18 fevereiro 2018

Crítica: "The Florida Project" (2017)

 Um dos maiores méritos de "The Florida Project" é a sua capacidade de transmitir a sensação de que partilhamos o dia a dia com os seus personagens, enquanto travamos conhecimento com os mesmos e começamos a conhecer o espaço onde habitam. O cenário é Kissimmee, na Florida, um território recheado de motéis baratos, que se encontra bem perto do Walt Disney World. O contraste entre os dois espaços não poderia ser mais clarividente e enfático. Se o Walt Disney World simboliza prosperidade, alegria, fantasia e escapismo, já o espaço de Kissimmee que nos é apresentado traduz as dificuldades de quem não foi bafejado com as sortes do American Dream e lida de perto com o espectro do desalojamento. A câmara de filmar capta e transmite o quotidiano destes elementos e deste espaço com enorme vivacidade e genuinidade, enquanto os intérpretes têm o condão de fazer com que nos esqueçamos temporariamente de que se encontram a compor personagens ficcionais.

A jovem Brooklynn Prince, uma grande descoberta cinematográfica, é um desses exemplos, com a intérprete a compor uma personagem de complexidade e espessura surpreendente. A actriz consegue transmitir a precocidade da sua Moonee e a sua ingenuidade, bem como a sua rebeldia, a sua capacidade para envolver-se em confusões e o seu gosto por xarope de ácer. Moonee é uma rapariga de seis anos de idade que vive com Halley (Bria Vinaite), a sua mãe, num pequeno quarto do Magic Castle, um motel barato onde habitam uma série de pessoas com poucas posses financeiras. Bria Vinaite é outro dos trunfos que o realizador Sean Baker tirou da manga, uma estreante nas lides cinematográficas que consegue expressar com enorme energia e naturalidade a personalidade errática, extrovertida, imatura e irresponsável da sua personagem, uma mãe solteira que se encontra desempregada. O próprio visual desta personagem e o seu guarda-roupa exacerbam a sua faceta rebelde e vivaz, sejam os seus cabelos entre os tons loiros e azulados, ou as suas roupas maioritariamente leves e de cores quentes ou garridas, ou as suas tatuagens, com estas a surgirem como um traço afirmador da sua personalidade.

Mais do que parecerem mãe e filha, Halley e Moonee contam com uma ligação semelhante à de duas irmãs destrambelhadas e bastante unidas, algo expresso em diversos episódios que pontuam este drama e reforçam a relação entre ambas. A proximidade entre Halley e Moonee é sublinhada pela química convincente de Vinaite e Prince, com as intérpretes a conseguirem desenvolver e exteriorizar a afeição muito particular que existe entre as personagens que interpretam. Note-se quando encontramos as duas no supermercado, ou a tirarem selfies de biquíni, ou a venderem ilegalmente perfumes nas ruas, ou a fazerem manguitos para os aviões. O motel onde estas habitam surge como um dos grandes protagonistas do filme, com as suas paredes roxas a sobressaírem, bem como a miríade de quartos e as longas escadarias, qual castelo precário que conserva no seu interior uma série de homens e mulheres que se encontram praticamente numa condição de sem-abrigo. É um espaço onde as relações de amizade contam com bases quase tão precárias como as condições em que são geradas, onde os resquícios da crise de 2008 são notórios e indesmentíveis. Observe-se o tecido social do qual é composto este motel barato, nomeadamente, pessoas sem capacidade de pagar a renda de uma casa, que se encontram sem um trabalho estável ou desempregadas.

A renda destes espaços é paga de forma semanal, uma situação que conduz a que, do ponto de vista legal, os quartos não sejam considerados como residência fixa, algo que traduz mais uma vez a insegurança que permeia o quotidiano dos elementos que nos são apresentados. O Magic Castle é gerido com um misto de rigor e sensibilidade por Bobby Hicks (Willem Dafoe), o gerente deste espaço, um indivíduo que desperta facilmente o nosso respeito e simpatia. Willem Dafoe é um dos intérpretes que beneficia do superlativo argumento de Sean Baker e Chris Bergoch, pronto a favorecer o trabalho do elenco e a contribuir para que os seus integrantes criem personagens dotados de dimensão e interesse. Dafoe transforma-se numa figura calorosa, quase protectora, que sabe ser duro, mas tenta ao máximo gerir este espaço tendo em atenção o contexto pessoal e profissional dos habitantes dos quartos do motel. Note-se quando o encontramos a sair do escritório, após a quebra de luz, num plano geral que capta o espaço do motel e os protestos dos inquilinos que saem dos seus quartos, com o gerente a procurar repor a ordem e responder a todos aqueles que o interpelam. Veja-se ainda as tentativas que efectua para que Halley cumpra as regras, ou o momento em que o encontramos a exibir a sua faceta protectora ao escorraçar um pedófilo que se encontra nas imediações do parque onde as crianças estão a brincar.

Embora o contexto que rodeia estes personagens seja amplamente intrincado e complicado, "The Florida Project" nunca descai para o dramalhão, ou tenta santificar as figuras que permeiam a sua narrativa, bem pelo contrário. Tal como em "Tangerine", Baker tem o mérito de saber utilizar o humor e de explorar temáticas que envolvem os mais desfavorecidos, ou que se encontram colocados à margem, tendo em Moonee uma personagem essencial para manter tudo a partir de uma perspectiva muito particular. Nos momentos iniciais do filme, encontramos Moonee, Dicky (Aiden Malik) e Scooty (Christopher Rivera), três petizes e amigos que habitam no Magic Castle, a cuspirem no carro de Stacy (Josie Olivo), uma senhora recém-chegada ao FutureLand, outro dos motéis baratos da região. Esta surge acompanhada pelas duas netas, entre as quais a jovem Jancey (Valeria Cotto), que também é alvo de cuspidelas. É um episódio em que a criancice destes jovens aparece ao de cima, sobretudo de Moonee, que logo começa a ofender Stacy e a explanar a sua faceta algo complicada, própria de uma rapariga que pouco ou nada é corrigida ou educada em casa.

Mais tarde, Jancey junta-se ao grupo de petizes, enquanto estes aproveitam as férias de Verão para divertirem-se e efectuarem algumas tropelias, sejam estas relativamente inofensivas ou perigosas. A forma como os pais destes jovens lidam com as tropelias dos rebentos surge praticamente como um recurso para Sean Baker expor a heterogeneidade dos homens e mulheres que povoam estes cenários e o modo distinto como encaram a sua estadia neste local. O pai de Dicky (Edward Pagan) coloca o filho de castigo e procura que o jovem não se envolva em problemas. Ashley (Mela Murder), a mãe de Scooty, conta inicialmente com uma relação de amizade com Halley e permite que esta tome conta do filho, embora as dinâmicas entre ambas compliquem-se a partir do momento em que os pequenotes efectuam uma travessura perigosa. Halley exibe pouca ou nenhuma preocupação no que diz respeito àquilo que a filha faz, com a rapariga a encontrar-se por diversas vezes por sua conta e risco. Nesse sentido, encontramos por diversas vezes os jovens a deambularem por estes cenários da Florida, enquanto usam a imaginação e permitem que fiquemos a conhecer o território a partir da sua perspectiva, algo que insere um tom mais leve e a espaços deveras sonhador ao enredo.

Os actos dos personagens contribuem e muito para ditar o ritmo do enredo. Este é composto por uma série de episódios que permite desenvolver as dinâmicas entre os personagens, seja uma fuga em direcção a um espaço "mágico" que influência o método como a obra é filmada, ou uma degustação de gelado no interior do motel. Os laços entre as crianças e a forma como estes encaram o mundo dos adultos são expostos e desenvolvidos de forma verosímil, tal como os problemas dos mais velhos. A certa altura de "The Florida Project" somos colocados perante Halley a salientar no centro de emprego que não consegue encontrar trabalho. O desemprego é uma das temáticas abordadas ao longo do filme, bem como os laços entre pais e filhos, as relações de amizade entre jovens, as "dores de crescimento", a prostituição, a pobreza e a incapacidade do Estado em encontrar medidas para assegurar o bem estar da sua população. Sean Baker aborda todos estes temas sem descurar o desenvolvimento dos personagens e a mescla de defeitos e virtudes que se encontra inserida no seu âmago, enquanto partilhamos as suas alegrias e tristezas no interior deste espaço que aos poucos também começamos a habitar.

Essa sensação de que "The Florida Project" transporta-nos para o interior deste espaço remete e muito para a capacidade de Sean Baker em criar toda uma atmosfera francamente genuína, seja no aproveitamento e representação dos cenários interiores e exteriores, ou a desenvolver as dinâmicas dos personagens, ou a colocar em convívio a realidade e a ficção. O título do filme remete para um dos nomes inicialmente atribuídos ao projecto do Walt Disney World, um espaço cuja opulência é diametralmente oposta à realidade com que nos deparamos ao longo da fita. A pobreza faz parte do quotidiano dos personagens de "The Florida Project", tal como a capacidade de encontrarem alegria e diversão, enquanto tentam sobreviver e expressar a sua identidade e as suas particularidades num cenário onde os sonhos são permitidos, embora dificilmente sejam concretizáveis. Sean Baker deixa-nos assim perante uma obra cinematográfica que consegue reunir a leveza e a aspereza, pontuada por diálogos que contam com uma franqueza desarmante, interpretações de grandíssimo nível, momentos que prometem tardar em sair da memória e um forte comentário social. A juntar a tudo isto ainda temos as magníficas descobertas de Brooklynn Prince e Bria Vinaite.

Título original:"The Florida Project".
Realizador: Sean Baker.
Argumento: Sean Baker e Chris Bergoch.
Elenco: Brooklynn Prince, Bria Vinaite, Willem Dafoe, Christopher Rivera, Aiden Malik,
Valeria Cotto, Josie Olivo, Mela Murder, Edward Pagan.

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