11 janeiro 2018

Crítica: "Nagai iiwake" (The Long Excuse)

 Como lidar com o falecimento de um ente querido? Esta é uma pergunta que marca o enredo de "Nagai iiwake" e as mentes de Sachio (Masahiro Motoki) e Yoichi (Pistol Takehara). Ambos perderam as esposas no mesmo acidente, embora reajam de forma distinta. Quando recebe a notícia da morte de Natsuko (Eri Fukatsu), a sua esposa, Sachio encontra-se na companhia da amante, algo que coloca o escritor numa posição difícil, sobretudo quando tudo e todos esperam por demonstrações públicas de dor e discursos eloquentes. Ao contrário dele, Yoichi, um camionista, pai de Shinpei (Kenshin Fujita) e Akari (Tamaki Shiratori), apresenta o seu sofrimento forma sincera, bem como a enorme união que tinha com Yuki (Keiko Horiuchi), a sua esposa. Natsuko e Yuki eram amigas de longa data, embora o escritor e o camionista raramente tenham travado contacto, algo que muda após a morte destas. 

Pistol Takehara incute uma personalidade castiça e pouco polida a Yoichi, um indivíduo que expõe os seus sentimentos de forma genuína e conta com mais densidade do que a sua apresentação inicial poderia fazer prever. As cenas em que escuta a última mensagem que a esposa deixou no seu telemóvel são de partir o coração, enquanto a amizade que forma com Sachio é dotada de sinceridade, sobretudo a partir do momento em que este se oferece para ajudar a cuidar dos seus filhos. Masahiro Motoki coloca em evidência o pouco à vontade do protagonista em lidar consigo próprio, bem como a sua faceta egocêntrica, oportunista e complexa, com a amizade que o escritor forma com Shinpei e Akari a surgir quer como um bálsamo para a sua alma, quer como uma forma de se evadir momentaneamente dos seus problemas. Kenshin Fujita e Tamaki Shiratori são dois achados que contribuem para atribuir um tom genuíno e imprevisível ao filme. O primeiro coloca em evidência as dificuldades que Shinpei tem na escola e as dinâmicas algo conturbadas que mantém com o pai. A segunda expõe a faceta infantil e doce da jovem Akari. 

A realizadora e argumentista Miwa Nishikawa preocupa-se com estes elementos, consegue que não se limitem à sua descrição inicial ou a uma catalogação rápida, enquanto desenvolve as suas relações e pontua o enredo de pequenos episódios que engrandecem o filme e os seus personagens. Veja-se quando encontramos Sachio a aprender a cozinhar e a dobrar roupa com os jovens, ou o primeiro a ir buscar Shinpei à paragem de autocarro na companhia de Akari. A relação de proximidade entre o escritor, os jovens e Yoichi é aprofundada com conta, peso e medida, sempre com recurso a uma mescla de humor, ternura e drama. Os intérpretes incutem vida a estas dinâmicas, embora Motoki surja como o destaque natural, seja a exibir o afecto que o seu personagem começa a nutrir pelo trio, ou a expressar a dicotomia entre a dor que sente e aquela que transmite para "parecer bem".

Essas dicotomias entre o que é expresso e aquilo que é sentido adensam-se quando o escritor, a atravessar uma fase menos positiva a nível profissional, decide aceitar uma proposta para expor num programa televisivo a forma como enfrenta a dor. Sachio tem consciência que mantinha uma relação distante com a esposa, embora exponha uma realidade distinta junto da opinião pública, tanto em discursos eloquentes como em gestos que não traduzem a complexidade dos pensamentos e sensações que percorrem a sua alma, embora permitam que este conquiste popularidade junto do público. É algo que permite explorar uma das propostas mais interessantes de "Nagai iiwake": a oposição entre a forma como lidamos e encaramos o luto e a maneira como os outros esperam que demonstremos o nosso sofrimento ou enfrentemos o mesmo.

Os produtores querem que o protagonista expresse a dor de forma a que esta pareça sincera junto das audiências, embora os sentimentos deste sejam mais intrincados, sobretudo por ter a percepção de que o seu casamento estava longe de ser um exemplo a seguir, algo que não o impede em alguns momentos de tentar “vender” uma imagem distinta. Veja-se o discurso emotivo que efectua sobre a esposa, em pleno funeral, embora tudo tenha sido planeado para agradar àqueles que ouviram as suas falas. A distância entre Sachio e Natsuko é exposta logo nos momentos iniciais, quando a primeira, uma cabeleireira, corta o cabelo ao segundo. As falas trocadas entre ambos colocam em evidência o desinteresse do protagonista, embora, mais tarde, demonstre em diversas situações que a morte da esposa não o deixou indiferente. Veja-se a dificuldade que tem em cortar o cabelo com outra pessoa, ou o momento em que toca na tesoura que pertencia à cônjuge.

O argumento, inspirado no livro homónimo da autoria da realizadora, aborda com acerto estes assuntos que envolvem o luto, tal como os laços entre pais e filhos e entre irmãos, sempre sem descurar o desenvolvimento dos personagens e as suas ligações. Veja-se um episódio que decorre na praia, onde o quarteto protagoniza momentos que variam entre a alegria e a melancolia, ou um trecho em que um plano-detalhe capta Akari a dar a mão a Sachio, um gesto que exprime exemplarmente a ligação que se forma entre estes personagens. Miwa Nishikawa consegue assim arquitectar um drama emotivo e delicado, que se embrenha pelos meandros do luto e pelas diferentes formas de enfrentar a mágoa provocada pela morte de um ente querido, enquanto extrai interpretações de relevo do elenco e consegue que nos preocupemos com os personagens.

Título original: "Nagai iiwake".
Título em inglês: "The Long Excuse".
Realizador: Miwa Nishikawa.
Argumento: Miwa Nishikawa.
Elenco: Masahiro Motoki, Pistol Takehara, Eri Fukatsu, Kenshin Fujita, Tamaki Shiratori, Keiko Horiuchi.

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