularmente evocadas ao longo do filme, seja no texto do prólogo, ou nos diálogos, ou em alguns episódios que pontuam o enredo, tais como a já mencionada descoberta da espada, ou Lucía a segurar uma bandeira, ou o conflito entre os guaranis e os fazendeiros. Esse diferendo é exacerbado pela figura de César (Leopoldo Pacheco), o pai de Joca e Fernando, um fazendeiro rígido e pouco dado a grandes demonstrações de afecto, que mantém uma relação complexa com o filho mais velho. Diga-se que esta ligação reforça a rivalidade entre Fernando e Alberto, um conflito que é deixado a marinar durante uma parte considerável do filme. Ao longo destes capítulos, Felipe Bragança envolve-nos pelo interior de um enredo entre a fábula e situações que entroncam na realidade, seja a rivalidade entre motoqueiros ou o romance impossível entre Joca e Basano, enquanto desenvolve tudo de forma inebriante, poética e envolvente, sempre com imenso estilo e algum cuidado com a substância.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da nona edição do FESTin.

Título original: "Não Devore Meu Coração".
Realizador: Felipe Bragança.
Argumento: Felipe Bragança.
Elenco: Adeli Benitez, Eduardo Macedo, Cauã Reymond, Mario Verón, Marco Lori, Zahy Guajajara, Leopoldo Pacheco

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