28 fevereiro 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Fernando Vendrell sobre "Aparição"

 "Aparição" é um dos representantes nacionais da competição de longas-metragens da nona edição do FESTin. Foi exactamente no âmbito da cobertura do certame que o Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar online o realizador Fernando Vendrell. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos como a relação do cineasta com a obra de Vergílio Ferreira, os principais pontos de diálogo entre a realidade de "Aparição" e os nosso dias, entre outros temas.


Rick's Cinema: Na sua entrevista ao site da David & Golias comentou que "Estamos no século XXI e tenho notado que há uma espécie de tentativa de esquecimento de alguns escritores muito importantes como Vergílio Ferreira". Qual a sua relação com esta obra seminal de Vergílio Ferreira e com os trabalhos deste autor? Para si, quais são as razões para esta tentativa de esquecimento do trabalho de escritores como Vergílio Ferreira?

Fernando Vendrell: O romance APARIÇÃO editado em 1959 colocou Vergílio Ferreira em rutura com as suas obras anteriores, inscritas no universo do neo-realismo português, lançando a sua carreira literária para um universo temático de teor “existencialista” e de cariz individual e filosófico. O que me interessou em APARIÇÃO foi esta rutura, a existência de uma obra de transição entre esses dois paradigmas, mas também o facto do escritor inscrever impressões, opiniões e suas duvidas pessoais na narrativa, tornando esta obra alegoricamente biográfica e extremamente intima.


RC: O Alberto procura estimular os alunos a pensar e a reflectir, algo que vai contra os ideais do Estado Novo e do director da escola. Ainda que com as devidas diferenças, sente que esta falta de estimulo ao pensamento e à reflexão dialoga com os nossos dias? Quais os principais pontos de diálogo entre a realidade de "Aparição" e os nossos dias?

FV: O que me chocou foi que esse discurso do professor Alberto possa ser ainda hoje pertinente, a mensagem do livro talvez seja ainda mais atual. Não existindo hoje a censura e o fascismo, a capacitação e formação dos alunos passaria pela aquisição de um livre pensamento e a valorização da pessoa/aluno e da sua subjetividade, o que assistimos é a uma necessidade de objetiva de “condicionamento” do /pessoa em nome de um “ensino funcional”, projetado para resultados e objetivos de avaliação eficazes, que negam a diferença e a individualidade. A inibição da individualidade e da liberdade de pensamento no mundo contemporâneo é algo muito preocupante.

27 fevereiro 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Jaime Freitas sobre "Aparição"

 Inspirado no livro homónimo de Vergílio Ferreira, "Aparição" integra a competição de longas-metragens da nona edição do FESTin. Foi exactamente no âmbito da cobertura do festival que o Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar Jaime Freitas, o intérprete de Alberto, o personagem principal da nova longa-metragem realizada por Fernando Vendrell. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a relação do actor com a obra de Vergílio Ferreira, o trabalho na composição do personagem, entre outros temas.

Rick's Cinema: Qual a sua relação com "Aparição" e os trabalhos de Vergílio Ferreira? Sente que, perante algum esquecimento a que algumas das nossa obras literárias clássicas são votadas, é essencial que o nosso cinema transporte as mesmas para o grande ecrã?

Jaime Freitas: Mal o li senti que estava a ler coisas sobre mim. Houve um envolvimento muito intenso. As questões do Vergílio parece que se tornam nossas. Minhas neste caso. Não só as questões mas os desejos, as vontades, os sonhos... o livro Aparição é um transporte muito especial para um debate sobre a mente humana. Neste caso um debate interior. É muito especial. Como é que surge a nossa "aparição" quando nos olhamos ao espelho e temos aquele pequeno momento, aquela pausa em que nos olhámos nos olhos e perguntamos: Quem somos nós? E não é para sempre... A questão é: quem somos nós agora, com uma certa idade, depois destas experiências e revelações vividas.
 Tanta obra literária Portuguesa que gostaríamos de ver no ecrã. O grande problema é como, quem e com que dinheiro...

26 fevereiro 2018

Crítica: "Não Devore Meu Coração" (2017)

 Filme de imagens inebriantes, que se move ao ritmo da sua marcante banda sonora e do seu grupo heterogéneo de personagens, "Não Devore Meu Coração" balanceia entre a fábula e a realidade, entre rivalidades com raízes profundas e uma romance poético com traços de "Romeu e Julieta", sempre tendo como pano de fundo um território de fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Essa barreira é paradigmaticamente marcada não só pelas águas do Rio Apa, mas também pelas memórias da Guerra do Paraguai e pelas rivalidades entre dois grupos de motoqueiros. É um contexto delicado, ou seja, propício a amores que desafiam a razão e o status quo, que o diga Joca (Eduardo Macedo), um jovem de treze anos de idade que se apaixona por Basano La Tatuada (Adeli Benitez), uma indígena paraguaia de catorze anos de idade. Ela tanto o rejeita como parece sentir uma estranha atracção pelo jovem. Ele sente que o seu coração está na posse da amada.

Os jovens Eduardo Macedo e Adeli Benitez surgem como agradáveis surpresas que contribuem para espelhar a faceta intrincada e romântica da relação que se forma entre os personagens que interpretam. O primeiro insere um estilo sonhador, quase naïf e romântico a Joca. A segunda deixa claro que a guarani não é indiferente ao pretendente, embora tenha consciência das enormes barreiras que os separam, sejam estas relacionadas com a História, a sociedade ou a rivalidade entre familiares. Os diálogos trocados pelos dois jovens parecem imensas vezes saídos de uma fábula, ou de um romance maior do que a vida, algo realçado pelo facto do protagonista acreditar que Basano possui o seu coração. Diga-se que essa faceta de fábula é adensada pelos traços de alguns personagens e por diversos acontecimentos que pontuam a narrativa, bem como pelos cinco capítulos que dividem a história da primeira longa-metragem realizada a solo por Felipe Bragança.

25 fevereiro 2018

Crítica: "Como Nossos Pais" (2017)

 O título de "Como Nossos Pais" remete para a canção homónima composta por Belchior e imortalizada pela poderosa voz de Elis Regina. A música em questão nunca entra em cena pela voz da cantora, mas a sua letra ecoa e de que maneira no interior dos dilemas vividos pela personagem principal e daqueles que a rodeiam. Essa protagonista é Rosa, interpretada com sensibilidade, emoção, carisma, intensidade e autenticidade por Maria Ribeiro, com as suas falas a soarem sinceras ao ouvido do espectador, tal como as suas dúvidas e inquietações, sejam estas relacionadas com o seu papel de mãe, filha, esposa, amante, irmã e mulher. Desdobrar-se em todos estes papéis é praticamente impossível e deixa-a quase sem tempo para "respirar", ou ser ela própria, algo que mexe consigo e traduz os problemas diários de uma série de mulheres ao redor do Mundo.

As elipses permitem exacerbar a faceta caótica do quotidiano de Rosa e dinamizar a narrativa, enquanto o argumento refinado da realizadora Laís Bodanzky e de Luiz Bolognesi permite dotar a protagonista de dimensão e efectuar um interessante e envolvente estudo de personagem. Laís Bodanzky embrenha-se por assuntos relacionados com a mulher na sociedade contemporânea, os conflitos geracionais, a solidão, as crises conjugais e profissionais, o adultério, a paternidade, a maternidade, a sexualidade e a falta de diálogo, sempre a partir da perspectiva de Rosa. A revelação de que Homero (Jorge Mautner) não é o seu pai biológico surge como uma alavanca para a protagonista questionar tudo aquilo que a rodeia, seja o seu modo de vida, o seu trabalho pouco motivante, ou o seu matrimónio com Dado (Paulo Vilhena). Para este, os problemas do casamento resumem-se praticamente à falta de sexo. Para a protagonista, a crise matrimonial tem as suas raízes em questões mais profundas, complexas e difíceis de resolver.

24 fevereiro 2018

Crítica: "Mulher do Pai" (2016)

 Estreia de Cristiane Oliveira na realização de longas-metragens, "Mulher do Pai" embrenha-se pelas fronteiras territoriais e humanas, enquanto aborda com sensibilidade uma série de assuntos que envolvem a relação entre um pai e a sua filha, o luto, a perda da memória visual, a solidão e a adolescência, sempre sem descurar as especificidades do território em que se desenrola o enredo e o modo como este influência os personagens. É um espaço onde muito e pouco acontece, no qual a tradição e a modernidade convivem e a presença uruguaia é sentida, ou não estivéssemos no interior de uma pequena cidade brasileira que se encontra situada nas proximidades da fronteira com o Uruguai. Quem habita neste território é Nalu (Maria Galant), uma das protagonistas, uma adolescente de dezasseis anos de idade, também ela em plena fronteira entre os últimos dias da infância e a chegada às responsabilidades da idade adulta.  

Maria Galant é uma agradável surpresa, com a intérprete a conseguir incutir uma mescla de maturidade e ingenuidade à sua personagem, uma jovem que se encontra a efectuar uma série de descobertas, tem de tomar algumas decisões relevantes e conta com uma curiosidade muito típica da idade. Esta habita com Olga (Amélia Bittencourt), a sua avó, bem como com Ruben (Marat Descartes), o seu pai, um indivíduo na casa dos quarenta anos de idade, que ficou cego quando era mais novo. Os momentos iniciais de "Mulher do Pai" são essenciais para estabelecer a relevância de Olga no dia a dia de Ruben e Nalu, bem como as rotinas destes personagens e as suas dinâmicas. É a veterana quem cozinha, efectua as limpezas, ajuda o filho, trabalha na fiação e educa a adolescente, com a sua morte a mexer com o quotidiano da dupla de protagonistas. 

23 fevereiro 2018

FESTin 2018 - Entrevista aos realizadores de "Limpam com Fogo"

 Documentário inquietante, informativo, dinâmico e questionador, que expõe um caso delicado, afasta qualquer tipo de simplismo e contribui para despertar reflexão, seja esta sobre os assuntos abordados ou no que diz respeito ao nosso papel como cidadãos e seres humanos, "Limpam com o Fogo" é um dos filmes em destaque da nona edição do FESTin. A presença do filme na secção competitiva de documentários surgiu como a oportunidade perfeita para o Rick's Cinema entrevistar online os realizadores César Vieira, Conrado Ferrato e Rafael Crespo, o trio responsável pelo imensamente recomendável "Limpam com Fogo". Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com o trabalho de pesquisa efectuado pelos realizadores, a forma dinâmica como os discursos e a informação são colocados em diálogo, a relação entre o poder político e o sector imobiliário, entre outros temas.

Rick's Cinema: O "Limpam com Fogo" aborda de forma aprofundada a ligação entre os incêndios e a especulação imobiliária, explana o processo de gentrificação que se encontra em curso, bem como a tentativa de que as favelas não se consolidem nos terrenos mais valorizados, para além de contar com entrevistas a um conjunto heterogêneo de pessoas que contribuem para apresentar várias perspectivas. É notório que existiu um intenso e notável trabalho de pesquisa. Como é que se processou o trabalho de pesquisa para a elaboração do documentário? Como surgiu o impulso de desenvolverem "Limpam com Fogo" e abordarem o problema dos incêndios das favelas em São Paulo?

R: O projeto do Limpam com Fogo é, em grande parte, baseado na tese de doutorado da Ana Paula Bruno – uma das urbanistas que aparece no filme. Ela levantou uma base de dados de 20 anos e percebeu a relação entre o aspecto construtivo dos barracos, a localização das comunidades e a propensão a pegar fogo. A pesquisa dela nos permitiu desvendar o mecanismo social que opera por trás da epidemia de incêndios na cidade. É claro que a ideia do filme surgiu muito antes disso – na época ainda éramos estudantes de jornalismo e nos aventurávamos pela cidade em busca de histórias socialmente relevantes para trabalhos de faculdade. Fomos um dia na favela do Moinho, localizada no centro de São Paulo, para fazer um trabalho sobre moradia e descobrimos, através das falas dos moradores, sobre a devastação que o incêndio causou em suas vidas (no caso específico, o incêndio de Dezembro de 2011, que atingiu a comunidade e um prédio abandonado no entorno). A partir daí começámos a investigar sobre o assunto. Em um primeiro momento a intenção era encontrar um culpado: alguém ou um grupo de pessoas que, intencionalmente, incendiasse as favelas. Acredito que o projeto só amadureceu quando nos demos conta de que esse mecanismo social independe de intenção – a maneira como a cidade é construída hoje dá conta, por si só, de preparar o cenário para o incêndio. Não se trata de tacar fogo, mas de deixar queimar. Nesse teatro macabro somos todos culpados.


RC: Ao longo do documentário é particularmente notório que o sector imobiliário beneficia imenso com estes incêndios, embora exista uma relação bastante promiscua entre a especulação imobiliária e a classe política, algo que parece contribuir para não resolver o problema. Como encaram esta relação entre o poder político e o sector imobiliário?

R: Para qualquer um que acompanha o noticiário politico recente do Brasil fica evidente a promiscuidade entre o empresariado e os políticos do País. Para além de desvios e falcatruas com dinheiro público para beneficio próprio, existe, na base do problema, a questão do financiamento de campanhas e partidos. O atual modelo cria um clientelismo entre representantes do povo e aqueles que lhes financiam – um problema que atravessa todo o espectro politico. Por aqui se convencionou recortar os diversos parlamentares em bancadas: falamos em bancada evangélica, bancada da bala, bancada do agronegócio, de acordo com a origem do dinheiro que viabilizou a sua presença no parlamento, de forma que o debate politico hoje, em sua maior parte, não se dá mais entre representantes do povo, mas por representantes econômicos. Com isso em mente, e pensando na problemática do incêndio em favela e como ela foi tratada pela Câmara dos Vereadores de São Paulo, podemos afirmar, sem medo de erro, que existe na cidade uma bancada do cimento, que defende interesses de construtoras e incorporadoras e agiu para enterrar as investigações da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), como o filme mostra.

22 fevereiro 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Cristiane Oliveira sobre "Mulher do Pai"

 Estreia de Cristiane Oliveira na realização de longas-metragens, "Mulher do Pai" embrenha-se pelas fronteiras territoriais e humanas, enquanto aborda com sensibilidade uma série de assuntos que envolvem a relação entre um pai e a sua filha, o luto, a perda da memória visual, a solidão e a adolescência, sempre sem descurar as especificidades do território em que se desenrola o enredo e o modo como este influência os personagens. "Mulher do Pai" é um dos grandes filmes da edição de 2018 do FESTin, onde integra a Competição de Longas-Metragens.

 O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar online a realizadora Cristiane Oliveira. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com os principais desafios de abordar a perda de memória visual e de conseguir transmitir a importância que o tacto tem para Ruben, o trabalho efectuado com Maria Galant na composição da Nalu, as dinâmicas entre a actriz e Marat Descartes, entre outros temas.


Rick's Cinema: Na sua entrevista ao IG, salientou que "Mulher do Pai" é um "filme de fronteiras". Podemos dizer que é um filme que se embrenha pelas fronteiras territoriais e das relações humanas? Como surgiu a ideia de colocar o enredo do filme a ter como pano de fundo um território de fronteira entre o Brasil e o Uruguai?

Cristiane Oliveira: Escolhi a região de fronteira com o Uruguai, que tem uma qualidade fluída muito especial – os limites às vezes não são tão rígidos e a troca cultural é permanente. Para além de locação, a fronteira é um espaço simbólico. Num filme que fala sobre toque, a pele também se apresenta como uma fronteira entre o espaço interno e o externo, um limite que se impõe também entre duas pessoas. MULHER DO PAI trata das fronteiras reais e daquelas que construímos para nós mesmos. Por outro lado, o estado brasileiro que está nessa fronteira, o Rio Grande do Sul, tem uma cultura cuja base foi a criação de gado, atividade em que não há espaço para a mulher. Soma-se a isso um certo orgulho de ser guerreiro, talvez resultado de uma história recente de 100 anos de guerra. Como consequência, temos uma cultura patriarcal, muitas vezes machista, o que não se restringe ao meio rural. Um machismo que gera na mulher um senso de incapacidade e de falta de autonomia. Como se vê na protagonista do filme, que só imaginava deixar a casa do pai se fosse por outro homem. Essa “clausura cultural” seria permeada pela troca com “o estrangeiro”, que circula nessa região fronteiriça, trazendo um ar, uma renovação para essas relações.


RC: A casa de Ruben encontra-se muitas das vezes praticamente despida de iluminação e de presença humana, algo que adensa uma certa sensação de solidão e isolamento em volta dos personagens principais. A própria localização da casa contribui para essa solitude, com a habitação a encontrar-se situada num espaço rural que se encontra a alguma distância da restante população. Pode falar-nos um pouco sobre o trabalho que foi efectuado a nível da decoração e representação deste cenário e os motivos que conduziram à escolha da sua localização?

CO: Nasci e cresci em Porto Alegre, capital do estado mais ao sul do Brasil, o Rio Grande do Sul. É uma cidade que tem situação geográfica privilegiada por ser próxima do litoral, da serra e da fronteira (com Uruguai e com Argentina). Com isso, os moradores da capital têm o hábito de sair da cidade nos fins-de-semana e férias. Nesses trajetos pelas estradas do estado, vê-se com frequência casas solitárias em campos a perder de vista. Sempre tive curiosidade sobre como seria a vida das pessoas que viviam nelas. Quando comecei o argumento de MULHER DO PAI, esse cenário de isolamento me inspirou por reforçar a tensão entre os personagens. Quando chegamos a essa casa que é cenário do filme, nas pesquisas que fiz pela fronteira na fase de desenvolvimento, ela tinha o isolamento e os campos retos típicos dessa região que eu buscava. Ao entrarmos na casa, a família do lugar tinha uma história muito parecida com os personagens: a avó do atual dono trabalhava lã ali, ele quando jovem a ajudava nesse trabalho, entre outras coisas. Foi um encontro mágico. O galpão da tecelagem, porém, nós construímos para o filme, pois dentro da casa era muito pequeno para situar as atividades deles ali. E o resultado como um todo que se vê na tela é muito fruto da integração das equipes de direção, foto e arte que estiveram juntas desde o início, colaborando nas decisões de escolha de locações, cores, texturas e mesmo na decupagem dos planos.

21 fevereiro 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Maria Galant sobre "Mulher do Pai"

 Estreia de Cristiane Oliveira na realização de longas-metragens, "Mulher do Pai" embrenha-se pelas fronteiras territoriais e humanas, enquanto aborda com sensibilidade uma série de assuntos que envolvem a relação entre um pai e a sua filha, o luto, a perda da memória visual, a solidão e a adolescência, sempre sem descurar as especificidades do território em que se desenrola o enredo e o modo como este influência os personagens. "Mulher do Pai" é um dos grandes filmes da edição de 2018 do FESTin, onde integra a Competição de Longas-Metragens.

O Rick's Cinema teve o enorme prazer de entrevistar online a actriz Maria Galant, a intérprete de Nalu, uma das protagonistas do filme. Galant é uma agradável surpresa. A actriz consegue incutir uma mescla de maturidade e ingenuidade à sua personagem, uma jovem que se encontra a efectuar uma série de descobertas, tem de tomar algumas decisões relevantes e conta com uma curiosidade muito típica da idade. O resultado final da entrevista é deveras interessante, algo que se deve à enorme disponibilidade e simpatia de Maria Galant a responder às perguntas. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a dinâmica entre a actriz e Marat Descartes, o trabalho com Cristiane Oliveira, a influência do território onde a obra foi filmada, os principais desafios que Maria Galant encontrou a compor Nalu, entre outros temas.


Rick's Cinema: Li no seu site que estuda Artes Visuais, teatro, circo, desenho e fotografia. Como surgiu o seu interesse nestas áreas? O quanto esta mistura de experiências enriquece o seu trabalho como actriz de cinema?

Maria Galant: Essas coisas todas surgiram na minha vida de maneira muito diferente. Meu pai é fotógrafo amador, então fotografia sempre foi algo muito recorrente aqui em casa, e muito valorizado. Desde pequena meus pais me colocaram em cursos de arte e teatro, então acho que o gosto pelas várias áreas relacionadas à arte vem desde que eu me conheço por gente. Eu comecei a fotografar quando ainda estava no colégio, gostava muito de explorar fotografia analógica e processos fotográficos antigos, então meus pais reativaram um laboratório de revelação preto-e-branco que tinham guardado, na nossa lavandaria. A partir daí eu tive a possibilidade de explorar em casa e nos cursos que fazia todas as áreas da foto - fotografar, revelar, experimentar nelas, tenho alguns trabalhos de fotografias pintadas à mão, como antigamente, com aquarela e até com canetinha.

 A fotografia foi uma das coisas que me fez decidir pelo curso que estudo. Por muito tempo estive em dúvida entre estudar cinema e psicologia também, mas quando assisti ao filme brasileiro Bicho de Sete Cabeças, da Laís Bodanzky (que está no FESTIN com o longa novo dela, Como Nossos Pais), eu me dei conta que existem outras maneiras de ajudar as pessoas sem ser da forma ortodoxa. Por isso faço licenciatura, acredito muito no poder de transformação da arte - que o cinema, por ser acessível, tem um papel muito importante de transformação social. Por exemplo, onde eu estudo, fui bolsista voluntária de um projeto de oficina de cerâmica para pessoas diagnosticadas esquizofrênicas, e é muito lindo ver como a arte de fato ajuda. Isso tudo faz parte de quem eu sou, e acredito que como atriz, quando a gente “pega” algum personagem, a gente não faz de conta que é alguém, ou empresta coisas nossas para essa nova pessoa, a gente de fato é um pouco dessa outro ser, enquanto esse outro ser é um pouco a gente. Sinto que que todas as personagens que fiz até agora me mudaram muito. A Nalu, do Mulher do Pai me provou que eu tenho condições de ser independente, de tomar minhas próprias decisões, e que não tem problema querer se priorizar, mesmo que eu tenha a mesma dificuldade que ela de me descolar da minha família.

 Para o Mulher do Pai, o fato de eu ser estudante de artes me ajudou muito a entender o filme que estávamos fazendo. A Cristiane Oliveira é uma pessoa extremamente sensível e cuidadosa com cada detalhe do filme dela, e durante o nosso tempo de pré-produção, ela fez um trabalho de sensibilização muito importante para mim. No primeiro momento, nos falávamos por Skype a cada 15 dias. Conforme a proximidade das filmagens, passámos a ensaiar presencialmente. Porém, nesse primeiro momento, ela sempre me passava referências de filmes, livros, obras de arte, pinturas, fotógrafos que ela gostaria que eu conhecesse e me relacionasse para entender o universo da Nalu, a linguagem que seria usada no filme e o tipo de discurso sobre juventude que apresentaríamos.


RC: A Cristiane Oliveira apresenta um trabalho extremamente seguro em "Mulher do Pai", sendo capaz de extrair o melhor do elenco. Como é a relação da Cristiane Oliveira com os actores? Como avalia o trabalho que efectuaram durante as filmagens de "Mulher do Pai"?

MG: A Cristiane é uma pessoa extremamente sensível, batalhadora e cuidadosa. Quando conversei com ela pela primeira vez sobre a história do filme, eu tive duas reações instantâneas. A primeira foi ficar encantada com a historia, eu queria demais fazer parte disso. A nossa conversa foi tão boa, que eu saí querendo ser amiga dela, mesmo que não conseguisse o papel; mas ao mesmo tempo, eu tive muito medo de não dar conta, disse para ela que a minha vida era muito fácil, minha família é estável, e que eu de fato não sabia se tinha carga emocional o suficiente para assumir a Nalu. Ainda assim, a Cris viu em mim potencial para contar essa história que eu mesma não tinha visto.

Por ser meu primeiro longametragem e também já minha primeira protagonista em um filme, a Cris foi muito cuidadosa com a construção da personagem. Eu só fui pegar o roteiro em mãos na hora de filmar, até lá, ela me contava cena por cena e nós conversávamos sobre como achávamos que a Nalu falaria cada uma das coisas. Para as cenas dos telefonemas, por exemplo, ela deu para mim e para a Fabiana Amorim (que faz a Elisa, melhor amiga da Nalu no filme) um gravador e cinco minutos para cada em um quartinho separado para contamos ou inventarmos histórias de primeiros beijos e coisas assim, para que ela pudesse ter um repertório de vocabulário que meninas da idade das personagens usariam para descrever as situações para uma amiga. Mesmo eu só tendo o roteiro na hora da filmagem, a diretora sempre cuidou para que eu estivesse muito segura sobre a personagem e seus conflitos. Trabalhar com a Cris foi como ter sempre uma amiga por perto. Filmámos em uma região bem isolada e com pouco contato com quem estava fora. Eu tentava ligar para os meus pais toda noite antes de dormir, mas nem sempre conseguia, fiquei sem contato com meus amigos e alguns dias eu ficava bem para baixo, a Cris sempre me chamava para conversar, foi ótimo ter tido essa primeira experiência guiada justamente por ela.

Acho que as palavras-chave para o trabalho de direção da Cristiane no Mulher do Pai foi confiança e respeito. Em nenhum momento me senti menor por ser meu primeiro trabalho, que era algo que eu tinha medo quando entrei no projeto, dividir cena com atores como o Marat Descartes e a Veronica Perrotta - que eu já conheci e admirava o trabalho - logo de estreia, só de pensar já me dá frio na barriga de novo, mas a direção sempre respeitou os meus limites - inclusive físicos -, e confiou muito em mim para viver a Nalu. Sou imensamente grata pela chance que me foi dada para contar essa história, mesmo que eu faça 500 outros filmes, o Mulher do Pai, a equipe, o elenco e a Nalu vão ter sempre ocupar um espaço muito importante dentro de mim.

20 fevereiro 2018

Entrevista a Luís Campos sobre a quarta edição do GUIÕES - Festival de Roteiros de Língua Portuguesa

 A quarta edição do GUIÕES - Festival de Roteiros de Língua Portuguesa vai decorrer entre os dias 2 e 4 de Março. A edição deste ano conta não só com as célebres sessões de Pitching, mas também com Masterclasses de Pablo Villaça e José Carvalho, bem como debates dotados de interesse. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar Luís Campos, o director e criador do GUIÕES. Ao longo da entrevista forma abordados assuntos relacionados com os principais desafios de preparar a quarta edição do GUIÕES, a parceria com o FESTin, o processo de selecção de finalistas, as masterclasses, entre outros temas.

Rick's Cinema: O Luís Campos já conta com uma série de argumentos no currículo, entre os quais do bem conhecido "Um Funeral à Chuva", para além de ter realizado diversas curtas-metragens. Sente que um festival como o GUIÕES teria sido importante para apresentar os seus argumentos após ter finalizado o Curso de Cinema na UBI? O argumentista que apresenta o seu trabalho no GUIÕES tem um palco privilegiado para dar a conhecer e valorizar o seu argumento? 

Luís Campos: Enquanto guionista eu próprio (ou aspirante a tal), senti que existia espaço para fazer mais e melhor pelos guionistas de Língua Portuguesa. As dificuldades que encontrei nas tentativas de contacto com produtores, a carência de diálogo e de oportunidades em torno da actividade de escrita cinematográfica, a escassa visibilidade do próprio cinema de Língua Portuguesa e alguma falta de representatividade do sector, todos esses factores me motivaram a criar uma espécie de plataforma que se permitisse a dar voz aos guionistas de Língua Portuguesa. Costumo dizer que o GUIÕES foi criado e tem vindo a ser moldado na lógica do festival que, enquanto guionista, eu gostava que existisse - quem me dera poder participar eu próprio no GUIÕES. Não duvido, tendo em conta os esforços contínuos que o GUIÕES aplica para aproximar os guionistas da restante indústria, que o festival proporciona um palco privilegiado para quem escreve cinema em Língua Portuguesa. O objectivo passa por afirmar cada vez mais o GUIÕES enquanto local de criação cinematográfica de eleição e dotá-lo de uma capacidade cooperativa de geração de negócios entre os vários países de Língua Portuguesa.


RC: A parceria com o FESTin é mais um passo para o crescimento do GUIÕES? Quais foram os principais desafios que encontrou a preparar a quarta edição do GUIÕES?

LC: O GUIÕES nasceu fruto da vontade de uma pessoa. Num determinado quarto, numa determinada secretária, num computador. Tal qual como cada projecto cinematográfico. Aos poucos a ideia foi gerando intenções de apoio, primeiro em São João da Madeira (onde teve lugar a 1ª edição do festival), depois em Lisboa. Várias entidades e pessoas têm acreditado no projecto, empenhando apoios diversos (nomeadamente na questão dos prémios para os vencedores) e tantas outras manifestam princípios de interesse que depois não se concretizam. O festival continua a existir sem qualquer apoio monetário, financiando-se exclusivamente através da taxa de submissão de projecto por participante, e a parceria com o FESTin permite consumar uma vontade que já vinha desde a edição anterior - ampliar o programa para mais dias de festival, permitindo mais oportunidades de visibilidade para os projectos que são apresentados no âmbito do GUIÕES e incorporar mais momentos de partilha e de diálogo (que este ano serão materializados sobretudo nas Masterclasses com o Pablo Villaça e com o José Carvalho).
 Tinha a ideia de que cada nova edição seria um pouco mais fácil de montar, dado o histórico crescente do festival, mas a verdade é que tem sido o cenário oposto. É um festival low cost, filho da crise, que tem encontrado muita resistência em questões por vezes difíceis de compreender e/ou aceitar. Nesse sentido, a manifestação de interesse do FESTin nesta parceria tem sido de enorme apreço. Permitiu-nos reforçar o nosso conceito, ampliar as actividades sem ter de deixar o espaço que tem sido a nossa casa desde a 2ª edição do festival (Cinema São Jorge) e potenciar a programação conjunta - toda ela em torno do cinema de Língua Portuguesa. Estamos muito gratos por este elo que se criou e esperamos que possa perdurar por muitos mais anos.

FESTin 2018 - Entrevista a Renata Pinheiro sobre "Açúcar"

 "Açúcar" coloca em diálogo o passado e o presente de uma propriedade e de uma mulher. Esse diálogo permite que o filme se envolva pela História do Brasil, seja pelas questões raciais, o esclavagismo, o racismo, as assimetrias sociais e as transformações que ocorreram ao longo do tempo, enquanto conversa com os dias de hoje e estimula reflexão. A longa-metragem realizada por Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira é um dos destaques da nona edição do FESTin, algo que permitiu ao Rick's Cinema entrevistar a cineasta.

Rick's Cinema: A Maeve Jinkings já tinha trabalhado consigo no "Amor Plástico e Barulho". Em ambos os casos, a actriz conta com interpretações de grande nível. Como é que trabalhou a composição de Bethania com a Maeve Jinkings? Já tinha escrito a personagem da Bethania a pensar nela ou ela entrou depois do argumento já estar finalizado?

Renata Pinheiro: Quando o a personagem Bethania surgiu no argumento, logo pensamos em Maeve. Tínhamos saído de um processo muito construtivo no Amor, Plástico e Barulho e mais uma vez ela se encaixaria perfeitamente ao perfil da personagem Bethania. Ela é uma atriz talentosa e inteligente. Vai além da técnica. É sempre muito bom trabalhar com atores que buscam uma total compreensão do projeto e que pensam para além do ponto de vista da personagem.


RC: Você e o Sérgio Oliveira já trabalharam em conjunto em algumas obras cinematográficas, seja no roteiro seja na direção. O quanto existe de cada um no interior de "Açúcar"?

RP: Dividimos a direção e roteiro dos filmes Estradeiros (longa, doc) e Praça Walt Disney (curta, doc) ambos com carreiras bem relevantes com exibições em muitos festivais e países. Trabalharmos juntos é muito natural pois dividimos muitas inquietações. O Açúcar nasceu de um sonho que tive e partilhei com Sergio. A imagem era muito potente, um barco a vela que navegava sobre uma grande plantação de cana-de-açúcar. Essa imagem intuitiva trazia muito da história do nosso país. Sergio teve esta compreensão imediata. Frequentamos muito a casa do engenho, principalmente no momento em que tivemos nossa filha. Aprendemos a cuidar do bebé à moda antiga, a tia da minha mãe ainda era viva e nos ensinou tudo. Temos boas recordações daquele período das nossas vidas mas o duro contexto histórico daquela casa sempre nos levou a querer desenvolver um projeto ali. O Açúcar é um projeto que dividimos totalmente. Percebo hoje que nosso trabalho solo é bem diferente do que desenvolvemos juntos. Cada um tem a sua característica e juntos temos uma parceria bastante complementar.

19 fevereiro 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Felipe Bragança sobre "Não Devore Meu Coração"

 Filme de imagens inebriantes, que se move ao ritmo da sua marcante banda sonora e do seu grupo heterogéneo de personagens, "Não Devore Meu Coração" é uma das longas-metragens em destaque na nona edição do FESTin. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar o realizador Felipe Bragança sobre esta recomendável obra cinematográfica. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a banda sonora, os maiores desafios para captar e expressar as características do território, o trabalho com Eduardo Macedo e Adeli Benitez, entre outros assuntos.


Rick's Cinema: A banda sonora tem uma enorme influência na narrativa de "Não Devore Meu Coração", seja para sublinhar as emoções, ou para criar uma atmosfera envolvente e inebriante. Por vezes quase a ditar o ritmo do enredo (como nos momentos em que encontramos os motoqueiros durante a noite, com os sintetizadores "à John Carpenter" a serem sentidos). Como trabalhou a inclusão da trilha sonora no interior da narrativa? Já tinha pensado na mesma enquanto estava a desenvolver o roteiro do filme ou foi algo que nasceu com o avançar das filmagens?

Felipe Bragança: Desde a escrita do roteiro eu começo a visualizar o ritmo e o tom de cada cena, o que costuma ser também algo que vem musicalmente na minha cabeça: costumo dizer que eu estou pronto parar filmar uma cena quando tenho a intuição da sonoridade que ela vai ter. Dessa forma, a sonoridade de sintetizadores pontuando o sentido de suspensão onírica do filme foi se tornando presente na escrita e na edição. Assim como a pontuação de músicas regionais (sertanejas e reagtones) trazendo uma musicalidade mais terrena e documental a determinadas cenas. Em todo esse processo, o trabalho e sensibilidade do Fernando Henna (designer de som) e do Baris Arkadere (músico holandês) foi mais do que central.


RC: O território de fronteira entre o Brasil e o Paraguai que é apresentado em "Não Devore Meu Coração" é marcado não só pelas águas do Rio Apa, mas também pelas memórias da Guerra do Paraguai. Quais os maiores desafios que encontrou para captar e expressar as características deste território de fronteira e a geografia das emoções que percorrem os seus personagens?

FB: Foram 4 anos de visitas à região. Há algo de muito específico na paisagem humana da fronteira. A mistura desorganizada e matizada da cultura brasileira, paraguaia e guarani. Desde o início em que pensei em se este filme eu tive uma certeza: só poderia ser filmado em uma cidade ela de fronteira e com a presença de muitos não-atores locais. As pessoas da região carregam nos olhos memórias da guerra e das mitologias da violência daquela terra, de uma forma que eu acho praticamente impossível recriar, imitar. Corpos e a terra vermelha da região se misturam. O desafio era justamente conseguir construir uma fábula onírica que estivesse muito conectada com a materialidade deste lugar.

18 fevereiro 2018

Crítica: "The Florida Project" (2017)

 Um dos maiores méritos de "The Florida Project" é a sua capacidade de transmitir a sensação de que partilhamos o dia a dia com os seus personagens, enquanto travamos conhecimento com os mesmos e começamos a conhecer o espaço onde habitam. O cenário é Kissimmee, na Florida, um território recheado de motéis baratos, que se encontra bem perto do Walt Disney World. O contraste entre os dois espaços não poderia ser mais clarividente e enfático. Se o Walt Disney World simboliza prosperidade, alegria, fantasia e escapismo, já o espaço de Kissimmee que nos é apresentado traduz as dificuldades de quem não foi bafejado com as sortes do American Dream e lida de perto com o espectro do desalojamento. A câmara de filmar capta e transmite o quotidiano destes elementos e deste espaço com enorme vivacidade e genuinidade, enquanto os intérpretes têm o condão de fazer com que nos esqueçamos temporariamente de que se encontram a compor personagens ficcionais.

A jovem Brooklynn Prince, uma grande descoberta cinematográfica, é um desses exemplos, com a intérprete a compor uma personagem de complexidade e espessura surpreendente. A actriz consegue transmitir a precocidade da sua Moonee e a sua ingenuidade, bem como a sua rebeldia, a sua capacidade para envolver-se em confusões e o seu gosto por xarope de ácer. Moonee é uma rapariga de seis anos de idade que vive com Halley (Bria Vinaite), a sua mãe, num pequeno quarto do Magic Castle, um motel barato onde habitam uma série de pessoas com poucas posses financeiras. Bria Vinaite é outro dos trunfos que o realizador Sean Baker tirou da manga, uma estreante nas lides cinematográficas que consegue expressar com enorme energia e naturalidade a personalidade errática, extrovertida, imatura e irresponsável da sua personagem, uma mãe solteira que se encontra desempregada. O próprio visual desta personagem e o seu guarda-roupa exacerbam a sua faceta rebelde e vivaz, sejam os seus cabelos entre os tons loiros e azulados, ou as suas roupas maioritariamente leves e de cores quentes ou garridas, ou as suas tatuagens, com estas a surgirem como um traço afirmador da sua personalidade.

16 fevereiro 2018

Entrevista a Roni Nunes sobre a Nona Edição do FESTin

 O FESTin chega à sua nona edição, uma ocasião perfeita para efectuar mais uma entrevista a Roni Nunes, um dos programadores do certame. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com os principais desafios de preparar a programação da nona edição do FESTin, as temáticas em diálogo em diversas longas-metragens, o sucesso do cinema brasileiro nos grandes certames, a selecção dos filmes de abertura e encerramento, a presença de Pablo Villaça, entre outros assuntos.

Rick's Cinema: Quais os principais desafios de preparar a programação da nona edição do Festin?

Roni Nunes: Cada nova edição trás sobre si o peso das anteriores – e com isso um nível de exigência acrescido. Em termos de cinema lusófono, tem havido uma relativa facilidade na busca por projetos interessantes no caso do cinema brasileiro, enquanto em Portugal há sempre uma grande luta para apresentar filmes inéditos em Lisboa devido ao pouco número de projetos existentes, a existência de outros festivais e a estratégia comercial das distribuidoras. Este ano foi algo resolvido de forma particularmente feliz – com vários projetos lusitanos nas diferentes seções. Também será a primeira edição onde todos os países ligados à comunidade lusófona serão representados. É o caso de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e Timor-Leste.
  
RC: A abrir a nona edição do FESTin temos "Como Nossos Pais" e a fechar contamos com "As Duas Irenes". Como é que chegaram à decisão de seleccionar estes filmes para abrir e encerrar esta edição do certame?
  
RN: “Como nossos Pais” é daqueles filmes que consegue reunir praticamente de tudo – qualidade estética, temáticas relevantes e uma enorme acessibilidade junto do público – algo particularmente importante numa sessão de abertura. É um filme intenso e que já tem um “twist” nos primeiros 15 minutos. Essa qualidade dramática acaba por ser particularmente eficaz ao abordar o tema do papel da mulher e das relações familiares na sociedade contemporânea.
 Já “As Duas Irenes” tem uma enorme qualidade poética e aborda outro extrato – o universo adolescente. Novamente é um filme agradável e bonito – com todos os requisitos para uma belíssima sessão de encerramento.
 Ambos os filmes vêm de marcantes passagens pelo Festival de Berlim. Lá eles herdaram a boa vontade do público alemão com o cinema brasileiro – numa via aberta anteriormente pela Anna Muylaert – por acaso também num filme com forte temática feminina (“Que Horas Ela Volta”). As sessões foram muito aplaudidas. “As Duas Irenes” fez parte da seção Generations, dedicado a um público mais jovem, e terminou por ser uma grata surpresa para o público que, a exemplo do que costuma acontecer lá, havia lotado as sessões.

14 fevereiro 2018

Crítica: "Alias María" (2015)

 A fotografia dessaturada de Sergio Iván Castaño permite realçar a crueza e a desesperança que percorrem o enredo de "Alias María", um drama onde as tonalidades verdes e castanhas predominam, embora estejam longe de simbolizar esperança ou estabilidade. O enredo coloca-nos diante do conflito armado na Colômbia a partir da perspectiva de María (Karen Torres), uma guerrilheira de treze anos de idade que conserva no seu rosto a inocência da juventude, embora tenha de viver praticamente como uma adulta e lidar com situações extremamente delicadas. O seu rosto exibe uma certa melancolia, própria de alguém que perdeu a infância e foi obrigado a quebrar etapas em direcção à idade adulta, com o olhar de Karen Torres a ser essencial para transmitir as emoções da protagonista, ou não estivéssemos perante uma pré-adolescente pouco faladora, que apresenta uma mescla de maturidade e inexperiência.

A arma que carrega às costas surge quase como uma extensão do seu corpo, algo exacerbador da violência que percorre o seu dia-a-dia, enquanto a farda retira-lhe alguma da sua individualidade e exprime as características militares do grupo do qual faz parte. São poucos os momentos em que encontramos María a fazer com que a sua voz seja ouvida, ou a expor os seus sentimentos junto daqueles que a rodeiam. Esta foi formatada para obedecer às ordens dos seus superiores, embora esconda que se encontra grávida de Mauricio (Carlos Clavijo), um guerrilheiro algo frio, duro e impetuoso, com quem mantém um caso. Com excepção de Diana (Lola Lagos), a companheira do Comandante (Fabio Velazco), todas as guerrilheiras estão proibidas de ter filhos, algo que coloca em evidência uma das muitas incoerências entre os valores defendidos por estes elementos e os seus actos.

10 fevereiro 2018

Crítica: "Il permesso - 48 ore fuori" (2017)

 Simples nas suas pretensões e na sua execução, "Il permesso - 48 ore fuori" aparece como um filme-mosaico algo irregular, nem sempre capaz de fugir às armadilhas deste formato ou de optar pela subtileza, enquanto nos apresenta a quatro presidiários que receberam permissão para passarem dois dias fora da prisão de Civitavecchia. Inicialmente não sabemos os crimes que Donato (Luca Argentero), Rossana (Valentina Bellè), Angelo (Giacomo Ferrara) e Luigi (Claudio Amendola) cometeram, embora, aos poucos, sejamos colocados diante da personalidade dos quatro protagonistas, do contexto que os rodeia e dos actos que efectuaram no passado. Diga-se que um dos pontos fortes do filme é a sua capacidade para conseguir despertar o nosso interesse em relação a alguns destes presidiários, tais como Rossana, Angelo e Luigi, sobretudo os dois últimos, com Valentina Bellè, Giacomo Ferrarea e Claudio Amendola a ajudarem a essa situação ao atribuírem alguma densidade a estes elementos.

Giacomo Ferrara exprime de forma convincente o estilo algo atrapalhado, comunicativo e leal do personagem que interpreta. Já Valentina Bellè exibe a instabilidade emocional de Rossana, uma jovem que foi detida devido a transportar dez quilos de droga para Itália e conta com uma família com imensas posses financeiras. Ainda numa fase prematura do filme, encontramos Angelo a meter conversa com Rossana e a pedir-lhe boleia para casa, com a dupla a apresentar alguma química e a formar uma relação que evolui de forma convincente ao longo da obra, seja em momentos dotados de humor, tais como o episódio em que fazem sexo no carro, ou pontuados pela sinceridade. Observe-se o momento em que jantam numa roulotte, ou o episódio em que dialogam de forma sincera nas imediações de um jardim. Diga-se que Claudio Amendola traça uma dicotomia eficaz entre o cenário e os dois presidiários, com a estabilidade do jardim a contrastar com a instabilidade da vida pessoal de ambos. Estes têm de tomar decisões difíceis para o futuro: Angelo é bem recebido pelos amigos, com a euforia a rodear inicialmente o reencontro, embora o jovem seja rapidamente confrontado com os planos destes para um furto; Rossana pondera não regressar à prisão e fugir de Itália, enquanto coloca a sua casa em polvorosa e entra em choque com a mãe (uma personagem que raramente tem espaço para se soltar das amarras dos lugares-comuns).

08 fevereiro 2018

Crítica: "Neruda" (2016)

 Como realizar um filme de pendor biográfico sobre Pablo Neruda? É uma pergunta a que Pablo Larraín responde de forma improvável: no formato de policial com ingredientes de noir, road movie e suspense, tendo um comissário e o famoso poeta e político chileno como figuras centrais, sempre sem descurar o contexto histórico e o retrato da atmosfera da época. Larraín concentra-se num período específico da vida do protagonista, embrenha-se pelas liberdades criativas e pelos factos históricos ao mesmo tempo que foge ao retrato hagiográfico do poeta. O Pablo Neruda que Luis Gnecco interpreta é um individuo recheado de contradições, que tanto tem de idealista e altruísta como de egocêntrico e egoísta, que se preocupa com a sua imagem e sabe o poder da sua figura no imaginário daqueles que o rodeiam. É uma abordagem que permite atribuir ainda mais espessura e complexidade ao protagonista, algo que Gnecco consegue transmitir, com o actor a explanar não só o carisma deste poeta e político chileno, mas também o seu engajamento político e a força da suas palavras.

 Quando recita poemas, Neruda deixa quase tudo e todos presos à sua figura, seja numa festa luxuosa, ou no interior dos bordéis (locais que gosta imenso de frequentar), com a sua poesia a estar em destaque, bem como a sua vertente de político e os seus ideais comunistas. No início do filme ficamos precisamente perante a faceta política do poeta, quando crítica abertamente o Presidente Gabriel González Videla (Alfredo Castro), em pleno congresso, devido à perseguição que este efectua aos comunistas e aos líderes sindicais. O enredo começa em 1948, em plena Guerra Fria, numa fase política e socialmente conturbada do Chile. Note-se que Videla está sob a esfera dos EUA, tendo aprovado a lei de "Defesa Permanente da Democracia", que visa proibir a participação política do Partido Comunista de Chile. O então Presidente iniciou ainda uma perseguição aos comunistas, uma situação que conduziu diversos militantes a terem de viver na clandestinidade ou exilados, entre os quais Pablo Neruda.

04 fevereiro 2018

Crítica: "Detroit" (2017)

  A câmara de filmar está quase sempre em movimento ao longo de "Detroit", pronta a captar as emoções e a exacerbá-las. É um recurso que resulta, sobretudo quando a realizadora Kathryn Bigelow atira-nos em conjunto com os personagens para o interior do Motel Algiers e constrói alguns momentos de pura inquietação e violência. A cineasta mescla factos e ficção para se embrenhar pelo interior dos motins de Detroit, em 1967, desde o raid a um clube nocturno a 23 de Julho, exposto de forma intensa, passando pelas revoltas nas ruas, fruto de anos de segregação e discriminação, até concentrar as suas atenções no virulento interrogatório levado a cabo pelas autoridades a um grupo de hóspedes do Algiers.

O racismo e a violência policial contra os negros são temáticas que continuam na ordem do dia nos EUA. Bigelow aborda esses temas a partir de um episódio revoltante da História desta Nação, enquanto conduz um pedaço de cinema intenso e inquietante, capaz de colocar em realce as tensões raciais nos EUA, as desigualdades e as injustiças sociais e a forma como o Governo e a justiça nem sempre conseguem proteger os seus cidadãos. Para isso, a cineasta atira-nos para o interior de Detroit, em 1967, uma cidade-vulcão que entrou em erupção após o raid mencionado. Diversos estabelecimentos e carros são destruídos, a instabilidade e a insegurança pairam por todos os poros, enquanto a presença da polícia e dos bombeiros é rechaçada. Estes episódios são expostos num estilo documental e imediato, tendo em alguns momentos a companhia de imagens de arquivo que reforçam a faceta verídica dos motins, enquanto ficamos diante da violência que envolveu a revolta e a sua repressão.

01 fevereiro 2018

Crítica: "Get Out" (Foge)

 Sempre que tenho oportunidade procuro visualizar duas vezes a mesma obra cinematográfica antes de escrever uma crítica. Nem sempre é possível, embora este exercício permita efectuar uma análise mais ponderada do filme e contribua para perceber se este resiste a mais do que uma visualização. "Get Out" não só sobrevive a um novo visionamento como consegue sair imensamente valorizado, algo que realça as qualidades do sólido argumento de Jordan Peele, um cineasta que se estreia com enorme sucesso na realização de longas-metragens. Peele controla com precisão os ritmos do enredo, utiliza e subverte alguns dos lugares-comuns dos filmes de terror e cria toda uma atmosfera tensa, com esta a ser exacerbada quer pelo meticuloso trabalho de câmara, quer pelo design sonoro, bem como pelas pequenas pistas que são deixadas ao longo de "Get Out".

Aquilo que mais desperta à atenção não são os sustos avulsos, mas sim a perspicácia dos diálogos e a forma simultaneamente subtil e escancarada como o enredo se envolve pelas temáticas relacionadas com a discriminação racial e o racismo, seja aquele que é exibido de forma directa, ou as reacções aparentemente inocentes que revelam imenso preconceito e despertam desconforto. São falas que podemos ouvir facilmente no nosso dia-a-dia, que estão longe de pertencer apenas ao campo ficcional e permitem um diálogo dotado de interesse entre "Get Out" e a nossa sociedade e a nossa História. "O meu pai votaria no Obama de novo se pudesse", diz Rose Armitage (Allison Williams) a Chris Washington (Daniel Kaluuya), o seu namorado, tendo em vista a demonstrar que Dean (Bradley Whitford), o seu progenitor, não é racista, um argumento que está longe de satisfazer o protagonista. Chris é um um fotógrafo afro-americano que tem um feitio calmo, ponderado, afável e receoso. Por sua vez, Rose aparentemente não é racista e conta com uma personalidade supostamente doce e decidida.