25 fevereiro 2018

Crítica: "Como Nossos Pais" (2017)

 O título de "Como Nossos Pais" remete para a canção homónima composta por Belchior e imortalizada pela poderosa voz de Elis Regina. A música em questão nunca entra em cena pela voz da cantora, mas a sua letra ecoa e de que maneira no interior dos dilemas vividos pela personagem principal e daqueles que a rodeiam. Essa protagonista é Rosa, interpretada com sensibilidade, emoção, carisma, intensidade e autenticidade por Maria Ribeiro, com as suas falas a soarem sinceras ao ouvido do espectador, tal como as suas dúvidas e inquietações, sejam estas relacionadas com o seu papel de mãe, filha, esposa, amante, irmã e mulher. Desdobrar-se em todos estes papéis é praticamente impossível e deixa-a quase sem tempo para "respirar", ou ser ela própria, algo que mexe consigo e traduz os problemas diários de uma série de mulheres ao redor do Mundo.

As elipses permitem exacerbar a faceta caótica do quotidiano de Rosa e dinamizar a narrativa, enquanto o argumento refinado da realizadora Laís Bodanzky e de Luiz Bolognesi permite dotar a protagonista de dimensão e efectuar um interessante e envolvente estudo de personagem. Laís Bodanzky embrenha-se por assuntos relacionados com a mulher na sociedade contemporânea, os conflitos geracionais, a solidão, as crises conjugais e profissionais, o adultério, a paternidade, a maternidade, a sexualidade e a falta de diálogo, sempre a partir da perspectiva de Rosa. A revelação de que Homero (Jorge Mautner) não é o seu pai biológico surge como uma alavanca para a protagonista questionar tudo aquilo que a rodeia, seja o seu modo de vida, o seu trabalho pouco motivante, ou o seu matrimónio com Dado (Paulo Vilhena). Para este, os problemas do casamento resumem-se praticamente à falta de sexo. Para a protagonista, a crise matrimonial tem as suas raízes em questões mais profundas, complexas e difíceis de resolver.

A personagem interpretada por Maria Ribeiro quer diálogo e sinceridade, mas também equilibrar a balança de poderes no interior do matrimónio e contar com a cumplicidade do seu companheiro, algo que este não parece compreender. Ele acha que abdicou de muito ao deixar de jogar futebol com os amigos. Ela deixou temporariamente de lado a escrita de uma peça de teatro (uma continuação de "Casa de Bonecas" de Henrik Ibsen, com a história de Rosa a dialogar com a da protagonista da obra literária). Que ele ache possível efectuar uma comparação entre um hobbie e o sonho de uma vida é sintomático do desequilibro deste jogo matrimonial, algo explanado de forma paradigmática ao longo do filme. Diga-se que Laís Bodanzky não efectua um retrato pueril dos homens. A cineasta elabora algo mais profundo e contundente ao expor uma série de gestos e diálogos aparentemente normais e inofensivos que reflectem a incapacidade dos homens em compreenderem as mulheres, algo notório nos comportamentos de Dado.

O esposo da protagonista nunca é exposto como um personagem desprovido de dimensão, com Paulo Vilhena a incutir alguma afabilidade a este antropólogo que trabalha na defesa do território da Amazónia, aparenta gostar da esposa e das suas filhas, as jovens Juliana (Annalara Prates) e Nara (Sophia Valverde), embora ausente-se bastante, não tenha sensibilidade para perceber a cara-metade e nem sempre pareça sincero para com esta. A pouca disponibilidade de Dado é paradigmaticamente realçada em alguns planos elaborados com precisão, que nos deixam diante dos quartos do casal e das filhas, separados por uma parede, quase como um split-screen que expõe duas acções distintas: de um lado temos a protagonista a cuidar das filhas, enquanto do outro encontramos o esposo a preparar-se para sair ou a dormir. A desigualdade de poderes no interior do matrimónio é evidente, algo que adensa as dúvidas que consumem a mente da protagonista, enquanto esta se depara com situações semelhantes às dos seus pais, embora viva numa época distinta, um cenário que conduz a um questionamento sobre as relações no contexto da sociedade contemporânea.

Rosa mantém uma relação conturbada com Clarice (Clarisse Abujamra), a sua mãe, uma mulher divorciada, dona de uma personalidade forte e um feitio algo ríspido, que resolveu revelar dois segredos à filha. As duas mantêm dinâmicas pontuadas por largas discussões, alguns momentos de acalmia e a sensação de que não são assim tão diferentes como querem fazer parecer, com o argumento a abordar de forma perspicaz e certeira a complexidade que existe no interior das relações entre mães e filhas, bem como a capacidade de Clarice para estimular Rosa. Se Clarice consegue tirar Rosa do sério, já Homero surge como um artista naïve, que tem uma visão poética da vida e precisa do apoio da protagonista ao ponto desta por vezes parecer a sua mãe. Por sua vez, José Carlos (Cazé), o pai de um colega de Juliana, aparece como alguém que a compreende e a escuta, com a dupla a protagonizar alguns momentos dignos de atenção. 

A protagonista quer ser amada, ouvida, compreendida e partilhar esses sentimentos com alguém, enquanto tenta encontrar-se consigo própria, explana os seus dilemas, a sua dificuldade em desdobrar-se numa miríade de funções e permite que Maria Ribeiro desenvolva um trabalho sublime. Rosa vive dilemas semelhantes àqueles mencionados por Elis Regina na canção que dá título ao filme, ou a cantora não salientasse "Minha dor é perceber/Que apesar determos feito tudo o que fizemos/Ainda somos os mesmos e vivemos/Ainda somos os mesmos e vivemos/Como os nossos pais". A canção nunca aparece acompanhada com a voz da cantora, embora surja num poderoso momento ao piano, com a música a ter um papel de relevo ao longo do filme, seja nesse trecho, ou quando somos colocados perante o tema "Super Mulher" de Jorge Mautner numa situação de maior leveza e libertação dos sentimentos em que Maria Ribeiro e Cazé sobressaem pela positiva. 

Os intérpretes elevam os diálogos e apresentam elevados níveis de competência, com tudo a ser exposto com enorme naturalismo, enquanto "Como Nossos Pais" efectua uma série de comentários sobre o casamento, as dinâmicas entre mães e filhas, o papel da mulher na sociedade contemporânea, a relevância do diálogo no seio de uma relação, sempre de forma perspicaz, desenvolta, questionadora e a partir de uma elogiável e necessária perspectiva feminina.

Observação: Filme de abertura da nona edição do FESTin.

Título original: "Como Nossos Pais".
Título em inglês: "Just Like Our Parents".
Realizadora: Laís Bodanzky.
Argumento: Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi.
Elenco: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Herson Capri, Antonia Baudouin, Annalara Prates, Sophia Valverde, Jorge Mautner.

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