01 fevereiro 2018

Crítica: "Get Out" (Foge)

 Sempre que tenho oportunidade procuro visualizar duas vezes a mesma obra cinematográfica antes de escrever uma crítica. Nem sempre é possível, embora este exercício permita efectuar uma análise mais ponderada do filme e contribua para perceber se este resiste a mais do que uma visualização. "Get Out" não só sobrevive a um novo visionamento como consegue sair imensamente valorizado, algo que realça as qualidades do sólido argumento de Jordan Peele, um cineasta que se estreia com enorme sucesso na realização de longas-metragens. Peele controla com precisão os ritmos do enredo, utiliza e subverte alguns dos lugares-comuns dos filmes de terror e cria toda uma atmosfera tensa, com esta a ser exacerbada quer pelo meticuloso trabalho de câmara, quer pelo design sonoro, bem como pelas pequenas pistas que são deixadas ao longo de "Get Out".

Aquilo que mais desperta à atenção não são os sustos avulsos, mas sim a perspicácia dos diálogos e a forma simultaneamente subtil e escancarada como o enredo se envolve pelas temáticas relacionadas com a discriminação racial e o racismo, seja aquele que é exibido de forma directa, ou as reacções aparentemente inocentes que revelam imenso preconceito e despertam desconforto. São falas que podemos ouvir facilmente no nosso dia-a-dia, que estão longe de pertencer apenas ao campo ficcional e permitem um diálogo dotado de interesse entre "Get Out" e a nossa sociedade e a nossa História. "O meu pai votaria no Obama de novo se pudesse", diz Rose Armitage (Allison Williams) a Chris Washington (Daniel Kaluuya), o seu namorado, tendo em vista a demonstrar que Dean (Bradley Whitford), o seu progenitor, não é racista, um argumento que está longe de satisfazer o protagonista. Chris é um um fotógrafo afro-americano que tem um feitio calmo, ponderado, afável e receoso. Por sua vez, Rose aparentemente não é racista e conta com uma personalidade supostamente doce e decidida.

O casal mantém uma relação aparentemente saudável e sólida, algo que conduz Rose a apresentar o namorado aos pais. O encontro tem lugar na casa dos Armitage, onde a dupla se prepara para passar o fim de semana, embora Chris tenha algum receio devido ao facto de Rose não ter mencionado que ele é negro. A viagem é marcada por dois episódios que deixam antever algo de negativo: um cervo atravessa-se no caminho do carro do casal e é atropelado. O contacto entre o corpo do animal e o veículo provoca algum impacto e inquietação, tal como a chegada de um agente da autoridade que logo faz questão de pedir a documentação a Chris, uma situação que desperta a revolta de Rose. A discriminação e as tensões raciais já tinham sido expostas no prólogo, quando um afro-americano é alvo de violência e raptado (mais tarde descobrimos aquilo que lhe aconteceu), um episódio que ganha novo fôlego na nossa mente quando observamos a conduta condenável do agente da autoridade.

Peele deixa o nervosismo germinar no interior da mente do espectador, com a entrada em cena de Dean e Missy (Catherine Keener), os pais de Rose, a trazer uma multitude de sentimentos. Estes parecem a simpatia e a disponibilidade em pessoa, mas algo não parece bater certo, com o realizador a criar algum mistério em volta destas figuras. Note-se desde logo o momento da chegada do casal à casa dos progenitores de Rose, com a câmara de filmar a permanecer praticamente imóvel, num plano aberto dotado de simetria, enquanto a habitação parece aprisionar os personagens. A casa conta com uma dimensão alargada, uma miríade de divisórias e uma imensidão de fotografias espalhadas pelas paredes, mas também diversos segredos e criados negros com comportamentos bizarros. Se a decoração remete para o elevado estatuto financeiro do casal e para alguns traços das suas personalidades, já os empregados exacerbam a estranheza que rodeia a habitação. O personagem interpretado por Bradley Whitford faz questão de se justificar no que diz respeito aos criados, tendo em vista a afastar possíveis acusações de racismo, enquanto tenta utilizar termos como "my man" para se "adaptar" ao namorado da filha, algo que exibe uma tentativa de disfarçar uma certa sensação de desconforto, com "Get Out" a embrenhar-se pelo interior da intolerância escondida no interior da capa de falsa cordialidade.

Dean é um neurocirurgião, enquanto Missy é uma psiquiatra, com ambos a exibirem cumplicidade e a transmitirem a sensação de que escondem alguma coisa. Bradley Whitford e Catherine Keener exprimem eficazmente que existe algo de suspeito a envolver os comportamentos aparentemente amistosos dos seus personagens, com os intérpretes a convencerem quer nesta faceta cordial, quer a partir do momento em que os objectivos do casal são colocados em evidência. Se estes ainda conseguem enganar, já Jeremy, o irmão de Rose, nunca esconde o seu lado deveras desequilibrado e inquietante, com Caleb Landry Jones a imprimir uma postura ameaçadora a este personagem. Veja-se o jantar que envolve os dois casais e Jeremy, um momento no qual sobressai o cuidado colocado na composição dos planos e o trabalho dos actores. A luz das velas contribui para uma sensação de falso intimismo, os planos mais fechados exacerbam o estado de espírito dos personagens, enquanto o preconceito e o mal-estar ameaçam consumir os diálogos e o elenco sobressai.

Daniel Kaluuya transmite o desconforto do protagonista quando se encontra em situações complicadas, bem como a perplexidade que percorre o seu rosto quando se depara com episódios que transcendem e muito as suas piores expectativas. Diga-se que o intérprete também se destaca nos momentos iniciais, quando ficamos perante a postura mais leve do protagonista. Também Allison Williams consegue distinguir-se, com a intérprete a convencer tanto a exprimir o lado mais doce e aparentemente ingénuo de Rose como o seu lado mais sacana e dissimulado. A povoar a casa dos Armitage encontram-se ainda Georgina (Betty Gabriel) e Walter (Marcus Henderson), os dois criados, duas figuras que dialogam e gesticulam como se estivessem possuídos. A atitude destes personagens é misteriosa e desperta alguma apreensão no protagonista, um sentimento que se adensa quando contacta com Logan (Lakeith Stanfield), um dos poucos afro-americanos que frequentam a casa dos Armitage. Outro dos elementos secundários de relevo é Rod (Lil Rel Howery), o melhor amigo de Chris, um segurança que formula algumas teorias da conspiração que se revelam certeiras, sobretudo no que diz respeito a Rose e aos seus familiares. 

Aos poucos descobrimos uma série de segredos que envolvem a casa dos pais de Rose e os seus proprietários, bem como em relação aos convidados que frequentam este espaço, com os pequenos sinais de que algo está errado a consumarem-se e a trazerem ao de cima um lado mais obscuro do ser humano e o instinto de sobrevivência de Chris. Diga-se que esses pequenos sinais são inseridos de forma muito eficaz no interior do enredo, com alguns pormenores a ganharem imenso significado à segunda visualização. Note-se o momento em que observamos Missy a mexer uma bebida com uma colher, enquanto dialoga com Chris, o esposo e a filha, ou a preocupação desta última para que o namorado deixe de fumar, com estes gestos a adquirirem uma nova interpretação a partir do momento em que percebemos aquilo que escondem. A banda sonora contribui imensas vezes para a atmosfera misteriosa e gradativamente opressora que Jordan Peele incute à narrativa, tal como as características dos cenários, ou boa parte do enredo não tivesse como pano de fundo uma casa rodeada de uma floresta, praticamente isolada de tudo e todos.

Não estamos diante de um filme que aposta desalmadamente nos jump scares, mas sim perante um thriller psicológico que gera reflexão, desperta uma sensação de receio constante e aborda temas cruciais relacionados com a discriminação racial. Desde os abusos da polícia à indiferença em relação ao desaparecimento dos negros, passando pelo racismo e as tensões raciais, "Get Out" embrenha-se para o interior de uma habitação que traz ao de cima fantasmas do passado e problemas do presente.  Jordan Peele utiliza parte da premissa de "Guess Who's Coming to Dinner", em particular, o namorado afro-americano que visita os pais da cara-metade, um casal branco, para criar um thriller psicológico esteticamente irrepreensível, pontuado por comentários sociais relevantes e um protagonista que subverte os lugares-comuns dos filmes de terror, com todos estes elementos a serem elevados por um argumento sagaz e inteligente.

Título original: "Get Out".
Título em Portugal: "Foge".
Título no Brasil: "Corra".
Realizador: Jordan Peele.
Argumento: Jordan Peele.
Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, Caleb Landry Jones, Lakeith Stanfield, Marcus Henderson, Betty Gabriel.

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