04 fevereiro 2018

Crítica: "Detroit" (2017)

  A câmara de filmar está quase sempre em movimento ao longo de "Detroit", pronta a captar as emoções e a exacerbá-las. É um recurso que resulta, sobretudo quando a realizadora Kathryn Bigelow atira-nos em conjunto com os personagens para o interior do Motel Algiers e constrói alguns momentos de pura inquietação e violência. A cineasta mescla factos e ficção para se embrenhar pelo interior dos motins de Detroit, em 1967, desde o raid a um clube nocturno a 23 de Julho, exposto de forma intensa, passando pelas revoltas nas ruas, fruto de anos de segregação e discriminação, até concentrar as suas atenções no virulento interrogatório levado a cabo pelas autoridades a um grupo de hóspedes do Algiers.

O racismo e a violência policial contra os negros são temáticas que continuam na ordem do dia nos EUA. Bigelow aborda esses temas a partir de um episódio revoltante da História desta Nação, enquanto conduz um pedaço de cinema intenso e inquietante, capaz de colocar em realce as tensões raciais nos EUA, as desigualdades e as injustiças sociais e a forma como o Governo e a justiça nem sempre conseguem proteger os seus cidadãos. Para isso, a cineasta atira-nos para o interior de Detroit, em 1967, uma cidade-vulcão que entrou em erupção após o raid mencionado. Diversos estabelecimentos e carros são destruídos, a instabilidade e a insegurança pairam por todos os poros, enquanto a presença da polícia e dos bombeiros é rechaçada. Estes episódios são expostos num estilo documental e imediato, tendo em alguns momentos a companhia de imagens de arquivo que reforçam a faceta verídica dos motins, enquanto ficamos diante da violência que envolveu a revolta e a sua repressão.

A violência dos protestos e da repressão policial conduz Larry Reed (Algee Smith) e Fred Temple (Jacob Latimore), dois afro-americanos, amigos e membros da banda The Dramatics, a instalarem-se temporariamente num quarto no Algiers. Neste espaço conhecem as belas Julie Ann (Hannah Murray) e Karen (Kaitlyn Dever), bem como Carl (Jason Mitchell), um negro vivaz, que decide tentar assustar as autoridades com tiros de uma pistola de largada, um acto que se revela desastroso. Os disparos são confundidos com um ataque de snipers, algo que conduz à entrada em cena de membros do Departamento da Polícia de Detroit, da Polícia Estadual do Michigan e da Guarda Nacional do Michigan. Entre as autoridades destacam-se Philip Krauss (Will Poulter), Demens (Jack Reynor) e Flynn (Ben O'Toole), três polícias que interrogam violentamente os clientes do Algiers.

Um elemento é morto, enquanto Larry, Fred, Julie, Karen, Lee (Peyton Alex Smith), Greene (Anthony Mackie) e Aubrey (Nathan Davis Jr.) são encostados à parede, insultados, alvo de comentários racistas e imensa violência. Philip é a face mais visível da agressividade policial. Will Poulter expressa de forma contundente a personalidade fria, sádica e racista do seu personagem, enquanto este joga com as emoções destes homens e mulheres, mesmo sem ter qualquer prova da existência de uma arma no local. São momentos de enorme nervosismo, com o trabalho de Barry Ackroyd na cinematografia e de William Goldenberg na montagem a contribuir para a tensão e o tom imediato que envolvem o interrogatório. Bigelow aproveita ainda estes momentos para dar a conhecer alguns traços da personalidade dos personagens, sejam estes Greene, um veterano da Guerra do Vietname que foi parar no interior de outro conflito, ou Demens, um polícia que leva demasiado a peito um jogo para coagir os suspeitos.

Outro dos personagens em destaque é Larry, com Algee Smith a transmitir a sensibilidade do vocalista e o trauma que este episódio provocou na sua alma. Também Melvin Dismukes (John Boyega), um segurança privado, acaba envolvido nos episódios desta noite, com John Boyega a transmitir o lado bem intencionado deste indivíduo que procura ajudar os negros, ainda que sem desrespeitar as autoridades. O elenco sobressai, bem como a realização enérgica de Bigelow e o argumento coerente de Mark Boal, sendo notório que existiu todo um cuidado de investigação dos factos e uma capacidade de colocar a ficção ao serviço do enredo. Diga-se que os acertos começam desde o prólogo, quando a cineasta coloca-nos diante dos painéis de Jacob Lawrence que têm como tema a Grande Migração, um recurso que permite realçar de forma rápida e inteligente alguns dos motivos que estiveram na génese das problemáticas abordadas ao longo do filme, tais como as tensões raciais e as desigualdades.

A profundidade dessas desigualdades é explanada de modo clarividente em diversas situações do filme: parte considerável da população de Detroit é negra, mas a maioria dos integrantes das forças policiais são brancos; o julgamento em tribunal não contou com um único negro entre os membros do júri; todo o episódio do Motel Algiers. Ao longo de "Detroit", Bigelow envolve-se com afinco pelas tensões raciais, expõe de forma intensa o racismo nos EUA e embrenha-se por um acontecimento desastroso, sempre num estilo que se esgueira entre a reportagem e o documentário, sendo capaz de deixar marca, inquietar e despertar reflexão.

Título original: "Detroit".
Realizadora: Kathryn Bigelow.
Argumento: Mark Boal.
Elenco: Algee Smith, John Boyega, Jacob Latimore, Will Poulter, Jason Mitchell, Anthony Mackie, Hannah Murray, Kaitlyn Dever, Jack Reynor.

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